Quase sete em cada dez pessoas enfrentam privações sobrepostas
Cerca de 17,9 milhões de pessoas em Myanmar vivem em situação de pobreza multidimensional, enquanto outras 19,5 milhões correm o risco de cair nessa situação, segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgado a 8 de outubro de 2026. Em conjunto, estas estimativas correspondem a 37,4 milhões de pessoas, ou cerca de 68 por cento da população, que enfrentam dificuldades que vão além da falta de dinheiro.
Índice
- Quase sete em cada dez pessoas enfrentam privações sobrepostas
- O que mede o indicador de pobreza
- Rakhine combina pobreza generalizada com privação profunda
- Yangon mostra por que razão as taxas de pobreza não contam toda a história
- Choques económicos afetam mais de metade dos agregados familiares
- As inundações agravam a pressão sobre recursos já esgotados
- Trabalhadores ocasionais e famílias deslocadas enfrentam maiores riscos
- A saída de jovens aumenta a pressão sobre a recuperação
- Por que razão o antigo índice global não permite traçar diretamente uma evolução
- Sucessão de choques e resposta defendida pelo PNUD
- Pontos principais
O relatório Layers of Deprivation do PNUD estima que 32,6 por cento da população já vive em situação de pobreza multidimensional. O relatório analisa desvantagens sobrepostas na saúde, na educação e nas condições de vida, incluindo a possibilidade de as famílias terem acesso a cuidados médicos, habitação adequada, água potável e saneamento.
A distinção entre pobreza e vulnerabilidade é importante. As 19,5 milhões de pessoas consideradas em risco não são todas classificadas atualmente como estando em situação de pobreza multidimensional. Representam uma população numerosa cujos recursos disponíveis poderão não ser suficientes para resistir a uma nova doença, à perda de trabalho, à deslocação ou a uma catástrofe. Este grupo vulnerável supera em cerca de 1,6 milhões a população já classificada como pobre.
As carências na saúde e nas condições de vida representam mais de 80 por cento da pobreza multidimensional medida. Isto coloca o acesso a serviços e a condições de vida dignas no centro das conclusões, em vez de tratar a privação apenas como um problema de rendimentos.
Kanni Wignaraja, subsecretária-geral da ONU e diretora regional do PNUD para a Ásia e o Pacífico, descreveu as conclusões como prova de que as dificuldades estão a prejudicar a capacidade de recuperação do país.
Estamos a assistir a um nível de pobreza em Myanmar que está a corroer o próprio desenvolvimento humano. Esta é uma guerra sem vencedores. Todos estão a perder. O núcleo do país está a ser sistematicamente enfraquecido.
O que mede o indicador de pobreza
A nova análise utiliza um Índice de Pobreza Multidimensional adaptado, com base num inquérito telefónico nacional a 7.463 agregados familiares. As informações divulgadas sobre o estudo identificam 2025 como o ano do inquérito. Ao contrário de uma medida baseada apenas no rendimento, esta abordagem analisa desvantagens que ocorrem em simultâneo nos agregados familiares.
Uma família pode ter rendimentos acima do limiar de pobreza monetária e, ainda assim, não ter acesso a água potável, habitação adequada ou cuidados de saúde. Por outro lado, uma melhoria nos rendimentos não restabelece automaticamente os serviços interrompidos. Medir estas desvantagens em conjunto ajuda a distinguir quantas pessoas são pobres, até que ponto estão privadas e que necessidades estão na origem das suas dificuldades.
O PNUD afirma que as poupanças, os meios de subsistência fiáveis, o acesso a serviços e as redes de apoio social estão a desaparecer gradualmente. São estes os recursos que podem impedir que um revés temporário se transforme numa privação duradoura. A erosão destes recursos ajuda a explicar a dimensão da população em risco.
Algumas notícias descrevem a população vulnerável como sendo de 19,5 por cento, em vez de 19,5 milhões de pessoas. A página da publicação do PNUD indica 19,5 milhões, em consonância com a sua estimativa combinada de mais de 37 milhões de pessoas pobres ou vulneráveis. Os dois valores não devem ser considerados equivalentes.
Rakhine combina pobreza generalizada com privação profunda
Rakhine e Kayah destacam-se pela gravidade particular da pobreza, associada à insegurança, às restrições à circulação e ao acesso limitado a serviços essenciais. Em Rakhine, o PNUD afirma que mais de dois terços da população vivem em situação de pobreza multidimensional e quase um terço em situação de pobreza grave.
