Avisos sobre um teto abaulado antecederam ferimentos em 38 pessoas
O desabamento de um teto que feriu 38 pessoas num evento de vendas em Daegu expôs duas falhas na supervisão local da segurança: um edifício concluído em 1994 estava isento das inspeções periódicas obrigatórias, e a administração distrital desconhecia a realização do evento. Um residente alegou também que os suportes do teto apresentavam sinais visíveis de deterioração já em 2019 ou 2020.
Índice
- Avisos sobre um teto abaulado antecederam ferimentos em 38 pessoas
- Caiu o teto falso, não a estrutura de betão
- Residente relata deterioração anos antes
- Um mês de vendas sem comunicação às autoridades
- Mobiliário ajudou a limitar ferimentos durante a fuga
- Edifício de pequenas dimensões fora das inspeções periódicas obrigatórias
- Polícia analisa vídeos, ligações e registos de reparações
- Da arrendamento à investigação: sequência dos acontecimentos
- Inspeções de segurança e disputa sobre a resposta presidencial
- Pontos principais
O acidente ocorreu por volta das 10h16 de 10 de outubro, no segundo piso de um edifício de quatro pisos em Gwaneum-dong, Buk-gu. As 66 pessoas presentes conseguiram sair. Os participantes eram sobretudo idosos, com relatos a situá-los entre os 60 e os 80 anos.
Na manhã seguinte, a polícia tinha apurado que 18 pessoas receberam assistência hospitalar e cinco ficaram internadas. Não foram comunicados ferimentos graves ou que pusessem a vida em risco. As 38 pessoas feridas representavam cerca de 58% de todas as que se encontravam no interior, segundo o total de 66 participantes divulgado.
Os investigadores acreditam que o desabamento começou por cima de um palco, no lado esquerdo da sala visto da entrada, antes de outras secções do teto caírem em cadeia. Uma câmara instalada no interior pela empresa de vendas gravou o acidente.
A questão central é saber se o teto caiu devido à idade, a uma construção defeituosa, ao peso excessivo ou à falha das ligações. As descrições dos residentes sobre danos anteriores poderão ser importantes para a investigação, mas ainda não foram confirmadas como causa. A polícia está a analisar o historial de instalação e reparações, os destroços recuperados e as imagens de vídeo antes de decidir se alguém deverá ser alvo de um processo criminal.
Caiu o teto falso, não a estrutura de betão
A instalação danificada era um teto falso, uma superfície montada por baixo do teto original do edifício para ocultar tubagens, cabos e outros equipamentos. Os relatos descrevem painéis do teto e a respetiva estrutura de suporte em aço a caírem em conjunto. Não referem o colapso da estrutura de betão do edifício.
A polícia identificou três camadas de materiais de acabamento: placas de teto conhecidas localmente como tex, placas de gesso e contraplacado revestido a papel. Depois de esses acabamentos se soltarem, ficou visível o betão exposto por cima da sala, enquanto placas e componentes metálicos ficaram espalhados pelo chão e pelo mobiliário.
Esta distinção é importante para compreender a investigação. Um teto falso depende de suspensores, estruturas, molas e outras ligações para se manter firmemente preso no alto. Os investigadores têm de determinar que componente falhou primeiro e se o estado ou a construção da instalação contribuíram para o acidente.
As autoridades estão a investigar uma possível falha dos clips de fixação. Um responsável administrativo também avançou a hipótese de os cabos de suporte, envelhecidos, se terem partido. Nenhuma das explicações foi confirmada. Um dos primeiros relatos referiu que clips de aço se soltaram perto da secção mais afastada da entrada, enquanto informações policiais posteriores apontaram para o início do desabamento por cima do palco, sem identificar uma causa definitiva.
Park Myeong-ho, chefe da secção de investigação forense da Agência de Polícia Metropolitana de Daegu, afirmou que a análise distinguiria entre o peso dos materiais, defeitos estruturais e deterioração. Identificar o ponto onde o desabamento começou é, por isso, apenas o primeiro passo para apurar a causa.
Residente relata deterioração anos antes
Um residente de 51 anos, identificado pelo apelido Kim, descreveu sinais de alerta anteriores no local, a 11 de outubro. O segundo piso tinha funcionado anteriormente como sala de bilhar durante cerca de uma década, e Kim afirmou que os clientes já tinham reparado que partes do teto estavam abauladas.
