Os campos de gás de Jawzjan abastecem a indústria afegã, enquanto os riscos de poluição e para os recursos hídricos são alvo de escrutínio

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Jawzjan Gas Fields Supply Afghan Industry as Water and Pollution Risks Draw Scrutiny

Quatro campos de gás abastecem a produção de eletricidade e fertilizantes

Quatro campos de gás natural na província de Jawzjan, no norte do Afeganistão, produzem cerca de 650 000 metros cúbicos por dia, segundo Akhtar Mohammad Mansour, responsável pela Afghan Gas Enterprise. Dois grandes clientes recebem, em conjunto, cerca de 600 000 metros cúbicos: a empresa estatal Mazar-i-Sharif Fertiliser and Power Company recebe 400 000 para a produção de fertilizantes, enquanto a Bayat Power recebe 200 000 para a produção de eletricidade.

Índice
  1. Quatro campos de gás abastecem a produção de eletricidade e fertilizantes
  2. Destino do fornecimento diário de gás
  3. Os riscos ambientais vão além dos poços
  4. O que as salvaguardas realmente preveem
  5. O tratamento do enxofre é uma questão técnica central
  6. Os números da produção precisam de datas e contexto
  7. Décadas de infraestruturas e planos por concluir
  8. A monitorização é mais importante do que as classificações de risco
  9. Pressões sobre a água, salários e experiências locais
  10. Pontos principais

Os números mostram até que ponto a extração de gás está ligada à atividade industrial e ao fornecimento de eletricidade. Revelam também uma diferença de cerca de 50 000 metros cúbicos entre a produção declarada e as entregas a esses dois clientes. Mansour não especificou como é distribuída essa quantidade. Como os números são aproximados, a diferença não pode ser considerada prova de desperdício, fugas ou excedente de oferta.

Mansour afirma que a extração em Khwaja Gogerdak, Yatimtaq, Jarqduq e Shakarak prossegue regularmente, sendo o gás tratado antes de ser transportado por gasodutos. Há sete poços ativos em Yatimtaq, onde trabalham cerca de 850 engenheiros e trabalhadores.

O especialista em exploração de gás Maiwand Arya alerta que os benefícios exigem atenção continuada à água, ao solo, ao ar e a outros riscos ambientais ao longo de todas as fases de prospeção, perfuração, extração e transporte. Os documentos oficiais do projeto dão uma visão mais detalhada das salvaguardas previstas na fase de produção de eletricidade. Esses documentos antecipam riscos controláveis, mas também preveem monitorização, controlo de resíduos e medidas corretivas. Não demonstram que os quatro campos de extração estejam atualmente a cumprir todos os requisitos ambientais.

Destino do fornecimento diário de gás

A empresa de fertilizantes recebe o dobro do volume fornecido à Bayat Power. De acordo com os números de Mansour, a sua quota representa cerca de 61,5% da produção diária dos campos, enquanto a da Bayat corresponde a cerca de 30,8%. Em conjunto, os dois clientes identificados representam aproximadamente 92,3% dos 650 000 metros cúbicos declarados.

Estas percentagens referem-se a volumes de gás, não ao valor económico relativo da produção de fertilizantes e de eletricidade. O gás fornecido a uma fábrica de fertilizantes serve um processo industrial diferente daquele em que é queimado para produzir eletricidade. As entregas comunicadas também não permitem determinar quanto fertilizante ou eletricidade as empresas produzem efetivamente.

Mansour afirma que a Bayat recebe gás ao abrigo de um contrato. A avaliação do projeto previa a venda de eletricidade à Da Afghanistan Breshna Sherkat, a empresa nacional de serviços públicos, ao abrigo de um contrato de compra de energia com a duração de 20 anos. Esse acordo liga a infraestrutura de extração de Jawzjan à rede elétrica mais ampla, e não apenas às famílias que vivem perto dos poços.

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Os riscos ambientais vão além dos poços

Arya identifica potenciais riscos de poluição da água e do ar, poluição sonora e luminosa, subsidência do solo, alterações climáticas e perda de biodiversidade. A subsidência do solo consiste no afundamento ou abatimento da superfície terrestre. O alerta abrange toda a cadeia de produção de gás, não apenas o momento em que este é extraído de um poço.

Arya distingue também a poluição do consumo de recursos. As águas subterrâneas e superficiais podem ser contaminadas, enquanto o uso de água pode exercer uma pressão adicional sobre os recursos locais. O solo pode ser poluído ou degradado por atividades relacionadas. Trata-se de efeitos potenciais que, segundo Arya, exigem atenção, não de constatações de que já tenham ocorrido todos em Jawzjan.

