Uma indústria siderúrgica maior, com um desafio crescente em matéria de carbono
A Índia publicou o projeto da Visão 2047 da Política Nacional do Aço para consulta pública, estabelecendo uma meta de capacidade anual de produção de aço de 604 milhões de toneladas, face às cerca de 220 milhões de toneladas atuais. O roteiro prevê uma procura de aço acabado de 505 milhões de toneladas, uma produção de aço bruto de 531 milhões de toneladas e exportações de 45 milhões de toneladas até 2047.
Índice
- Uma indústria siderúrgica maior, com um desafio crescente em matéria de carbono
- O que pressupõe a meta de 604 milhões de toneladas
- Como o novo roteiro altera a política de 2017
- A dependência do carvão de coque torna-se um risco maior
- A segurança do abastecimento de minério de ferro depende do teor e do transporte
- Uma menor intensidade de emissões não significa uma redução absoluta
- Pequenos produtores poderão beneficiar de um regime de incentivos próprio
- Aço especial, tecnologia e unidades mais seguras
- As exportações e a consulta deixam decisões em aberto
- Pontos principais
A expansão exigiria muito mais matérias-primas. O Ministério do Aço prevê que as necessidades anuais de minério de ferro atinjam 772 milhões de toneladas e que a procura de carvão de coque suba para 236 milhões de toneladas. A Índia é, em grande medida, autossuficiente em minério de ferro, mas importa cerca de 92% do carvão de coque que consome, o que torna a segurança do abastecimento de combustível um desafio central.
O projeto procura também reduzir as emissões médias de dióxido de carbono por tonelada de aço bruto, de 2,54 toneladas para cerca de 1,54 toneladas até 2047. Trata-se de uma redução de aproximadamente 39%, em linha com uma transição mais longa para o objetivo nacional da Índia de atingir a neutralidade carbónica em 2070.
Uma produção mais limpa por tonelada não significa, porém, emissões totais mais baixas. Multiplicando a produção prevista pela intensidade de emissões pretendida, obtêm-se emissões anuais de cerca de 818 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2047, face a aproximadamente 432 milhões de toneladas com base nos valores de produção atuais. Assim, a política combina uma melhoria significativa da eficiência da produção com uma trajetória que poderá quase duplicar as emissões anuais do setor.
O que pressupõe a meta de 604 milhões de toneladas
A meta de capacidade representa um aumento de 384 milhões de toneladas, ou cerca de 175%, face ao nível atual. A capacidade corresponde ao que as instalações podem produzir, e não à sua produção efetiva. O projeto pressupõe uma utilização média da capacidade de 88%, face a 77% em 2025. Aplicar 88% a 604 milhões de toneladas resulta em aproximadamente 531 milhões de toneladas de aço bruto, em linha com a projeção de produção.
A previsão da procura assenta num crescimento anual do produto interno bruto de cerca de 7%. Ambos os pressupostos são importantes: a construção de altos-fornos e laminadores, por si só, não permitiria alcançar a produção prevista sem um aumento da procura e das taxas de funcionamento. O ministério tenciona rever as projeções da procura aproximadamente de cinco em cinco anos.
Prevê-se que a procura de aço acabado aumente de 164 milhões de toneladas em 2025-2026 para 505 milhões de toneladas até 2047, mais de três vezes o nível atual. O consumo per capita subiria de 116 quilogramas para 302 quilogramas. O valor atual é inferior à média mundial de 209 quilogramas, enquanto a meta para 2047 ultrapassa essa referência atual.
A construção e as infraestruturas representam cerca de 67% do consumo interno de aço. Os setores automóvel e de bens de engenharia, os eletrodomésticos e as embalagens contribuem com outros 28%. Em conjunto, estas categorias representam cerca de 95% do consumo, ligando estreitamente as perspetivas da procura à atividade de construção e à indústria transformadora.
A capacidade, a produção de aço bruto e a procura de aço acabado são indicadores diferentes. O aço bruto é a produção inicial, antes de ser transformado em produtos acabados. Por isso, os principais valores apresentados no projeto não devem ser tratados como quantidades equivalentes.
Como o novo roteiro altera a política de 2017
O projeto destina-se a substituir a Política Nacional do Aço de 2017, que estabelecia uma meta de capacidade de produção de 300 milhões de toneladas e um consumo per capita de 160 quilogramas por volta de 2030. A nova política alarga o horizonte de planeamento até 2047 e dá maior atenção às emissões, à inteligência artificial, ao desenvolvimento tecnológico e à segurança das matérias-primas.
