Dois poderes constitucionais, um governo afastado
O governador Faisal Karim Kundi está a administrar Khyber Pakhtunkhwa com um conselho consultivo de 11 membros, depois de o presidente Asif Ali Zardari ter imposto o estado de emergência e o governo do governador, sob proposta do primeiro-ministro Shehbaz Sharif. O governo federal estabeleceu também um mecanismo administrativo separado para 12 distritos que descreve como os mais afectados pela militância. O chefe do governo provincial, Sohail Afridi, está sob custódia governamental, enquanto o seu partido, Pakistan Tehreek-e-Insaf, prepara uma contestação judicial.
Índice
- Dois poderes constitucionais, um governo afastado
- Quem está agora a governar a província?
- O que exigem os artigos 232 e 234
- Os seis meses não resolvem a disputa sobre a duração
- Decisões anteriores distinguem agitação de ruptura constitucional
- Os números da segurança mostram um aumento, mas deixam lacunas
- As ligações à militância continuam a ser alegações
- Detenções e menor adesão aos protestos
- Negociações falhadas levam ao Parlamento e aos tribunais
- Intervenções anteriores deixam um alerta político
- Pontos principais
A intervenção combina os artigos 232 e 234 da Constituição do Paquistão, disposições que abordam situações de emergência distintas e têm limites diferentes. Ministros federais afirmam que a deterioração da segurança e a incapacidade de assegurar o funcionamento constitucional justificaram o recurso a ambos. O PTI rejeita essa explicação e argumenta que a decisão visou o seu governo provincial eleito, quando os apoiantes se preparavam para marchar em direcção a Islamabad contra a prisão do fundador do partido, Imran Khan.
A disputa central vai além da questão de saber se Islamabad pode melhorar a segurança. Está em causa a prova necessária para afastar uma administração provincial, a duração desse afastamento e a possibilidade de o estado de emergência manter responsáveis eleitos fora do poder após expirar a autoridade separada que permite o governo do governador.
O ministro da Justiça, Azam Nazeer Tarar, afirma que o artigo 232 não estabelece um limite temporal fixo. Afirma também que a reposição dos poderes legislativos da assembleia provincial após seis meses não implicaria automaticamente a reposição do governo. Essa interpretação é difícil de conciliar com o argumento constitucional de que o ministério de Afridi foi temporariamente afastado, e não legalmente destituído.
Nos relatos da intervenção, não foi anunciada uma data para o fim do estado de emergência nem uma audiência judicial agendada. A aprovação parlamentar, a contestação judicial prometida e as provas do governo sobre alegadas ligações à militância determinarão como serão avaliadas as alegações em conflito.
Quem está agora a governar a província?
O conselho consultivo de Kundi está a ajudá-lo a exercer a autoridade provincial. O mecanismo separado para 12 distritos inclui um secretário-chefe adicional e outro conselho, destinado a coordenar a segurança, a administração e o desenvolvimento. As descrições deste mecanismo não identificam individualmente os distritos.
O governo apresenta estas alterações como uma forma de colocar as forças de segurança e a administração civil sob um comando mais coordenado. Ministros federais acusam a anterior administração provincial de não ter equipado a polícia, reforçado as unidades de combate ao terrorismo nem cooperado adequadamente com Islamabad.
O secretário de Estado da Justiça, o advogado Aqeel Malik, afirma que estão em vigor tanto o estado de emergência como o governo do governador, que a assembleia provincial está inactiva e que o seu presidente se encontra sob custódia de protecção. Estas declarações descrevem uma interrupção generalizada das instituições provinciais eleitas, e não uma alteração limitada às operações de segurança.
Os dois conselhos criam também níveis distintos de administração dentro da província. Os poderes detalhados de cada um, a relação entre ambos e os mecanismos de responsabilização pública não foram explicados nos anúncios divulgados.
O que exigem os artigos 232 e 234
O artigo 232 prevê a declaração do estado de emergência quando o Paquistão enfrenta uma guerra, uma agressão externa ou uma perturbação interna que ultrapasse a capacidade de controlo de um governo provincial. O artigo 234 refere-se a uma situação diferente: a incapacidade de um governo provincial funcionar de acordo com a Constituição. Por conseguinte, um problema grave de segurança e uma ruptura do governo constitucional não são conclusões jurídicas equivalentes.
Ao abrigo do artigo 232, a assembleia provincial mantém uma função legislativa, embora a autoridade federal se alargue. O artigo 234 permite assumir funções provinciais e transferir a autoridade legislativa para fora da assembleia. O recurso às duas disposições combina uma emergência de segurança com uma intervenção directa no governo provincial.
