Recusas põem em risco testemunhos directos
Uma proporção elevada dos militares do SAS contactados pelo inquérito público sobre alegadas mortes ilícitas no Afeganistão recusou responder às suas perguntas, afirmou Lord Justice Haddon-Cave. O inquérito analisa alegações relacionadas com mais de 50 mortes, possível ocultação de actos ilícitos e falhas da Polícia Militar Real na investigação adequada dos casos.
Índice
- Recusas põem em risco testemunhos directos
- O que o inquérito tem de apurar
- As 54 mortes e as famílias que procuram respostas
- Relatos repetidos de detidos que tentavam alcançar armas
- Fotografias poderão pôr à prova os registos operacionais
- Alegações estendem-se pela cadeia de comando
- Investigações anteriores terminaram sem acusações
- Militar contesta restrições ao acesso às provas
- Documentos não divulgados e próxima audiência
- Pontos principais
O juiz afirmou que o inquérito identificou numerosos membros do Special Air Service cujo testemunho directo pretendia obter sobre operações de detenção deliberada. Tratava-se de rusgas destinadas a deter suspeitos de serem comandantes talibãs e a desmantelar redes envolvidas no fabrico de bombas. Foram enviados pedidos formais por escrito aos militares em causa.
Haddon-Cave, que preside ao Inquérito Independente relativo ao Afeganistão, descreveu a resposta:
Uma proporção elevada indicou que tenciona invocar o privilégio contra a autoincriminação e recusou responder a quaisquer perguntas feitas pelo inquérito.
Este privilégio protege as pessoas contra a obrigação de prestarem respostas que as possam incriminar. Invocá-lo não constitui uma admissão de culpa. Ainda assim, as recusas deixam o inquérito à procura de respostas sobre operações contestadas, sem o testemunho directo de muitos dos militares contactados.
O relato da audiência não indicou o número exacto de pessoas contactadas nem de recusas. A descrição do juiz revela, por isso, um problema significativo na obtenção de testemunhos, e não uma taxa de resposta quantificável.
O inquérito obteve também cerca de 10 000 fotografias das operações, ouviu testemunhos sobre preocupações levantadas no seio das forças especiais e enfrentou um desafio judicial relativo a provas de acesso restrito. Separadamente, um aviso oficial anuncia uma audiência a 25 de Setembro de 2026 sobre um aumento significativo do número de documentos que não foram divulgados. Em conjunto, estes desenvolvimentos dizem respeito tanto ao que aconteceu durante as rusgas como à questão de saber se os investigadores receberam as provas necessárias para o apurar.
O que o inquérito tem de apurar
O inquérito abrange operações realizadas entre 2010 e 2013. Entre as suas tarefas estão avaliar se provas credíveis sustentam alegações de numerosas execuções extrajudiciais pelas forças armadas britânicas, se as circunstâncias foram ocultadas e se as investigações da Polícia Militar Real foram adequadas e eficazes.
Execuções extrajudiciais são mortes ilícitas cometidas sem justificação legal ou processo judicial. Neste caso, as principais alegações dizem respeito a detidos e pessoas desarmadas que terão sido mortas durante operações militares, e não a mortes cuja ilicitude tenha sido já determinada por um tribunal.
Haddon-Cave afirmou que o período em análise «abrange suficientemente as alegações que estão a ser feitas actualmente». O inquérito irá também ponderar as lições a retirar das suas conclusões.
Os pedidos escritos dirigidos aos militares do SAS foram pedidos ao abrigo da Regra 9. Trata-se de pedidos formais, feitos por um inquérito público estatutário, para obter declarações de testemunhas ou documentos. São diligências de recolha de provas, não acusações criminais.
Esta distinção é importante porque o inquérito pode analisar a conduta e as falhas institucionais, mas não pode determinar por si só a responsabilidade civil ou criminal. Ainda assim, as suas conclusões podem ter consequências graves para pessoas e instituições, questão levantada no desafio judicial separado relativo ao acesso às provas.