Informações mais pormenorizadas sobre os resultados regionais apontam para uma taxa de pobreza de 68,4 por cento em Rakhine, que afeta cerca de 1,66 milhões de pessoas. O valor do índice para o estado é de 0,342, o mais elevado a nível nacional. O valor do índice combina a prevalência da pobreza com a intensidade da privação; não corresponde a outra percentagem de residentes.
A taxa de pobreza de 68,4 por cento registada em Rakhine é mais do dobro da taxa nacional de 32,6 por cento. É fundamental notar que estes valores dizem respeito a pessoas já classificadas como estando em situação de pobreza multidimensional. O valor nacional de 68 por cento para Myanmar inclui tanto pessoas pobres como vulneráveis.
As dificuldades em Rakhine refletem insegurança prolongada, ligações frágeis aos mercados e acesso restrito a cuidados de saúde e educação. Os residentes apátridas e deslocados enfrentam também obstáculos relacionados com a documentação, a circulação e o acesso a serviços. Esses obstáculos podem impedir as famílias de obter ajuda, mesmo quando existe assistência.
O PNUD alerta para a possibilidade de os dados recolhidos por telefone subestimarem a privação de algumas populações apátridas e deslocadas, incluindo as comunidades rohingya. Este alerta limita a precisão com que os números podem descrever as pessoas que enfrentam os maiores obstáculos ao contacto. Não apresenta qualquer ajustamento numérico para a possível subcontagem.
Yangon mostra por que razão as taxas de pobreza não contam toda a história
A geografia da pobreza apresenta um quadro diferente quando se considera o número de pessoas afetadas, em vez da proporção de residentes em situação de pobreza. Yangon tem uma taxa de pobreza regional inferior à de muitos estados afetados pelo conflito, mas concentra uma das maiores populações de pessoas em situação de pobreza multidimensional de Myanmar.
Muitos agregados familiares em situação de privação concentram-se também nas regiões e estados populosos de Ayeyawady, Sagaing, Mandalay e Shan. Rakhine, Sagaing e Ayeyawady combinam valores elevados no índice com grandes populações afetadas, embora as causas da privação sejam diferentes em cada um destes locais.
Para os agregados familiares urbanos e os que vivem nas periferias das cidades, a insegurança habitacional, o emprego informal e o acesso limitado a serviços criam riscos que uma média regional pode ocultar. Uma taxa de pobreza mais baixa não significa que seja reduzido o número de pessoas que necessitam de assistência.
Estas conclusões apontam para duas necessidades distintas em matéria de assistência: chegar aos locais onde a privação é especialmente grave e chegar às zonas populosas onde vivem muitos agregados familiares pobres. Uma atuação centrada apenas nas regiões com as taxas mais elevadas não abrangeria parte das necessidades urbanas.
Choques económicos afetam mais de metade dos agregados familiares
Mais de metade dos agregados familiares em todo o país é afetada por choques económicos. O PNUD identifica a inflação, o aumento dos custos dos alimentos e a subida dos preços dos combustíveis associada à crise no Golfo como pressões adicionais sobre comunidades já fragilizadas pelo conflito e pela instabilidade.
Na sua declaração de 8 de outubro, datada de Nova Iorque, o PNUD afirma que os preços do gasóleo e da gasolina continuam cerca de 87 por cento e 85 por cento acima dos níveis anteriores à crise, respetivamente. Os preços dos combustíveis em Chin, Rakhine, Kachin e Ayeyawady são duas a quatro vezes superiores aos de Yangon.
As percentagens descrevem aumentos face a um valor de referência anterior, enquanto os dados regionais descrevem diferenças entre locais. São comparações distintas e não devem ser somadas. A declaração do PNUD não especifica a data de referência nem apresenta uma série completa de preços.
As disparidades regionais acrescentam uma dimensão prática à pobreza. Agregados familiares com rendimentos semelhantes podem enfrentar custos muito diferentes consoante o local onde vivem, enquanto o acesso limitado aos mercados pode dificultar a obtenção de bens essenciais. O PNUD apresenta estas pressões externas sobre os preços como mais uma crise que se sobrepõe às dificuldades locais já existentes.
Os choques relacionados com o conflito afetam uma proporção menor de agregados familiares a nível nacional do que os choques económicos, mas as zonas afetadas pelo conflito registam os níveis mais elevados de pobreza multidimensional. Por conseguinte, a frequência de um choque em todo o país não indica, por si só, a gravidade das suas consequências.
