Conversações em Mumbai aproximam acordo comercial
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em 20 de outubro de 2026 que Washington e Nova Deli estavam a semanas de concluir um acordo comercial, numa altura em que as conversações em Mumbai associavam negociações sobre tarifas às compras indianas de petróleo, tecnologia americana e equipamento de defesa. Disse que 99% do trabalho estava concluído, faltando aos negociadores acertar a redação das disposições restantes.
Índice
- Conversações em Mumbai aproximam acordo comercial
- Porque é que a redação final continua a ser importante
- Tarifas e decisão judicial alteraram os termos do acordo
- Os mercados agrícolas continuam a ser uma questão sensível
- O petróleo russo liga a política energética ao comércio
- Jamnagar coloca em foco fontes alternativas de petróleo
- As conversações sobre defesa vão além do acordo comercial
- As preocupações com os vistos continuam a fazer parte da relação
- Seguem-se reuniões empresariais e mais contactos diplomáticos
- Pontos principais
Rubio reuniu-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, enquanto os dois governos procuravam ultrapassar meses de tensão devido aos direitos aduaneiros americanos sobre as importações, às compras indianas de crude russo e ao endurecimento das regras de imigração dos EUA. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia afirmou que os ministros saudaram os progressos no Acordo Comercial Bilateral Índia-EUA e reafirmaram o compromisso de o concluir em breve.
Rubio, em declarações aos jornalistas em Mumbai, mostrou-se otimista quanto às negociações:
Estamos muito, muito perto. Diria que estamos tão perto quanto é possível estar sem ter assinado o acordo.
Na terça-feira, o presidente Donald Trump manifestou otimismo semelhante em Washington. Falando na Sala Oval, ao lado do vice-presidente JD Vance, disse que os países estavam perto de chegar a acordo e descreveu a proposta como diferente de acordos anteriores.
As declarações de Trump não trouxeram novos cortes nas tarifas, compromissos de investimento ou concessões de acesso ao mercado. Não foram divulgadas as disposições ainda em negociação, a tabela final de tarifas nem uma data para a assinatura.
Para os exportadores indianos, a questão prática é o custo de vender mercadorias no mercado americano. Para Washington, as conversações também constituem uma oportunidade para aumentar as vendas americanas à Índia e incentivar o afastamento da energia e dos fornecimentos militares russos.
Porque é que a redação final continua a ser importante
Rubio afirmou que o trabalho em falta dizia respeito a pormenores técnicos, incluindo garantir que ambos os governos interpretam da mesma forma a linguagem do acordo. Numa entrevista em Mumbai, explicou porque é que uma negociação praticamente concluída pode ainda exigir mais tempo.
Os pormenores técnicos são importantes porque é preciso haver acordo. Ambas as partes têm de concordar que a linguagem significa o mesmo. Portanto, estamos nesse nível de detalhe.
Um acordo comercial transforma promessas políticas em regras que as autoridades e as empresas têm de aplicar. A redação determina que mercadorias são elegíveis para um benefício, que condições se aplicam e quando entra em vigor um compromisso. Assim, um acordo sobre um objetivo geral deixa aos negociadores a tarefa de definir essas obrigações com precisão.
O ministro do Comércio e da Indústria, Piyush Goyal, afirmou que a primeira fase, ou parte inicial, do acordo tinha sido finalizada e estava a ser submetida a redação jurídica. No início de outubro, reuniu-se com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, em Milwaukee e Washington para discutir os pormenores.
Greer, porém, afirmou que um acordo não era «iminente», enquanto a ministra das Finanças, Nirmala Sitharaman, disse no início deste mês que as negociações tinham chegado a um impasse. Rubio reconheceu que as negociações são lideradas pelo representante comercial dos EUA, e não pelo seu próprio departamento. A previsão de semanas, em vez de meses, foi o calendário mais otimista apresentado durante a visita.
O embaixador dos EUA na Índia, Sergio Gor, afirmara na semana anterior que as principais questões estavam resolvidas. Jaishankar também se mostrou encorajado, dizendo que as duas partes se encaminhavam para um ponto de chegada. Em conjunto, estas declarações sugerem apoio político à conclusão do acordo, embora os negociadores continuem a trabalhar no texto.
