Nova ligação à China continental, com decisões importantes ainda por tomar
Hong Kong planeia construir uma grande estação de receção de eletricidade na Área 132 de Tseung Kwan O, trazendo mais energia nuclear e renovável da China continental para a cidade, enquanto se prepara para o aumento da procura por parte da inteligência artificial, dos centros de dados e dos centros de computação. O projeto ligaria às redes da CLP Power e da Hongkong Electric, cujos acordos de regulação expiram em 2033.
Índice
- Nova ligação à China continental, com decisões importantes ainda por tomar
- Funções da estação de Tseung Kwan O
- Calendário revisto em diferentes comunicações oficiais
- O que medem realmente as metas de eletricidade
- Ligações existentes permitirão o primeiro aumento
- Faturas mais baixas são uma ambição, não um acordo com preços definidos
- Revisão de 2033 irá pôr à prova o modelo do mercado
- As empresas precisam de provas, além de eletricidade mais limpa
- Propostas de abastecimento dedicado continuam sem decisão
- Pontos-chave
O secretário do Ambiente e da Ecologia, Tse Chin-wan, afirmou a 10 de outubro que o Governo tinha solicitado ao Conselho Legislativo financiamento para o projeto e se preparava para iniciar a construção. Um grupo de trabalho que reúne departamentos governamentais, as duas empresas de eletricidade e empresas do continente está a discutir a engenharia, o financiamento, a propriedade e as fontes de eletricidade mais barata.
Tse associou diretamente a expansão da oferta de eletricidade às ambições de Hong Kong no domínio da IA, descrevendo o abastecimento de energia como um requisito básico para desenvolver o setor.
O fim da IA é a eletricidade.
A ambição é significativa: pretende-se que a energia sem emissões de carbono represente entre 60% e 70% do cabaz de combustíveis usado para produzir eletricidade em Hong Kong até 2035. Contudo, ainda não estão definidos o prazo de conclusão da nova estação, os contratos de aquisição de eletricidade nem o impacto nas faturas domésticas. Os documentos oficiais apontam também para um calendário de entrada em funcionamento mais tardio do que a estimativa de cerca de 2033 anteriormente associada ao projeto.
Funções da estação de Tseung Kwan O
A instalação proposta é uma estação de receção e conversão, não uma central elétrica. A sua função é receber eletricidade transmitida de fora de Hong Kong e disponibilizá-la através das redes locais. Os planos preveem a utilização de terrenos reclamados ao mar na Área 132 e a construção de um novo cabo de transmissão a partir do continente.
Na sua resposta legislativa de junho de 2026, o Governo confirmou que tinha reservado terrenos para uma instalação estratégica de eletricidade. Os departamentos e as duas empresas de eletricidade estavam a discutir a implementação, enquanto as opções de transmissão continuavam em análise.
A ligação prevista às duas empresas é relevante. Segundo o Governo, as instalações reforçariam a interligação entre as redes e a capacidade de transmitir eletricidade, em vez de se limitarem a acrescentar outra via de importação que servisse apenas uma rede. Isso poderia ajudar a distribuir mais eletricidade do continente por Hong Kong.
No entanto, as declarações mais recentes do secretário não esclarecem quem será proprietário da estação ou quem a irá operar. O grupo de trabalho está a analisar o projeto e a construção, os acordos financeiros, as quotas de contribuição e o papel de cada interveniente. Um pedido de financiamento também não significa que todos os acordos de financiamento e construção tenham sido aprovados.
Calendário revisto em diferentes comunicações oficiais
O projeto está em discussão há vários anos, mas a data de entrada em funcionamento não deve ser considerada definitiva. Uma resposta do Governo de março de 2023 referia cerca de dez anos para o planeamento e a construção, prevendo a entrada em funcionamento antes de 2035. Um documento de junho de 2025 apontava para cerca de 2035 para as instalações da Área 132.
Estas datas diferem da estimativa anterior de cerca de 2033. A resposta do Governo de junho de 2026 confirmou que o planeamento prosseguia, mas não anunciou uma nova data de entrada em funcionamento. Assim, o termo dos acordos de regulação das empresas de eletricidade, em 2033, e a conclusão da estação são marcos distintos, embora ambos influenciem o debate sobre a eletricidade.