A 18.ª Emenda introduziu uma salvaguarda de consentimento para a declaração de emergência baseada em perturbações internas. É necessária uma resolução da assembleia provincial; na sua ausência, ambas as câmaras do Parlamento têm de aprovar a declaração no prazo de 10 dias. Khyber Pakhtunkhwa não deu o seu consentimento através de uma resolução desse tipo.
A oposição política ou uma marcha planeada não demonstram, por si só, nenhuma das duas condições constitucionais. O governo federal tem de relacionar as suas alegações de segurança com o critério jurídico aplicável. A força eleitoral do PTI, descrita como uma maioria de dois terços na assembleia provincial, confere à intervenção um peso político significativo, mas a disputa jurídica depende das condições constitucionais, não da dimensão dessa maioria.
Os seis meses não resolvem a disputa sobre a duração
Azam Nazeer Tarar, ministro federal da Justiça, explicou a interpretação do governo durante uma sessão de informação dirigida a representantes dos meios de comunicação estrangeiros:
A Constituição não estabelece qualquer limite temporal ao abrigo do artigo 232», afirmou Tarar. «No entanto, no que diz respeito ao artigo 234, à assembleia provincial e aos seus poderes legislativos, estes seriam repostos após um período de seis meses.
A sua posição separa três questões: durante quanto tempo se mantém o estado de emergência, quando recupera a assembleia os poderes legislativos e quando regressa o executivo provincial. Afirma que o segundo acontecimento não implicaria automaticamente o terceiro. Descreveu também o governo provincial como suspenso por pelo menos seis meses, sem especificar uma data para o fim do estado de emergência.
Malik foi mais longe nas declarações públicas, afirmando que o estado de emergência e o governo do governador podem prolongar-se para além de seis meses, dependendo da situação da lei e da ordem. Essa declaração contraria a interpretação constitucional segundo a qual a autoridade conferida pelo artigo 234 não pode prolongar-se por mais de seis meses. A continuação do estado de emergência ao abrigo do artigo 232 é uma questão distinta e continua sujeita a requisitos parlamentares.
A inexistência de um limite máximo fixo no artigo 232 não significa ausência de controlos jurídicos. Os motivos para declarar o estado de emergência, a aprovação parlamentar e o escrutínio judicial continuam a ser relevantes. O governo não explicou que melhoria mensurável da segurança seria suficiente para pôr fim ao actual mecanismo.
A situação do executivo de Afridi é outra questão por resolver. No processo Pir Sabir Shah contra a Federação, em 1994, um voto concordante do Supremo Tribunal concluiu que o artigo 234 não conferia ao presidente poderes para destituir um chefe do governo provincial e o respectivo executivo. Um voto concordante é uma opinião separada de um juiz que apoia o resultado; a sua autoridade exacta deve distinguir-se da decisão vinculativa do tribunal. O argumento retirado dessa opinião é que o afastamento ao abrigo do governo do governador não põe, por si só, fim à existência constitucional de um ministério.
Decisões anteriores distinguem agitação de ruptura constitucional
O processo judicial de 1994 surgiu de uma tentativa do governo de Bhutto e Zardari de afastar um chefe do governo provincial. Membros do partido de Shehbaz Sharif ajudaram a garantir a decisão. A sua relevância actual reside na distinção entre assumir temporariamente funções provinciais e afastar definitivamente um governo que mantém a confiança legislativa.
Um ano depois, quando o Pakistan Peoples Party tentou afastar Manzoor Wattoo, chefe do governo do Punjab, o Tribunal Superior de Lahore decidiu que o artigo 234 exigia uma ruptura do funcionamento constitucional. Concluiu que essa condição não se verificava no Punjab. A decisão fornece um critério para a disputa actual, mas não determina, por si só, se as condições actuais em Khyber Pakhtunkhwa o satisfazem.
O processo judicial relativo ao estado de emergência de 1998 oferece um alerta distinto sobre os direitos. O primeiro-ministro Nawaz Sharif invocou o artigo 232 após os ensaios nucleares indianos e paquistaneses e suspendeu direitos fundamentais ao abrigo do artigo 233. O antigo presidente Farooq Leghari e Imran Khan contestaram as medidas.
O Supremo Tribunal confirmou o estado de emergência devido ao perigo iminente de agressão externa. Rejeitou a falta de lei e ordem no Sindh e os homicídios sectários no Punjab como perturbações internas suficientes para esse efeito e anulou a suspensão dos direitos fundamentais. A fundamentação do presidente do Supremo Tribunal, Ajmal Mian, colocou a existência da nação no centro do critério previsto no artigo 232.
Esse precedente é relevante porque o artigo 233 permite restringir as protecções dos direitos durante um estado de emergência. Essas restrições não são automaticamente válidas apenas por existir um estado de emergência. Os anúncios actuais não esclarecem quais, se algumas, protecções de direitos foram suspensas ou restringidas separadamente ao abrigo do artigo 233.