Tarifas e decisão judicial alteraram os termos do acordo
Em agosto de 2025, Washington impôs tarifas até 50% à maioria dos produtos indianos, incluindo uma penalização relacionada com as compras indianas de petróleo russo com desconto. Uma tarifa é um imposto cobrado sobre um produto importado. Aumenta o custo de entrada desse produto no país e pode afetar os preços, as margens de lucro e as decisões de compra.
O quadro de fevereiro de 2026 previa a redução da taxa tarifária dos EUA para 18%. Isso representava uma descida de 32 pontos percentuais face ao máximo anterior de 50%. Dias depois da apresentação do quadro, o Supremo Tribunal dos EUA anulou as tarifas abrangentes de Trump, criando incerteza quanto aos direitos aduaneiros que sustentavam a proposta de troca de concessões.
Ajay Srivastava, fundador da Global Trade Research Initiative, explicou numa nota publicada no início deste mês que a decisão do tribunal alterou o valor da proposta que Washington tinha apresentado à Índia.
Depois de esse regime tarifário ter sido anulado, o valor da proposta dos EUA tornou-se incerto.
A Índia continua a procurar condições tarifárias comparáveis às disponíveis para países concorrentes na indústria transformadora, como o Vietname. Rubio afirmou que a prioridade de Washington era uma relação comercial sustentável, e não um valor tarifário específico, reconhecendo, contudo, que a obtenção de melhores taxas era um dos objetivos do acordo.
As principais etapas que conduziram às conversações em Mumbai foram:
- Agosto de 2025: Washington impôs tarifas até 50% à maioria dos produtos indianos.
- Fevereiro de 2026: Os países anunciaram um quadro para a primeira fase de um acordo comercial, prevendo uma taxa tarifária de 18%.
- Dias depois: O Supremo Tribunal dos EUA anulou as tarifas abrangentes de Trump, dando origem a mais incerteza e a novas negociações.
- Início de outubro: Goyal reuniu-se com Greer em Milwaukee e Washington.
- 16 de outubro: Trump suspendeu as tarifas até 100% que ameaçara impor aos compradores de energia russa.
- 20 de outubro: Rubio e Jaishankar reuniram-se em Mumbai e defenderam a rápida conclusão do acordo.
Os mercados agrícolas continuam a ser uma questão sensível
A resistência da Índia a abrir os mercados de aves de capoeira, lacticínios, arroz e trigo a uma maior concorrência americana tem sido um dos obstáculos ao acordo. A agricultura é politicamente sensível porque as alterações às regras de importação podem afetar os preços recebidos pelos agricultores e a concorrência que enfrentam.
Washington pretende reduzir as barreiras às exportações americanas e facilitar o acesso das empresas dos EUA ao mercado. Nova Deli está a equilibrar essas exigências com os interesses dos produtores nacionais, procurando ao mesmo tempo melhores condições para as exportações indianas, incluindo produtos farmacêuticos, bens de engenharia, têxteis e produtos eletrónicos.
As exportações indianas de bens para os Estados Unidos atingiram 8,3 mil milhões de dólares em agosto, mais 21% do que no mesmo mês do ano anterior. Isso coloca o valor de agosto do ano anterior em cerca de 6,9 mil milhões de dólares, um aumento de aproximadamente 1,4 mil milhões. Os números mostram a dimensão da atividade comercial que prossegue enquanto os governos negoceiam.
Os exportadores têm um interesse direto na tabela tarifária final, uma vez que mesmo uma pequena diferença nos direitos aduaneiros pode afetar o preço pago pelo comprador. Os agricultores e fabricantes que abastecem o mercado interno indiano têm uma preocupação diferente: o nível de concorrência adicional que o acordo permitirá. O texto final definirá como os dois governos equilibram esses interesses.
O petróleo russo liga a política energética ao comércio
A Índia aumentou as compras de crude russo com desconto após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. Nova Deli defendeu as suas decisões de compra como uma forma de manter a energia a preços acessíveis e garantir a estabilidade do abastecimento, afirmando também que diversificaria os fornecedores, nomeadamente através de mais importações dos Estados Unidos.
