Tóquio mantém apoio ao tribunal enquanto Washington alarga sanções
O Japão comprometeu-se a continuar a apoiar o Tribunal Penal Internacional (TPI) depois de os Estados Unidos anunciarem sanções contra a própria instituição, a 9 de outubro, indo além das medidas anteriores contra juízes e responsáveis individuais. Washington concedeu um período de 180 dias durante o qual algumas atividades poderão prosseguir, abrindo espaço para a diplomacia, mas ameaçando o acesso do tribunal a serviços financeiros e tecnologia.
Índice
- Tóquio mantém apoio ao tribunal enquanto Washington alarga sanções
- O que as sanções restringiriam
- Japão promete apoio sem exigir uma reversão
- A sequência diplomática
- Washington associa as exigências à segurança dos aliados
- Tribunal diz que as vítimas pagarão o preço
- Proteção europeia é discutida, mas não foi ativada
- Pillay condena sanções após anúncio do Nobel
- Apoio a Akane estende-se para além do Governo
- Principais pontos
O secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, reafirmou a posição do Japão a 11 de outubro, durante uma intervenção televisiva. As suas declarações surgiram depois de a primeira-ministra Sanae Takaichi ter manifestado profunda preocupação a 9 de outubro e de o ministro dos Negócios Estrangeiros, Toshimitsu Motegi, ter mantido conversas telefónicas separadas com a presidente do TPI, Tomoko Akane, e com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a 10 de outubro.
O Japão é o maior contribuinte financeiro do tribunal, enquanto os Estados Unidos são o seu principal aliado em matéria de segurança. Tóquio acolhe cerca de 60 000 militares norte-americanos. A disputa coloca, assim, duas prioridades japonesas em tensão direta: o apoio aos tribunais internacionais e a cooperação com Washington.
Kihara, principal porta-voz do Governo japonês, afirmou que as sanções eram incompatíveis com o apoio do país à justiça internacional.
«A posição do nosso país é continuar os esforços para reforçar o Estado de direito na comunidade internacional», afirmou.
Com sede em Haia, o TPI julga pessoas acusadas de crimes internacionais graves, incluindo crimes de guerra. Kihara referiu também o apoio do Japão ao Tribunal Internacional de Justiça, uma instituição distinta que trata sobretudo de litígios jurídicos entre Estados. A referência a ambos os tribunais apresentou a resposta de Tóquio como parte de um compromisso mais amplo, e não apenas como uma defesa de Akane, uma cidadã japonesa.
O que as sanções restringiriam
A decisão da administração Trump visa o TPI enquanto organização, na sequência das sanções impostas em agosto a Akane e ao advogado sénior de julgamento Abdoulaye Seye, do Senegal. Washington ordenou a inclusão do tribunal na lista de Nacionais Especialmente Designados do Departamento do Tesouro, uma classificação sancionatória que restringe as relações com as entidades nela inscritas.
As medidas ameaçam cortar o acesso do TPI a serviços financeiros norte-americanos, empresas tecnológicas e transações em dólares. As sanções anteriores contra pessoas singulares congelaram bens sob jurisdição dos EUA e, em geral, proibiram cidadãos e empresas norte-americanos de efetuarem transações com essas pessoas.
Na prática, estas restrições podem produzir efeitos para além dos Estados Unidos. Os bancos internacionais com ligações ao sistema financeiro norte-americano poderão evitar clientes sancionados, deixando uma instituição com menos formas de movimentar dinheiro ou pagar serviços. A classificação mais abrangente poderá, por isso, afetar tanto as operações quotidianas do tribunal como os seus responsáveis.
As descrições do período de transição variam quanto ao seu âmbito. Alguns relatos referem seis meses até à aplicação das medidas ou para que as empresas cessem as relações com o tribunal. Outros afirmam que o período de tolerância de 180 dias se aplica a parte das medidas e permite as atividades necessárias à manutenção da organização. Não deve ser entendido como uma garantia de que todas as restrições estão suspensas.
O Departamento de Estado afirmou que o período se destinava a dar aos Estados-membros tempo para procurar soluções diplomáticas e jurídicas que respondessem às preocupações dos EUA. Não foram identificadas condições precisas para o levantamento das sanções, nem foi anunciado qualquer acordo negociado.
