Indonésia dá prioridade ao consumo interno e disputa de preços ensombra planos de fornecimento de eletricidade a Singapura

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Jacarta estabelece condições para um plano de eletricidade de 3,4 GW

A Indonésia dificilmente exportará eletricidade num futuro próximo, afirmou em Jacarta, a 2 de novembro de 2026, o ministro da Energia e dos Recursos Minerais, Bahlil Lahadalia, condicionando a proposta de fornecer a Singapura 3,4 gigawatts de eletricidade, até 2035, a partir de fontes com menores emissões de carbono.

Índice
  1. Jacarta estabelece condições para um plano de eletricidade de 3,4 GW
  2. Que preço permitiria avançar com as exportações?
  3. Quem controla a decisão de exportar?
  4. Quanta eletricidade está em causa?
  5. Como chegaram as negociações a este ponto
  6. Para onde está a Indonésia a redirecionar o gás
  7. O que dizem as duas partes sobre os contratos
  8. Porque entrou o comércio de GNL na disputa
  9. Cooperação prossegue apesar dos desacordos
  10. Principais pontos

Bahlil, que também é ministro coordenador do desenvolvimento a jusante e da transição energética, afirmou que a Indonésia ainda precisava da eletricidade no país. Falando no Palácio Presidencial, deixou em aberto a possibilidade de exportações, caso os compradores aceitassem o preço definido pelo seu governo.

O aviso surge na sequência da decisão da Indonésia de desviar diariamente 31 milhões de pés cúbicos padrão de gás natural, antes destinados à exportação, para a produção nacional de eletricidade. Singapura produz cerca de 95 por cento da sua eletricidade a partir de gás natural, o que torna importante para ambos os países esta relação de fornecimento.

As exportações de eletricidade e os fornecimentos de gás já existentes são componentes distintos dessa relação. Os projetos de eletricidade propostos exigem novas centrais de produção, cabos de transmissão e novos acordos. O gás já é transportado por gasodutos ao abrigo de contratos comerciais, cujos requisitos de fornecimento se tornaram motivo de desacordo.

Que preço permitiria avançar com as exportações?

Bahlil afirmou que o governo tinha calculado o preço proposto para a exportação de eletricidade. Não revelou esse preço nem indicou uma data para o início das exportações.

No Palácio Presidencial, o ministro descreveu a condição que os potenciais compradores teriam de cumprir:

Desde que o preço seja justo e aceitem o nosso preço, então, claro, é possível. Mas, se o preço não for justo, daremos prioridade às necessidades internas.

Mais cedo nesse dia, na Convenção e Exposição de Minerais e Carvão de 2026, em Jacarta, Bahlil afirmou que era improvável haver exportações de eletricidade em breve, uma vez que a Indonésia ainda precisava dessa energia. As declarações no palácio deixaram claro que aceitar um preço adequado continuava a ser uma via para chegar a um acordo.

A posição da Indonésia dá continuidade ao argumento apresentado por Bahlil a 11 de maio, quando defendeu condições justas e benefícios para ambos os países. Em julho, afirmou que as negociações sobre os preços da eletricidade verde prosseguiam. As declarações de novembro colocaram o abastecimento interno e a definição do preço pelo governo no centro da decisão.

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Quem controla a decisão de exportar?

A Danantara, agência soberana de investimento da Indonésia, tem um papel central no desenvolvimento do comércio de eletricidade com Singapura. O presidente Prabowo Subianto encarregou-a de supervisionar a participação da Indonésia, e a sua carteira inclui a empresa pública de eletricidade PLN.

Bahlil afirmou, ainda assim, que a autoridade para emitir licenças de exportação de eletricidade pertence ao Ministério da Energia e dos Recursos Minerais. Instou a Danantara a rejeitar as pressões de países que procuram comprar eletricidade indonésia a preços mais baixos.