A avaliação ambiental da Bayat, publicada pelo Banco Mundial, identifica várias vias concretas de poluição no projeto de produção de eletricidade proposto. Durante a construção, os resíduos líquidos poderão incluir águas pluviais contaminadas, águas residuais sanitárias, subprodutos químicos e fluidos de máquinas. O documento alerta que estes resíduos poderão poluir o solo, as águas superficiais e as águas subterrâneas se não forem devidamente contidos, limpos e eliminados.

A avaliação identifica também os gases de escape dos veículos, as máquinas de construção e as poeiras como preocupações para a qualidade do ar. A iluminação, o tráfego, a remoção da vegetação, o ruído e os derrames acidentais poderão afetar habitats e espécies. As conclusões dizem respeito ao projeto de produção de eletricidade da Bayat e não devem ser interpretadas como uma investigação ambiental concluída dos quatro campos de gás em produção.

O que as salvaguardas realmente preveem

Mansour afirma que os técnicos monitorizam a extração e respondem a problemas com os equipamentos. Diz também que foram feitas avaliações antes do início da extração e que as distâncias em relação às zonas residenciais foram determinadas segundo as normas ambientais. Khwaja Gogerdak e Yatimtaq ficam a cerca de 15 quilómetros de zonas residenciais, afirma, enquanto Jarqduq e Shakarak ficam a cerca de 20 quilómetros.

A avaliação da Bayat situa o projeto de produção de eletricidade em Yatimtaq, aproximadamente 20 quilómetros a leste de Sheberghan e perto dos campos de gás de Yatimtaq e Jarquduk. Uma passagem refere que as zonas residenciais mais próximas ficam a mais de 15 quilómetros. Outra descreve as zonas residenciais e agrícolas mais próximas como estando a mais de 12 quilómetros, a oeste e a norte. O documento apresenta, portanto, descrições diferentes das distâncias, e nenhuma delas deve substituir um mapa atual e verificado dos locais de extração.

A avaliação classificou como baixos ou médios os impactos ambientais e sociais do projeto e considerou que os efeitos cumulativos sobre as águas residuais, os resíduos sólidos e perigosos e os recursos hídricos seriam muito reduzidos. Estas eram previsões feitas durante a avaliação do projeto, não medições que provem a ausência de poluição durante a operação.

As recomendações vão além de manter as habitações afastadas. O documento exige medidas de mitigação para todos os potenciais impactos identificados, incluindo os classificados como baixos, e monitorização capaz de detetar problemas inesperados.

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O tratamento do enxofre é uma questão técnica central

Mansour afirma que as substâncias nocivas são separadas do gás e queimadas antes de este chegar aos consumidores. Não identifica as substâncias, não descreve os equipamentos de tratamento nem fornece medições das emissões resultantes dessa queima.

A visão geral setorial do projeto de Mazar, do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), fornece um importante pormenor técnico: o gás dos campos de Sheberghan é descrito como ácido, com níveis elevados de enxofre, e necessita de tratamento numa unidade de aminas. O gás ácido contém compostos de enxofre que têm de ser removidos para cumprir os requisitos de segurança e qualidade do combustível. Uma unidade de aminas utiliza uma solução química para separar os gases indesejados do combustível utilizável.

O documento do ADB descreve uma unidade de tratamento financiada pelo Governo dos Estados Unidos em 2014, com capacidade para um milhão de metros cúbicos por dia. Na altura da avaliação, funcionava a 20% da capacidade e precisava de ser otimizada. Previa-se que os trabalhos de calibração terminassem no segundo trimestre de 2020. Estes números históricos não permitem determinar o seu caudal atual nem o desempenho do tratamento.

A separação dos contaminantes protege o fornecimento de gás, mas a queima das substâncias separadas constitui outro processo que exige controlo ambiental. Nem o relato de Mansour nem as informações sobre o projeto permitem determinar a quantidade ou a composição atuais das emissões dessa atividade. A distinção é importante: o tratamento antes da entrega e o controlo das emissões durante o tratamento são responsabilidades distintas.

Os números da produção precisam de datas e contexto

A visão geral do ADB descrevia os campos de Sheberghan como tendo potencial para fornecer 500 000 metros cúbicos por dia. A produção declarada por Mansour, de 650 000 metros cúbicos, é superior em 150 000, ou seja, 30% face àquele número anterior. Trata-se de uma comparação entre uma estimativa anterior do potencial e um volume de produção declarado posteriormente, não de uma medição verificada do crescimento da produção.