As 54 mortes e as famílias que procuram respostas
Os ministros anunciaram o inquérito após alegações de que uma unidade do SAS matou 54 afegãos em circunstâncias suspeitas na província de Helmand, em 2010 e 2011. Uma investigação pormenorizada descreveu essas 54 mortes como possíveis execuções ilícitas durante uma única missão de seis meses, e não como o total de pessoas mortas pelo esquadrão.
O número de mortos atribuído ao esquadrão durante essa missão terá sido de três dígitos. O número 54 identifica, por isso, um grupo de mortes suspeitas no âmbito de um total operacional mais elevado; não significa que tenha sido concluído que todas as mortes ocorridas durante a missão foram ilícitas.
Um dos casos foi apresentado pelo escritório de advogados Leigh Day em nome de um afegão identificado como Saifullah. Este alegou que o pai, dois irmãos e um primo foram mortos durante uma rusga do SAS a um complexo no sul do Afeganistão, em Fevereiro de 2011.
O inquérito procura obter testemunhos de famílias afegãs cujos familiares morreram durante as operações. Os seus relatos poderão fornecer descrições de detenções, tiroteios e acontecimentos no interior dos complexos, para comparação com os registos militares. Essas comparações continuam a fazer parte da investigação e não constituem conclusões definitivas.
Relatos repetidos de detidos que tentavam alcançar armas
Os relatórios operacionais da missão descrevem incidentes repetidos em que homens afegãos detidos eram levados de volta para o interior de edifícios e, alegadamente, tentavam alcançar espingardas ou granadas. A repetição de explicações semelhantes suscitou preocupação no quartel-general das forças especiais.
Os relatos de rusgas a 29 de Novembro de 2010 e 15 de Janeiro de 2011 referiam que os detidos tentaram utilizar granadas depois de serem levados para dentro de edifícios. Os relatórios de tiroteios mortais a 7, 9 e 13 de Fevereiro apresentavam explicações semelhantes, segundo as quais um detido teria tentado atacar a patrulha com uma espingarda.
A 16 de Fevereiro, dois detidos terão sido mortos depois de um deles ter recuperado uma granada que estava atrás de cortinas e o outro ter pegado numa espingarda que estava atrás de uma mesa. A 1 de Abril, mais dois detidos foram mortos depois de, alegadamente, terem levantado uma espingarda e tentado lançar uma granada.
Pessoas que serviram no esquadrão alegaram que homens desarmados foram mortos e que foram colocadas armas nos locais para justificar os tiroteios. Estas alegações não foram confirmadas como conclusões do inquérito. A sua importância reside no possível conflito entre as explicações operacionais e os relatos dos militares presentes durante a missão.
Não foram registados feridos entre os militares do SAS nas rusgas analisadas na investigação pormenorizada. Este facto, por si só, não prova a prática de actos ilícitos, mas é mais um elemento a avaliar juntamente com as descrições recorrentes de ameaças por parte de homens detidos.
Fotografias poderão pôr à prova os registos operacionais
Haddon-Cave afirmou que o inquérito obteve cerca de 10 000 fotografias tiradas durante operações de detenção deliberada. Descreveu-as como imagens de alta resolução que parecem não ter feito parte das investigações da Polícia Militar Real.
Segundo os relatos, as fotografias foram captadas pelo SAS e não foram analisadas pela polícia militar. A formulação do juiz é mais cautelosa quanto à ausência das imagens nas investigações anteriores. O inquérito não anunciou o que as fotografias permitem concluir sobre qualquer morte em particular.
As fotografias poderão ajudar a comparar o local dos acontecimentos com os relatos operacionais e os testemunhos. O seu valor probatório depende de quando e onde foram tiradas, do que mostram e da fiabilidade com que podem ser associadas a um incidente. O número de imagens, por si só, não prova que tenha havido actos ilícitos.
Alegações estendem-se pela cadeia de comando
Richard Hermer KC, que representa sete famílias enlutadas nas alegações iniciais, sustentou que os documentos militares revelavam mais do que tiroteios suspeitos. Alegou que houve destruição de provas, preparação de testemunhas e falhas dos responsáveis pela disciplina na investigação de relatos implausíveis.
