Toufique Imrose Khalidi sepultado em Daca enquanto colegas prometem preservar o seu legado jornalístico

13 min de leitura
Toufique Imrose Khalidi buried in Dhaka as colleagues pledge to uphold his journalism

Uma última despedida e o compromisso de dar continuidade ao seu trabalho

Toufique Imrose Khalidi, director e editor-chefe do bdnews24.com, foi sepultado no Cemitério dos Intelectuais Mártires, em Mirpur, por volta das 17h00 de sábado, 10 de outubro de 2026. Tinha 59 anos. A despedida reuniu familiares, jornalistas, políticos, académicos e figuras da cultura, com as homenagens centradas na redacção independente que criou e nos padrões que, segundo os colegas, devem agora preservar.

Índice
  1. Uma última despedida e o compromisso de dar continuidade ao seu trabalho
  2. De Londres à redacção e a casa
  3. Homenagens de figuras públicas e da família
  4. Recordar um editor que criou uma instituição
  5. Uma carreira que passou da imprensa escrita às notícias digitais
  6. Verificação antes da rapidez, equidade a par do escrutínio
  7. Pressão para retirar notícias e limites da independência
  8. Investir nos colegas e nos jovens jornalistas
  9. Projectos culturais e homenagens depois do funeral
  10. Pontos principais

O funeral realizou-se depois das orações fúnebres no campo desportivo de Old DOHS, em Banani, às 15h30. Khalidi morreu no Hospital de St Bartholomew, em Londres, a 2 de outubro, na sequência de uma hemorragia cerebral, uma condição em que ocorre uma hemorragia no cérebro ou à sua volta. O corpo chegou a Daca num voo da Biman Bangladesh Airlines por volta das 11h00 do dia do funeral.

Antes das orações, o editor-chefe de informação, Zahidul Kabir, leu uma homenagem do editor-chefe interino, Biswadip Das. A mensagem associava a perda do editor à responsabilidade daqueles que dão continuidade ao seu trabalho.

Khalidi ensinou-nos a fazer perguntas difíceis, a não baixar a cabeça perante a pressão e a levar a verdade ao público, por mais incómoda que possa ser.

Das também enunciou o compromisso esperado da organização:

É nossa responsabilidade colectiva dar continuidade aos ideais que nos deixou e ao trabalho que iniciou.

Os presentes expressaram um desejo semelhante: que o bdnews24.com continue pelo caminho traçado por Khalidi. Os seus testemunhos deram um sentido prático a esse apelo, recordando as regras de verificação, a resistência às exigências para retirar notícias rigorosas, o investimento nos jornalistas e a convicção precoce de que as notícias disponibilizadas através da Internet mudariam os media do Bangladesh.

Publicidade

De Londres à redacção e a casa

Khalidi estava de visita privada a Londres quando adoeceu subitamente na noite de 1 de outubro. Foi levado para o Hospital de St Bartholomew, onde os médicos detectaram uma hemorragia cerebral. Foi declarado morto no dia seguinte, às 14h23, hora local.

As orações fúnebres realizaram-se na Mesquita de Brick Lane, no leste de Londres, a 8 de outubro, depois da oração do meio-dia. Antigos colegas e representantes da comunidade local do Bangladesh estiveram presentes, antes de o corpo ser trasladado para o país.

Em Daca, o caixão foi levado do Aeroporto Internacional Shahjalal para as instalações do bdnews24.com, onde permaneceu do meio-dia às 12h20. Seguiu depois para a sua residência, para que os familiares pudessem vê-lo pela última vez. O corpo chegou ao campo desportivo de Banani por volta das 14h30, uma hora antes das orações fúnebres.

A sequência de acontecimentos estendeu-se por dois países:

  • 1 de outubro: Khalidi adoeceu durante a noite, quando estava de visita a Londres.
  • 2 de outubro: Morreu no Hospital de St Bartholomew, às 14h23, hora local.
  • 8 de outubro: Realizaram-se orações fúnebres na Mesquita de Brick Lane, no leste de Londres.
  • 10 de outubro: O corpo chegou a Daca, passou pelas instalações do jornal e pela sua residência e foi sepultado em Mirpur, após as orações em Banani.
  • 11 de outubro: Representantes de organizações de professores progressistas visitaram a sua sepultura para lhe prestar homenagem e rezar.