O secretário do Aço, Sandeep Poundrik, afirmou que era necessário reavaliar o quadro anterior à medida que as necessidades do setor mudavam. Ao explicar a razão da atualização, disse que a política de 2017:
precisava de ser reavaliada
A evolução da produção ajuda a explicar a revisão. A produção de aço bruto aumentou de cerca de 89 milhões de toneladas no ano financeiro de 2014-2015 para 170 milhões de toneladas em 2025-2026, uma subida de cerca de 91%. O consumo de aço acabado passou de 77 milhões de toneladas para 164 milhões de toneladas, um aumento de aproximadamente 113%. A quota da Índia na produção mundial de aço bruto cresceu de 5,2% em 2014 para cerca de 8,9% em 2025.
Os relatos divergem quanto à datação de alguns valores de referência. O valor de 170 milhões de toneladas de produção é apresentado tanto como um valor de 2025 como como a produção do ano financeiro de 2025-2026. Uma das fontes situa em 2030 a projeção intermédia de capacidade do projeto, de 294 milhões de toneladas; outra situa-a no ano financeiro terminado em 2031. A meta anterior de 300 milhões de toneladas é igualmente apresentada como aplicável a 2030 ou a 2030-2031.
Os principais marcos são:
- 2014-2015: a produção de aço bruto foi de cerca de 89 milhões de toneladas e o consumo de aço acabado foi de 77 milhões de toneladas.
- 2017: a anterior Política Nacional do Aço estabeleceu uma meta de capacidade de 300 milhões de toneladas por volta de 2030.
- 2025-2026: a produção terá atingido 170 milhões de toneladas e o consumo de aço acabado, 164 milhões de toneladas.
- 2030 ou ano financeiro terminado em 2031: o novo roteiro prevê uma capacidade de 294 milhões de toneladas.
- 2047: a capacidade pretendida atinge 604 milhões de toneladas, com uma produção prevista de aço bruto de 531 milhões de toneladas.
- 2070: o objetivo nacional da Índia de atingir a neutralidade carbónica define o horizonte climático de mais longo prazo.
A dependência do carvão de coque torna-se um risco maior
Prevê-se que a procura anual de carvão de coque aumente de 72 milhões de toneladas para 236 milhões de toneladas até 2047, cerca de 3,3 vezes as necessidades atuais. O carvão de coque é transformado em coque, que fornece calor e ajuda a remover o oxigénio do minério de ferro na produção convencional de aço em alto-forno.
A Índia importa cerca de 92% das suas necessidades, sobretudo da Austrália, dos Estados Unidos e da Rússia. Como as matérias-primas representam 65% a 70% dos custos de produção do aço, o acesso a abastecimentos fiáveis afeta tanto a capacidade de aumentar a produção como o custo do aço produzido.
O ministério propõe uma combinação de exploração mineira nacional, expansão da lavagem de carvão, aquisição de ativos no estrangeiro e acordos de abastecimento plurianuais. Os contactos internacionais procurariam diversificar os fornecedores, enquanto a inteligência artificial ajudaria a otimizar as misturas de carvão e a aumentar a utilização de carvão de coque nacional.
As instalações de lavagem existentes mostram que a capacidade instalada é apenas uma parte do problema. A capacidade operacional de lavagem de carvão de coque é de cerca de 39 milhões de toneladas por ano, mas aproximadamente 17 milhões de toneladas de carvão à entrada dão apenas cerca de 6 milhões de toneladas de produto lavado. O projeto identifica os baixos rendimentos e a capacidade não utilizada como constrangimentos.
A lavagem do carvão remove materiais indesejados antes da sua utilização. O volume de carvão à entrada equivale a aproximadamente 44% da capacidade operacional de lavagem, enquanto o produto lavado representa cerca de 35% do volume de entrada. São indicadores distintos: utilizar mais da capacidade disponível e recuperar mais carvão utilizável de cada tonelada de matéria-prima resolveria problemas diferentes.
A segurança do abastecimento de minério de ferro depende do teor e do transporte
Prevê-se que a procura de minério de ferro aumente das atuais 299 milhões de toneladas para 772 milhões de toneladas até 2047, uma subida de cerca de 158%. Embora a Índia seja, em grande medida, autossuficiente neste minério, o projeto assinala uma deterioração da qualidade das suas reservas.
A proporção de minério de alto teor nas reservas caiu de 70% no ano financeiro de 2018-2019 para 46% em 2021-2022. É uma descida de 24 pontos percentuais. A qualidade do minério é importante porque o material com menos ferro exige, em geral, mais processamento para produzir um insumo adequado à produção de aço.
