A bacia do Geum poderá representar a maior parte do défice previsto
A bacia do rio Geum, na Coreia do Sul, atualmente considerada um dos sistemas hídricos mais seguros do país, poderá necessitar de 782,4 mil milhões de won para fazer face a um défice anual de 53,67 milhões de metros cúbicos, num cenário conservador de planeamento climático para 2030. É a maior exposição regional identificada num estudo do Instituto do Ambiente da Coreia (KEI) que põe em causa a forma como o país deverá direcionar a despesa com a gestão da água.
Índice
- A bacia do Geum poderá representar a maior parte do défice previsto
- A importância dos valores oficiais
- Como poderão mudar as prioridades entre bacias
- Yeongsan é o caso com maior divergência
- A meta para 2030 subjacente aos cálculos
- O que o modelo climático pode e não pode demonstrar
- Uma fatura maior, mas sem compromisso fixo de despesa
- Usar melhor a água antes de construir mais
- Principais pontos
O relatório sobre gestão da água do instituto, da autoria de Han Hye-jin, investigadora sénior, estima que seja necessário reduzir os défices anuais em 64,22 milhões de metros cúbicos nas bacias avaliadas, no cenário conservador UA95. A resposta a essas necessidades custaria cerca de 991,9 mil milhões de won. No cenário UA65, orientado para a eficiência, os valores correspondentes são 38,72 milhões de metros cúbicos e 617,2 mil milhões de won.
Só a bacia do Geum representa cerca de 83,6% do défice hídrico no cenário UA95, valor calculado a partir de 53,67 milhões de metros cúbicos num total de 64,22 milhões. A necessidade de investimento estimada corresponde a cerca de 79% do total. Assim, uma bacia sem défice previsto no cenário de referência, que pressupõe a manutenção das tendências atuais, torna-se a principal preocupação quando se considera a incerteza climática.
Os resultados não demonstram que estas carências se venham a concretizar. Mostram até que ponto as prioridades de investimento podem mudar quando os planeadores deixam de presumir que as condições hídricas do passado continuarão a ser uma referência fiável. Os dados também exigem uma leitura cuidadosa: alguns relatos publicados apresentam totais diferentes e, no caso da bacia do Yeongsan, descrevem uma evolução oposta à do resumo oficial.
A importância dos valores oficiais
O registo oficial identifica o estudo como Desenvolvimento de métodos de estimativa orçamental para a gestão da água em resposta à crise climática, publicado em 2025. O objetivo é desenvolver um método para estimar os custos futuros da gestão da água num contexto de incerteza climática, e não apresentar uma única previsão definitiva de despesa.
As estimativas UA65 e UA95 do relatório devem ser distinguidas da estimativa mediana descrita noutros relatos. O cenário UA65 é apresentado como uma hipótese de planeamento orientada para a eficiência, enquanto o UA95 é mais conservador. São abordagens diferentes para planear perante défices hídricos incertos, não resultados confirmados distintos.
Os relatos publicados apontam para uma escassez anual mediana em 2030 de 33,73 milhões ou 33,74 milhões de toneladas, face a um valor de referência de 4,27 milhões de toneladas. Esta pequena diferença não altera a comparação principal: qualquer uma das estimativas medianas é cerca de 7,9 vezes superior ao valor de referência. Ambas ficam abaixo dos valores oficiais de redução do défice nos cenários UA65 e UA95.
Outro relato aponta para uma estimativa superior de escassez de 68,49 milhões de toneladas e um custo de resposta de 1,16 biliões de won. Estes valores diferem dos totais UA95 do resumo oficial: 64,22 milhões de metros cúbicos e cerca de 991,9 mil milhões de won. A diferença é demasiado grande para ser atribuída a arredondamentos, e a sua razão não está estabelecida.
