Drones, mísseis e a exigência de superioridade tecnológica
O líder norte-coreano Kim Jong Un pediu um desenvolvimento mais rápido de drones e inteligência artificial numa exposição de armamento, a 29 de outubro, onde as demonstrações combinaram aeronaves não tripuladas, mísseis de cruzeiro e um batalhão de lança-foguetes múltiplos de 600 mm. Nesse dia, as forças armadas da Coreia do Sul detetaram mais de 10 mísseis balísticos de curto alcance lançados da zona de Wonsan, que percorreram cerca de 250 quilómetros.
Índice
- Drones, mísseis e a exigência de superioridade tecnológica
- O que Kim ordenou a cientistas e comandantes
- O que incluiu a exposição e as demonstrações
- O que a Coreia do Sul detetou perto de Wonsan
- Porque chamou a atenção o lança-foguetes de 600 mm
- Ataques a uma ilha e alvos simulados dos aliados
- Como o programa de drones chegou a esta fase
- A Rússia acrescenta um contexto de campo de batalha
- Um público militar e uma mensagem pública
- Pontos principais
No anúncio de 30 de outubro, a Coreia do Norte descreveu o evento como Desenvolvimento de Tecnologia de Aeronaves Não Tripuladas 2026. Indicou que drones de ataque e mísseis atingiram um alvo numa ilha com 100% de precisão e descreveu a primeira demonstração de disparo perante uma multidão de um lança-foguetes de precisão de 600 mm, alcunhado Sniper.
A principal instrução de Kim foi além de construir mais aeronaves sem piloto. Pediu o aperfeiçoamento da sua tecnologia essencial, a integração de IA nas armas não tripuladas e o reforço da capacidade destas para cumprir missões militares. Apresentou a superioridade na tecnologia de drones como uma resposta essencial às mudanças na guerra moderna.
A exposição reuniu responsáveis pelo desenvolvimento de armamento, comandantes militares, investigadores e altos responsáveis políticos. A combinação de drones e poder de fogo pesado também transmitiu uma mensagem concreta à Coreia do Sul: as fotografias mostraram ataques contra alvos simulados semelhantes a posições sul-coreanas na linha da frente e a equipamento utilizado pelas forças terrestres sul-coreanas e norte-americanas.
As demonstrações decorreram no contexto do confronto militar persistente ao longo da fronteira coreana, fortemente fortificada. Associaram as ambições industriais de Kim a armas destinadas a ser utilizadas no campo de batalha e deram a comandantes e cientistas um conjunto comum de prioridades: drones mais capazes, maior utilização de IA e melhor coordenação com outros sistemas de ataque.
O que Kim ordenou a cientistas e comandantes
Kim afirmou que as armas não tripuladas estão a assumir um papel cada vez mais central na guerra e pediu que o seu desenvolvimento tecnológico continue a ser uma prioridade máxima na modernização militar. As instruções abrangeram tanto as próprias aeronaves como as suas capacidades operacionais, ou seja, a eficácia com que as forças armadas as podem utilizar para cumprir missões.
A IA é um software que pode reconhecer padrões e ajudar a tomar decisões. Num drone, pode apoiar tarefas como interpretar imagens de câmaras, navegar ou seguir um objeto. As funções concretas integradas nas aeronaves apresentadas neste evento não foram divulgadas, nem foram indicadas metas de produção, orçamentos ou um calendário para a nova expansão.
Kim pediu também à comunidade científica que desenvolvesse drones e IA para a defesa, paralelamente aos programas de armas nucleares e convencionais do país. As armas convencionais recorrem a explosivos e a outros meios de destruição, em vez de reações nucleares.
Kim, líder da Coreia do Norte e presidente da Comissão dos Assuntos de Estado, apresentou o programa de armamento como um meio de proteger o país. Numa declaração traduzida do coreano, afirmou:
A força é paz, e a paz só é garantida pela força.
