Dois candidatos, um lugar a bordo da Tiangong
O Paquistão está a preparar-se para enviar o seu primeiro astronauta para a órbita. Os pilotos militares Muhammad Zeeshan Ali e Khurram Daud estão a treinar em Pequim para uma missão com a duração prevista de cerca de uma semana a bordo da estação espacial chinesa Tiangong. A escolha final deverá ser feita entre meados e o final de outubro de 2026, segundo Amer Gilani, responsável pela cooperação em voos espaciais tripulados na Comissão de Investigação do Espaço e da Alta Atmosfera do Paquistão (SUPARCO).
Índice
- Dois candidatos, um lugar a bordo da Tiangong
- Como a missão chegou a esta fase
- O que distingue os dois finalistas
- Preparação para o lançamento e a vida quotidiana em órbita
- Quatro experiências entre mais de 300 propostas
- Um papel científico numa estação mais abrangente
- O regresso depende da rotação da tripulação chinesa
- Acesso ao espaço, sem um sistema de lançamento independente
- Uma parceria mais ampla, mas sem acordo para um voo paquistanês à Lua
- O que ainda falta confirmar
- Pontos principais
O candidato escolhido tornar-se-á o primeiro cidadão paquistanês a viajar para a órbita e o primeiro astronauta estrangeiro a visitar a estação espacial operacional da China. O Ministério da Informação e da Radiodifusão do Paquistão indicou o final de 2026 como período previsto para o lançamento, mas a China ainda não anunciou uma data exata nem revelou quem será o astronauta a bordo.
A missão tem uma vertente científica mais concreta do que a sua ambição simbólica. Instituições chinesas selecionaram quatro experiências de biotecnologia entre mais de 300 propostas apresentadas por universidades paquistanesas. O astronauta escolhido será especialista em cargas científicas e realizará investigação destinada a apoiar o trabalho sobre segurança alimentar e alterações climáticas, em vez de pilotar a nave espacial.
Responsáveis da Agência Espacial Tripulada da China condicionaram o voo à conclusão da formação e à aprovação nas avaliações. O facto de dois candidatos terem chegado à fase final não significa, portanto, que algum deles já tenha garantido um lugar. O programa representa um marco para o Paquistão e um novo passo nas operações espaciais tripuladas da China, que até agora transportaram tripulações chinesas.
O programa também distingue o acesso a voos espaciais tripulados da capacidade de enviar pessoas para o espaço de forma independente. O Paquistão contribuirá com um astronauta e experiências de investigação, enquanto a China fornecerá a nave espacial, as instalações de lançamento, os sistemas de formação e o laboratório orbital.
Como a missão chegou a esta fase
O programa começou com um acordo de cooperação assinado pela SUPARCO e pela Agência Espacial Tripulada da China, em Islamabad, a 28 de fevereiro de 2025. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif esteve presente na cerimónia. O acordo previa a formação de dois candidatos paquistaneses e a escolha de um para realizar trabalho científico a bordo da Tiangong, com o calendário do voo dependente dos planos de operação da estação.
A sequência de acontecimentos desde então mostra como um compromisso diplomático inicial se transformou num programa ativo de formação de astronautas:
- 28 de fevereiro de 2025: O Paquistão e a China assinaram em Islamabad o acordo de cooperação sobre astronautas.
- Abril de 2025: A SUPARCO anunciou o início da seleção preliminar no Paquistão, seguida de novas fases de seleção na China.
- Fevereiro de 2026: A SUPARCO comunicou a conclusão da fase de seleção secundária.
- Início de abril de 2026: Concluiu-se o primeiro processo de seleção da China de candidatos estrangeiros a astronauta, ficando Ali e Daud como os dois finalistas.
- 22 de abril de 2026: O Ministério da Informação do Paquistão anunciou a seleção dos candidatos e o período previsto para o lançamento, no final de 2026.
- 24 de abril de 2026: Os candidatos entraram no Centro de Astronautas da China, em Pequim, para treinar com astronautas chineses.
- 7 de outubro de 2026: Yang Liwei, vice-chefe de conceção do programa espacial tripulado chinês, afirmou que os candidatos estavam a progredir bem.
- Entre meados e o final de outubro de 2026: A SUPARCO prevê anunciar a escolha final do astronauta.
O acordo inicial estabelecia como objetivo concluir a seleção até 2026, sem garantir uma data específica para o voo. O objetivo de lançamento anunciado posteriormente é mais preciso, mas continua a ser um plano e não um calendário de partida confirmado.