Segundo Kim, os cabos que sustentavam o teto já se encontravam deteriorados e pendiam em 2019 ou 2020. Os clientes terão manifestado preocupação com o teto deformado e perguntado se precisava de reparação.
Kim alegou que o operador da sala de bilhar pediu reparações que envolviam uma estrutura metálica leve, mas o proprietário recusou devido aos custos. Terão sido usadas pintura e outras intervenções temporárias para esconder as zonas gastas antes do encerramento do negócio. Estas são alegações de um residente, não conclusões anunciadas pela polícia.
Os residentes acreditam que o espaço poderá ter ficado sem reparações durante o período em que esteve desocupado, mas isso continua a ser uma suposição que exige registos de manutenção ou outras provas. Depois do acidente, continuava afixada no segundo piso uma placa da sala de bilhar.
Os relatos divergem quanto ao historial exato do espaço. Vários referem que ali se realizou um evento de vendas em março do ano anterior, seguido de cerca de um ano e sete meses de desocupação. Outro relato situa o encerramento da sala de bilhar nesse mês de março, enquanto os residentes descrevem um período mais prolongado de pouca utilização. A polícia está a verificar quando foi instalado o teto e que reparações se seguiram, dados necessários para esclarecer estas versões divergentes.
Um mês de vendas sem comunicação às autoridades
A empresa, identificada apenas como A, arrendou o segundo piso entre 3 de outubro e 3 de novembro. Utilizou a antiga sala de bilhar para vender cobertores elétricos, artigos de cozinha e outros produtos para o lar, atraindo participantes com ofertas gratuitas, incluindo lenços de papel, detergente e ovos.
As autoridades de Buk-gu afirmaram que a empresa não tinha apresentado à administração distrital a notificação exigida para exercer atividade comercial. Os responsáveis disseram também desconhecer que o evento estava a decorrer antes do acidente. Segundo os relatos, a mesma empresa realizou um evento semelhante no local durante cerca de um mês, em março do ano anterior.
Há relatos de operações temporárias de vendas semelhantes noutros pontos de Daegu e na Coreia do Sul. A informação sobre estes eventos pode circular através de centros para idosos e instituições de assistência social, sendo oferecidos produtos gratuitos para incentivar a participação. Esta descrição não permite apurar como foi recrutada cada uma das pessoas presentes neste evento específico.
O curto período de arrendamento e a falta de notificação ajudam a explicar por que razão o espaço não era conhecido das autoridades locais. Por si só, não demonstram o que causou a falha do teto nem provam que o operador soubesse que o espaço não era seguro. Essas questões dependem da investigação sobre o local, a sua gestão e as eventuais inspeções de segurança antes do evento.
Mobiliário ajudou a limitar ferimentos durante a fuga
As pessoas que se encontravam no interior descreveram secções do teto a cair umas após as outras enquanto os participantes corriam para a saída. Um participante na casa dos 70 anos, identificado apenas como A, relatou assim o momento em que os materiais começaram a cair:
Dezenas de idosos estavam dentro do edifício quando os materiais de acabamento do teto começaram a cair sobre as nossas cabeças, uns após os outros.
Alguns dos materiais que caíam ficaram presos em secretárias e cadeiras. Hwang Chil-seok, chefe do comando de operações da estação de bombeiros de Daegu Gangbuk, explicou como o mobiliário ajudou a evitar ferimentos mais graves:
Felizmente, havia secretárias e cadeiras por baixo das placas do teto e, graças ao espaço livre que isso criou, não houve ferimentos graves entre as vítimas.
Um responsável de uma lavandaria próxima, identificado pelo apelido Park e descrito como tendo cerca de 50 anos, afirmou que a escada estreita tornou a evacuação perigosa e recordou ter visto uma pessoa idosa a sangrar devido a um ferimento na cabeça. Outros relatos mencionam escoriações sofridas durante a fuga e ferimentos provocados por materiais que caíram.
As autoridades dos bombeiros mobilizaram 18 viaturas e 55 elementos para as operações de salvamento e buscas. A polícia e os bombeiros procuraram outras possíveis vítimas e restringiram o acesso à zona do acidente.
Os relatos divergem quanto ao número de pessoas inicialmente transportadas para o hospital. A maioria refere nove, enquanto um aponta para 12. Um relato inicial também indicava que nove pessoas tinham recebido assistência hospitalar, mas, após contactar os participantes feridos, a polícia apurou que 18 tinham recebido tratamento até 11 de outubro. Estes números correspondem a diferentes critérios ou fases da informação e não devem ser tratados como equivalentes.