A política propõe garantir o acesso a reservas de alto teor através de ativos no estrangeiro e de empresas comuns. Inclui também o manganês, o calcário e outros insumos essenciais no planeamento de recursos, em vez de tratar o minério de ferro e o carvão como as únicas preocupações de abastecimento do setor.
O transporte é outro elemento do plano. O projeto prevê a expansão de condutas de transporte de polpa mineral para deslocar minério de ferro e carvão de coque, apoiada por financiamento público para cobrir défices de viabilidade e por um mecanismo único de aprovação. Estas condutas transportam material finamente triturado misturado com água. O financiamento para cobrir défices de viabilidade é um apoio público destinado a permitir o avanço de projetos de infraestruturas quando os rendimentos comerciais esperados, por si só, não são suficientes.
Uma menor intensidade de emissões não significa uma redução absoluta
O setor siderúrgico representa cerca de 10% a 12% das emissões de dióxido de carbono da Índia. A sua intensidade média de emissões, de 2,54 toneladas de dióxido de carbono por tonelada de aço bruto, é aproximadamente 32% superior à média mundial indicada, de 1,92 toneladas.
A meta para 2047, de 1,54 toneladas, ficaria cerca de 20% abaixo dessa atual referência mundial. Esta comparação mede a dimensão da melhoria pretendida, não a provável posição da Índia em 2047, altura em que os métodos de produção de outros países também poderão ter mudado.
O projeto delineia uma transição que começa pela eficiência energética e pela eletricidade renovável, seguida da gaseificação do carvão, da produção de ferro de redução direta com hidrogénio verde e, por fim, da captura, utilização e armazenamento de carbono. Apela também a uma maior utilização de sucata e ao desenvolvimento de infraestruturas nacionais para o seu processamento.
O ferro de redução direta é produzido através da remoção do oxigénio do minério de ferro sem o fundir num alto-forno convencional. O hidrogénio produzido com eletricidade renovável pode substituir os agentes redutores à base de carbono nesse processo. Os sistemas de captura de carbono recolhem o dióxido de carbono para armazenamento ou utilização, em vez de permitirem a sua libertação para a atmosfera.
O projeto não especifica uma meta absoluta de emissões. Com base nos valores de produção e intensidade apresentados, o cálculo atual é de 170 milhões de toneladas de aço bruto multiplicadas por 2,54, o que resulta em 431,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Para 2047, o cálculo é de 531 milhões de toneladas multiplicadas por 1,54, o que resulta em 817,7 milhões de toneladas.
Isso representa um aumento de cerca de 89%. Esta distinção é fundamental para avaliar o roteiro: o setor poderá cumprir a meta de intensidade de emissões enquanto as suas emissões anuais totais continuam a crescer. As tecnologias propostas tornariam a produção mais limpa por tonelada, mas, segundo os cálculos do projeto, o aumento muito significativo da produção anularia essa melhoria.
Pequenos produtores poderão beneficiar de um regime de incentivos próprio
O setor secundário do aço abrange cerca de 2550 unidades e representa quase 47% da capacidade de produção de aço bruto. A sua dimensão significa que, para cumprir a meta nacional de emissões, as atualizações tecnológicas não podem limitar-se às maiores unidades integradas.
O projeto promete apoio no acesso a matérias-primas, na melhoria da tecnologia, nas competências e na segurança. Na Conferência de Produção de 2026 da Confederação da Indústria Indiana, Poundrik falou também de uma iniciativa proposta, Viksit Bharat Ispat, dotada de 5000 crore de rupias, o equivalente a 50 mil milhões de rupias.
O regime proposto concederia incentivos aos pequenos produtores de aço em função da produção e das reduções das emissões de carbono. A melhoria da tecnologia, a utilização de melhores matérias-primas e o maior recurso a energias renováveis seriam formas de alcançar essas reduções. O regime aguardava aprovação quando foi anunciado, pelo que a dotação proposta não deve ser tratada como financiamento já concedido.
Quanto aos produtores de maior dimensão, Poundrik indicou que estava a ser preparado para publicação um Regime de Comércio de Créditos de Carbono. Seria uma via política diferente dos incentivos diretos destinados às unidades mais pequenas. As regras definitivas, as datas de implementação e as condições de elegibilidade destas medidas não estão estabelecidas nos anúncios divulgados.
Aço especial, tecnologia e unidades mais seguras
O roteiro pretende expandir a produção nacional de aço especial e inoxidável, promover polos industriais que transformem aço noutros produtos, agregar a procura e criar Centros de Excelência. Estas medidas visam desenvolver capacidades, além de aumentar a produção em toneladas.
