Um ano de poderes de emergência, com reservas de combustível para 45 dias
As Filipinas declararam uma emergência energética nacional com a duração de um ano, enquanto a guerra que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irão perturba os envios de combustível através do estreito de Ormuz. O presidente Ferdinand Marcos Jr. procura adquirir mais um milhão de barris de petróleo, enquanto responsáveis do setor energético ponderam aumentar a produção de eletricidade a partir do carvão já a 1 de abril, para conter os custos da eletricidade.
Índice
- Um ano de poderes de emergência, com reservas de combustível para 45 dias
- O que a declaração autoriza
- Novas compras de petróleo dependem dos fornecedores e das sanções
- Apoio a passageiros, trabalhadores e produtores alimentares
- O carvão torna-se a alternativa imediata para a eletricidade
- Preços mais altos provocam protestos e inquietação nas empresas
- Porque é que as perturbações em Ormuz atingem sobretudo a Ásia
- Poupança energética na região e datas a acompanhar
- As reservas regionais são uma iniciativa distinta e de longo prazo
- O que é preciso saber
O Gabinete de Comunicações Presidenciais anunciou a declaração a 24 de março de 2026. O seu anúncio da emergência energética prevê poderes para adquirir combustível, efetuar pagamentos antecipados de maior valor quando necessário, aplicar medidas de poupança e agir contra a açambarcagem e a especulação. Determina também a prestação de assistência a passageiros, trabalhadores dos transportes, agricultores, comunidades piscatórias e filipinos afetados pelo conflito no estrangeiro.
As autoridades estimam que as reservas atuais de combustível chegam para cerca de 45 dias ao ritmo normal de consumo. Trata-se de uma margem de segurança, não de uma data garantida para o esgotamento dos abastecimentos: as entregas, o consumo e as medidas de poupança podem alterar a duração das reservas. O milhão de barris previsto aumentaria essa margem, mas ainda não foi anunciado qualquer calendário de entrega ou fornecedor confirmado.
Marcos, numa mensagem televisiva sobre os esforços para garantir abastecimentos, prometeu entregas contínuas, em vez de uma única compra:
«Teremos um fluxo de petróleo. Não apenas uma entrega, nem duas, mas um fluxo de produtos petrolíferos», afirmou.
O desafio imediato é, por isso, duplo: obter combustível suficiente para manter os transportes e os serviços essenciais em funcionamento e impedir que o aumento dos custos da energia consuma os rendimentos das famílias e perturbe as empresas. O quadro de emergência contempla ambas as frentes, embora várias medidas ainda dependam de decisões sobre financiamento, implementação ou aprovação internacional.
O que a declaração autoriza
A base jurídica é o artigo 25.º da Lei da República n.º 7638, a Lei do Departamento de Energia de 1992. Segundo o anúncio presidencial, essa disposição permite ao presidente, após uma avaliação e recomendação do secretário da Energia, declarar que o abastecimento energético está criticamente baixo ou enfrenta um perigo iminente e autorizar medidas de afetação de recursos e de poupança.
A declaração não afirma que o país já tenha esgotado as reservas de combustível. É uma resposta ao risco de as perturbações no abastecimento internacional e a subida dos preços comprometerem a disponibilidade de energia, os serviços essenciais e a atividade económica.
A ordem adota o Pacote Unificado para os Meios de Subsistência, a Indústria, a Alimentação e os Transportes, conhecido como UPLIFT. Marcos preside ao comité de coordenação, que inclui o secretário executivo e os ministros responsáveis pela energia, transportes, assistência social, agricultura, finanças, planeamento económico e orçamento.
O Departamento de Energia, a Companhia Nacional de Petróleo das Filipinas e a PNOC Exploration Corporation podem comprar combustível e produtos petrolíferos. Quando o secretário da Energia certificar que é necessário, podem efetuar pagamentos antecipados superiores a 15% do valor de um contrato. Isto dá aos compradores públicos maior flexibilidade para garantir abastecimentos durante uma perturbação do mercado, mas não significa que tenha sido assinado qualquer contrato específico.
A declaração mantém-se em vigor durante um ano a contar da sua emissão, salvo se Marcos a prolongar ou revogar. A ordem especifica que entra em vigor após publicação no Diário Oficial ou num jornal de circulação geral. As medidas contra a especulação e a manipulação do abastecimento não devem ser confundidas com a aplicação de um limite geral aos preços dos combustíveis, que ainda não aconteceu.