Hermer nomeou os antigos directores das forças especiais, o tenente-general Jonathan «Jacko» Page e o general Sir Mark Carleton-Smith. Alegou que estes tinham conhecimento de suspeitas graves de actos ilícitos, mas não garantiram que as preocupações fossem comunicadas à Polícia Militar Real nem impediram que se repetissem. Estas foram alegações apresentadas ao inquérito, não conclusões contra nenhum dos oficiais.
Uma investigação separada alegou que as preocupações foram colocadas num ficheiro classificado, com acesso restrito, em vez de serem comunicadas à polícia militar. Alegou também que Carleton-Smith foi informado de mortes suspeitas e não revelou preocupações anteriores quando a polícia militar iniciou uma investigação em 2013. Este recusou comentar esse relato.
Os documentos discutidos no inquérito apontam para preocupação com o escrutínio no seio do quartel-general. Hermer citou um e-mail de Maio de 2011, enviado pelo advogado sénior do quartel-general das forças especiais, que alertava para a possibilidade de uma queixa chegar a um nível superior e levar a pressões para que a polícia militar abrisse uma investigação.
Descreveu também um e-mail de 2016 sobre suspeitas de homicídios, que chegou a Simon Case, então alto funcionário do gabinete do primeiro-ministro, bem como ao secretário do gabinete e ao procurador-geral. Nesse ano, Stephen Lovegrove, secretário permanente do Ministério da Defesa, manifestou ao chefe da polícia militar preocupação com a cultura existente nas forças especiais.
O Ministério da Defesa reconheceu ter induzido gravemente em erro uma família enlutada e o Tribunal Superior, mas negou tê-lo feito intencionalmente. Negou também ter obstruído investigações e afirmou que inquéritos anteriores não encontraram provas suficientes para proceder a acusações.
Investigações anteriores terminaram sem acusações
O inquérito analisa a Operação Northmoor e a Operação Cestro, duas investigações da Polícia Militar Real com âmbitos diferentes. A Northmoor investigou mais de 600 alegadas infracções, foi reduzida em 2017 e encerrada em 2019. Os investigadores trabalharam durante cinco anos, mas não foram deduzidas acusações.
A Cestro dizia respeito às mortes de quatro jovens em Loy Bagh, Helmand, a 18 de Outubro de 2012. Os mais novos tinham 14 e 12 anos. Três militares foram referenciados à Autoridade do Ministério Público Militar, incluindo o autor dos disparos, por quatro acusações de homicídio, mas não houve processos judiciais.
Uma referenciação para acusação não é o mesmo que uma decisão de acusar. Do mesmo modo, a ausência de acusações não resolve a tarefa distinta do inquérito de avaliar se as investigações foram eficazes e se os investigadores tiveram acesso a todas as provas relevantes.
Paul Greaney KC, representante da Polícia Militar Real, afirmou que os investigadores enfrentaram dificuldades práticas durante o conflito activo e dependiam de os comandantes comunicarem possíveis crimes de guerra e infracções graves. Sublinhou que os oficiais superiores tinham a obrigação legal de fazer essas comunicações.
Brian Altman KC, representante do Ministério da Defesa, expôs a posição do departamento sobre a legalidade da conduta e das investigações:
As operações têm de ser conduzidas dentro dos limites claros da lei e as alegações credíveis contra as nossas forças têm sempre de ser investigadas exaustivamente.
Militar contesta restrições ao acesso às provas
Um militar de alta patente, identificado como Testemunha IIA126, contestou judicialmente a decisão do inquérito de lhe ocultar, a si e aos seus advogados, determinadas provas de acesso restrito. A disputa diz respeito a material referido em tribunal como o material verde.
Kate Grange KC, representante do militar, afirmou que as provas incluíam uma alegação segundo a qual alguém foi baleado na cabeça enquanto possivelmente dormia, durante uma operação de detenção deliberada. Sustentou que ocultar esse material não respeitava os princípios básicos da equidade processual.
Grange explicou por que razão o militar considerava importante ter acesso ao material, apesar dos limites dos poderes de um inquérito público:
Apesar de os inquéritos públicos estatutários não poderem determinar a responsabilidade civil ou criminal, podem, ainda assim, ter consequências extremamente significativas para as pessoas.