As suas instruções incluíram universidades, instituições científicas e a indústria de defesa no mesmo esforço. Investigadores e docentes de instituições de ensino militar e de grandes universidades participaram, juntamente com comandantes de divisões e brigadas, ligando o desenvolvimento tecnológico aos oficiais que deverão utilizar o equipamento.
O que incluiu a exposição e as demonstrações
A Coreia do Norte apresentou drones estratégicos e táticos polivalentes, drones de ataque suicida e outros sistemas de combate não tripulados. Os sistemas estratégicos apoiam, em geral, objetivos militares mais amplos, enquanto os sistemas táticos se destinam a missões mais imediatas no campo de batalha. As aeronaves polivalentes podem realizar diferentes tarefas, incluindo reconhecimento e ataque.
Os drones de ataque suicida atingem os alvos ao embater neles com uma carga explosiva. Outras aeronaves apresentadas no evento lançaram mísseis, permitindo que o drone funcione como plataforma de armamento sem ser destruído no ataque. As demonstrações incluíram também mísseis de cruzeiro táticos e disparos de um batalhão de artilharia de foguetes de 600 mm.
Shin Jong-woo, secretário-geral do Fórum de Defesa e Segurança da Coreia, avaliou que foram exibidos mais de 30 tipos de drones. Entre as aeronaves apresentadas pela primeira vez, identificou modelos concebidos para reduzir a deteção por radar e drones de ataque com visão em primeira pessoa. Os sistemas de visão em primeira pessoa permitem ao operador ver através de uma câmara instalada na aeronave.
Shin identificou também o que descreveu como a primeira demonstração pública do lançamento de um míssil de cruzeiro tático ar-terra. Um míssil de cruzeiro utiliza propulsão para atravessar a atmosfera em direção ao alvo, enquanto a trajetória de um míssil balístico é determinada sobretudo pela gravidade após a fase propulsada.
A variedade de equipamento foi uma característica central da exposição. A Coreia do Norte apresentou aeronaves destinadas a localizar alvos, aeronaves equipadas com armas, drones concebidos para um único ataque e lançadores terrestres capazes de disparar grandes quantidades de projéteis pesados.
O que a Coreia do Sul detetou perto de Wonsan
O Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul afirmou que a Coreia do Norte lançou mais de 10 mísseis balísticos de curto alcance da zona de Wonsan em direção ao mar a leste da península, por volta das 12h30 de 29 de outubro. Indicou que percorreram aproximadamente 250 quilómetros e que as autoridades sul-coreanas e norte-americanas estavam a realizar uma análise detalhada.
As forças armadas afirmaram que os aliados tinham acompanhado os preparativos e detetaram e seguiram os mísseis após o lançamento. Avaliaram que as armas teriam sido lançadas pelo KN-25, o sistema norte-coreano de lança-foguetes múltiplos de 600 mm.
A análise de Shin às imagens divulgadas apontou para o disparo simultâneo de 15 projéteis. As forças armadas sul-coreanas indicaram um total mais abrangente de mais de 10 lançamentos. Estes números descrevem uma salva concentrada, e não um teste isolado de um míssil.
A Coreia do Norte não identificou o local da exposição no seu anúncio. Os edifícios e outras estruturas levaram observadores a apontar o aeródromo de Wonsan Kalma como o local mais provável, enquanto Yang Moo-jin, professor catedrático da Universidade de Estudos Norte-Coreanos, sugeriu a zona turística costeira de Wonsan Kalma. Wonsan foi também a zona de lançamento identificada pelas forças armadas sul-coreanas.
Porque chamou a atenção o lança-foguetes de 600 mm
A alcunha Sniper salientou a alegação norte-coreana de que a sua artilharia de foguetes de grande calibre é precisa. A medida de 600 mm refere-se ao calibre, ou diâmetro, da arma. Os lança-foguetes múltiplos podem disparar vários projéteis em rápida sucessão, colocando vários alvos ou uma área extensa sob ataque.
