Três segundos de tragédia real numa guerra fictícia
A Activision pediu desculpa por incluir imagens da tragédia de Itaewon, em 29 de outubro de 2022, em Call of Duty: Modern Warfare 4 e prometeu removê-las por completo numa atualização prevista para 12 de novembro. O anúncio surge na sequência dos protestos de familiares das vítimas, grupos cívicos e de uma associação coreana que representa jogadores.
Índice
- Três segundos de tragédia real numa guerra fictícia
- O que prometeu a Activision
- Como a tragédia surgiu no jogo
- Famílias descrevem o sofrimento de voltarem a ver as imagens
- Jogadores exigem responsabilização sem censura
- Ministro admite a possibilidade de sanções
- Uma semana entre o lançamento e o pedido de desculpas
- A tragédia real por detrás das imagens
- O que muda com a atualização prometida
- Pontos-chave
As imagens, com cerca de três segundos, mostram profissionais de emergência a fazer reanimação cardiopulmonar a uma pessoa caída na rua. Surgem perto do início de um jogo que retrata uma invasão fictícia da Coreia do Sul pela Coreia do Norte, onde são utilizadas para representar vítimas civis. A reanimação cardiopulmonar é um procedimento de emergência que consiste em fazer compressões torácicas para manter o sangue a circular quando o coração de uma pessoa deixa de bater.
A Activision apresentou o pedido de desculpas em 30 de outubro de 2026, uma semana depois do lançamento mundial do jogo e um dia após o quarto aniversário da tragédia. A empresa afirmou que as imagens seriam removidas numa atualização, indicando 12 de novembro como a próxima data anunciada para a medida.
A contestação dos familiares centra-se na utilização de imagens reais de operações de socorro num produto de entretenimento. Imagens de pessoas a tentar salvar vidas em Seul foram inseridas numa guerra inventada, levando o sofrimento real das vítimas e dos socorristas para uma história diferente.
O que prometeu a Activision
A Activision afirmou que Modern Warfare 4 era uma obra de ficção concebida para proporcionar uma experiência realista e imersiva. Na sua declaração, a editora garantiu que não tinha pretendido evocar a tragédia de Itaewon nem diminuir o sofrimento a ela associado.
Na mensagem de desculpas, a empresa dirigiu-se diretamente às pessoas afetadas:
Apresentamos as nossas mais profundas condolências e sinceras desculpas às famílias enlutadas, às vítimas e a todas as pessoas que ficaram profundamente magoadas ou perturbadas com este incidente.
A Activision prometeu remover por completo as imagens contestadas na atualização de 12 de novembro. O anúncio surgiu depois de uma primeira resposta que explicava a função narrativa das imagens, sem se comprometer a retirá-las. A declaração posterior acrescentou tanto um pedido de desculpas como uma data concreta para a remoção.
Como a tragédia surgiu no jogo
Modern Warfare 4 retrata um ataque surpresa da Coreia do Norte, combates em Seul e uma guerra mais ampla na península coreana. As imagens contestadas surgem numa sequência cinematográfica de abertura, utilizada para apresentar o cenário e a história do jogo.
A montagem inclui uma pessoa a fazer reanimação cardiopulmonar, filas de corpos numa estrada e uma vítima a ser transportada numa maca. Foram aplicados tons monocromáticos e filtros de ruído visual às imagens para as integrar na representação da destruição causada pela guerra. Ainda assim, as famílias enlutadas reconheceram cenas de Itaewon.
Segundo relatos, a descrição da fonte associada às imagens identificava-as como sendo de uma tragédia provocada por um esmagamento numa multidão na Coreia do Sul, que causara pelo menos 153 mortos. Esse pormenor é relevante porque descrevia o acontecimento retratado nas imagens. A Activision não explicou publicamente quais foram os passos para selecionar, analisar e aprovar o vídeo para o jogo.
A editora afirmou inicialmente que as imagens reais de notícias tinham sido incluídas para transmitir a narrativa fictícia. Foi precisamente essa utilização que as famílias contestaram: uma cena que documentava uma tragédia real foi usada para tornar mais convincente um conflito inventado.