Novas compras de petróleo dependem dos fornecedores e das sanções
Marcos afirmou que o Governo vai adquirir um milhão de barris para complementar as reservas atuais. O embaixador das Filipinas nos Estados Unidos, Jose Manuel Romualdez, também disse que Manila procura obter isenções de Washington que permitam compras a países sujeitos a sanções norte-americanas.
Entre os potenciais fornecedores mencionados em notícias estão o Irão e a Venezuela, tendo também sido apontada a Rússia como alternativa. São possibilidades, não acordos de fornecimento confirmados. Questionado sobre a resposta de Washington ao pedido de isenção, Romualdez descreveu a questão como «um trabalho em curso».
Separadamente, os Estados Unidos aliviaram as sanções ao petróleo russo durante a crise. Essa medida não significa que todas as compras que Manila possa tentar fazer estejam autorizadas. Garantir combustível exige um vendedor autorizado, condições de pagamento e uma rota de entrega viável, além de um acordo de compra.
Segundo notícias, 98% do petróleo das Filipinas provém do Golfo. O anúncio presidencial não indica essa percentagem, mas confirma a vulnerabilidade subjacente: as Filipinas são importadoras líquidas de produtos petrolíferos e dependem fortemente de abastecimentos externos.
Apoio a passageiros, trabalhadores e produtores alimentares
A resposta de emergência vai além da compra de petróleo. O departamento dos transportes tem instruções para conceder subsídios para combustível e apoio às tarifas dos passageiros, alargar o programa de viagens gratuitas Libreng Sakay e prolongar o horário de funcionamento dos sistemas de transporte ferroviário ligeiro e metropolitano.
Deve também avaliar se portagens, taxas de aviação, taxas de aterragem e encargos semelhantes podem ser temporariamente reduzidos, suspensos ou adiados. Estas medidas estão a ser ponderadas; não significa que todas as taxas já tenham sido dispensadas.
O Governo começou a conceder 5 000 pesos, cerca de 83 dólares, a motoristas de mototáxi e a outros trabalhadores dos transportes públicos. Também foram disponibilizadas viagens de autocarro gratuitas a estudantes e trabalhadores em cidades selecionadas. Entre as outras medidas de poupança contam-se a redução dos serviços de ferry e uma semana de trabalho de quatro dias para os funcionários públicos.
O Departamento de Assistência Social e Desenvolvimento tem instruções para acelerar a ajuda a pessoas em situação de crise e prestar apoio aos meios de subsistência de trabalhadores afetados e grupos vulneráveis. As autoridades agrícolas devem proteger o abastecimento de alimentos e de fatores de produção agrícola, prestando apoio a agricultores e comunidades piscatórias. Os responsáveis pelo comércio têm a tarefa de acompanhar aumentos excessivos dos preços dos bens essenciais e apoiar as pequenas empresas.
Estas disposições reconhecem que um choque nos preços dos combustíveis tem efeitos que vão muito além das bombas de gasolina. Os custos dos transportes afetam a circulação de alimentos e outros bens, enquanto os custos operacionais mais elevados podem reduzir os rendimentos de motoristas e produtores antes mesmo de ocorrerem faltas de abastecimento.
O carvão torna-se a alternativa imediata para a eletricidade
A secretária da Energia, Sharon Garin, afirmou que as Filipinas vão recorrer temporariamente mais ao carvão, à medida que sobe o custo do gás natural liquefeito. O GNL é gás natural arrefecido até se tornar líquido para poder ser transportado por navio. As perturbações nesses envios podem encarecer o funcionamento das centrais a gás.
O carvão já representa cerca de 60% da produção de eletricidade nas Filipinas. As autoridades ponderavam aumentar a produção das centrais a carvão já a 1 de abril, procurando maximizar a utilização de carvão nacional e mantendo disponíveis importações adicionais da Indonésia.
Garin, ao explicar o efeito pretendido nas faturas de eletricidade, afirmou:
«Se conseguirmos implementar isto, pelo menos poderemos reduzir os aumentos das tarifas de eletricidade provocados pelo conflito no Médio Oriente», afirmou.
Trata-se de um objetivo condicionado, destinado a limitar os aumentos, e não de uma promessa de redução das faturas. Garin afirmou que a Indonésia não impôs restrições às importações de carvão pelas Filipinas, mas indicou também que talvez não sejam necessárias compras adicionais.