Poundrik afirmou que estavam em curso 175 projetos de aço especial, envolvendo investimentos de 55 000 crore de rupias, ou 550 mil milhões de rupias. Estas qualidades especiais são utilizadas em setores como o automóvel, a defesa e a indústria aeroespacial, nos quais as propriedades e a consistência dos materiais podem ser tão importantes como o volume.
O projeto apela também ao desenvolvimento de tecnologia nacional, à adoção de normas comuns para os dados, à criação de infraestruturas digitais e a uma utilização mais ampla da inteligência artificial e de sistemas de produção autónomos. A revisão das normas indianas e dos mecanismos de avaliação da conformidade serviria para melhorar a qualidade dos produtos, atualizando os requisitos e verificando se o aço os cumpre.
As medidas de segurança incluem um Conselho de Segurança da Indústria do Aço, avaliações periódicas das lacunas de competências e o reforço das instituições de formação. O projeto propõe ainda uma Direção de Segurança com jurisdição sobre todos os produtores de ferro e aço.
Os relatos divergem quanto ao estado do conselho. As notícias que descrevem o projeto apresentam-no como uma proposta, enquanto as declarações de Poundrik referem um conselho já formalmente criado e presidido pelo secretário do Aço. Segundo esta última versão, o conselho inclui dirigentes de unidades siderúrgicas integradas e representantes de produtores mais pequenos, sendo responsável por procedimentos operacionais e investigações independentes após acidentes.
As exportações e a consulta deixam decisões em aberto
A Índia tornou-se um pequeno exportador líquido de aço acabado em 2025-2026. As importações caíram cerca de 32%, para 6,5 milhões de toneladas, enquanto as exportações subiram aproximadamente 36%, para 6,6 milhões de toneladas. As exportações superaram as importações em apenas 0,1 milhões de toneladas, pelo que a meta de exportação de 45 milhões de toneladas representa um aumento substancial face ao nível atual.
Há também diferenças na forma como a ambição de exportação foi descrita. As notícias sobre o projeto da política indicam uma meta de 45 milhões de toneladas de exportações de aço. Nas suas declarações anteriores, Poundrik admitiu que as exportações poderiam consistir em aço acabado ou em aço incorporado em produtos transformados. Estas categorias não são idênticas, pelo que o quadro definitivo terá de estabelecer definições coerentes para medir os progressos.
O ministério propõe acompanhar as importações com recurso à inteligência artificial e manter as medidas comerciais contra importações fora das normas. Entre as medidas possíveis discutidas estão as salvaguardas e os direitos anti-dumping. Mais de 60% das importações de aço provêm de países com os quais a Índia tem acordos de comércio livre, pelo que os compromissos comerciais também fazem parte do contexto da política.
Poundrik disse ainda que o ministério estava a analisar a quota de 1,6 milhões de toneladas de aço da União Europeia atribuída à Índia antes de contactar os governos relevantes. O acesso para diferentes qualidades de produto é importante, além do volume total da quota, porque a capacidade de exportação da Índia varia entre categorias.
O projeto encontra-se agora em fase de consulta, não sendo ainda uma política final adotada. As declarações anteriores, segundo as quais a publicação era esperada dentro de dias, antecederam a sua divulgação. Os detalhes noticiados não indicam qualquer data confirmada para o encerramento da consulta ou para a adoção final. As revisões previstas aproximadamente de cinco em cinco anos permitiriam ajustar as previsões da procura à medida que evoluem o crescimento económico, a tecnologia e as condições comerciais.
Pontos principais
- A Índia pretende atingir uma capacidade anual de produção de aço de 604 milhões de toneladas até 2047, face às cerca de 220 milhões de toneladas atuais.
- O projeto prevê uma produção de aço bruto de 531 milhões de toneladas e uma procura de aço acabado de 505 milhões de toneladas.
- A procura de minério de ferro poderá atingir 772 milhões de toneladas e a de carvão de coque, 236 milhões de toneladas.
- A Índia importa cerca de 92% das suas necessidades de carvão de coque.
- Pretende-se reduzir a intensidade de emissões de 2,54 para 1,54 toneladas de dióxido de carbono por tonelada de aço bruto.
- A produção e a intensidade projetadas implicam emissões anuais de cerca de 818 milhões de toneladas, face às aproximadamente 432 milhões de toneladas atuais.
- Um regime proposto, dotado de 5000 crore de rupias, associaria o apoio aos pequenos produtores à produção e à redução das emissões.
- A política continua a ser um projeto em consulta, estando prevista a revisão das projeções da procura aproximadamente de cinco em cinco anos.