As unidades também diferem entre os relatos. O resumo oficial usa metros cúbicos, uma medida de volume, enquanto alguns artigos usam toneladas, uma medida de massa. Um metro cúbico de água doce pesa aproximadamente uma tonelada, pelo que as quantidades são, em termos gerais, comparáveis. Essa conversão não explica a divergência entre os totais.
Como poderão mudar as prioridades entre bacias
Historicamente, as maiores carências de água para uso doméstico e industrial concentravam-se no sudoeste. Dados atribuídos ao Primeiro Plano Diretor Nacional de Gestão da Água, de 2023, indicam que, durante a pior seca histórica, as carências foram de 4,7 milhões de toneladas no conjunto das bacias do Yeongsan e do Seomjin, 1,2 milhões de toneladas na bacia do Han, 600 000 toneladas na do Nakdong e 100 000 toneladas na do Geum.
A avaliação do KEI altera esta ordem. A bacia do Geum não apresenta défice no cenário de referência, mas o défice anual sobe para 28,97 milhões de metros cúbicos no cenário UA65 e para 53,67 milhões no UA95. A necessidade de investimento estimada passa de zero para 422,3 mil milhões de won ou 782,4 mil milhões de won, respetivamente.
A bacia do Han também enfrenta uma maior necessidade de financiamento. O resumo oficial aponta para custos de 146,4 mil milhões de won nos cenários climáticos, face a 22 mil milhões de won no cenário de referência, um aumento de cerca de 6,7 vezes. Outro relato indica 168,4 mil milhões de won e refere que a escassez anual passa de 570 000 toneladas para 7,21 milhões de toneladas. Estas estimativas de custos não devem ser apresentadas como equivalentes.
No caso do Nakdong, os relatos indicam que a escassez anual aumenta de 320 000 para 1,25 milhões de toneladas, com os custos a subirem de 1,1 mil milhões para 25,8 mil milhões de won. O resumo oficial não apresenta dados correspondentes sobre o Nakdong, pelo que não é possível confirmar estes valores com base no resumo regional.
Yeongsan é o caso com maior divergência
O resumo oficial afirma que a escassez de água e as necessidades de investimento no Yeongsan diminuem nos cenários climáticos. O investimento estimado baixa de 112,2 mil milhões de won no cenário de referência para 31 mil milhões de won no cenário UA65 ou 37,1 mil milhões de won no UA95. Estes valores correspondem a reduções de aproximadamente 72% e 67%, respetivamente.
Este resultado contrasta diretamente com um relato segundo o qual a escassez no Yeongsan aumenta de 2,19 milhões para 4,53 milhões de toneladas e o custo de resposta sobe de 112,2 mil milhões para 149,2 mil milhões de won. Uma versão aponta para uma melhoria; a outra, para um défice maior e uma fatura mais elevada. O resumo oficial sustenta a diminuição, mas a razão da divergência continua por esclarecer.
Esta distinção é importante porque estão a ser construídos complexos industriais de semicondutores na zona de Jeonnam e Gwangju, associada à bacia do Yeongsan. Um défice regional menor nos modelos não demonstra, por si só, que todos os projetos industriais terão abastecimento de água adequado. Estas estimativas dizem respeito ao planeamento da bacia e não substituem a avaliação da procura de um projeto específico.
Para o Seomjin, os relatos apontam para um aumento mais moderado, de 280 000 para 360 000 toneladas, com os custos a passarem de 32,8 mil milhões para 33,6 mil milhões de won. O resumo oficial não apresenta dados suficientes sobre o Seomjin para confirmar esses valores ou concluir que a escassez diminui necessariamente. A inversão mais bem documentada é, por isso, a emergência do Geum como principal risco, a par da redução oficial das necessidades de investimento no Yeongsan.
A meta para 2030 subjacente aos cálculos
O défice de referência está associado a um objetivo de política pública: elevar todas as cinco bacias avaliadas ao nível 1 de segurança do abastecimento de água até 2030. A classificação mede a resiliência de um sistema de abastecimento à seca, sendo o nível 1 considerado altamente seguro e quase sem carências.