O abastecimento de gás do país enfrenta uma limitação distinta. O campo de Malampaya fornece cerca de 40% da eletricidade de Luzon, a principal ilha, e previa-se que se esgotasse dentro de poucos anos. Marcos anunciou em janeiro a descoberta de gás nas proximidades, alimentando a esperança de prolongar a produção. Não há um calendário confirmado que demonstre que a descoberta possa responder às necessidades imediatas da emergência.
Preços mais altos provocam protestos e inquietação nas empresas
Segundo notícias, os preços da gasolina e do gasóleo subiram para mais do dobro dos valores de fevereiro após o início da guerra, a 28 de fevereiro. Para os trabalhadores dos transportes, o aumento das despesas com combustível pode reduzir fortemente os rendimentos líquidos, a menos que as tarifas ou os apoios compensem a subida.
A coligação de transportes Piston planeou uma greve de dois dias para quinta e sexta-feira, na sequência da declaração. Entre as suas reivindicações estão a eliminação dos impostos sobre os combustíveis, a redução dos preços do petróleo, a introdução de controlos estatais, o aumento das tarifas e a subida dos salários. Estas exigências vão além dos subsídios e dos poderes de aquisição anunciados pelo Governo.
A coligação sindical Kilusang Mayo Uno criticou a declaração, considerando-a prova de que a administração não tinha enfrentado a crise mais cedo. Alertou também que as disposições relativas à perturbação da atividade económica poderiam restringir as greves. Esta é a interpretação da coligação, não uma conclusão estabelecida de que a ordem proíba ações sindicais.
O empresário Manuel V. Pangilinan, presidente de grandes empresas de serviços públicos, apoiou os poderes de emergência. Disse que o aumento dos custos energéticos começava a afetar as operações das empresas e defendeu que o Governo «deve ter todas as opções» disponíveis para gerir a crise.
A disputa diz respeito tanto à rapidez dos apoios como ao alcance dos poderes executivos. Os trabalhadores exigem alterações imediatas aos impostos, aos preços e aos rendimentos, enquanto o Governo está a criar um quadro para garantir abastecimentos e coordenar a assistência.
Porque é que as perturbações em Ormuz atingem sobretudo a Ásia
O estreito de Ormuz é a passagem marítima que liga o golfo Pérsico ao oceano aberto. Antes das perturbações, por ali passavam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, aproximadamente um quinto da oferta mundial. O seu encerramento ou bloqueio efetivo colocou os importadores asiáticos sob particular pressão.
A Agência Internacional de Energia estima que cerca de 80% do petróleo que normalmente atravessa o estreito se destina aos mercados asiáticos. Uma estimativa distinta aponta para uma quota da Ásia próxima dos 90% quando se contabilizam em conjunto o petróleo e o gás. Os valores dizem respeito a diferentes categorias de combustíveis e não devem ser tratados como equivalentes.
Os dados da Administração de Informação Energética dos EUA para o primeiro trimestre de 2025 indicam que, diariamente, passavam por Ormuz cerca de 5,4 milhões de barris com destino à China, pouco mais de dois milhões para a Índia, 1,7 milhões para a Coreia do Sul e 1,6 milhões para o Japão. Os restantes países asiáticos recebiam cerca de dois milhões de barris por dia, contra aproximadamente 400 000 barris destinados aos Estados Unidos.
Só o volume declarado pela China era cerca de 13,5 vezes superior ao valor dos Estados Unidos. A comparação explica a exposição desigual às perturbações nas entregas, embora os preços globais também façam subir os custos para os consumidores norte-americanos. Ser exportador líquido de petróleo não protege um país das variações dos preços internacionais.
Os membros da AIE planeiam libertar 400 milhões de barris das reservas estratégicas, a maior libertação deste tipo na história do grupo. Comparado com o fluxo habitual de 20 milhões de barris por dia através de Ormuz, esse volume equivale a cerca de 20 dias de tráfego. É uma comparação de escala, não uma previsão de quanto tempo a libertação poderá cobrir as faltas de abastecimento: são importantes o calendário, os tipos de combustível e os destinos.
Poupança energética na região e datas a acompanhar
Outros governos asiáticos estão a responder com medidas de poupança ou libertações de reservas. A Coreia do Sul lançou uma campanha nacional que apela a duches mais curtos e à utilização da bicicleta em deslocações curtas. A Tailândia e o Vietname também pediram à população que reduzisse o consumo de energia, enquanto o Japão anunciou que começaria a libertar reservas equivalentes a 30 dias de abastecimento.