Na convenção mineira, Bahlil expôs diretamente a divisão de responsabilidades:

Já avisei a Danantara: não os deixem pressionar-vos. A licença cabe ao ESDM, não à Danantara.

ESDM é a sigla indonésia do ministério que dirige. A Danantara pode ajudar a organizar investimentos e acordos comerciais, enquanto o ministério decide se autoriza as exportações. Por isso, as empresas que negoceiam os projetos precisam tanto de acordos comerciais viáveis como de autorização governamental.

O desenvolvimento industrial interno faz parte dos cálculos de Jacarta. As fundições, as zonas industriais e os centros de dados precisam de eletricidade fiável. Batam, um centro industrial e de dados próximo de Singapura, figura tanto nos planos energéticos internos da Indonésia como na rede de exportação proposta.

Quanta eletricidade está em causa?

Singapura pretende importar 6 GW de eletricidade de fontes com menores emissões de carbono até 2035. Os 3,4 GW previstos da Indonésia equivaleriam a cerca de 57 por cento dessa meta de importação, segundo o cálculo baseado nesses dois valores.

Um gigawatt mede a potência, ou seja, a quantidade de eletricidade que pode ser fornecida num dado momento. Os projetos indonésios representariam uma parte substancial da capacidade de importação prevista por Singapura, estando previsto que grande parte do fornecimento provenha de fontes renováveis, incluindo energia solar.

A Autoridade do Mercado Energético de Singapura concedeu licenças condicionais a cinco projetos indonésios, num total de 2 GW, em setembro de 2024. Outros dois projetos receberam aprovações condicionais para mais 1,4 GW. Em agosto de 2026, seis projetos indonésios tinham obtido licenças condicionais, segundo o ministério do Comércio de Singapura.

Os promotores ainda precisam de obter outras aprovações e celebrar acordos antes de poderem iniciar os fornecimentos comerciais. Os planos incluem cabos elétricos submarinos, prevendo-se que parte do fornecimento provenha da zona de Batam, Bintan e Karimun, no arquipélago indonésio das Riau.

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Para Singapura, que dispõe de território e recursos de energia renovável limitados, as importações constituiriam outra forma de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Para a Indonésia, os projetos poderiam atrair investimento para a produção renovável e as infraestruturas de transmissão. As negociações sobre os preços determinarão como serão repartidos os benefícios e os custos.

Como chegaram as negociações a este ponto

A Indonésia e Singapura desenvolveram a iniciativa de eletricidade através de acordos e encontros entre dirigentes ao longo de vários anos. As condições mais recentes de Bahlil surgem depois de ambos os governos terem reiterado o apoio à sua concretização.

  • Setembro de 2024: Singapura concedeu licenças condicionais para importar 2 GW de eletricidade indonésia e aprovações condicionais para mais 1,4 GW.
  • Junho de 2025: Os países assinaram três memorandos de entendimento sobre comércio de eletricidade, captura e armazenamento de carbono e uma zona industrial sustentável nas ilhas Riau.
  • 11 de maio de 2026: Bahlil afirmou que as exportações de eletricidade exigiam condições justas e benefícios para ambas as partes.
  • Julho de 2026: O primeiro-ministro Lawrence Wong e o presidente Prabowo reafirmaram a iniciativa no retiro dos respetivos dirigentes e acompanharam a assinatura de acordos sobre a compra de eletricidade, infraestruturas de transmissão e um roteiro.
  • 24 de outubro de 2026: A Indonésia começou a reduzir as exportações de gás por gasoduto para Singapura, a fim de abastecer a produção interna de eletricidade.
  • 2 de novembro de 2026: Bahlil afirmou que era improvável haver exportações de eletricidade em breve, mas deixou essa possibilidade em aberto caso os compradores aceitassem o preço da Indonésia.

Os acordos de julho abrangeram a aquisição de eletricidade, isto é, compromissos de compra da energia produzida por um projeto. Esses compromissos ajudam os promotores a prever receitas e a obter financiamento. As declarações de novembro acrescentam outra condição para que esses acordos se traduzam em projetos operacionais: chegar a acordo com Jacarta sobre o preço de exportação.