Os números da segurança mostram um aumento, mas deixam lacunas
O ministro da Informação, Attaullah Tarar, afirma que os incidentes terroristas registados em Khyber Pakhtunkhwa passaram de 2 911 entre 2021 e 2024 para cerca de 8 600 entre 2024 e 2026. Descreve o aumento como sendo de 195%. Com base nesses totais, o aumento é de aproximadamente 195,4%, pelo que a percentagem indicada é aritmeticamente coerente.
A comparação tem, ainda assim, limitações. Os períodos têm durações diferentes e ambos incluem 2024 nos intervalos indicados. Não foram especificadas as datas exactas de início e fim, as definições de incidente nem a base de dados subjacente. Sem esses pormenores, estes totais não permitem estabelecer uma tendência anual fiável.
O ministro da Informação cita também 3 774 incidentes em todo o Paquistão em 2025 e 2 857 em Setembro de 2026. Não é claro se o último número se refere apenas a Setembro ou ao total acumulado até esse mês. Compará-lo directamente com um ano completo poderia dar aos leitores uma imagem enganadora.
Malik afirma que os incidentes aumentaram depois de Afridi se tornar chefe do governo provincial e defende operações orientadas pelos serviços de informações nas zonas afectadas. No entanto, os números apresentados não isolam esse período. Sustentam a alegação do governo de que existe um problema grave de segurança, mas não demonstram, por si só, que a nomeação de Afridi tenha causado um aumento ou que o governo provincial eleito se tenha tornado constitucionalmente inviável.
As ligações à militância continuam a ser alegações
Attaullah Tarar alega que a administração provincial colaborou com o Tehreek-e-Taliban Pakistan, ou TTP, que está proibido. Alega também que apoiantes do PTI receberam ajuda de militantes enquanto viajavam por zonas próximas da fronteira afegã. O porta-voz do PTI, Zulfiqar Bukhari, rejeita as acusações e afirma que os advogados do partido estão a preparar contestações ao decreto de emergência.
O ministro da Informação expôs a posição do governo numa conferência de imprensa:
«Não se pode ter no país um governo provincial que simpatize com terroristas ou que os apoie», afirmou.
Tarar afirma que o governo tem provas e prometeu divulgar material relativo aos alegados contactos do PTI com o TTP. Nenhuma prova divulgada nos anúncios apresentados demonstra a alegada colaboração. As acusações devem, por isso, manter-se distintas de conclusões comprovadas.
O TTP é distinto do movimento talibã afegão, embora seja estreitamente aliado deste. Islamabad acusa as autoridades talibãs do Afeganistão de acolherem militantes do TTP; Cabul nega a acusação. Ministros federais afirmam que as divergências com Khyber Pakhtunkhwa sobre o Afeganistão e a militância dificultaram uma política unificada de combate ao terrorismo. O PTI afirma que a política federal é errada e que garantir a libertação de Khan é uma questão distinta da segurança provincial.
Detenções e menor adesão aos protestos
Attaullah Tarar confirma que Afridi está sob custódia preventiva, embora afirme que não foi detido. A detenção preventiva consiste em manter alguém sob custódia para prevenir uma ameaça prevista, não necessariamente na sequência de uma detenção criminal comum. A distinção terminológica não estabelece o fundamento jurídico, a duração autorizada nem as garantias aplicáveis à detenção de Afridi.
Dois responsáveis policiais indicaram que 278 membros do PTI foram detidos em Khyber Pakhtunkhwa desde a imposição do estado de emergência. O secretário-geral do PTI, Salman Akram Raja, afirmou separadamente que centenas de militantes do partido foram presos. Os relatos são, em termos gerais, compatíveis quanto à escala, embora os responsáveis falem em detenções e o partido em prisões.
O PTI alega também que a polícia disparou contra manifestantes pacíficos. Essa alegação não foi confirmada de forma independente nos relatos do rescaldo imediato. As autoridades encerraram as escolas provinciais durante um dia, por precaução, enquanto as estradas e os mercados foram descritos como movimentados e abertos.
A adesão aos protestos foi inferior à prevista por Afridi. Os relatos divergem quanto ao número de pessoas que ameaçou mobilizar, indicando um ou dois milhões caso o seu governo fosse suspenso. Eram previsões políticas, não números de participantes observados. As manifestações após o anúncio limitaram-se a grupos dispersos, a maioria dos apoiantes reunidos dispersou-se e não foram noticiados protestos do PTI em Islamabad na segunda-feira.