Japão promete apoio sem exigir uma reversão
Takaichi respondeu ao final do dia 9 de outubro, em japonês e inglês, afirmando que a decisão era incompatível com a posição do Japão. Reiterou o apoio ao TPI e disse que o Japão continuaria a dialogar com Washington, prestando ao mesmo tempo a assistência necessária ao tribunal.
A primeira-ministra explicou na sua declaração a resposta que o Governo pretende dar.
«Continuaremos a contactar os Estados Unidos e a prestar o apoio necessário ao TPI, para que o Tribunal possa cumprir o papel e as funções que lhe foram originalmente atribuídos», afirmou.
A linguagem de Tóquio é mais comedida do que o pedido do Bureau da Assembleia dos Estados Partes para que as sanções sejam revogadas de imediato. O Japão manifestou preocupação e discordância, mas tem evitado, em grande medida, pedir publicamente e de forma direta a Washington que retire as medidas.
O Governo não especificou um novo pacote de financiamento nem um mecanismo jurídico para proteger o tribunal das sanções. A promessa de apoio deixa, assim, uma questão prática por resolver: como manter o trabalho do TPI se os bancos e os prestadores de serviços se retirarem.
A sequência diplomática
Motegi falou primeiro com Akane, a 10 de outubro, para discutir a situação do tribunal e a sua resposta, e depois telefonou a Rubio. Cada conversa durou cerca de 15 minutos. O Japão e os Estados Unidos acordaram manter um contacto estreito, embora as descrições que fizeram das conversas tenham deixado clara a sua divergência.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão afirmou que Motegi transmitiu a posição do Governo sobre as sanções contra a instituição. O Departamento de Estado disse que Rubio salientou a sua necessidade devido ao que Washington descreveu como ações do tribunal que ameaçam a soberania norte-americana.
Os principais acontecimentos desenrolaram-se ao longo de várias semanas:
- Agosto: Washington sancionou Akane e Seye, alargando a campanha contra responsáveis individuais do TPI.
- 22 de setembro: Trump apelou aos membros do TPI para que se retirassem, durante o seu discurso na Assembleia Geral da ONU.
- 1 de outubro: Um grupo japonês de apoio entregou cerca de 170 000 assinaturas de uma petição ao secretário-chefe adjunto do Gabinete.
- 9 de outubro: Washington anunciou sanções contra o próprio TPI, e Takaichi manifestou profunda preocupação.
- 10 de outubro: Motegi telefonou a Akane e a Rubio, enquanto o bureau de supervisão do TPI exigiu a revogação das sanções.
- 11 de outubro: Kihara reafirmou publicamente o apoio do Japão aos tribunais internacionais.
A chamada com Rubio abordou também a detenção de um fuzileiro naval norte-americano em Okinawa, suspeito de roubo e homicídio. Motegi transmitiu a posição do Japão, incluindo o pesar pelo incidente, e os ministros acordaram discutir medidas eficazes para evitar que se repita. Esta conversa paralela ilustra o contexto mais amplo em que está a ser tratada a disputa em torno do TPI.
Washington associa as exigências à segurança dos aliados
A administração Trump defende que o TPI ameaça a soberania dos EUA. Os Estados Unidos não ratificaram o Estatuto de Roma, o tratado que instituiu o tribunal, e não são membros do TPI. Essa posição não resolve, por si só, todas as questões relativas à jurisdição do tribunal, que também pode depender do local onde os alegados crimes ocorreram e da forma como uma situação chegou ao tribunal.
Os relatos divergem quanto à data de assinatura do tratado: um indica 2002, enquanto outro refere a assinatura do presidente Bill Clinton, em 2000. Ambos concordam que os Estados Unidos nunca o ratificaram. A assinatura e a ratificação são etapas distintas; é a ratificação que estabelece o consentimento de um Estado em ficar vinculado a um tratado.
Rubio, secretário de Estado norte-americano, fez uma ameaça direta num vídeo divulgado a 9 de outubro.
«Ou o TPI põe fim às suas ameaças, ou nós poremos fim ao TPI», afirmou.
Associou também as expectativas de Washington à proteção militar que os Estados Unidos prestam aos seus aliados.