Para onde está a Indonésia a redirecionar o gás

A SKK Migas, entidade reguladora indonésia do petróleo e do gás a montante, afirmou que o desvio de gás tinha como objetivo proteger a fiabilidade do abastecimento interno de combustível para a produção de eletricidade. O volume total foi de 31 milhões de pés cúbicos padrão por dia: 15 milhões de Natuna e 16 milhões de Sumatra.

O gás de Natuna foi enviado para a PLN Batam através do gasoduto WNTS–Pulau Pemping–Batam. O gás de Sumatra foi redirecionado através do gasoduto TGI para responder às necessidades de eletricidade de Batam, Bintan e Sumatra.

A Autoridade do Mercado Energético de Singapura afirmou que os importadores a tinham informado de uma redução de 17 mil milhões de unidades térmicas britânicas por dia durante 18 dias, o que corresponde a menos de 2 por cento da procura diária de gás de Singapura. As unidades térmicas britânicas medem o conteúdo energético, enquanto os pés cúbicos medem o volume de gás.

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Bahlil estimou a redução em cerca de 8 por cento das exportações afetadas. A percentagem indicada por ele diz respeito a esses fornecimentos de exportação; o valor de Singapura compara a energia não recebida com a procura diária total de gás. As duas percentagens referem-se a parcelas diferentes do sistema energético.

Nas zonas indonésias que recebem o combustível redirecionado, o objetivo imediato é abastecer centrais elétricas. Para Singapura, a redução afeta um fornecimento de combustível já existente, enquanto as importações de eletricidade propostas continuam a ser projetos em desenvolvimento, destinados a entrar em funcionamento mais tarde.

O que dizem as duas partes sobre os contratos

Bahlil afirmou que os fornecimentos de gás reduzidos continuavam a cumprir os requisitos contratuais mínimos, de cerca de 91 a 92 por cento. Atribuiu a situação, em parte, às necessidades de manutenção e à procura interna.

O ministro expôs a sua interpretação dos limites contratuais:

Reduzimos apenas cerca de 8 por cento. Só estaríamos a violar o contrato se reduzíssemos 10 por cento.

O ministério da Energia de Singapura afirmou que a Gas Supply Private Limited contactaria os seus fornecedores para determinar se a redução constituía uma violação contratual. Essa análise deixa por resolver entre as partes a avaliação do cumprimento do contrato.

Um porta-voz do ministério saudou a garantia de Bahlil de que os fornecimentos respeitariam os acordos:

Saudamos o esclarecimento de que os fornecedores indonésios cumprirão os seus contratos.

O primeiro-ministro Lawrence Wong afirmou, a 25 de outubro, que Singapura esperava que as partes honrassem os seus compromissos comerciais. Bahlil respondeu no dia seguinte que a Indonésia tinha cumprido as suas obrigações. O desacordo diz respeito ao que exigem os atuais contratos de fornecimento de gás, além de existir uma negociação separada sobre as condições das futuras exportações de eletricidade.

Porque entrou o comércio de GNL na disputa

Bahlil também manifestou preocupação com o gás natural liquefeito, ou GNL, vendido a empresas em Singapura. O GNL é gás arrefecido até se tornar líquido, para poder ser transportado por navio. A Indonésia também fornece gás a Singapura através de gasodutos.

A 29 de outubro, Bahlil afirmou acreditar que alguns dos 148 carregamentos de GNL enviados para Singapura tinham sido comercializados e exportados para outros destinos. Não identificou carregamentos específicos nem indicou o período a que se referiam os 148 carregamentos. Afirmou também que a Indonésia não tinha planos imediatos para reduzir as exportações de GNL para Singapura.