- 15 de março de 2023: O Governo descreveu o planeamento preliminar para a Área 132 e estimou cerca de dez anos para concluir as instalações de transmissão e receção.
- 30 de junho de 2025: Um documento apresentado a um painel legislativo apontou para cerca de 2035 para a entrada em funcionamento das instalações de Tseung Kwan O.
- Março de 2026: Segundo o Governo, foram concluídas as obras de reforço do sistema existente de transmissão de eletricidade limpa.
- 24 de junho de 2026: O Governo confirmou a reserva de terrenos na Área 132 e afirmou que as opções de transmissão continuavam em análise.
- 10 de outubro: Tse afirmou que tinha sido solicitado financiamento e que estavam em curso os preparativos para a construção.
- 2033: Expiram os acordos de regulação da CLP Power e da Hongkong Electric.
As obras de reforço da transmissão existente também demoraram mais do que inicialmente previsto. A resposta de março de 2023 apontava para a conclusão em 2025; o documento de junho de 2025 previa 2026. Posteriormente, o Governo informou que os trabalhos ficaram concluídos em março de 2026.
O que medem realmente as metas de eletricidade
A meta de 60% a 70% de Hong Kong aplica-se à totalidade do cabaz de combustíveis usado para produzir eletricidade, não apenas à percentagem de eletricidade importada da China continental. Alguns relatos descrevem-na como uma meta de importação, mas a política oficial inclui a eletricidade nuclear e a energia renovável utilizadas para satisfazer as necessidades de Hong Kong.
Os valores de referência também diferem. Nas declarações de Tse à rádio e no documento de junho de 2025, a energia sem emissões de carbono representa cerca de um quarto do cabaz. A resposta do Governo de junho de 2026 indica aproximadamente 28% em 2024, juntamente com menos de 20% de carvão e mais de metade de gás natural. São valores de referência distintos, não uma medição coerente para a mesma data.
O documento sobre o clima de junho de 2025 apresenta a expansão da transmissão que apoia a ambição para 2035. Tse indica também uma meta intermédia de 30% de energia sem emissões de carbono até 2030. Partindo dessa meta, atingir 60% a 70% cinco anos depois exigiria um aumento de 30 a 40 pontos percentuais, elevando a percentagem para o dobro ou cerca de 2,3 vezes o nível de 2030.
Hong Kong pretende também aumentar a produção local de energia renovável para 7,5% a 10% até 2035. Energia renovável e energia sem emissões de carbono não são categorias idênticas: a energia eólica, solar e hidroelétrica é renovável, enquanto a energia nuclear está incluída na categoria de energia sem emissões de carbono do Governo, mas não é renovável.
Ligações existentes permitirão o primeiro aumento
Hong Kong já recebe eletricidade nuclear da central de Daya Bay através do Sistema de Transmissão de Energia Limpa da CLP, que também está ligado à China Southern Power Grid. O Governo afirma que o reforço concluído em março de 2026 permitirá que a energia sem emissões de carbono aumente gradualmente para cerca de 35% do cabaz de combustíveis usado para produzir eletricidade na cidade.
Trata-se de um aumento potencial, não de uma indicação de que a percentagem de 35% já tenha sido alcançada. O reforço aumenta a capacidade de transmissão de eletricidade; a quantidade fornecida continua a depender da oferta e dos acordos operacionais.
Na sua resposta legislativa de março de 2023, o Governo afirmou que as novas instalações de Tseung Kwan O poderiam permitir um aumento adicional de 30% na proporção de eletricidade importada sem emissões de carbono, quando entrassem em funcionamento. Não apresentou um plano de aquisição definitivo nem a distribuição por central.
A resposta explicou também o modelo atual de Daya Bay: a CLP participa no investimento e na gestão através da Hong Kong Nuclear Investment Company, detida a 100%, e Hong Kong importa eletricidade da central desde 1994. O Governo afirmou que não excluiria a energia nuclear do continente nem qualquer tipo de eletricidade renovável e que estava a discutir o aumento da oferta com a Administração Nacional da Energia.