As inundações agravam a pressão sobre recursos já esgotados
Os desastres naturais ou a exposição a riscos climáticos afetam cerca de um em cada cinco agregados familiares. Entre os riscos identificados estão as inundações, os ciclones, as secas e os deslizamentos de terras. Estima-se que 600.000 pessoas tenham sido afetadas por inundações até ao final de agosto de 2026.
O relato de 9 de outubro do Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais da ONU identifica também o devastador sismo de março de 2025 como parte da pressão acumulada sobre Myanmar, a par do conflito, das deslocações e da perturbação económica.
O PNUD alerta que se prevê um agravamento das pressões climáticas com o El Niño, um fenómeno climático natural que pode alterar a precipitação e elevar as temperaturas globais. Este alerta diz respeito a riscos esperados, não a um total medido de futuras perdas causadas por catástrofes em Myanmar.
A principal preocupação é a ocorrência repetida de emergências antes de as famílias conseguirem recuperar. A perda de colheitas, os danos na habitação ou a doença podem coincidir com a interrupção do trabalho e as deslocações. Uma família que antes conseguiria enfrentar um revés poderá já não ter poupanças, rendimentos ou apoio suficientes para suportar vários em sequência.
Trabalhadores ocasionais e famílias deslocadas enfrentam maiores riscos
Quase metade dos agregados familiares que dependem de trabalho ocasional vive em situação de pobreza multidimensional. Os agregados familiares nos escalões de rendimento mais baixos, os que dependem de salários diários ou de emprego temporário e aqueles que são chefiados por pessoas com escolaridade limitada enfrentam níveis de privação especialmente elevados.
O trabalho ocasional proporciona geralmente rendimentos apenas quando há trabalho disponível. Na economia perturbada de Myanmar, esta insegurança coexiste com mercados danificados e serviços fragmentados. As conclusões mostram por que razão o tipo e a estabilidade do emprego são importantes, e não apenas o facto de um membro do agregado familiar ter trabalhado.
Os agregados familiares migrantes e os afetados pelo conflito estão também entre os grupos que enfrentam os níveis mais elevados de pobreza. As famílias deslocadas podem perder a habitação, o trabalho e o acesso a serviços ao mesmo tempo, enquanto os residentes urbanos vulneráveis enfrentam riscos associados ao trabalho informal e à insegurança habitacional.
O PNUD defende uma assistência que tenha em conta estas vulnerabilidades específicas. O apoio ao rendimento responde a uma parte do problema, mas as conclusões do relatório apontam também para necessidades nas áreas da saúde, da educação, da habitação e dos serviços básicos. As prioridades variam consoante aquilo de que as famílias carecem e os obstáculos que as impedem de o obter.
A saída de jovens aumenta a pressão sobre a recuperação
O PNUD estima que pelo menos um milhão de jovens poderá ter deixado Myanmar desde 2021. Descreve este fenómeno como uma das maiores perdas de capital humano da história recente do país, num período em que a população está a envelhecer.
Capital humano refere-se às competências, aos conhecimentos e à capacidade que as pessoas levam para o trabalho e para a vida em comunidade. A perda de jovens pode reduzir a mão de obra disponível para a recuperação, deixando ao mesmo tempo os residentes mais velhos com maiores responsabilidades pelos cuidados, pela alimentação e pela segurança das famílias.
As notícias diferem na forma como descrevem a estimativa da migração. Algumas juntam os jovens que já partiram aos que poderão partir. A declaração oficial do PNUD refere pelo menos um milhão de pessoas que poderão já ter partido desde 2021. A estimativa não deve, portanto, ser interpretada como uma contagem confirmada das partidas nem como uma previsão de migração adicional.
As opções dos jovens em matéria de educação, emprego e mobilidade estão a diminuir, num contexto de insegurança e dificuldades económicas. O PNUD afirma que as comunidades dependem cada vez mais de redes de apoio que também estão sob forte pressão.
Min Aung Hlaing, líder do governo apoiado pelos militares, afirmou separadamente numa reunião do Conselho de Ministros, durante a semana em que o relatório foi divulgado, que a instabilidade e a falta de paz tinham abrandado o crescimento económico. Referiu também as sanções, a assistência financeira limitada e o acesso restrito aos mercados internacionais, a quebra do comércio e o aumento da migração de trabalhadores. Estas declarações apresentam a versão do governo sobre a desaceleração, não a medição da privação dos agregados familiares feita pelo relatório.