As classificações iniciais indicadas variam. Han e Geum estão no nível 1, Seomjin no nível 2, Nakdong no nível 3 e Yeongsan abaixo do nível 3. O Plano de Gestão dos Recursos Hídricos das Bacias Hidrográficas fixa o objetivo de alcançar o nível 1 nas cinco bacias.
Mesmo sem ajustamento climático, estima-se que faltem 4,27 milhões de toneladas de água por ano para atingir esse objetivo. Com um consumo médio diário indicado de 308 litros por pessoa, esse volume corresponde aproximadamente ao consumo anual de 38 000 pessoas. Uma estimativa climática mediana de cerca de 33,7 milhões de toneladas equivale ao consumo anual de aproximadamente 300 000 pessoas. São comparações de volume, não previsões de que esse número de habitantes ficará sem abastecimento.
As datas e etapas de planeamento relevantes são:
- 2023: O Primeiro Plano Diretor Nacional de Gestão da Água apresenta os dados históricos de carência durante secas usados na comparação.
- 2025: O KEI publica o estudo de estimativa orçamental, identificado nos relatos como uma publicação de dezembro.
- 31 de maio de 2026: Relatos publicados apresentam a escassez mediana prevista para 2030 e o intervalo de investimento estimado.
- 11 de outubro de 2026: Outro relato apresenta dados detalhados por bacia, alguns dos quais diferem do resumo oficial.
- 2030: Ano-limite para alcançar o nível 1 de segurança do abastecimento nas cinco bacias.
O que o modelo climático pode e não pode demonstrar
A avaliação-piloto usa um modelo e duas trajetórias climáticas, RCP 2.6 e RCP 8.5. RCP significa «Trajetória de Concentração Representativa», um quadro que descreve diferentes evoluções das concentrações de gases com efeito de estufa e do respetivo impacto no aquecimento. A RCP 2.6 representa uma trajetória de menores emissões, enquanto a RCP 8.5 corresponde a uma trajetória muito mais elevada.
Os relatos sobre o estudo descrevem um cálculo mediano que combina as duas trajetórias, com concentrações atmosféricas de dióxido de carbono de aproximadamente 420 partes por milhão e 940 partes por milhão até 2100. Estas trajetórias de longo prazo servem de base à avaliação; as carências de água aqui referidas são estimativas para 2030, não para o final do século.
A questão metodológica é a não estacionariedade causada pelo clima. Em termos simples, os padrões estatísticos do passado podem deixar de se manter. Um sistema hídrico concebido com base em precipitação, caudais dos rios e frequência de secas históricos poderá enfrentar condições que não estão contempladas nos pressupostos originais de planeamento.
Isto ajuda a explicar como uma bacia atualmente considerada segura pode apresentar um grande défice futuro num modelo. Uma classificação de segurança atual descreve o desempenho nas condições usadas para a avaliação. Não garante que as mesmas soluções de abastecimento mantenham o mesmo nível perante um clima em mudança.
O KEI salienta que, neste projeto-piloto, a metodologia é mais importante do que a precisão das estimativas de custos. O uso de um único modelo e de duas trajetórias limita a confiança com que qualquer valor individual pode ser tratado como uma previsão. O estudo sustenta a necessidade de testar um leque mais amplo de condições, em vez de considerar inevitável a estimativa mais elevada.
Uma fatura maior, mas sem compromisso fixo de despesa
O valor de referência mais preciso divulgado para o investimento é de 168,08 mil milhões de won. O investimento ajustado ao clima é estimado entre 617,18 mil milhões e 991,93 mil milhões de won, em linha com os valores arredondados do resumo oficial: 617,2 mil milhões e 991,9 mil milhões de won.
Com base nestes valores, a necessidade estimada sobe para cerca de 3,7 a 5,9 vezes o valor de referência. Esta comparação é diferente do aumento de quase oito vezes na escassez mediana de água. Os volumes de água e os custos de resposta não aumentam na mesma proporção, porque os custos dependem das medidas adotadas e da sua localização.