O mesmo documento do ADB indicava que a capacidade de produção da Afghan Gas Enterprise era superior a 1,6 milhões de metros cúbicos por dia. A capacidade é a quantidade que uma operação poderá produzir em determinadas condições; a produção efetiva é o que produz. Esse valor relativo à empresa não pode ser confundido com a produção diária dos quatro campos identificados em Jawzjan.

O ADB referiu ainda reservas de gás identificadas de 75 mil milhões de metros cúbicos no Afeganistão e uma estimativa de 444 mil milhões de metros cúbicos de recursos não descobertos, tecnicamente recuperáveis, no norte do país. Os recursos não descobertos são estimativas de gás que poderá ser encontrado e extraído com a tecnologia disponível, não reservas confirmadas prontas para venda.

Uma descrição anterior do projeto da Bayat estimava em 15,7 biliões de pés cúbicos, aproximadamente 445 mil milhões de metros cúbicos, os recursos de gás da região norte. A escala é semelhante à da estimativa de recursos do ADB, mas isso não demonstra que os documentos tenham usado exatamente os mesmos limites geográficos ou definições de recursos.

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Décadas de infraestruturas e planos por concluir

O fornecimento atual de Jawzjan assenta em infraestruturas desenvolvidas ao longo de décadas. A visão geral do ADB situa em 1967 o início da exploração de gás natural em Khwaja Gogerdak e descreve um gasoduto de 89 quilómetros, construído em 1974, que abastece a fábrica de fertilizantes e produção de eletricidade do Norte e outros clientes.

O documento afirmava que esse gasoduto não conseguia suportar a pressão de gás necessária para o projeto de produção de eletricidade de Mazar. Estava em construção um novo gasoduto de 94,5 quilómetros entre Sheberghan e Mazar, dos quais 45 quilómetros estavam concluídos, e previa-se que as obras terminassem até ao final de 2020. Essa era uma data prevista num plano anterior, não uma confirmação de que o gasoduto tenha sido concluído.

Os principais marcos mostram como a extração, a regulação e o investimento na produção de eletricidade evoluíram em conjunto:

  • 1967: Início da exploração de gás natural em Khwaja Gogerdak.
  • 1974: Construção do gasoduto existente, com 89 quilómetros.
  • 2009: O Afeganistão adotou a sua primeira lei dos hidrocarbonetos.
  • 2013: O ADB apoiou a reabilitação de poços em Sheberghan, incluindo em Yatimtaq, e os trabalhos de elaboração de um plano diretor para o desenvolvimento do gás.
  • Outubro de 2016: A Bayat Energy assinou um memorando de entendimento com o Governo afegão.
  • Abril de 2018: A Bayat obteve aprovação para a primeira fase do projeto e assinou um contrato de compra de energia que abrange 40 megawatts.
  • Setembro de 2018: A lei dos hidrocarbonetos foi alterada.
  • Março de 2019: Uma autoridade independente para o petróleo e o gás iniciou oficialmente funções ao abrigo da lei alterada.

O plano de desenvolvimento original da Bayat previa três fases, um investimento estimado em 250 milhões de dólares e uma capacidade final superior a 200 megawatts. Previa-se que a primeira fase começasse a funcionar em 2019. A capacidade proposta das turbinas, de 41 megawatts, e os 40 megawatts abrangidos pelo contrato de compra de eletricidade eram indicadores distintos. O plano não demonstra que as três fases tenham sido construídas nem que a capacidade total proposta esteja atualmente em funcionamento.

A monitorização é mais importante do que as classificações de risco

A avaliação da Bayat define controlos específicos que sustentam as classificações de risco baixo e médio. Prevê auditorias ambientais, sociais, de saúde e segurança trimestrais durante a construção e anuais durante a operação. Propõe inspeções semanais das águas residuais durante a construção, que passariam a mensais durante a operação, com análises do solo e da água sempre que necessário.

Para as emissões atmosféricas durante a operação, a avaliação exige a modelação da dispersão dos poluentes nas proximidades da central e prevê que as emissões das chaminés cumpram as normas da Corporação Financeira Internacional para óxidos de azoto, monóxido de carbono e partículas. Estes poluentes podem afetar a qualidade do ar, pelo que as medições efetivas durante a operação são importantes, a par das especificações de conceção dos equipamentos.