Edifício de pequenas dimensões fora das inspeções periódicas obrigatórias
O edifício recebeu licença de utilização em 1994 e tem uma área total de 892 metros quadrados. Os dois primeiros pisos eram utilizados para fins comerciais, enquanto o proprietário ocupava os dois pisos superiores. Um minimercado no rés do chão tinha encerrado no final de setembro e estaria a aguardar trabalhos de remoção.
A administração de Buk-gu afirmou que o imóvel não estava sujeito às inspeções periódicas obrigatórias de segurança previstas nas normas aplicáveis aos edifícios. Os relatos indicam também que não tinha sido realizada qualquer inspeção de segurança independente, embora o historial completo de inspeções e manutenção continue a ser uma das questões a apurar pelos investigadores.
O regime de inspeções descrito nos relatos abrange determinados edifícios em função da dimensão e da utilização, incluindo alguns edifícios de propriedade coletiva com pelo menos 3.000 metros quadrados e edifícios específicos frequentados por um elevado número de pessoas. O imóvel do acidente tinha menos de um terço dessa área, mas a dimensão não é o único critério previsto nas normas.
O artigo 15.º da Lei da Gestão dos Edifícios da Coreia do Sul permite às autoridades locais inspecionar determinados edifícios de pequenas dimensões, incluindo imóveis elegíveis com mais de 30 anos desde a emissão da licença de utilização, quando se considere que apresentam fragilidades de segurança ou riscos de catástrofe. Os regulamentos locais ajudam a determinar que edifícios estão abrangidos. Os relatos descrevem esta possibilidade como um poder discricionário, e não como uma obrigação automática de inspecionar todos os imóveis antigos.
A lacuna prática neste caso é concreta: um espaço envelhecido, fora das inspeções periódicas obrigatórias, voltou a ser utilizado para um evento com 66 participantes sem que a administração distrital tivesse conhecimento. A isenção das inspeções periódicas não significa que o teto fosse seguro, nem esclarece se o proprietário ou o operador cumpriram as suas responsabilidades.
Polícia analisa vídeos, ligações e registos de reparações
A polícia de Daegu criou uma equipa de investigação dedicada, composta por 33 agentes e liderada pelo responsável da unidade de investigação metropolitana. A equipa inclui agentes especializados em acidentes graves e perícias forenses.
Uma análise conjunta começou por volta das 9h de 11 de outubro, com a participação do Serviço Nacional de Perícia Forense, de responsáveis da cidade de Daegu, de responsáveis de Buk-gu e de peritos forenses da polícia. Participaram cerca de 10 representantes. Os relatos divergem quanto à duração: uma primeira notícia indicou cerca de uma hora, enquanto relatos posteriores apontaram para aproximadamente duas horas.
Os investigadores recuperaram uma câmara instalada no interior pela empresa de vendas e obtiveram imagens de videovigilância de outros pisos e do exterior do edifício. A comparação dessas gravações com os destroços poderá ajudar a reconstituir a sequência dos acontecimentos e a distinguir a primeira falha dos danos provocados pelo desabamento subsequente.
A polícia está a verificar a qualidade da construção, o estado dos suportes e dos elementos de fixação, as datas de instalação, os trabalhos de reparação e a manutenção. Está a avaliar se representantes da empresa ou do edifício poderão ser acusados de causar ferimentos por negligência no exercício da atividade profissional. Para isso, os investigadores terão de demonstrar que houve incumprimento do dever de cuidado exigido e que este está relacionado com os ferimentos, em vez de inferir culpa apenas com base no acidente.
À data dos relatos, a 11 de outubro, ainda não tinha sido formalmente constituído nenhum suspeito. Previa-se que os resultados detalhados das perícias forenses demorassem cerca de duas semanas, mas não foi anunciada uma data concreta para a sua divulgação.
Da arrendamento à investigação: sequência dos acontecimentos
As datas divulgadas ligam as preocupações anteriores com a segurança, a reabertura do espaço e a resposta após o desabamento. Mostram também que algumas partes da sequência continuam por esclarecer ou são contestadas.
- 1994: O edifício de quatro pisos e 892 metros quadrados recebeu licença de utilização.
- 2019 a 2020: O residente Kim alega que os cabos de suporte estavam deteriorados e que algumas secções do teto estavam abauladas.