O diretor executivo da AIE, Fatih Birol, alertou num evento em Camberra que a crise já ultrapassava o efeito combinado dos choques energéticos da década de 1970. Descreveu assim a ameaça à economia mundial:
«uma ameaça muito, muito grave», afirmou Birol, acrescentando que nenhum país estaria «imune aos efeitos desta crise se ela continuar a evoluir neste sentido».
A resposta das Filipinas desenrolou-se ao longo de várias datas, estando ainda pendentes decisões sobre as compras e a eletricidade:
- 28 de fevereiro de 2026: Começou a guerra, seguida de fortes aumentos dos preços dos combustíveis.
- 20 de março: O Governo estimou que as reservas de combustível restantes chegavam para cerca de 45 dias de consumo.
- 24 de março: O gabinete presidencial anunciou a emergência energética nacional e o quadro UPLIFT; as autoridades voltaram a referir reservas para cerca de 45 dias.
- 25 de março: Marcos apresentou o plano de compra de um milhão de barris, enquanto o pedido de isenções às sanções dos EUA continuava sem resposta.
- 1 de abril: As autoridades apontaram esta como a data mais próxima possível para o aumento da produção de eletricidade a partir do carvão.
A estimativa repetida de 45 dias não deve ser entendida como uma contagem decrescente fixa a partir de 20 ou 24 de março. As novas chegadas e as alterações no consumo podem mudar a cobertura das reservas. O Governo não anunciou uma data confirmada para a chegada do petróleo adicional.
As reservas regionais são uma iniciativa distinta e de longo prazo
Notícias regionais datadas de 1 de outubro descrevem conversações sobre energia da ASEAN em Manila, incluindo respostas coordenadas para o setor petrolífero e possíveis reservas partilhadas. Esses acontecimentos de outubro não devem ser confundidos com os da semana da declaração de março; o ano da notícia de outubro não é especificado.
A exposição da região é considerável. A ASEAN importa do Médio Oriente mais de metade do petróleo bruto que utiliza nas suas refinarias. Um documento de política do Centro da ASEAN para a Energia estima que uma perturbação grave poderia pôr em risco volumes de petróleo equivalentes a quase 28% do consumo final de petróleo do bloco.
Garin falou sobre a criação de reservas regionais e a possibilidade de as Filipinas acolherem futuros projetos de armazenamento. A falta de capacidade de armazenamento e de reservas dificulta a aplicação do Acordo-Quadro da ASEAN sobre Segurança Petrolífera. As notícias de outubro também referem que as refinarias chinesas suspenderam as exportações de produtos petrolíferos durante esse mês, constituindo uma pressão adicional, e distinta, sobre o abastecimento regional.
Christopher Len, investigador sénior do Instituto ISEAS-Yusof Ishak, distinguiu as reservas de emergência de uma estratégia mais abrangente durante um seminário em linha regional:
«Isto diz mais respeito à preparação para a próxima crise. Uma reserva é uma margem de segurança. Não é uma estratégia», afirmou.
A AIE prevê que, sem mudanças estruturais, a fatura das importações de energia do Sudeste Asiático possa subir de mais de 80 mil milhões de dólares em 2024 para cerca de 245 mil milhões em 2035. As ligações propostas para a Rede Elétrica da ASEAN exigiriam cerca de 27 mil milhões de dólares até 2040. Estes projetos podem reduzir a exposição futura, mas não substituem as entregas de combustível necessárias durante a atual emergência.
O que é preciso saber
- As Filipinas anunciaram uma emergência energética nacional a 24 de março de 2026, com a duração de um ano, salvo se for prolongada ou revogada.
- As autoridades estimam que as reservas de combustível chegam para cerca de 45 dias e planeiam comprar mais um milhão de barris.
- A ordem autoriza compras diretas de combustível, medidas de poupança e ações contra a açambarcagem e a especulação.
- Subsídios aos transportes, viagens gratuitas, horários ferroviários alargados e apoio a grupos vulneráveis fazem parte da resposta.
- O aumento da produção de eletricidade a partir do carvão poderá começar já a 1 de abril, mas as autoridades não garantiram a redução das faturas de eletricidade.
- Continuam por resolver as isenções às sanções dos EUA e as condições de entrega de abastecimentos alternativos de petróleo.
- O Governo está também a preparar assistência e possíveis evacuações de filipinos no Médio Oriente, onde vivem e trabalham cerca de 2,4 milhões.