Segundo os relatos, a avaliação aplica sucessivamente medidas de resposta, começando pelas opções menos dispendiosas. Os totais representam, por isso, os custos estimados para fazer face aos défices seguindo uma sequência de ações pressuposta. Não são dotações anunciadas, orçamentos de construção aprovados nem prova de que o Governo se comprometeu a gastar o valor total.
A concentração dos custos UA95 no Geum também altera o significado do total nacional. Um orçamento distribuído de acordo com as classificações históricas de escassez poderia não ter em conta a maior necessidade futura projetada pelo modelo. Em contrapartida, uma estimativa mais baixa para o Yeongsan não justifica ignorar a sua atual classificação de segurança baixa. O planeamento tem de considerar tanto as vulnerabilidades existentes como as mudanças possíveis.
Usar melhor a água antes de construir mais
Han Hye-jin, investigadora sénior responsável pelo estudo, recomenda reduzir os custos irrecuperáveis e melhorar a capacidade de adaptação, dada a elevada incerteza climática. Custos irrecuperáveis são despesas já realizadas que dificilmente podem ser recuperadas, uma preocupação quando se constroem grandes infraestruturas com base em pressupostos que mais tarde se revelam errados.
As medidas que propõe como ponto de partida são a gestão da procura, a reutilização de esgotos e águas residuais e a revisão das licenças de captação de água à luz do consumo efetivo. Estas medidas centram-se em aproveitar melhor a água já disponível. Han recomenda uma análise cuidadosa da construção de novas barragens, diques e albufeiras, em vez de tratar a construção como resposta automática.
Os investigadores defendem também um quadro nacional de planeamento que possa ser revisto à medida que as condições e os dados se alteram. A recomendação procura conciliar a coerência nacional com a necessidade de avaliar as diferenças entre bacias:
«É necessário desenvolver um cenário nacional de referência para as perspetivas de gestão da água e estabelecer um mapa nacional dos riscos climáticos e hídricos», afirmaram os investigadores.
Uma perspetiva nacional atualizada periodicamente poderia dar às entidades públicas uma base comum para comparar as necessidades futuras. Um mapa dos riscos climáticos e hídricos poderia ajudar a identificar onde essas necessidades se concentram. Estas propostas são recomendações do estudo; não está definida uma data para a sua adoção, uma decisão de financiamento ou um calendário para a elaboração do mapa.
A conclusão central é, por isso, mais específica do que uma previsão de escassez generalizada no país. Os pressupostos climáticos podem alterar a distribuição geográfica do risco hídrico e a despesa necessária para cumprir um objetivo de segurança já estabelecido. Os dados oficiais apontam sobretudo para a bacia do Geum, mas a divergência entre os relatos regionais e o âmbito limitado da modelização-piloto tornam menos certas as previsões precisas.
Principais pontos
- O KEI estima necessidades anuais de redução do défice de 38,72 milhões de metros cúbicos no cenário UA65 e 64,22 milhões no UA95.
- As estimativas oficiais de custos são de aproximadamente 617,2 mil milhões a 991,9 mil milhões de won, e não os 1,16 biliões de won indicados noutro relato.
- A bacia do Geum representa cerca de 83,6% do défice UA95 e exige um investimento estimado de 782,4 mil milhões de won.
- O resumo oficial prevê menores necessidades de investimento no Yeongsan, ao contrário de um relato que aponta para um aumento.
- A escassez mediana prevista para 2030 é de cerca de 33,7 milhões de toneladas, quase oito vezes superior ao valor de referência de 4,27 milhões de toneladas.
- O projeto-piloto usa um modelo e duas trajetórias climáticas; o KEI alerta para que as estimativas não sejam tratadas como previsões precisas.
- Os investigadores recomendam um melhor aproveitamento da água existente, um planeamento flexível por bacia e uma perspetiva nacional atualizada regularmente.