Rubio afirmou que a Índia tinha feito progressos substanciais na diversificação das suas fontes de petróleo. Antes de sair dos Estados Unidos, reconheceu também que a Índia continuava a comprar volumes consideráveis à Rússia, uma vez que a mudança de fornecedores não podia acontecer de um dia para o outro.
A pressão da administração Trump inclui uma lei que permite impor tarifas até 100% aos países que compram energia russa. Trump suspendeu essas medidas ameaçadas na sexta-feira anterior às conversações de Rubio em Mumbai. A suspensão afastou uma ameaça imediata que pairava sobre as negociações.
Ao explicar a posição de Washington numa entrevista na Índia, Rubio afirmou que as medidas faziam parte da política dos EUA em relação à guerra na Ucrânia:
Nenhuma destas tarifas se destina a punir ou prejudicar a Índia. Fazem parte de uma política externa mais ampla que, infelizmente, envolve uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia que gostaríamos de ver chegar ao fim.
As decisões energéticas da Índia envolvem tanto os custos como as exigências das refinarias. As refinarias são concebidas para processar determinados tipos de crude, e substituir uma fonte de abastecimento por outra implica organizar os carregamentos e garantir que o petróleo é adequado ao equipamento. O reconhecimento, por parte de Rubio, do tempo necessário para essa mudança acompanhou o seu apelo a um aumento das vendas americanas de energia.
Jamnagar coloca em foco fontes alternativas de petróleo
Estava prevista para quarta-feira, 21 de outubro, uma visita de Rubio ao complexo de refinarias da Reliance Industries em Jamnagar, no estado de Gujarat. Operado pela empresa liderada por Mukesh Ambani, o maior complexo de refinação do mundo processa cerca de 1,4 milhões de barris de crude por dia.
Jamnagar consegue processar crude extrapesado da Venezuela, um tipo de petróleo particularmente denso que exige equipamento de processamento adequado. Rubio afirmou que tencionava incentivar a Reliance a refinar mais petróleo venezuelano e discutir oportunidades para a empresa produzir petróleo dentro da Venezuela.
Ao descrever aos jornalistas as conversações previstas, Rubio afirmou que a Reliance tinha experiência no processamento de petróleo venezuelano:
Já o fizeram no passado e penso que, à medida que mais petróleo venezuelano for disponibilizado, poderão fazê-lo.
A visita dá um foco industrial concreto às conversações sobre energia. Washington procura assumir um papel maior no abastecimento das necessidades energéticas da Índia, discutindo também outra fonte de crude que as instalações da Reliance conseguem processar. Entretanto, a Índia procura alargar o leque de fornecedores sem abdicar de combustíveis a preços acessíveis.
As conversações sobre defesa vão além do acordo comercial
Jaishankar e Rubio também discutiram defesa, tecnologia e cooperação nuclear civil. Segundo o relato do Departamento de Estado dos EUA sobre a reunião, Rubio saudou os progressos recentes e defendeu o aumento das compras indianas de tecnologias e sistemas americanos.
Washington procura uma maior interoperabilidade no domínio da defesa, ou seja, que as forças e os equipamentos dos dois países consigam trabalhar em conjunto com maior facilidade. As conversações também se enquadram no esforço para reduzir a dependência indiana dos fornecimentos militares russos e alargar as oportunidades comerciais para as empresas americanas.
Os ministros associaram as conversações à iniciativa COMPACT Índia-EUA, lançada pelo primeiro-ministro Narendra Modi e por Trump em 2025. O nome significa Catalyzing Opportunities for Military Partnership, Accelerated Commerce and Technology (criar oportunidades para a parceria militar, acelerar o comércio e a tecnologia), reunindo várias vertentes de cooperação num quadro comum.
Na receção Freedom 250, em Mumbai, que assinalou o 250.º aniversário dos Estados Unidos, Rubio apelou a um Indo-Pacífico livre e aberto, onde nenhum país pudesse reivindicar o domínio sobre a navegação internacional. Descreveu a Índia como um forte parceiro geopolítico e destacou os compromissos partilhados com a dignidade individual, os princípios democráticos e o Estado de direito.