Homenagens de figuras públicas e da família

O brigadeiro-general Mohammad Raisul Islam, secretário militar-adjunto, depositou uma coroa de flores em nome do Presidente Mirza Fakhrul Islam Alamgir. Gokul Bimal Kala, primeiro secretário para os assuntos políticos, de imprensa e informação na Alta Comissão da Índia, prestou homenagem em nome da missão.

Abdul Moyeen Khan, ministro da Administração Local, do Desenvolvimento Rural e das Cooperativas, recordou o contributo de Khalidi para além da cobertura dos acontecimentos do dia-a-dia. Disse que as análises do editor às condições sociais, políticas e económicas do Bangladesh também tinham sido uma contribuição substancial.

Publicidade

Uma mensagem de Raad Sharar Khalidi, administrador da Bangladesh News 24 Hours Limited, foi lida antes das orações pelo seu primo Taraf Khalidi. A mensagem da família fez parte da despedida, a par da homenagem do editor interino.

Entre os presentes estavam também Anwar ul Alam Chowdhury Parvez, antigo presidente da Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário do Bangladesh, o professor Jahangir Alam Chowdhury, tesoureiro da Universidade de Daca, e Shayrul Kabir Khan, membro do gabinete de comunicação social do BNP e editor consultivo do Shomoyer Alo. A sua presença juntou representantes do mundo empresarial, académico e político aos jornalistas que trabalharam com Khalidi.

Recordar um editor que criou uma instituição

Mahfuz Anam, editor e director do The Daily Star, distinguiu o trabalho de Khalidi como jornalista do seu feito de criar e dirigir uma organização de comunicação social. Durante o funeral, afirmou:

«Muitos de nós dedicámos a vida ao jornalismo. Mas ele criou uma instituição como o bdnews24.com e também a dirigiu», afirmou Anam.

Anam descreveu o compromisso da organização com a ética profissional e a independência editorial como um dos contributos mais importantes de Khalidi para os media do Bangladesh. Recordou-o também como uma pessoa corajosa e criativa.

O jornalista sénior Kamal Ahmed, editor consultivo do The Daily Star, lembrou a disponibilidade de Khalidi para aceitar novos desafios ao criar o bdnews24.com. O juiz Abu Taher Mohammad Saifur Rahman, amigo de Khalidi, recordou uma voz inteligente, talentosa e corajosa.

Shawkat Mahmud, antigo presidente do Clube Nacional de Imprensa do Bangladesh, disse que os jornalistas que Khalidi ajudou a formar dariam continuidade aos seus ideais. Salek Khokon, investigador da Guerra de Libertação e colunista, descreveu a sua morte como uma perda para o Estado e recordou um editor disposto a mostrar coragem num período difícil.

Em conjunto, estas homenagens identificaram duas vertentes do seu legado: as decisões que tomou e os jornalistas preparados para tomar decisões semelhantes depois dele. Por isso, a promessa de dar continuidade ao seu trabalho dizia respeito tanto à liderança editorial como à prática quotidiana da redacção.

Publicidade

Uma carreira que passou da imprensa escrita às notícias digitais

Khalidi iniciou a carreira jornalística no Sunday Express, em 1989. Trabalhou depois no The Daily Star e no The Financial Express, antes de ingressar no BBC World Service, onde esteve entre 2000 e 2005. Em julho de 2006, tornou-se director e editor-chefe do bdnews24.com.

Os seus 37 anos de jornalismo incluíram cerca de duas décadas à frente da organização digital. Esse período foi precedido por experiência na reportagem e edição de jornais e na radiodifusão internacional, reunindo várias formas de jornalismo na redacção que dirigia.

O antigo colega Ashish Chakraborty recordou ter conhecido Khalidi em 2006, durante conversas sobre a sua entrada na equipa de desporto da organização. Khalidi acreditava que as notícias online iriam gradualmente ocupar o lugar dos jornais diários. O testemunho de Chakraborty mostra como essa convicção se traduziu no trabalho: as actualizações de críquete eram publicadas durante os jogos, em vez de ficarem para o jornal da manhã seguinte.

A mudança não consistia apenas em publicar a mesma notícia finalizada noutro local. Exigia que repórteres e editores acompanhassem um acontecimento em desenvolvimento, verificando e actualizando repetidamente a informação. Chakraborty recordou que alguns repórteres ainda tinham de explicar o que era uma organização de notícias online, numa altura em que o acesso à Internet era muito menos generalizado.