O que distingue os dois finalistas
O processo de seleção incluiu uma triagem preliminar no Paquistão, seguida de fases secundária e final na China. Os candidatos foram submetidos a avaliações médicas, psicológicas e de aptidão no Centro de Astronautas da China. A SUPARCO afirmou que essas avaliações seguiram as normas internacionais para voos espaciais tripulados.
As descrições do conjunto de candidatos variam. Em abril de 2025, Amjad Ali, diretor-geral adjunto da SUPARCO, apontou para um grupo previsto de cerca de 10 a 15 candidatos. Relatos posteriores referiram que Ali e Daud foram escolhidos entre cerca de 20 finalistas, oriundos de um grupo mais vasto de pilotos e cientistas paquistaneses. Estes números dizem respeito a fases e datas diferentes e não permitem estabelecer um total único confirmado para todos os candidatos considerados.
Amjad Ali explicou a progressão prevista, da seleção inicial até à atribuição de um único lugar no voo:
Vamos selecionar cerca de 10 a 15 candidatos. Depois, serão reduzidos a dois, antes de receberem formação na China durante seis meses a um ano. Após a formação, haverá um candidato a viajar para o espaço.
Responsáveis da SUPARCO afirmaram que os pilotos foram favorecidos porque a experiência em voos a alta velocidade poderá ajudá-los a suportar forças de aceleração consideráveis. Essa experiência não substituiu os requisitos médicos e psicológicos. Os critérios de seleção anunciados anteriormente também incluíam condição física, capacidade de investigação e aptidão analítica, refletindo uma missão que envolve tanto trabalho de laboratório como as exigências do lançamento.
Preparação para o lançamento e a vida quotidiana em órbita
Ali e Daud estão a aprender mandarim, a estudar os sistemas da nave espacial e a praticar procedimentos de emergência. A preparação inclui testes em centrífuga, que reproduzem as forças de aceleração sentidas durante o lançamento e outras fases exigentes do voo. Estas forças são frequentemente descritas em múltiplos de g, a aceleração associada à gravidade à superfície da Terra.
A formação também abrange tarefas quotidianas que se tornam pouco familiares em órbita: comer, dormir, manusear equipamento e fazer reparações. Em microgravidade, os astronautas e os objetos soltos flutuam porque estão todos a cair em torno da Terra. Trabalhar em segurança exige hábitos diferentes dos usados num laboratório em terra.
A preparação linguística é um requisito operacional, não apenas um exercício cultural. O astronauta paquistanês irá treinar e trabalhar no âmbito de um sistema de missão chinês, em que será essencial compreender instruções, terminologia técnica e comunicações de emergência.
No Congresso Internacional de Astronáutica, realizado na Turquia em outubro, Yang Liwei afirmou que ambos os candidatos tinham tido um bom desempenho durante a formação conjunta com astronautas chineses. A avaliação indica que estão a progredir, mas não significa que algum deles tenha cumprido todos os requisitos ou recebido uma atribuição final para o voo.
Segundo Gilani, o astronauta escolhido ficará na China para o lançamento, em vez de regressar previamente ao Paquistão. Após a aterragem, passará por um período de recuperação antes de viajar para casa. Assim, os períodos de preparação e recuperação prolongam-se muito para além da semana prevista a bordo da estação.
Quatro experiências entre mais de 300 propostas
A SUPARCO recebeu propostas de universidades ao longo de um ano, incluindo candidaturas de Karachi, Lahore e Islamabad. Instituições chinesas escolheram quatro experiências de biotecnologia, que estão a ser montadas e testadas nos laboratórios da SUPARCO antes de serem analisadas por engenheiros chineses.
Quatro escolhas entre mais de 300 propostas representam menos de 1,34% das candidaturas. Uma seleção tão restrita dá particular importância à preparação do equipamento de investigação escolhido. O acesso a bordo de uma nave espacial tripulada exige que o equipamento cumpra os requisitos técnicos e de segurança do programa anfitrião, além de ter uma finalidade científica.
Em abril de 2026, o Ministério da Informação do Paquistão descreveu uma gama mais ampla de possíveis áreas de investigação: ciência dos materiais, física dos fluidos, ciências da vida e biotecnologia, com potenciais aplicações na resiliência às alterações climáticas, na segurança alimentar e na inovação industrial. O acordo de 2025 também enumerava as ciências médicas, a radiação, a ecologia e a astronomia.
Estas descrições abrangentes não devem ser confundidas com a confirmação de que o astronauta realizará experiências em todas estas áreas. A informação mais específica identifica quatro projetos de biotecnologia. Os seus nomes, métodos detalhados e medições previstas não foram divulgados nas descrições da missão.