Rubio reuniu-se também com Jaishankar e com o ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Abdullah bin Zayed Al Nahyan, numa conversa trilateral. Disse que os três abordaram a segurança energética regional e prioridades económicas comuns. Segundo o Departamento de Estado, as conversações bilaterais incluíram a situação na Ásia Ocidental.
As preocupações com os vistos continuam a fazer parte da relação
Jaishankar afirmou que os ministros discutiram os laços entre as populações dos dois países, um tema que inclui as preocupações indianas com a política de imigração dos EUA e a gestão do programa de vistos H-1B. Os vistos H-1B permitem que empregadores americanos contratem trabalhadores estrangeiros para funções especializadas.
Estudantes indianos e profissionais qualificados têm sido sujeitos a regras mais rigorosas e a um maior escrutínio, à medida que a administração Trump altera os procedimentos de imigração. Rubio afirmou que as medidas faziam parte de uma reforma global, e não de um esforço dirigido contra a Índia, descrevendo o sistema como tendo sofrido duas décadas de negligência.
Rubio afirmou que Washington continuava a acolher pessoas que pretendessem visitar, estudar, trabalhar temporariamente ou investir nos Estados Unidos, desde que cumprissem a legislação de imigração. Reconheceu que a Índia podia sentir os efeitos de forma particularmente acentuada, dado o elevado número de indianos que se candidata a determinadas categorias de vistos.
Para as empresas, universidades e famílias, os procedimentos de imigração são uma dimensão prática da relação, a par do comércio. Na receção comemorativa, Jaishankar afirmou que o talento e as competências indianas ajudaram a moldar a era tecnológica nos Estados Unidos, trazendo estes laços pessoais e profissionais para as conversações diplomáticas.
Seguem-se reuniões empresariais e mais contactos diplomáticos
O papel de Mumbai como centro financeiro da Índia condicionou o programa de Rubio. Estava prevista a sua reunião com líderes empresariais, incluindo N. Chandrasekaran, presidente da Tata Sons, e Gautam Adani, presidente do Adani Group. O Departamento de Estado descreveu o programa comercial como uma iniciativa destinada a promover o investimento e a cooperação económica.
Rubio depositou também uma coroa de flores no Taj Mahal Palace Hotel em memória das 166 pessoas mortas nos atentados de Mumbai de 2008. O Departamento de Estado afirmou que reiterou a solidariedade com a Índia e o compromisso da administração em desmantelar redes terroristas e levar os responsáveis perante a justiça.
Esperava-se que os próximos contactos diplomáticos tivessem lugar mais tarde, em outubro, quando Jaishankar e Rubio se deveriam reunir à margem do encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros do G20, em Atlanta, e participar em conversações do Quad com os seus homólogos japonês e australiano. As autoridades também preparavam possíveis reuniões entre dirigentes nacionais em Manila no mês seguinte.
Rubio sugeriu que os dirigentes poderiam assinar o acordo comercial após um anúncio de progressos. Para as empresas que planeiam encomendas, investimentos ou contratos de fornecimento, o passo imediato é concluir um texto que estabeleça as condições tarifárias e de acesso ao mercado que ambos os governos irão aplicar.
Pontos principais
- Rubio e Jaishankar reuniram-se em Mumbai em 20 de outubro de 2026 e defenderam a rápida conclusão do acordo comercial bilateral.
- Rubio afirmou que 99% do trabalho estava concluído e previu que o acordo ficasse pronto em semanas, enquanto Greer disse que não era iminente.
- O quadro de fevereiro previa uma taxa tarifária de 18% nos EUA, abaixo dos direitos aduaneiros de até 50%, antes de uma decisão do Supremo Tribunal complicar os termos do acordo.
- A agricultura, as condições tarifárias e a redação jurídica continuam a ser questões centrais para a conclusão do acordo.
- Trump suspendeu, antes da visita de Rubio, as tarifas até 100% que ameaçara impor aos compradores de energia russa.
- A visita prevista de Rubio a Jamnagar centrou-se na cooperação energética, incluindo possíveis compras adicionais de crude venezuelano.
- Os ministros também discutiram defesa, tecnologia, preocupações relacionadas com a imigração e segurança regional.