- Março do ano anterior: Segundo os relatos, a empresa realizou um mês de eventos de vendas no mesmo espaço.
- 3 de outubro: Começou o atual arrendamento e a operação de venda de artigos para o lar.
- 10 de outubro, por volta das 10h16: Os materiais do teto desabaram durante o evento; as 66 pessoas conseguiram sair e 38 ficaram feridas.
- 11 de outubro, por volta das 9h: A polícia e outras entidades iniciaram a perícia forense conjunta.
- Cerca de duas semanas após a perícia: Previam-se resultados forenses detalhados, sem data fixa para a divulgação.
O intervalo alegado de cerca de um ano e sete meses entre os eventos de vendas não demonstra que não tenham sido feitas obras de manutenção durante esse período. Serão necessários registos e depoimentos para determinar o que aconteceu enquanto a sala esteve desocupada.
Inspeções de segurança e disputa sobre a resposta presidencial
A administração de Buk-gu planeava inspecionar as instalações do teto nos outros pisos do edifício durante a semana em que foram divulgados os relatos de 11 de outubro. O chefe do distrito, Lee Geun-su, afirmou que as autoridades cooperariam com a polícia e os bombeiros nas medidas de segurança e agiriam depois de apuradas as circunstâncias do acidente e o cumprimento dos requisitos de segurança.
O presidente da Câmara de Daegu, Choo Kyung-ho, visitou o local e anunciou inspeções a instalações envelhecidas em toda a cidade. Os responsáveis municipais discutiram o âmbito e o calendário das verificações com as autoridades distritais e concelhias. Nos relatos sobre a resposta, não foram divulgados resultados de uma inspeção à escala da cidade nem um calendário definitivo.
A Cruz Vermelha Coreana abriu nas proximidades um centro de apoio à recuperação psicológica em situações de catástrofe. Na manhã de 11 de outubro, 20 residentes tinham recebido aconselhamento, alargando a assistência para além do tratamento dos ferimentos físicos.
O acidente tornou-se também motivo de disputa política. Numa declaração de 11 de outubro, o gabinete presidencial afirmou que o presidente Lee Jae-myung tinha visitado, na véspera, o campo de golfe de Taereung com a família e que recebeu ali a notícia do desabamento. Segundo o gabinete, Lee falou diretamente com Kim Jong-cheol, comissário interino da Agência Nacional de Polícia, sobre as vítimas e a gravidade dos ferimentos, tendo depois dado instruções às entidades para privilegiarem o salvamento e uma resposta rápida e segura.
Joo Jin-woo, deputado do Partido do Poder Popular, exigiu um relato detalhado das ações do presidente. Alegou que Lee saiu do campo de golfe às 16h49 e afirmou ter fotografias e vídeos de viaturas de segurança. Joo referiu também que a primeira operação de salvamento terminou às 10h40 e que a declaração presidencial foi divulgada às 12h30. Estas são alegações suas; a hora de divulgação de uma declaração pública não permite determinar quando foram dadas as primeiras instruções.
O gabinete presidencial contestou a utilização de uma agenda privada de feriado em argumentos políticos. Cho Gye-won, porta-voz do Partido Democrático, afirmou que o partido ainda não tinha uma posição definida, mas sugeriu que o golfe poderia estar relacionado com uma eventual iniciativa diplomática com o presidente norte-americano Donald Trump. A possibilidade de diplomacia através do golfe por ocasião de uma cimeira em dezembro foi discutida como justificação, não tendo sido anunciada como um compromisso confirmado. Não foi indicada a hora exata do telefonema de Lee nem das instruções que deu.
Pontos principais
- O desabamento de 10 de outubro feriu 38 das 66 pessoas presentes num evento de venda de artigos para o lar em Daegu.
- Dezoito pessoas receberam assistência hospitalar e cinco ficaram internadas; não foram comunicados ferimentos graves.
- Caíram materiais e suportes do teto falso, não a estrutura de betão do edifício.
- Um residente alega que havia sinais visíveis de deterioração em 2019 ou 2020, mas a causa ainda não foi apurada.
- O evento de vendas não foi comunicado à administração de Buk-gu e o edifício estava fora das inspeções periódicas obrigatórias.
- Uma equipa de 33 agentes está a investigar a construção, o envelhecimento dos componentes, a manutenção e uma eventual negligência.
- Esperavam-se resultados forenses detalhados dentro de cerca de duas semanas, enquanto as autoridades planeavam novas inspeções de segurança.