Famílias descrevem o sofrimento de voltarem a ver as imagens
O conselho das famílias enlutadas e uma coligação de grupos cívicos condenaram as imagens numa declaração conjunta, em 28 de outubro. Exigiram a sua remoção e descreveram as cenas de socorro como tentativas desesperadas de cidadãos para se salvarem uns aos outros.
Os grupos explicaram a sua reação na declaração:
Estamos indignados por cenas caóticas e desesperadas, em que inúmeros cidadãos fizeram reanimação cardiopulmonar para se salvarem uns aos outros e as vítimas jaziam na rua fria, terem sido usadas tal como eram para criar uma cena num jogo.
As famílias e os representantes cívicos disseram que o sofrimento não se limitava aos familiares das pessoas que morreram. Segundo afirmaram, quem testemunhou o esmagamento da multidão ou participou nas operações de socorro continua a sofrer traumas, enquanto comentários de ódio publicados na Internet, que menosprezam as vítimas, vieram agravar a dor.
Cho In-young, copresidente da Ação Conjunta pela Tragédia de Itaewon de 29 de Outubro, afirmou que as famílias pretendiam recolher assinaturas e formalizar a contestação. Disse que familiares vindos do estrangeiro estavam de visita à Coreia do Sul para participar em cerimónias em memória das vítimas quando surgiu a controvérsia.
Cho descreveu a utilização das imagens como uma falha em considerar tanto quem as via como as pessoas nelas retratadas:
Isto aconteceu porque foram extremamente insensíveis à dor sentida pelas famílias enlutadas, pelas vítimas e pelos cidadãos ao verem o local da tragédia real, e não tiveram em conta a dignidade das vítimas.
Jogadores exigem responsabilização sem censura
A Associação Coreana de Utilizadores de Jogos também exigiu explicações, um pedido de desculpas e a substituição das imagens. A sua posição juntou uma organização que representa jogadores às famílias que procuram obter uma resposta da editora.
A associação afirmou que a Activision tinha de explicar como foram utilizadas imagens de uma tragédia sem relação com os acontecimentos fictícios do jogo e que causaram sofrimento. Pediu uma resposta responsável, através de uma atualização que substituísse esse conteúdo.
A associação traçou também um limite para as suas exigências:
Esta controvérsia não deve ser alargada a exigências de censura ou a restrições injustificadas ao conteúdo do próprio jogo.
A sua posição distingue duas respostas possíveis. Remover as imagens da tragédia identificada responde à queixa concreta das famílias. Restringir o jogo de forma mais ampla afetaria o acesso a outros conteúdos e exigiria uma decisão diferente. A atualização anunciada pela Activision responde ao pedido de remoção, enquanto o apelo da associação a uma explicação diz respeito à forma como as imagens entraram no processo de produção.
Ministro admite a possibilidade de sanções
O ministro do Interior e da Segurança, Yun Ho-jung, abordou a controvérsia numa conferência de imprensa em 29 de outubro. Descreveu a utilização das imagens como «vitimização secundária», isto é, sofrimento adicional vivido por pessoas já afetadas pela tragédia original.
Yun afirmou que usar como material de entretenimento ou negócio uma tragédia em que pessoas perderam familiares queridos era uma questão de ética humana. Apelou também a que fossem tomadas medidas:
Considero que devem ser aplicadas sanções adequadas.
O ministro afirmou que as agências competentes deveriam decidir se eram apropriadas sanções ou restrições de acesso. Não foi anunciada qualquer sanção específica, restrição de acesso ou calendário para uma decisão desse tipo. Para os jogadores, a única alteração concreta anunciada até agora é a remoção das imagens planeada pela Activision.
Uma semana entre o lançamento e o pedido de desculpas
A controvérsia desenvolveu-se ao longo da semana em torno do quarto aniversário da tragédia. A sequência mostra como a resposta pública da Activision passou da explicação da finalidade das imagens à promessa de as remover.
- 23 de outubro de 2026: Call of Duty: Modern Warfare 4 foi lançado mundialmente.
- 28 de outubro: Familiares das vítimas e grupos cívicos condenaram as imagens e exigiram a sua remoção. Na explicação inicial, a Activision afirmou que tinha utilizado imagens reais de notícias para transmitir a história fictícia.