Por que razão o antigo índice global não permite traçar diretamente uma evolução
O resumo de Myanmar de 2023 do PNUD apresenta outros valores de pobreza, mas utiliza dados de inquéritos de 2015/2016, e não observações recolhidas em 2023. As contagens da população referem-se a 2021.
Esse resumo estimava que 38,3 por cento da população, ou 20,613 milhões de pessoas, viviam em situação de pobreza multidimensional, enquanto outros 21,9 por cento, ou 11,791 milhões, eram vulneráveis. Indicava um valor de índice de 0,176, uma intensidade média de privação de 45,9 por cento entre as pessoas pobres e 13,8 por cento da população em situação de pobreza multidimensional grave.
O resumo anterior utilizava o índice global produzido conjuntamente pelo Gabinete do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano do PNUD e pela Oxford Poverty and Human Development Initiative. O novo relatório utiliza um índice adaptado e um inquérito telefónico. As diferenças nos métodos de medição e nas condições dos inquéritos significam que a menor incidência de pobreza indicada pelo novo relatório não permite, por si só, concluir que as condições de vida melhoraram.
Os valores anteriores continuam a mostrar por que razão o rendimento, por si só, é insuficiente. Indicavam que a pobreza monetária abaixo do limiar internacional de 2,15 dólares por dia, medido em paridade de poder de compra de 2017, era de 2 por cento. A taxa de pobreza multidimensional era 36,3 pontos percentuais superior.
Nessa medida anterior, a saúde representava 18,5 por cento da pobreza e as condições de vida, 49,2 por cento, num total combinado de 67,7 por cento. O novo relatório atribui-lhes, em conjunto, mais de 80 por cento. Esta diferença numérica merece ser assinalada, mas os métodos distintos não permitem demonstrar uma alteração precisa na composição da pobreza.
Sucessão de choques e resposta defendida pelo PNUD
O relatório enquadra a privação atual numa sucessão de convulsões políticas, catástrofes e pressões económicas. As datas de publicação também distinguem a divulgação das conclusões do relato posterior da ONU.
- Fevereiro de 2021: Os militares tomaram o poder, seguindo-se a repressão dos protestos e a expansão do conflito armado.
- Março de 2025: Um sismo devastador veio juntar-se às crises já existentes no país.
- 2025: As informações divulgadas sobre o estudo identificam este como o ano do inquérito a 7.463 agregados familiares.
- Final de agosto de 2026: As inundações tinham afetado cerca de 600.000 pessoas.
- 8 de outubro de 2026: O PNUD divulgou Layers of Deprivation e a declaração que o acompanhou.
- 9 de outubro de 2026: O Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais da ONU publicou o seu relato das conclusões.
Wignaraja apelou ao investimento nos meios de subsistência, na educação, nos cuidados de saúde, nos mercados locais e nos serviços básicos, defendendo que preservar a capacidade de recuperação das pessoas não pode ser adiado até ao fim dos combates.
"A recuperação da sociedade não pode esperar pelo fim de um conflito. Investir nos meios de subsistência, na educação, nos cuidados de saúde, nos mercados locais e nos serviços básicos continua a ser essencial para preservar as capacidades humanas fundamentais de que o país precisará para sarar e seguir em frente".
Os anúncios não apresentam um novo compromisso de financiamento, um calendário de execução ou uma data para o próximo inquérito. Identificam prioridades de ação, mas deixam por decidir a dimensão e o calendário da resposta. Continua também por resolver a lacuna de medição que afeta algumas pessoas deslocadas e apátridas.
Pontos principais
- O PNUD estima que 17,9 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza multidimensional e que outras 19,5 milhões são vulneráveis, num total equivalente a cerca de 68 por cento da população de Myanmar.
- As carências na saúde e nas condições de vida representam mais de 80 por cento da pobreza medida.
- A taxa de pobreza indicada para Rakhine é de 68,4 por cento, mais do dobro da taxa nacional de 32,6 por cento.
- As limitações dos inquéritos telefónicos podem levar a uma subestimação da privação entre algumas populações apátridas e deslocadas.
- Mais de metade dos agregados familiares enfrenta choques económicos, enquanto cerca de um em cada cinco é afetado por desastres naturais ou riscos climáticos.
- Quase metade dos agregados familiares que dependem de trabalho ocasional vive em situação de pobreza multidimensional.
- O antigo índice global e a nova medida adaptada não são diretamente comparáveis para avaliar a evolução ao longo do tempo.
- O PNUD defende o investimento nos meios de subsistência e nos serviços essenciais, sem esperar pelo fim do conflito.