A microgravidade pode permitir aos investigadores examinar processos biológicos sem os mesmos efeitos de sedimentação, flutuabilidade e movimento dos fluidos observados na Terra. Isso explica o interesse em experiências orbitais, mas não demonstra que estes projetos específicos venham a produzir uma nova cultura agrícola, medicamento ou processo industrial. O seu valor prático dependerá dos resultados e da investigação que se seguir.
Um papel científico numa estação mais abrangente
A função do astronauta como especialista em cargas científicas centra-se na realização das experiências do Paquistão. Lin Xiqiang, porta-voz da Agência Espacial Tripulada da China, afirmou também que o visitante desempenhará as tarefas regulares da tripulação. A função especializada não elimina, por isso, a necessidade de conhecer os procedimentos da estação ou de reagir em segurança em caso de emergência.
A Tiangong é composta por três módulos, Tianhe, Wentian e Mengtian, com uma massa total de cerca de 77 toneladas métricas. As cerca de 14 plataformas experimentais da estação apoiam trabalhos em áreas como as ciências da vida, a ciência dos materiais, a física dos fluidos, a combustão e a exposição à radiação. Estas plataformas são instalações dedicadas que alojam equipamento de investigação e fornecem os recursos necessários ao seu funcionamento.
Algumas cargas científicas estão montadas no exterior da estação, permitindo expor diretamente materiais e sistemas biológicos ao ambiente espacial. As experiências paquistanesas integrar-se-ão num programa de investigação já estabelecido, em vez de serem realizadas num laboratório criado exclusivamente para esta visita.
Dados citados pela SUPARCO atribuem à Tiangong mais de 180 experiências, mais de 500 artigos de investigação e 150 patentes. Estes totais dizem respeito ao programa global da estação, não aos resultados esperados das quatro experiências do Paquistão. Também medem aspetos diferentes: as experiências são atividades de investigação, os artigos comunicam conclusões e as patentes dizem respeito a invenções reivindicadas.
A visita prevista será muito mais curta do que os cerca de seis meses habitualmente passados a bordo da Tiangong pelos astronautas chineses de carreira. Isso torna especialmente importante a preparação em terra, uma vez que o visitante terá um período limitado para realizar o trabalho atribuído.
O regresso depende da rotação da tripulação chinesa
Prevê-se que a missão utilize um lugar de regresso disponibilizado pela permanência prolongada em órbita de uma tripulação chinesa. Responsáveis paquistaneses dizem que o visitante regressará com dois astronautas chineses que chegaram à Tiangong em maio, enquanto um terceiro permanecerá a bordo durante um ano para apoiar a investigação sobre voos espaciais prolongados.
Um relato separado identifica a Shenzhou-24 como a nave prevista para a viagem de ida e aponta para o outono. O ministério paquistanês definiu o objetivo mais amplo de lançamento no final de 2026. Estas descrições não constituem um manifesto de lançamento confirmado, sobretudo enquanto a China não anunciar o membro paquistanês escolhido para a tripulação nem uma data exata.
Esta distinção é importante porque a viagem do visitante depende de mais do que a aprovação na formação. O lugar na viagem de ida, o lugar no regresso, a composição da tripulação da estação e o calendário de investigação têm de ser compatíveis. A semana prevista em órbita integra um plano mais vasto de rotação chinesa, não sendo um voo paquistanês separado com calendário próprio.
Acesso ao espaço, sem um sistema de lançamento independente
O programa dá ao Paquistão acesso a um laboratório orbital em funcionamento e experiência na preparação de investigação para voos espaciais tripulados. Não lhe proporciona uma nave espacial tripulada nem capacidade de lançamento independentes. A China fornecerá o transporte, o local de lançamento, as infraestruturas de formação e a estação.
Esta divisão de responsabilidades está no centro do debate sobre o valor duradouro da missão. Yarjan Abdul Samad, professor assistente de engenharia aeroespacial na Universidade Khalifa e também ligado à Universidade de Cambridge, defendeu que o Paquistão deve procurar contribuir em condições de igualdade, em vez de continuar a ser apenas beneficiário de serviços.
A sua preocupação é que o simples acesso possa permitir realizar a missão solicitada sem gerar um crescimento tecnológico interno significativo. Também defendeu que o envio de um astronauta deve ser avaliado em função da capacidade do trabalho para resolver problemas técnicos que não possam ser adequadamente abordados através de veículos não tripulados ou de experiências realizadas na Terra.