A Coreia do Norte descreveu este evento como a primeira demonstração de disparo perante uma multidão do lança-foguetes com essa alcunha. O próprio sistema KN-25 já era conhecido. A Coreia do Sul classifica os seus projéteis como mísseis balísticos de curto alcance, enquanto a Coreia do Norte descreve o sistema como artilharia de foguetes supergrandes.
A Coreia do Norte afirma que o KN-25 pode transportar a ogiva nuclear tática Hwasan-31. Uma arma nuclear tática destina-se a alvos militares num teatro de operações, em vez de alvos estratégicos distantes. As demonstrações de 29 de outubro foram descritas como exercícios de disparo de armas, sendo a capacidade nuclear referida no contexto das alegações mais amplas da Coreia do Norte sobre o sistema.
A distância de voo de cerca de 250 quilómetros indicada pela Coreia do Sul dá uma medida concreta dos lançamentos detetados nesse dia. Em conjunto com o disparo concentrado, ajuda a explicar por que razão a demonstração de artilharia recebeu atenção a par da aposta de Kim nos drones.
Ataques a uma ilha e alvos simulados dos aliados
A Coreia do Norte afirmou que drones de ataque suicida, mísseis ar-terra disparados a partir de drones polivalentes e mísseis de cruzeiro atingiram um alvo numa ilha com 100% de precisão. Afirmou também que as demonstrações tinham confirmado satisfatoriamente a fiabilidade e a eficácia dos principais sistemas de armamento.
As imagens divulgadas mostraram alvos semelhantes a postos de vigilância sul-coreanos na linha da frente. Shin identificou outros alvos simulados que representavam radares utilizados para localizar a artilharia inimiga, obuses autopropulsados sul-coreanos K9 e tanques norte-americanos M1 Abrams.
Estas escolhas tornaram específica a mensagem militar pretendida. Os postos de vigilância monitorizam as zonas da linha da frente. Os radares de localização de artilharia ajudam as forças de defesa a identificar a origem do fogo inimigo. Os obuses K9 e os tanques Abrams representam uma capacidade de combate terrestre significativa. Shin interpretou a exposição como um aviso de que os drones norte-coreanos poderiam atacar instalações avançadas sul-coreanas e forças terrestres norte-americanas em caso de conflito.
Lim Eul-chul, professor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade de Kyungnam, considerou que as demonstrações combinadas de drones e foguetes mostravam a capacidade de realizar vários tipos de ataque em simultâneo. Associou esta abordagem à assimilação, pela Coreia do Norte, das lições da guerra moderna, em particular do papel crescente das armas não tripuladas.
Para os responsáveis pelo planeamento militar, a preocupação prática reside na combinação de ameaças. Um drone, um míssil de cruzeiro e um projétil balístico têm trajetórias e características operacionais diferentes. A utilização simultânea de vários tipos exige que as forças de defesa acompanhem e enfrentem ameaças distintas ao mesmo tempo.
Como o programa de drones chegou a esta fase
As instruções de Kim em outubro surgiram após uma série de iniciativas públicas relacionadas com a produção de drones e a IA. A evolução passou de uma ordem para fabricar drones de ataque em grandes quantidades para os testes de aeronaves com IA e para a atribuição de maior importância a esta tecnologia no planeamento militar.
- Novembro de 2024: Kim ordenou a produção em massa de drones de ataque suicida.
- Março de 2025: Kim acompanhou testes de drones descritos como integrando IA.
- Setembro de 2025: Kim apontou a IA como uma prioridade máxima para a modernização do armamento.
- 29 de outubro: Kim participou no evento Desenvolvimento de Tecnologia de Aeronaves Não Tripuladas 2026 e assistiu a demonstrações que combinaram drones, mísseis e artilharia de foguetes.
- 30 de outubro: a Coreia do Norte anunciou a exposição e as instruções de Kim para uma expansão adicional.
Os marcos anteriores ajudam a explicar a ênfase mais recente na capacidade operacional. Produzir uma aeronave é apenas uma parte de um programa militar. Para a colocar ao serviço, é também necessário formar pessoal, utilizar informação recolhida em missões de reconhecimento e coordenar ataques com outras armas.