Faturas mais baixas são uma ambição, não um acordo com preços definidos
Tse defende que uma oferta de eletricidade mais diversificada poderia reduzir a exposição de Hong Kong às oscilações dos preços internacionais dos combustíveis fósseis. Afirmou que o preço da energia renovável caiu substancialmente na última década e apontou a energia nuclear e eólica como fontes que não foram afetadas pela crise energética da mesma forma que os combustíveis convencionais.
O seu argumento sobre os custos também diz respeito à substituição de infraestruturas. À medida que as centrais existentes envelhecem e são desativadas, as empresas de eletricidade poderão ter de investir em novas unidades de produção local, que são dispendiosas. Na perspetiva do Governo, importar eletricidade do continente a preços relativamente baixos poderia reduzir os custos de produção e a despesa com combustíveis ao longo do tempo.
No entanto, Hong Kong ainda não anunciou o preço de aquisição da nova eletricidade, as tarifas de transmissão, o custo total do projeto nem os acordos tarifários definitivos. Sem esses valores, não há base para calcular uma poupança para as famílias ou avaliar a rapidez com que os custos de construção poderiam ser compensados por despesas operacionais mais baixas.
A fiabilidade exige mais do que assegurar energia adicional. Após cortes súbitos de eletricidade que afetaram vários edifícios, Tse afirmou que o Governo tinha pedido repetidamente à CLP que melhorasse a manutenção dos equipamentos e a gestão do sistema. Uma ligação de importação maior não elimina a necessidade de manter a rede local que leva a eletricidade aos consumidores.
Revisão de 2033 irá pôr à prova o modelo do mercado
Os acordos de regulação estabelecem o quadro regulamentar da relação entre o Governo e as duas empresas de eletricidade. O seu termo, em 2033, constitui um momento de decisão sobre a forma de regular o investimento na eletricidade, as obrigações de serviço e as tarifas, à medida que a cidade recorre mais à energia importada.
Tse prometeu uma revisão cuidadosa e abrangente, afirmando que o mercado tem de mudar para garantir um abastecimento mais estável e preços mais competitivos para os setores emergentes. Não anunciou se Hong Kong irá autorizar fornecedores adicionais, alterar o atual modelo operacional ou modificar a regulação das tarifas.
Há, assim, duas negociações relacionadas, mas distintas. Uma diz respeito à estação física, ao seu financiamento e aos contratos de eletricidade. A outra incide sobre as regras que irão reger os fornecedores e as redes depois de 2033. Construir uma instalação de importação não determina, por si só, quem poderá vender a eletricidade nem de que forma os custos serão repercutidos nos consumidores.
Yuan Xu, professor associado da Universidade Chinesa de Hong Kong, defende que o investimento em centros de dados depende de várias condições em simultâneo. A eletricidade é um dos custos operacionais mais elevados do setor, pelo que uma oferta mais limpa não pode ser avaliada separadamente do preço e da fiabilidade.
«Não se podem separar as emissões de carbono da acessibilidade dos preços, da fiabilidade e da segurança energética», afirmou Xu.
As empresas precisam de provas, além de eletricidade mais limpa
O argumento económico estende-se para lá da IA. As ciências da vida, a indústria transformadora avançada e os serviços financeiros são também apontados como setores com necessidades substanciais de eletricidade que poderão beneficiar do desenvolvimento da Metrópole do Norte.
Lawrence Iu, diretor executivo da Civic Exchange, afirma que as obrigações de divulgação das empresas estão a aumentar a procura de eletricidade com menores emissões associadas.
«Cada vez mais empresas são obrigadas a divulgar as emissões associadas à eletricidade que consomem, o que torna cada vez mais importante o acesso a energia mais limpa», afirmou Iu.
Christine Loh, estratega-chefe de desenvolvimento do Instituto do Ambiente da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, propôs um sistema de certificação que permitiria às empresas adquirir eletricidade sem emissões de carbono devidamente certificada. Trata-se de uma proposta, não de um regime de aquisição anunciado por Hong Kong.