«Esperamos que os nossos aliados, muitos dos quais fazem parte do TPI e dependem dos militares norte-americanos para a sua defesa, contenham o tribunal», afirmou Rubio.
A disputa surge na sequência das objeções dos EUA a uma investigação que envolvia tropas norte-americanas no Afeganistão, à qual o tribunal decidiu posteriormente dar menor prioridade, e do mandado de detenção emitido pelo TPI em 2024 contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, por suspeitas de crimes de guerra em Gaza. O mandado contra Netanyahu foi apontado como possível motivo das sanções, mas não como causa única comprovada.
Rubio referiu ainda apelos externos à instauração de processos contra militares norte-americanos, agentes da Patrulha de Fronteira e dirigentes eleitos. Esses apelos são distintos de uma ação do tribunal: os responsáveis do TPI não tomaram medidas para avançar com os processos que descreveu.
Tribunal diz que as vítimas pagarão o preço
O TPI condenou as sanções contra a instituição, considerando que são uma tentativa de obstruir o seu trabalho e intimidar os seus funcionários e as pessoas que com ele colaboram. Apelou aos seus 125 Estados e territórios membros para que prestem o apoio necessário à continuação das suas atividades.
No seu comunicado de imprensa de 9 de outubro, datado de 2026, o TPI afirmou que as sanções contra a instituição se seguiam à inclusão de 13 juízes e procuradores independentes nas listas de sancionados. Segundo o tribunal, a medida visava perturbar as suas operações e intimidar quem trabalha para a instituição ou colabora com ela.
Akane, presidente do tribunal, afirmou que o TPI manteria a sua independência judicial apesar da pressão.
O tribunal iria «continuar a cumprir plenamente o seu mandato, com independência e imparcialidade, agindo apenas com base na lei e nas provas, em benefício das inúmeras vítimas de crimes graves», afirmou.
O comunicado acrescentou que o tribunal tinha trabalhado com os seus Estados Partes para assegurar a continuidade e a resiliência das suas atividades. Apelou aos Estados para que continuassem a tomar medidas concretas, incluindo a garantia dos meios necessários à prossecução do seu trabalho.
Na sua resposta em vídeo, Akane descreveu as sanções como um ataque às vítimas que esperaram anos, por vezes décadas, por justiça. O seu argumento associa as restrições aos recursos da instituição à capacidade do tribunal para levar os processos por diante.
Akane explicou quem, na sua opinião, acabaria por sentir as consequências.
«Todas as medidas tomadas contra o tribunal acabam por ser sentidas pelas vítimas», afirmou.
A 10 de outubro, o Bureau da Assembleia dos Estados Partes pediu a revogação imediata das sanções. O bureau tem 21 membros eleitos entre os 125 Estados membros do tribunal, incluindo o Japão. Apoia a assembleia mais ampla, que é o órgão de supervisão da gestão e o órgão legislativo do tribunal; o número de 21 membros refere-se ao bureau, não à assembleia completa.
O bureau afirmou que as medidas coercivas eram uma tentativa de impedir o exercício de funções judiciais independentes e pediu apoio internacional ao tribunal. Esta exigência vai além das declarações nacionais do Japão, ao pedir expressamente a reversão das medidas.
Proteção europeia é discutida, mas não foi ativada
O Japão juntou-se também a uma declaração com outros membros do TPI que manifestava forte discordância em relação às sanções. Os relatos divergem quanto ao número de participantes. Um refere o Japão e outros oito Estados; outro enumera oito países no total: Canadá, Dinamarca, Alemanha, França, Itália, Japão, Países Baixos e Reino Unido.
Os Países Baixos, que acolhem o TPI, discutiram com a Comissão Europeia a possível aplicação do estatuto de bloqueio da União Europeia. Uma medida deste tipo poderia proibir as empresas europeias de cumprirem sanções estrangeiras específicas, protegendo potencialmente alguns serviços utilizados pelo tribunal e pelos seus funcionários.
O ministro dos Negócios Estrangeiros neerlandês, Tom Berendsen, chamou a essa opção «opção nuclear». As conversações dizem respeito à preparação; não significam que uma medida de proteção já tenha entrado em vigor.