Negociações falhadas levam ao Parlamento e aos tribunais
O governo federal e o PTI apresentam explicações diferentes para as negociações que terminaram sem acordo. Azam Nazeer Tarar afirma que os responsáveis não pediram ao PTI que cancelasse a marcha para Islamabad, mas que procuraram obter garantias de que Afridi daria prioridade à segurança provincial. Diz que os representantes do PTI se concentraram, em vez disso, na libertação de Khan.
O PTI quer também que Khan, preso desde Agosto de 2023, receba cuidados médicos num hospital privado. O governo afirma que está clinicamente apto e não precisa de ser hospitalizado. Khan e a sua equipa jurídica rejeitam as acusações de corrupção e outras que lhe são imputadas, considerando-as politicamente motivadas.
Raja afirma que o primeiro-ministro Sharif e Maulana Fazlur Rehman tinham resolvido questões relativas às conversações, incluindo o adiamento de uma reunião do conselho de ministros, antes de o governo informar Fazlur Rehman, durante a reunião, de que iria avançar. Raja afirma também que nunca houve acordo sobre todas as questões e acusa o governo de alterar a agenda das negociações. Os outros participantes citados nestes relatos não confirmaram essa versão.
A sequência imediata é a seguinte:
- Durante a semana anterior, as conversações entre o governo federal e o PTI terminaram sem acordo.
- No domingo, o presidente impôs o estado de emergência e o governo do governador em Khyber Pakhtunkhwa.
- Na segunda-feira, os ministros defenderam a intervenção e discutiram a sua duração; o PTI anunciou contestações judiciais.
- Para terça-feira, às 18h15, hora local, o presidente convocou sessões da Assembleia Nacional e do Senado em Islamabad.
Os relatos não especificam as datas correspondentes a esses dias. As sessões parlamentares foram anunciadas para debater legislação e assuntos de importância nacional, sem confirmação de uma votação específica para aprovar o estado de emergência. Raja afirma que o PTI tenciona recorrer aos tribunais no prazo de um dia, mas não há confirmação de que o processo já tenha sido apresentado nem de uma data para a audiência.
O dirigente do PTI Shafqat Abbas Awan afirma que o partido não está, neste momento, a ponderar a demissão dos seus membros das assembleias. Diz que a decisão final caberia a Khan. Para já, a resposta anunciada centra-se no recurso aos tribunais, não no abandono dos lugares legislativos.
Intervenções anteriores deixam um alerta político
Em Fevereiro de 2009, Zardari impôs o governo do governador no Punjab, afastando um governo liderado por Shehbaz Sharif. Sharif opôs-se à intervenção. O mesmo presidente agiu agora, sob proposta de Sharif, contra uma administração provincial rival, uma inversão que ilustra como a posição dos partidos sobre a intervenção federal pode mudar consoante as circunstâncias políticas.
Um exemplo histórico mais grave remonta a 1973, quando Zulfikar Ali Bhutto destituiu o ministério do National Awami Party no Baluchistão, invocando terrorismo, deslealdade e apoio a potências hostis. O governo aliado na então Província da Fronteira Noroeste, liderado por Mufti Mahmood, demitiu-se em protesto. Seguiu-se uma insurreição de quatro anos no Baluchistão, acompanhada de violência na província fronteiriça.
Essa sequência não prova que Khyber Pakhtunkhwa vá seguir o mesmo caminho, nem que a destituição tenha sido, por si só, a causa do conflito anterior. Mostra, contudo, que o afastamento de dirigentes provinciais eleitos numa região conturbada já coincidiu, no passado, com uma maior alienação política, em vez de um rápido regresso à estabilidade.
O actual governo promete melhorar a coordenação da segurança. A sua justificação constitucional tem, ainda assim, de explicar por que motivo esse objectivo exigia o afastamento de instituições eleitas, que provas sustentam as acusações contra o PTI e que condições permitiriam o regresso ao governo provincial. São questões concretas para o Parlamento e os tribunais, não questões resolvidas por se declarar a intervenção temporária.
Pontos principais
- Khyber Pakhtunkhwa está sob o estado de emergência do artigo 232 e o governo do governador ao abrigo do artigo 234, com o governador Faisal Karim Kundi coadjuvado por um conselho de 11 membros.
- A duração do estado de emergência, o limite de seis meses associado ao artigo 234 e o regresso do executivo de Afridi são questões jurídicas distintas.
- O governo alega que o PTI tem ligações ao TTP; o PTI rejeita as acusações e prepara contestações judiciais.
- Os responsáveis indicam que 278 membros do PTI foram detidos; Afridi e o presidente da assembleia provincial também estarão sob custódia.
- Os totais de segurança divulgados apontam para um aumento de 195,4%, mas a sobreposição dos períodos e a falta de definições claras limitam as comparações.
- Não foi estabelecida uma data para o fim do estado de emergência, uma audiência judicial confirmada nem uma votação parlamentar específica para a sua aprovação.