O Governo descreveu um instrumento já existente no continente: cada Certificado Chinês de Eletricidade Verde corresponde a 1000 quilowatts-hora de eletricidade renovável e é válido por dois anos. O sistema da Administração Nacional da Energia regista a emissão, a negociação e o cancelamento dos certificados, com informação sincronizada entre plataformas para evitar a dupla contagem.
Estes certificados dizem respeito à energia renovável, não a todas as fontes incluídas na meta de Hong Kong para a energia sem emissões de carbono. Comprovam os atributos da eletricidade renovável, mas não substituem as infraestruturas físicas de transmissão. Hong Kong afirma estar a explorar a criação de certificados na Grande Baía, mas ainda não anunciou como seria aplicada a certificação à eletricidade fornecida através da Área 132.
Propostas de abastecimento dedicado continuam sem decisão
A deputada ao Conselho Legislativo Elizabeth Quat sugeriu que Hong Kong considerasse investir numa central elétrica dedicada, seguindo o modelo de Daya Bay. Propôs também conversações com a China Southern Power Grid e um corredor de eletricidade verde para servir a computação por IA e outros setores.
O deputado Chan Yung defende que uma eletricidade estável e a preços acessíveis é fundamental para a competitividade de Hong Kong na supercomputação e na IA. Apontou os recursos eólicos e hidroelétricos do continente e afirmou que a eletricidade do noroeste já consegue chegar a Shenzhen. As suas declarações sustentam a defesa de uma cooperação regional mais alargada; não confirmam a aprovação de um trajeto ou contrato de fornecimento para Hong Kong.
O Governo não anunciou qualquer corredor dedicado nem uma central reservada a estes setores. A orientação confirmada é mais abrangente: aumentar as importações, ligar as novas instalações às duas empresas de eletricidade e analisar o mercado antes do termo dos acordos.
A redução da procura continua a fazer parte da equação. Loh defende a modernização de edifícios antigos para reduzir o consumo, com oportunidades de financiamento verde e contratos que associem os pagamentos a resultados medidos. Iu prevê investimento em infraestruturas elétricas nos próximos cinco a dez anos e mais painéis solares nos telhados ao abrigo do programa de tarifa de alimentação, que remunera os produtores elegíveis pela eletricidade renovável que fornecem.
A transição inclui também o fim previsto da utilização do carvão na produção diária de eletricidade até 2035, mantendo-o apenas como reserva. O Governo afirma que a proporção do carvão no cabaz de combustíveis de Hong Kong caiu de cerca de metade, em 2015, para menos de 20%, em 2024. A cooperação regional abrange também ensaios com hidrogénio e normas de segurança, mas estes programas são independentes da aquisição de eletricidade para a estação.
Os próximos anúncios decisivos deverão incidir sobre a aprovação e o calendário da construção, a propriedade, os contratos de fornecimento e os custos, seguindo-se o quadro regulamentar posterior a 2033. Não foi indicada qualquer data para a publicação da opção definitiva de transmissão ou das propostas de revisão do mercado.
Pontos-chave
- Hong Kong planeia construir uma estação de receção de eletricidade do continente na Área 132 de Tseung Kwan O, ligada às duas empresas locais.
- O projeto, o financiamento, a propriedade, os contratos de fornecimento e os acordos tarifários definitivos continuam por decidir.
- Os documentos oficiais apontam para uma entrada em funcionamento antes ou por volta de 2035, divergindo da estimativa anterior de cerca de 2033.
- O reforço da transmissão existente ficou concluído em março de 2026 e poderá permitir que a proporção de energia sem emissões de carbono aumente gradualmente para cerca de 35%.
- A meta para 2035, de 60% a 70%, abrange a totalidade do cabaz de combustíveis usado para produzir eletricidade, não apenas as importações.
- Os acordos com as empresas de eletricidade expiram em 2033, dando início a uma revisão do mercado, sem que tenha sido anunciado um novo modelo.
- Eletricidade mais barata e fornecimento dedicado à IA continuam a ser ambições ou propostas, não poupanças confirmadas para os consumidores nem projetos aprovados.