O ministério da Energia de Singapura respondeu, a 30 de outubro, que mais de 50 empresas sediadas em Singapura compram, comercializam e negoceiam GNL de todo o mundo. Entre as origens do gás contam-se a Indonésia, os Estados Unidos, a Austrália e a Malásia.

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Um porta-voz do ministério explicou como essas empresas organizam os fornecimentos:

Embora os comerciantes sediados em Singapura tomem as decisões comerciais relativas aos carregamentos, o GNL é geralmente transportado diretamente do país de origem para o país de destino, sem passar fisicamente por Singapura.

O ministério afirmou que o gás indonésio importado através de gasodutos era utilizado internamente e não era exportado. O papel de Singapura como centro de comércio de GNL envolve empresas que organizam compras e vendas entre países, sendo o gás normalmente transportado por navio diretamente entre o país produtor e o cliente final.

Bahlil voltou a abordar a questão comercial a 2 de novembro, defendendo que os recursos indonésios fossem exportados diretamente para os países de destino, e não através de países intermediários. A sua preocupação centrava-se em saber quem recebe os benefícios comerciais da transação dos recursos da Indonésia.

Cooperação prossegue apesar dos desacordos

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, Vivian Balakrishnan, abordou o equilíbrio entre as necessidades internas e a cooperação energética durante uma visita a Jacarta, de 27 a 29 de outubro. Afirmou que os governos tinham a responsabilidade de garantir o abastecimento de bens essenciais às suas populações, mas que os contratos internacionais de energia podiam atrair investimento, expandir infraestruturas e reduzir custos através de uma maior escala.

Balakrishnan descreveu os dois objetivos como compatíveis:

Cooperar e cuidar das próprias necessidades não são coisas incompatíveis. Não é uma questão de escolher uma ou outra. Não é uma dicotomia.

O ministro dos Investimentos da Indonésia, Rosan Roeslani, afirmou a 29 de outubro que os compromissos de investimento de Singapura se mantinham, apesar das divergências sobre o gás e a poluição atmosférica causada pela neblina. Singapura é a maior fonte de investimento direto estrangeiro da Indonésia desde 2014, tendo o investimento atingido 17,4 mil milhões de dólares em 2025.

Shinta Kamdani, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria da Indonésia e presidente da Associação de Empregadores da Indonésia, afirmou não ter observado uma diminuição do interesse de Singapura em investir na economia real. Ainda assim, disse que as tensões podiam afetar o sentimento nos mercados financeiros.

Durante a visita de Balakrishnan, os governos também acordaram criar uma força-tarefa conjunta para tratar da neblina, centrada na partilha de informações e na coordenação da fiscalização. Esse acordo e a continuidade das conversações sobre investimento mostram que a cooperação prossegue em paralelo com os desacordos energéticos.

A iniciativa de eletricidade integra o esforço mais amplo da Rede Elétrica da ASEAN para ligar os sistemas elétricos da região. Os próximos passos práticos continuam dependentes dos preços, das licenças e dos acordos comerciais. A relação de fornecimento de gás já existente depende, por sua vez, de os fornecedores e compradores resolverem os requisitos de entrega previstos nos contratos.

Principais pontos

  • A Indonésia afirma que as necessidades internas de eletricidade têm prioridade e que as exportações serão possíveis se os compradores aceitarem o seu preço.
  • O fornecimento previsto de 3,4 GW da Indonésia equivale a cerca de 57 por cento da meta de Singapura de importar 6 GW de eletricidade até 2035.
  • O ministério da Energia da Indonésia controla as licenças de exportação; a Danantara lidera a coordenação comercial e dos investimentos.
  • A Indonésia redirecionou diariamente 31 milhões de pés cúbicos padrão de gás para a produção interna de eletricidade.
  • Singapura afirma que a redução de gás comunicada representa menos de 2 por cento da sua procura diária.
  • A avaliação contratual da redução dos fornecimentos de gás continua por resolver, enquanto os dois países prosseguem as conversações sobre investimento e energia.
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