K M Haroon, antigo director-geral adjunto da Bangladesh Television, recordou igualmente que Khalidi reuniu jornalistas de primeiro plano quando o acesso à Internet era limitado. A sua homenagem centrou-se na base duradoura que esse esforço pioneiro criou para o jornalismo digital no Bangladesh.

Verificação antes da rapidez, equidade a par do escrutínio

Os relatos de Khalidi sobre a sua abordagem editorial colocavam a exactidão no centro do trabalho da redacção. Num evento que assinalou o 15.º aniversário da organização, em 2021, descreveu uma prática de confirmar informações sensíveis junto de pelo menos duas fontes e de identificar as fontes, em vez de recorrer ao anonimato.

Estes requisitos respondem a dois problemas distintos. A confirmação por outra fonte ajuda a avaliar a fiabilidade de uma afirmação. Identificar quem fornece a informação permite aos leitores avaliar os seus conhecimentos, a sua responsabilidade e os seus possíveis interesses. Khalidi apresentou estas práticas como padrões que a sua organização procurara estabelecer no jornalismo do Bangladesh.

Publicidade

No evento do 17.º aniversário, em 2023, reafirmou o compromisso de evitar notícias falsas. Disse que houve ocasiões em que a redacção não conseguiu dizer a verdade e se manteve em silêncio, mas sustentou que não optou por publicar falsidades. Estas foram avaliações do próprio sobre o historial da organização, não uma auditoria independente da sua cobertura.

Mostafa Mamun, antigo colega que hoje dirige o Agamir Shomoy, recordou outro aspecto dessa disciplina: tratar com equidade as pessoas visadas por uma notícia. As acusações tinham de ser devidamente fundamentadas, disse, ao passo que os elogios não deviam ser excessivos. Mesmo alguém prejudicado por uma notícia devia poder reconhecer que tinha sido tratado com equidade.

Esse testemunho dá substância às homenagens fúnebres à independência. Para Mamun, resistir à pressão externa não dispensava a redacção da obrigação de apurar cuidadosamente uma afirmação nem de ser comedida na forma como descrevia uma pessoa.

Pressão para retirar notícias e limites da independência

Munirul Islam, antigo editor sénior de informação, recordou um incidente de 6 de junho de 2018, quando foram feitas repetidas pressões para retirar uma notícia publicada. Segundo o seu relato, Khalidi começou por perguntar se a notícia continha um erro. Depois de lhe terem dito que não, instruiu a redacção para não a retirar.

A distinção é importante: a decisão de que se recorda baseou-se na exactidão do trabalho jornalístico, não na força da exigência. O testemunho não estabelece uma regra contra a correcção de erros. Descreve uma recusa de retirar uma notícia que o editor fora informado de que estava correcta.

A 18 de fevereiro de 2021, Khalidi afirmou que os editores tinham recebido mais de três dezenas de notificações legais a exigir a retirada de notícias. Relatos posteriores também indicam que, a 5 de setembro de 2024, a Comissão Anticorrupção retirou um processo que alegava a existência de bens superiores aos rendimentos conhecidos de Khalidi. Essa retirada, segundo os relatos, é distinta de uma absolvição judicial; não é aqui descrita qualquer decisão de um tribunal.

Khalidi também defendia que uma organização de comunicação social não devia envolver-se em iniciativas políticas para alterar o poder do Estado. As suas intervenções abordavam a propriedade, a independência editorial e a diferença entre regular os media e controlá-los. Referiu a Política Nacional de Radiodifusão de 2014 e a Política Nacional dos Meios de Comunicação de Massa Online de 2017, enquadrando estas preocupações nos debates políticos do Bangladesh.

Estas posições mostram o alcance da independência que defendia: liberdade para escrutinar pessoas poderosas, juntamente com um limite contra transformar a redacção num instrumento de actividade política.

Publicidade

Investir nos colegas e nos jovens jornalistas

As recordações de Chakraborty sobre a sua entrada no bdnews24.com incluíram uma proposta concreta de recrutamento. Lembrou-se de Khalidi ter oferecido aos jornalistas recém-chegados o salário que já recebiam, acrescido de um montante equivalente a 40% do vencimento-base. Isso não corresponde necessariamente a um aumento de 40% no salário total, uma vez que o vencimento-base pode ser apenas uma das componentes da remuneração.

