Um limite de 72 quilómetros às deslocações independentes
As autoridades talibãs do Afeganistão disseram aos condutores, a 26 de dezembro de 2021, que não transportassem mulheres em deslocações superiores a 72 quilómetros, a menos que fossem acompanhadas por um familiar próximo do sexo masculino. As orientações responsabilizavam os prestadores de serviços de transporte por restringir a circulação das mulheres, acrescentando mais um obstáculo à vida quotidiana, quatro meses depois de os talibãs terem tomado Cabul, a 15 de agosto.
Índice
- Um limite de 72 quilómetros às deslocações independentes
- O que foi pedido aos condutores
- Uma profissional de saúde descreve a perda de independência
- Porque é que um familiar acompanhante pode não garantir segurança
- Mulheres em Cabul exigiram a revogação da restrição
- Restrições às deslocações sucederam-se a limites à escola, ao trabalho e à televisão
- Como as medidas foram sendo introduzidas
- As restrições surgiram durante uma crise de fome
- A aplicação posterior das regras acentuou as mesmas preocupações
- Principais pontos
O Ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício também instruiu os condutores a recusarem transportar mulheres que não cumprissem os seus requisitos de vestuário islâmico, a deixarem de pôr música, a evitarem usar ou transportar drogas e a pararem num local adequado para as orações. O requisito relativo ao vestuário aplicava-se às mulheres que procurassem transporte, enquanto a exigência de um acompanhante do sexo masculino se destinava a deslocações superiores a 72 quilómetros, cerca de 45 milhas.
O porta-voz do ministério, Sadeq Akif Muhajir, disse que o acompanhante tinha de ser do sexo masculino e um familiar próximo. A sua explicação significava que encontrar outro passageiro para acompanhar uma mulher não cumpriria o requisito.
O porta-voz dos talibãs, Ahmadullah Wasiq, descreveu as orientações como uma recomendação e não como uma ordem. Ainda assim, as instruções do ministério diziam aos condutores para recusarem transportar mulheres, tornando as suas decisões determinantes para que estas pudessem viajar.
Para as mulheres que precisavam de chegar a outra cidade por motivos de trabalho, para receber cuidados médicos ou obter apoio familiar, a mudança prática era simples: o acesso a um veículo passaria também a depender da disponibilidade de um familiar do sexo masculino. A Human Rights Watch alertou que a restrição poderia impedir mulheres de escapar à violência em casa.
O que foi pedido aos condutores
O ministério fez circular as orientações entre os condutores, e cópias espalharam-se pelas redes sociais. Em vez de se dirigir apenas às mulheres, instruiu as pessoas que operavam veículos de transporte de passageiros a controlar o acesso ao transporte.
Muhajir, o porta-voz do ministério, descreveu a regra relativa à distância e especificou que o familiar acompanhante tinha de ser do sexo masculino:
As mulheres que viajem mais de 72km (45 milhas) não devem ser transportadas se não forem acompanhadas por um familiar próximo.
As instruções exigiam também o uso de vestuário islâmico, ou hijab. Hijab pode referir-se a diferentes formas de vestuário, desde cobrir o cabelo até cobrir o rosto ou todo o corpo. A maioria das mulheres afegãs já usava lenços na cabeça, mas o ministério não esclareceu que tipo de cobertura os condutores deveriam aceitar.
A proibição da música aplicava-se aos veículos em geral. Foi apresentada juntamente com as regras sobre orações e drogas, em vez de se limitar às viagens com passageiras. Em conjunto, as instruções colocavam vários aspetos dos transportes públicos sob a supervisão do ministério.
Uma profissional de saúde descreve a perda de independência
Fatima, uma parteira residente em Cabul, descreveu as orientações sobre as deslocações a partir das necessidades quotidianas da sua família. A sua preocupação era saber como obter ajuda se ela ou o filho adoecessem quando o marido não estivesse disponível.
Fatima disse que o anúncio a deixara sem capacidade para decidir se podia sair sozinha:
Não posso sair sozinha. O que devo fazer se eu ou o meu filho adoecermos e o meu marido não estiver disponível?
A sua reação mostrou como uma regra sobre transportes podia afetar decisões tomadas antes mesmo de uma viagem começar. Uma mulher que planeasse uma deslocação para além do limite de distância teria de coordenar a disponibilidade de um familiar, além do transporte, mesmo que o motivo da viagem fosse urgente.
Fatima descreveu também um custo emocional. Perder a capacidade de viajar sozinha significava perder parte da independência de que antes dispunha. Para alguém cujo trabalho consistia em cuidar de outras pessoas, a possibilidade de não conseguir organizar os cuidados para a própria família era particularmente imediata.
Porque é que um familiar acompanhante pode não garantir segurança
As autoridades talibãs defenderam as restrições ao trabalho e à educação das mulheres como medidas temporárias destinadas a tornar seguros os locais de trabalho e os espaços de aprendizagem. As mulheres que reagiram às orientações sobre transportes contestaram a ideia de que exigir a presença de um familiar resolveria os perigos que enfrentavam.