O Japão não dispõe de um estatuto equivalente nem de um mecanismo comparável para anular sanções estrangeiras aplicadas para além das fronteiras do país que as impõe. Esta diferença é importante porque o apoio diplomático e as contribuições financeiras poderão não resolver os problemas causados pelo receio de os prestadores comerciais sofrerem penalizações norte-americanas.
Erika Guevara Rosas, diretora sénior da Amnistia Internacional, instou os governos a irem além das declarações de oposição.
«Os Estados têm de tomar medidas concretas para resistir à imposição destas medidas e proteger ativamente o Tribunal», afirmou.
Pillay condena sanções após anúncio do Nobel
As sanções foram anunciadas poucas horas depois de Navi Pillay, antiga juíza do TPI, ter sido escolhida como laureada com o Prémio Nobel da Paz deste ano. A proximidade temporal estabelece a sequência dos acontecimentos, mas não prova que o prémio tenha motivado a decisão de Washington.
Pillay, advogada sul-africana de 85 anos e antiga responsável máxima da ONU para os direitos humanos, participou num evento no Centro Nobel da Paz, em Oslo, a 10 de outubro, por videoconferência a partir de Nuremberga. Manifestou preocupação com a continuidade dos tribunais internacionais e afirmou que centenas de funcionários do TPI se sentiam ameaçados.
Pillay contestou especificamente o facto de os juízes serem visados pelas suas decisões judiciais.
«Acima de tudo, um país anunciou sanções contra juízes apenas pelas decisões judiciais que tomam. Isto é inédito e inaceitável», afirmou.
As suas declarações reforçam a distinção central da disputa. Washington apresenta as sanções como uma forma de se proteger de uma instituição que ameaça a sua soberania. O tribunal e os seus apoiantes veem-nas como uma forma de pressionar os juízes e um obstáculo à justiça independente.
Apoio a Akane estende-se para além do Governo
No Japão, antigos alunos de Akane organizaram uma iniciativa de apoio através da rede Japan International Rule of Law, conhecida como JIRoL. Na sequência das sanções impostas a Akane em agosto, o grupo lançou uma petição e entregou cerca de 170 000 assinaturas ao secretário-chefe adjunto do Gabinete a 1 de outubro.
Akane, de 70 anos, é natural de Nagoya e lecionou na Faculdade de Direito da Universidade de Nagoya entre os anos fiscais de 2005 e 2007, enquanto exercia funções de procuradora. Antigos alunos recordaram que continuou a orientá-los depois de sair da universidade, incluindo ao organizar visitas a um gabinete de procuradores para os que ponderavam as suas carreiras.
Yosuke Shamoto, advogado de 45 anos e antigo aluno, explicou o princípio que está na base do seu apoio.
Se aceitarmos que as mudanças sejam impostas pela força, acabaremos num mundo em que os mais fortes podem fazer o que quiserem», afirmou. «Quero transmitir à geração mais jovem a importância do Estado de direito.
Maiko Imaizumi, advogada de 44 anos que integra o grupo, afirmou que Akane se sentiu encorajada pelo número de assinaturas. A JIRoL planeia publicar um livro ilustrado de apresentação do TPI e organizar julgamentos simulados para estudantes do ensino secundário, alargando o seu trabalho para além da petição imediata.
O próximo prazo definido é o período de transição de 180 dias concedido por Washington. Não foi anunciada qualquer reunião negocial específica, acordo estabelecido ou pacote detalhado de medidas de proteção japonesas. O Japão comprometeu-se a manter o apoio e o diálogo, enquanto Washington exige alterações cujos termos precisos ainda não foram definidos publicamente.
Principais pontos
- Os Estados Unidos anunciaram sanções contra o próprio TPI a 9 de outubro, alargando as medidas anteriores contra responsáveis individuais.
- O Japão reafirmou o apoio ao tribunal através de declarações de Takaichi e Kihara e de contactos diplomáticos de Motegi.
- As sanções ameaçam o acesso a serviços financeiros e tecnologia, com um período de transição de 180 dias que abrange algumas atividades.
- O bureau de supervisão do TPI exigiu a revogação imediata das sanções, enquanto o Japão adotou uma linguagem mais comedida.
- Os governos europeus estão a discutir medidas de proteção; o Japão não dispõe de um estatuto de bloqueio equivalente.
- Não foi anunciado qualquer acordo nem condições precisas para o levantamento das sanções.