Jonathan Glasson KC, representante do inquérito, defendeu o secretismo por razões de interesse público e afirmou que uma conclusão desfavorável contra uma pessoa identificável, incluindo o requerente, estava longe de ser inevitável. Edward Craven KC, representante das famílias de 16 pessoas mortas, apoiou as restrições, considerando-as justas, e afirmou que algumas testemunhas tinham receios graves e objectivamente justificados.
O Ministério da Defesa está a financiar os custos legais de IIA126, mas adoptou uma posição neutra quanto ao mérito da contestação. Esperava-se que a audiência judicial terminasse numa terça-feira, com uma decisão escrita posteriormente. O relato dessa audiência não confirma qualquer decisão nem uma data concreta para a sua publicação.
Durante uma audiência relacionada no Tribunal Superior, o ministério identificou material que sugere que militares das forças especiais destacados em algumas operações em análise poderão ter cometido infracções graves ao abrigo da Lei das Forças Armadas de 2006. Essa avaliação aponta para possível conduta criminosa, não para uma determinação de culpa.
Documentos não divulgados e próxima audiência
O aviso oficial de audiência do Inquérito Independente relativo ao Afeganistão anuncia uma audiência pública para sexta-feira, 25 de Setembro de 2026. O aviso diz que o inquérito irá pedir garantias à equipa jurídica do Ministério da Defesa relativamente a um aumento significativo e inesperado da documentação relacionada com os seus Termos de Referência que não foi divulgada.
Os Termos de Referência definem o que o inquérito está autorizado a investigar. O aviso diz, por isso, respeito a documentos relevantes para o seu âmbito, e não a um conjunto indefinido de registos sem relação com o caso. Não indica o número de documentos, não explica por que motivo continuam por divulgar nem esclarece o que contêm.
A sequência dos principais acontecimentos distingue as operações investigadas dos esforços posteriores para as analisar:
- Novembro de 2010 a Abril de 2011: missão associada às alegações de 54 mortes suspeitas.
- Fevereiro de 2011: rusga em que Saifullah alega que quatro familiares foram mortos.
- 18 de Outubro de 2012: quatro jovens foram mortos em Loy Bagh, caso posteriormente investigado no âmbito da Operação Cestro.
- 2013: a polícia militar iniciou uma investigação de homicídio mencionada nas alegações sobre preocupações não comunicadas.
- 2017 e 2019: a Operação Northmoor foi reduzida e, mais tarde, encerrada.
- 25 de Setembro de 2026: o aviso oficial do inquérito marca uma audiência pública sobre documentação não divulgada.
Os relatos da declaração de Haddon-Cave sobre as recusas das testemunhas referem que as audiências públicas continuarão em Outubro e Novembro, com conclusão prevista para o fim de Novembro. Não indicam o ano desse calendário, pelo que não deve ser confundido com o calendário da audiência de Setembro de 2026, cuja data foi anunciada separadamente.
As questões por resolver são significativas: o que mostram as fotografias, se as investigações militares receberam todas as provas relevantes, como garantir um tratamento justo dos testemunhos de acesso restrito e o que explica os documentos adicionais não divulgados. O inquérito ainda não determinou se as alegadas mortes e a sua ocultação ocorreram.
Pontos principais
- Uma proporção elevada dos militares do SAS contactados pelo inquérito invocou o privilégio contra a autoincriminação e recusou responder às perguntas.
- O inquérito abrange alegadas mortes ilícitas, ocultação e falhas na investigação entre 2010 e 2013.
- Cerca de 10 000 fotografias operacionais parecem não ter feito parte das investigações anteriores da polícia militar.
- As Operações Northmoor e Cestro terminaram sem processos judiciais.
- Um militar de alta patente está a contestar as restrições ao acesso às provas; não é aqui confirmada qualquer decisão judicial decorrente do caso.
- Um aviso oficial marca uma audiência a 25 de Setembro de 2026 sobre documentos adicionais não divulgados.
- As alegações continuam sob investigação e não constituem conclusões de culpa criminal.