Outra mulher afegã disse que algumas mulheres poderiam sentir-se mais confortáveis com um acompanhante, mas argumentou que os familiares não podiam garantir proteção contra a violência ou o assédio. Referiu um ataque em Paghman, que situou em 2015, no qual quatro mulheres foram raptadas à mão armada de um grupo familiar e violadas.
A mulher apelou às autoridades para que tornassem os espaços públicos seguros para as mulheres:
[Os talibãs] têm de criar um ambiente em todo o país que faça as mulheres sentirem-se seguras.
Heather Barr, diretora-adjunta para os direitos das mulheres na Human Rights Watch, centrou-se no perigo existente dentro de algumas casas. Alertou que a ordem limitava as oportunidades de circular livremente, viajar para outra cidade, trabalhar ou sair de um lar abusivo.
Barr descreveu a orientação da política em termos contundentes:
Esta nova ordem conduz essencialmente [...] a que as mulheres se tornem prisioneiras.
Uma mulher que procure sair de um lar abusivo poderá precisar de viajar sem envolver os familiares que a rodeiam. Exigir um familiar do sexo masculino como acompanhante faz com que essa possibilidade dependa de obter ajuda de alguém da própria família.
Mulheres em Cabul exigiram a revogação da restrição
Mulheres reuniram-se em Cabul a 27 de dezembro, no dia seguinte à divulgação das orientações, para protestar contra as restrições à circulação, o desemprego, a subida dos preços, a fome e a perda de oportunidades de educação e trabalho. A Rede de Participação Política das Mulheres do Afeganistão ajudou a organizar o encontro.
As participantes aprovaram uma resolução com 10 exigências. O nono ponto pedia a eliminação das restrições à circulação das mulheres em veículos de transporte de passageiros nas cidades. As suas exigências iam além do limite de distância indicado pelo ministério e abrangiam o problema mais vasto do acesso aos transportes públicos.
As mulheres exigiram também a reabertura das escolas para raparigas em todo o Afeganistão, o direito das mulheres a trabalhar e uma participação ativa na governação. A resolução defendia a liberdade de expressão e o direito de defender publicamente as reivindicações dos cidadãos.
As manifestantes relacionaram as restrições aos direitos com a crise económica. A resolução descrevia famílias confrontadas com a pobreza e a fome, que vendiam os seus bens e recorriam a medidas desesperadas, incluindo casamentos envolvendo crianças. Pediam a continuação da assistência humanitária internacional e que pessoas qualificadas gerissem as instituições económicas.
Restrições às deslocações sucederam-se a limites à escola, ao trabalho e à televisão
As orientações sobre transportes de dezembro surgiram depois de os talibãs já terem impedido muitas mulheres empregadas em instituições públicas de regressar ao trabalho. A maioria das escolas secundárias continuava encerrada para as raparigas, enquanto os rapazes e os professores do sexo masculino tinham sido autorizados a regressar.
A 26 de dezembro, as raparigas acima do sexto ano estavam impedidas de frequentar a escola na maioria das províncias havia 100 dias. Esse marco deu um significado concreto, para as famílias, à descrição das restrições como temporárias pelas autoridades: já se tinham perdido meses de educação.
Em novembro, o ministério da virtude tinha também instruído os canais de televisão a deixarem de transmitir séries dramáticas com atrizes e exigido que as jornalistas e apresentadoras usassem lenços na cabeça no ecrã. As mulheres enfrentavam restrições em várias áreas interligadas da vida pública, incluindo ganhar a vida, estudar, aparecer nos meios de comunicação e viajar.
O ministro do Ensino Superior, Abdul Baqi Haqqani, disse a 26 de dezembro que as autoridades estavam a discutir a educação das mulheres e pretendiam criar estruturas de ensino separadas para mulheres e homens.
Haqqani explicou a posição da administração:
O Emirado Islâmico não é contra a educação das mulheres, mas é contra a coeducação.
Disse que os trabalhos prosseguiam para criar um ambiente islâmico onde as mulheres pudessem estudar. Não foi indicada qualquer data para o regresso das raparigas e mulheres às aulas nas escolas e universidades de todo o país.
Como as medidas foram sendo introduzidas
As orientações sobre transportes fizeram parte de uma sequência de restrições introduzidas após o colapso do anterior governo. As datas mostram a rapidez com que mudaram as condições que regiam a vida pública das mulheres.
- 15 de agosto de 2021: Os talibãs tomaram Cabul e regressaram ao poder.
- Novembro de 2021: O ministério da virtude emitiu orientações para a televisão, excluindo atrizes das séries dramáticas e exigindo que as apresentadoras usassem lenços na cabeça.