Carlo Iorio, diretor do centro de investigação e engenharia de tecnologias espaciais da Universidade Livre de Bruxelas, também apelou a um maior apoio à investigação no Paquistão. Alertou que um apoio interno insuficiente pode incentivar investigadores talentosos a sair do país, inclusive para a China.
O processo de apresentação de propostas pelas universidades e o trabalho de montagem nos laboratórios são formas concretas de participação paquistanesa para além da presença do astronauta. A transformação dessa participação numa capacidade duradoura dependerá dos resultados da investigação, da experiência retida pelas instituições participantes e do apoio continuado após o voo. O estatuto histórico da missão não garante nenhum destes resultados.
Uma parceria mais ampla, mas sem acordo para um voo paquistanês à Lua
O programa de astronautas alarga uma relação que já inclui lançamentos de satélites, cooperação em navegação e investigação lunar. A missão Chang'e-6 da China levou o satélite ICUBE-Q do Paquistão até à órbita lunar em 2024, e a China lançou um satélite de comunicações paquistanês algumas semanas mais tarde.
O Paquistão está também a desenvolver um rover autónomo para a missão lunar chinesa Chang'e-8, prevista para cerca de 2028. O rover deverá recorrer à inteligência artificial e a imagens estereoscópicas para identificar obstáculos, estimar distâncias, avaliar o terreno e escolher percursos na superfície lunar.
As imagens estereoscópicas recorrem a imagens obtidas de diferentes posições para estimar a profundidade, tal como os dois olhos ajudam uma pessoa a calcular distâncias. Em conjunto com a navegação autónoma, podem reduzir a necessidade de os controladores em terra dirigirem cada movimento, apesar dos atrasos nas comunicações.
O programa do rover é distinto do envio de um astronauta paquistanês à Lua. Gilani afirmou não existir qualquer acordo formal ou discussão confirmada sobre uma missão tripulada desse tipo. A ambição da China de levar astronautas à Lua antes de 2030 não deve ser interpretada como um convite ou compromisso para incluir um tripulante paquistanês.
Yang Liwei descreveu planos para uma estação de investigação lunar e para um intercâmbio internacional mais amplo. Também foram noticiados testes importantes do foguetão chinês Long March-10, da nave espacial Mengzhou e do módulo lunar Lanyue. Estes desenvolvimentos dizem respeito ao programa lunar da China, não a uma extensão confirmada da missão paquistanesa à Tiangong.
O que ainda falta confirmar
A próxima decisão prevista é a escolha entre Ali e Daud, entre meados e o final de outubro de 2026. A conclusão da formação e a aprovação nas avaliações continuam a ser condições para o voo. A China terá ainda de anunciar o astronauta escolhido e o calendário exato do lançamento.
São também necessários mais detalhes sobre as quatro experiências, incluindo as questões científicas que procuram responder e a forma de medir o sucesso. Os objetivos declarados de apoiar a segurança alimentar e a investigação climática descrevem aplicações pretendidas, não resultados já alcançados.
A China discutiu a possível participação de astronautas com outros países, enquanto Yang descreveu a Tiangong como uma plataforma para uma cooperação científica, formação e oportunidades de voo mais amplas. Há também relatos de uma proposta de expansão da estação, de três para seis módulos, para acolher mais atividades. Essa expansão não foi anunciada como requisito para a visita paquistanesa nem confirma qualquer outra missão estrangeira.
Para o Paquistão, o desafio imediato é mais limitado e concreto: escolher um astronauta qualificado, preparar quatro experiências para análise chinesa e integrar uma curta visita de investigação no calendário da tripulação da Tiangong. Um voo bem-sucedido constituiria um marco nacional. O seu valor científico seria medido pelo trabalho realizado e pelo que os investigadores paquistaneses conseguirem desenvolver a partir dele.
Pontos principais
- Muhammad Zeeshan Ali e Khurram Daud iniciaram a formação de astronautas em Pequim a 24 de abril de 2026.
- A SUPARCO prevê fazer a escolha final entre meados e o final de outubro de 2026.
- O Paquistão aponta para um lançamento no final de 2026, mas a China ainda não anunciou uma data exata.
- O astronauta escolhido deverá passar cerca de uma semana a bordo da Tiangong como especialista em cargas científicas.
- Foram selecionadas quatro experiências de biotecnologia entre mais de 300 propostas de universidades paquistanesas.
- A China fornecerá a nave espacial, as instalações de lançamento, os sistemas de formação e as infraestruturas da estação.
- O rover paquistanês previsto para a Chang'e-8, por volta de 2028, é independente da missão do astronauta.
- Não foi confirmado qualquer acordo para enviar um astronauta paquistanês à Lua.