A exposição apresentou uma vasta seleção de equipamento a comandantes de diferentes ramos das forças armadas. Este público deu ao evento uma função prática, a par da demonstração pública de poderio militar.
A Rússia acrescenta um contexto de campo de batalha
Os serviços de informações sul-coreanos afirmaram que a Coreia do Norte enviou mais de 16 000 militares para a Rússia entre outubro de 2024 e o presente, para apoiar as operações militares russas. A mobilização proporcionou experiência em guerra com drones, guerra eletrónica e operações que envolvem diferentes unidades militares.
A guerra eletrónica consiste na utilização ou perturbação de sinais, incluindo os necessários à comunicação e à navegação. Esta experiência é relevante para os drones, porque muitos dependem de ligações rádio ou de navegação por satélite para chegar ao alvo e receber instruções.
Lim relacionou a crescente atenção da Coreia do Norte às armas não tripuladas com o destaque dos drones na guerra na Ucrânia. A sua avaliação situa a exposição num esforço militar mais vasto para combinar reconhecimento, drones de ataque e poder de fogo pesado.
As instruções públicas de Kim centraram-se no trabalho científico nacional e numa indústria de defesa independente. A exigência de tecnologia mais avançada e melhor desempenho operacional torna a experiência de combate relevante para orientar esse trabalho, além do fabrico de aeronaves.
Um público militar e uma mensagem pública
Kim fez-se acompanhar da mulher, Ri Sol Ju, e da filha, Ju Ae. Entre os participantes de alto nível estavam responsáveis da indústria de defesa, comandantes militares, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Choe Son Hui, e Ri Pyong Chol, figura veterana das forças armadas. O secretário do Partido, Jo Chun Ryong, proferiu as palavras de abertura da exposição e apresentou as aeronaves recentemente desenvolvidas.
O público foi muito além de um pequeno grupo de especialistas em armamento. Estiveram presentes comandantes de divisões e brigadas, investigadores militares, funcionários universitários e altos responsáveis governamentais. A Coreia do Norte divulgou também 47 fotografias, dando ao evento uma apresentação pública de grande dimensão.
Lim interpretou a exposição como servindo objetivos políticos internos, além dos militares: apresentar o desenvolvimento de armamento como uma conquista da liderança e descrever a expansão militar como uma forma de proteger a população. Yang também considerou a possibilidade de um objetivo diplomático, apontando para a presença da ministra dos Negócios Estrangeiros e para a eventual utilização da zona de Wonsan para conversações.
A iniciativa concreta foi a renovação do apelo de Kim à expansão da tecnologia de drones e à atribuição de prioridade à IA, apoiado por uma demonstração de vários tipos de armas. Para a Coreia do Sul, a resposta imediata consistiu em acompanhar e analisar os lançamentos. Para os cientistas e comandantes norte-coreanos, a tarefa declarada era transformar os sistemas apresentados numa força não tripulada mais numerosa e capaz.
Pontos principais
- Kim Jong Un participou numa exposição de drones a 29 de outubro e pediu um desenvolvimento mais rápido das armas não tripuladas e da IA para a defesa.
- As demonstrações combinaram drones de ataque suicida, drones polivalentes, mísseis de cruzeiro e artilharia de foguetes de 600 mm.
- A Coreia do Sul detetou mais de 10 mísseis balísticos de curto alcance lançados perto de Wonsan, que percorreram cerca de 250 quilómetros.
- A Coreia do Norte afirmou ter atingido um alvo numa ilha com 100% de precisão e demonstrou publicamente um lança-foguetes alcunhado Sniper.
- As imagens divulgadas incluíram alvos simulados semelhantes a posições e equipamento militares sul-coreanos e norte-americanos.
- A exposição seguiu-se a marcos da produção de drones e da IA anunciados em novembro de 2024, março de 2025 e setembro de 2025.