- 26 de dezembro de 2021: As orientações do ministério para os transportes exigiram que as mulheres que viajassem mais de 72 quilómetros fossem acompanhadas por um familiar próximo do sexo masculino e estabeleceram regras relativas ao vestuário e à conduta nos veículos.
- 27 de dezembro de 2021: Mulheres reunidas em Cabul exigiram a eliminação das restrições à circulação, a reabertura das escolas para raparigas e o direito ao trabalho.
Durante o seu anterior período no poder, na década de 1990, os talibãs tinham imposto restrições ainda mais abrangentes. As mulheres eram impedidas de estudar e trabalhar, obrigadas a usar uma burca, que cobre o corpo e o rosto, e proibidas de sair de casa sem um acompanhante do sexo masculino. As orientações para os transportes de dezembro de 2021 especificaram um limite de distância, mas voltaram a fazer depender a mobilidade das mulheres de familiares do sexo masculino.
As restrições surgiram durante uma crise de fome
Em dezembro de 2021, as Nações Unidas estimaram que 22 milhões de pessoas no Afeganistão enfrentavam uma grave escassez de alimentos e alertaram para uma "avalanche de fome" durante o inverno. Uma grave escassez de alimentos significa que as pessoas não dispõem de comida suficiente para satisfazer as suas necessidades imediatas, ficando a saúde e a sobrevivência em risco.
A crise económica do Afeganistão agravou-se depois de o apoio internacional ter sido retirado na sequência da tomada do poder pelos talibãs. Os principais doadores reiteraram que o respeito pelos direitos das mulheres era uma condição para restabelecer a ajuda financeira, enquanto as autoridades procuravam obter novo apoio e reconhecimento internacional.
As mulheres que protestaram em Cabul pediram que a ajuda humanitária continuasse a chegar à população. As suas reivindicações juntavam alimentação, rendimentos e direitos: as mulheres precisavam de assistência durante a emergência, mas também procuravam poder trabalhar, estudar e circular pelo seu país.
Para uma família que já tivesse dificuldades financeiras, organizar a presença de um acompanhante do sexo masculino poderia exigir a coordenação do horário de trabalho e das responsabilidades de outra pessoa. A regra dos transportes acrescentava essa dependência numa altura em que muitas famílias lutavam para obter bens essenciais.
A aplicação posterior das regras acentuou as mesmas preocupações
As consequências das regras relativas ao vestuário e à necessidade de um acompanhante do sexo masculino prolongaram-se para lá do anúncio inicial. Em outubro de 2026, a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão referiu detenções por incumprimento das regras de vestuário que envolveram pelo menos 52 mulheres e uma rapariga em Cabul e Herat, entre julho e setembro desse ano. Entre as alegadas violações contavam-se cabelo visível, lenços coloridos, maquilhagem e a presença em público sem um tutor do sexo masculino.
A missão disse que as mulheres foram libertadas após várias horas e alertou que o medo e o estigma social poderiam impedir que outros incidentes fossem denunciados. Estas conclusões posteriores mostram como os requisitos relativos ao vestuário e à presença de um acompanhante se tornaram objeto de aplicação, afetando a presença das mulheres em espaços públicos.
A preocupação com a possibilidade de escapar a abusos também persistiu. Uma investigação de agosto de 2026 sobre abusos mortais contra mulheres documentou 231 assassínios de mulheres e raparigas em 10 províncias desde o regresso dos talibãs ao poder. Foram documentadas detenções em 58 casos. As famílias descreveram as dificuldades em obter investigações e proteção, à medida que desapareciam instituições que antes ajudavam as mulheres a escapar à violência.
As orientações de dezembro de 2021 colocaram os prestadores de serviços de transporte entre as mulheres e as deslocações de que precisavam. As reações das mulheres, desde a preocupação de Fatima com os cuidados médicos às exigências das manifestantes de Cabul em matéria de trabalho e educação, explicaram o problema central em termos práticos: a mobilidade determina a que serviços, oportunidades e fontes de ajuda uma pessoa consegue aceder.
Principais pontos
- As orientações de 26 de dezembro de 2021 diziam aos condutores para recusarem transportar mulheres que viajassem mais de 72 quilómetros sem um familiar próximo do sexo masculino.
- Os condutores foram também instruídos a exigir vestuário islâmico, a deixar de pôr música, a evitar drogas e a parar para as orações.
- Um porta-voz dos talibãs chamou às orientações uma recomendação, enquanto o ministério instruiu os condutores a recusarem transportar mulheres.
- Mulheres e a Human Rights Watch alertaram para obstáculos ao acesso a cuidados médicos, ao trabalho, a deslocações independentes e à fuga à violência doméstica.
- As mulheres que protestaram em Cabul a 27 de dezembro exigiram liberdade de circulação, educação, trabalho e participação no governo.
- As restrições surgiram quando a ONU estimava que 22 milhões de afegãos enfrentavam uma grave escassez de alimentos.