- 29 de outubro: A Coreia do Sul assinalou quatro anos desde o esmagamento da multidão em Itaewon. O ministro do Interior e da Segurança, Yun Ho-jung, classificou a utilização das imagens como vitimização secundária e disse que deveriam ser consideradas sanções.
- 30 de outubro: A Activision pediu desculpa e anunciou que as imagens seriam removidas por completo.
- 12 de novembro: Está previsto o lançamento da atualização que removerá as imagens.
A data de remoção fica 20 dias após o lançamento do jogo e 13 dias depois do pedido de desculpas. As famílias tinham pedido a remoção completa; o anúncio da Activision fixa um prazo para essa medida, em vez de confirmar que a alteração já foi feita.
A tragédia real por detrás das imagens
O esmagamento da multidão em Itaewon ocorreu em 29 de outubro de 2022, numa viela estreita e inclinada entre bares e discotecas, no bairro de diversão noturna de Seul. Grandes multidões tinham-se reunido para as primeiras celebrações do Halloween após as restrições da pandemia, e muitos dos presentes tinham entre 20 e 30 anos.
A tragédia causou 159 mortos, número referido nos relatos das exigências das famílias e no pedido de desculpas da Activision. Outro balanço publicado aponta para 162 mortos, sem explicar a diferença. A descrição das imagens terá utilizado um número anterior: pelo menos 153.
O esmagamento de uma multidão acontece quando as pessoas ficam tão comprimidas que a pressão as impede de se mover ou respirar livremente. Em Itaewon, a concentração de pessoas na passagem estreita e as falhas no controlo eficaz da multidão transformaram a noite numa tragédia com muitas vítimas.
As imagens posteriormente incluídas no jogo foram captadas durante a resposta de emergência a esse acontecimento. As declarações das famílias centraram-se no que as cenas mostravam: pessoas caídas na rua e outras a tentar salvá-las. A queixa relaciona o tratamento dado às imagens com o luto persistente dos familiares e os traumas descritos por testemunhas e socorristas.
O que muda com a atualização prometida
O pedido de desculpas da Activision responde a duas das principais exigências das famílias e dos jogadores: reconhecer o sofrimento causado e comprometer-se a remover as imagens. A atualização de 12 de novembro é a medida prática que retirará do jogo as cenas identificadas.
A editora continua a defender a sua intenção, afirmando que as imagens serviam uma história fictícia e não eram uma referência a Itaewon. As famílias têm salientado o efeito de ver o local da tragédia real utilizado nessa história. A divergência diz, por isso, respeito tanto a uma decisão de produção como à experiência de pessoas cujas vidas continuam ligadas às imagens.
A posição da Associação Coreana de Utilizadores de Jogos dá à controvérsia um foco específico: substituir as imagens, explicar a sua utilização e pedir desculpa, evitando ao mesmo tempo restrições injustificadas ao resto do jogo. Os comentários do ministro introduzem a possibilidade de uma resposta regulatória, mas qualquer medida desse tipo teria de ser decidida pelas agências competentes.
O dia 12 de novembro é agora a próxima data importante anunciada. O compromisso central é claro: as imagens de pessoas reais apanhadas na tragédia de Itaewon serão removidas da guerra fictícia de Call of Duty.
Pontos-chave
- A Activision pediu desculpa em 30 de outubro por utilizar imagens reais do esmagamento da multidão em Itaewon em Call of Duty: Modern Warfare 4.
- As imagens contestadas duram cerca de três segundos e surgem numa sequência de abertura que retrata vítimas civis durante uma guerra fictícia.
- Familiares das vítimas, grupos cívicos e a Associação Coreana de Utilizadores de Jogos exigiram medidas.
- A Activision prometeu remover as imagens por completo numa atualização prevista para 12 de novembro.
- O ministro do Interior e da Segurança, Yun Ho-jung, pediu que fossem consideradas sanções, deixando as decisões a cargo das agências competentes.
- A associação de utilizadores de jogos apoiou a remoção, mas alertou contra uma censura mais ampla ou restrições injustificadas.