O documento aborda também a exposição dos trabalhadores. Estimou em 83 a 87 decibéis o ruído da construção a uma distância de 10 metros e recomendou proteção auditiva para os trabalhadores que estejam nas proximidades. Separadamente, cita valores de referência para o ruído residencial de 55 decibéis durante o dia e 45 à noite, medidos como média ao longo de uma hora. As estimativas do ruído da construção junto às máquinas não equivalem a medições do ruído numa aldeia.

Segundo a avaliação, foi também criado um mecanismo de reclamações, com comissões locais que incluem representantes das aldeias num raio de 15 quilómetros; as queixas não resolvidas seriam encaminhadas para uma comissão provincial. Estes relatos não comprovam a existência de resultados atuais de auditorias, medições de emissões ou decisões sobre reclamações.

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Pressões sobre a água, salários e experiências locais

A avaliação ambiental situa o projeto numa região sujeita a pressões mais amplas sobre os recursos hídricos. Refere um aumento de 0,6 graus Celsius na temperatura média anual do Afeganistão desde 1960 e prevê uma subida adicional de 1,4 a 4 graus até 2060. Quanto ao norte do Afeganistão, descreve uma diminuição da precipitação média a longo prazo, a par de secas e inundações mais frequentes.

Estas projeções não provam que a extração de gás tenha provocado uma escassez local de água. Explicam por que motivo as preocupações de Arya quanto ao consumo de água merecem atenção, a par da contaminação. A avaliação descreve também depósitos alternados de cascalho, areia, limo e argila na zona do projeto, reforçando a necessidade de análises do solo e da água específicas para cada local, em vez de pressupostos baseados apenas na distância em relação às habitações.

Os trabalhadores descrevem outro lado do setor: rendimentos e emprego. Mohammad, de 45 anos, que trabalha no setor do gás há mais de um ano, afirma que os funcionários verificam os equipamentos antes dos turnos e devem manter-se atentos enquanto as máquinas, os veículos e os poços funcionam continuamente. Descreve os poços como essenciais para o sustento das famílias:

Para nós, cada poço não é apenas um poço; é a esperança de uma família.

Aziz, de 50 anos, afirma que a perfuração, a inspeção, a extração, o transporte e o tratamento envolvem muitos trabalhadores, técnicos e engenheiros. Defende um maior investimento e a criação de mais empregos para os residentes locais. Os cerca de 850 trabalhadores e engenheiros referidos em Yatimtaq não devem ser somados à estimativa de aproximadamente 70 postos de trabalho na construção constante da avaliação da Bayat, uma vez que os números dizem respeito a atividades e períodos diferentes.

Qurban Murad, residente nas proximidades, afirma que o gás ajudou a satisfazer as necessidades energéticas quotidianas e que não observou qualquer problema de saúde específico atribuível à extração. Rozi, residente em Yatimtaq, também descreve benefícios para as necessidades e os meios de subsistência das famílias. Os seus relatos são pertinentes, mas as observações pessoais não substituem a vigilância médica nem as análises ambientais.

O balanço imediato opõe, assim, um fornecimento industrial documentado a salvaguardas cujos resultados atuais não estão estabelecidos. Mansour relata uma produção regular e supervisão técnica; Arya identifica riscos que exigem atenção continuada; e a avaliação da Bayat especifica medidas de monitorização e correção. Nestes relatos, não foi anunciado qualquer nova audição, prazo para inspeções ou data de divulgação dos resultados ambientais atuais.

Pontos principais

  • Segundo os dados divulgados, quatro campos de gás de Jawzjan produzem cerca de 650 000 metros cúbicos por dia.
  • A empresa de fertilizantes de Mazar recebe cerca de 400 000 metros cúbicos e a Bayat Power cerca de 200 000 metros cúbicos por dia.
  • Segundo a Afghan Gas Enterprise, Yatimtaq tem sete poços ativos e cerca de 850 engenheiros e trabalhadores.
  • Entre os riscos potenciais contam-se a poluição da água e do solo, as emissões atmosféricas, o ruído, a subsidência e a perda de biodiversidade.
  • A avaliação da Bayat prevê impactos baixos ou médios no projeto, mas exige medidas de mitigação, monitorização e auditorias.
  • Documentos anteriores do ADB identificam o tratamento do enxofre e a capacidade dos gasodutos como importantes limitações técnicas.
  • Trabalhadores e residentes relatam benefícios económicos, mas não estão estabelecidas medições ambientais nem conclusões de auditorias atuais.
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