Recordou também que Khalidi confiava nos colegas para cumprirem as suas responsabilidades e lhe pediu que assumisse a área dos novos media. Durante a cobertura de detenções políticas sob o governo apoiado pelos militares, os repórteres foram colocados em diferentes locais e transmitiam informações por telefone à redacção central. As actualizações chegavam depois ao site e aos leitores através de dispositivos móveis.

Os testemunhos descrevem uma organização assente tanto na coordenação da reportagem como na tecnologia. A publicação em tempo real dependia de jornalistas que recolhiam informação no terreno e de editores que a tornavam rapidamente utilizável.

O interesse de Khalidi pelos jovens jornalistas também se concretizou no Hello, o site de jornalismo infantil lançado a 31 de março de 2013. Uma nova versão do site foi apresentada a 31 de maio de 2022. Khalidi referia a iniciativa quando falava da formação dos futuros jornalistas.

Mohammad Ali Haider, encenador de teatro, recordou Khalidi como alguém que antecipava a direcção do jornalismo e gostava de trabalhar com jovens. Essa avaliação fez eco da homenagem de Shawkat Mahmud no funeral, sobre a geração de jornalistas que daria continuidade aos seus ideais.

Projectos culturais e homenagens depois do funeral

O actor Tariq Anam Khan recordou a frontalidade e a franqueza de Khalidi, bem como o seu papel no jornalismo online. Disse que se tinham aproximado nos dois ou três meses anteriores e visitado as casas um do outro. Khalidi tinha falado de projectos culturais e mediáticos, incluindo trabalho com a actriz Nima Rahman e ideias para um canal no YouTube.

Rahman recordou o trabalho que fizeram juntos nos oito meses anteriores à morte de Khalidi. As suas memórias conjugam a hospitalidade dele com a atenção que dedicava à produção de programas: apontava pequenas falhas e sugeria formas de os tornar mais interessantes para os espectadores. Os testemunhos não permitem concluir se os projectos mencionados por Tariq Anam irão agora avançar.

Entre os outros presentes na despedida estavam Asif Saleh, director executivo da BRAC; Ehsanul Haque Babu, editor executivo do Agamir Shomoy; Omar Faruque, antigo presidente da União Federal de Jornalistas do Bangladesh; o colunista Chiranranjan Sarker; Kadir Kallol, jornalista da BBC; a professora Sadeka Halim; e o activista dos direitos humanos Dipayan Khisa.

As homenagens prosseguiram na tarde de domingo, 11 de outubro, quando dirigentes da Associação de Professores Progressistas das Universidades Públicas do Bangladesh visitaram a sepultura. Estiveram presentes, entre outros, o presidente, professor Ahiduzzaman, o secretário-geral, professor Mahabubur Rahman, e os secretários-gerais adjuntos, professora Purba Islam e professor Moniruzzaman Shahin. Sharif Ahmed Sadi e Mohammad Ali Chowdhury Manik, presidente e vice-presidente sénior da Associação de Professores Progressistas do Bangladesh, também prestaram homenagem.

Para a redacção, o compromisso mais claro continua a ser o que foi lido antes das orações fúnebres: dar continuidade ao trabalho iniciado por Khalidi. Os testemunhos identificam os padrões associados a essa promessa, incluindo a verificação, a equidade, a independência editorial e o investimento na próxima geração. Segundo os relatos, não foi anunciada qualquer calendarização para a nomeação de uma liderança permanente nem para decisões sobre os projectos culturais que deixou por concluir.

Pontos principais

  • Khalidi, de 59 anos, foi sepultado em Mirpur a 10 de outubro, após as orações fúnebres em Banani.
  • Morreu em Londres a 2 de outubro, na sequência de uma hemorragia cerebral.
  • Iniciou a carreira jornalística em 1989 e dirigiu o bdnews24.com a partir de julho de 2006.
  • Os colegas recordaram a sua insistência na verificação, no tratamento equitativo e na resistência à pressão contra notícias rigorosas.
  • O editor-chefe interino, Biswadip Das, comprometeu-se a dar continuidade aos seus ideais e ao seu trabalho.
  • Organizações de professores prestaram homenagem junto da sua sepultura a 11 de outubro.
Partilhar este artigo

Também pode gostar