Um resgate bancário que poderá custar 4,8 lakh crore de takas
O Banco do Bangladesh apresentou uma proposta preliminar para receber 60 000 crore de takas por ano do orçamento nacional, durante cinco a oito anos, com o objetivo de cobrir perdas no setor bancário e proteger os depósitos, afirmou o governador Md Mostaqur Rahman a 10 de outubro de 2026. O pedido ascenderia a 3 lakh crore de takas em cinco anos ou a 4,8 lakh crore de takas em oito anos, representando um encargo substancial para os contribuintes.
Índice
- Um resgate bancário que poderá custar 4,8 lakh crore de takas
- Os contribuintes financiariam a recuperação enquanto prossegue a recuperação de ativos
- O apoio aos bancos já é substancial
- Aos depositantes é prometido melhor acesso às suas poupanças
- Os grandes empréstimos concentram uma parte maior do risco
- O apoio orçamental não substitui melhores decisões de crédito
- O Bangla QR está a crescer, mas continua muito aquém do objetivo do governador
- A poupança com o numerário e os ganhos fiscais são projeções, não receitas contabilizadas
- As reformas nos pagamentos também visam reduzir encargos e transferências informais
- Principais pontos
A proposta surge num contexto em que o crédito malparado ascendia a 6,06,555 crore de takas no final de junho de 2026, segundo os dados do Banco do Bangladesh, o equivalente a 32,78 por cento do crédito concedido. Em termos simples, quase um em cada três takas emprestados pelos bancos estava classificado como estando em incumprimento.
Ao discursar num evento sobre o Bangla QR organizado pelo ONE Bank na United International University, em Satarkul, Badda, Daca, Rahman associou o resgate bancário a um esforço mais amplo para reduzir o uso de numerário, melhorar a cobrança de impostos e tornar os pagamentos mais baratos. O evento assinalou o lançamento de pagamentos de propinas através do Bangla QR, mas as suas declarações delinearam um programa de recuperação financeira muito mais vasto.
O governador do Banco do Bangladesh descreveu o pedido de financiamento como uma proposta preliminar apresentada ao Governo:
«Para fazer face a este enorme défice e proteger os depósitos das pessoas, apresentámos ao Governo uma proposta preliminar para obter 60 000 crore de takas por ano do orçamento nacional durante os próximos cinco a oito anos», afirmou.
A diferença entre uma proposta e uma verba aprovada é importante. Nestas declarações, não foi anunciado qualquer aval do Governo, ano orçamental de início ou calendário detalhado para a distribuição dos fundos anuais. O período de cinco a oito anos é uma estimativa do governador quanto ao tempo necessário para a recuperação, e não um compromisso de despesa confirmado.
Os contribuintes financiariam a recuperação enquanto prossegue a recuperação de ativos
Rahman afirmou que, quando tomou posse em fevereiro, cerca de um terço do dinheiro no sistema bancário já tinha sido desviado. Os relatos diferem na forma como descrevem a base dessa afirmação: alguns referem-se ao total dos fundos bancários, enquanto outro identifica o total do crédito concedido. Por isso, a declaração não deve ser tratada como uma medida contabilística precisa e equivalente ao rácio de crédito malparado.
O crédito malparado corresponde a dívidas que os mutuários não reembolsaram de acordo com as regras aplicáveis. Não prova automaticamente que todos os takas envolvidos tenham sido roubados, nem determina o montante final que os bancos perderão após a recuperação de ativos. As acusações de pilhagem feitas pelo governador e os dados do banco central sobre o crédito descrevem problemas relacionados, mas medem fenómenos diferentes.
Rahman afirmou que estavam em curso ações judiciais contra os responsáveis por irregularidades financeiras e branqueamento de capitais, com o objetivo de recuperar ativos e responsabilizar os envolvidos. O governador do Banco do Bangladesh descreveu a conduta nos seguintes termos:
«Os saqueadores levaram o dinheiro das pessoas. Não basta chamar-lhe roubo; pilharam-no. Também estão a ser tomadas medidas judiciais contra eles», afirmou.
Disse também que o dinheiro público usado para recuperar os bancos seria retirado ao desenvolvimento nacional. Para ilustrar a oportunidade perdida, afirmou que o dinheiro desviado poderia ter apoiado 20 milhões de famílias ou financiado dois projetos da dimensão da Ponte Padma. Foram comparações feitas por si, não um plano de afetação publicado.
O pedido anual de 60 000 crore de takas corresponde a cerca de 9,9 por cento do total de crédito malparado registado em junho. Ao longo de cinco anos, a contribuição proposta equivaleria a cerca de 49,5 por cento desse total; ao longo de oito anos, a cerca de 79,1 por cento. Estas comparações mostram a dimensão do pedido, mas não significam que o Governo pretenda reembolsar essa proporção de todos os empréstimos em incumprimento.
O apoio aos bancos já é substancial
A contribuição anual proposta para o orçamento viria na sequência de grandes intervenções já realizadas para manter em funcionamento bancos em dificuldades. Cinco bancos que operavam segundo os princípios da banca islâmica foram fundidos no Sammilito Islami Bank, que recebeu 20 000 crore de takas em capital do Governo. O Banco do Bangladesh também concedeu cerca de 85 000 crore de takas em apoio à liquidez a 12 bancos.
O apoio ao capital e à liquidez serve propósitos diferentes. O capital ajuda um banco a absorver perdas e a recuperar a solidez financeira. A liquidez disponibiliza fundos para cumprir obrigações imediatas, incluindo levantamentos. Um banco pode precisar de ambos, mas os dois valores não devem ser somados e apresentados como uma única perda final para os contribuintes.
O pedido anual de 60 000 crore de takas é três vezes superior à contribuição de 20 000 crore de takas em capital para o banco resultante da fusão. Não foi esclarecido se a nova proposta complementaria a ajuda anterior, a substituiria em parte ou incluiria compromissos já existentes. Também não foi apresentada uma discriminação por banco nem uma explicação das condições que estes teriam de cumprir para receber fundos.
Fica assim uma questão central para o processo orçamental: de quanto apoio será necessário após a recuperação de dívidas junto dos mutuários e de ativos apreendidos, e como irá o Governo evitar novas perdas? As declarações de Rahman estabelecem a dimensão e a duração prevista do pedido, mas não as regras para o concretizar.
Aos depositantes é prometido melhor acesso às suas poupanças
A crise bancária teve uma consequência imediata para famílias e empresas: alguns depositantes têm tido dificuldades em levantar o seu próprio dinheiro. Em resposta à pergunta de um estudante sobre os problemas nas caixas automáticas e nas agências bancárias, Rahman afirmou que o Banco do Bangladesh tinha prestado todo o apoio ao Sammilito Islami Bank para que este pudesse satisfazer os pedidos de levantamento.
Disse também que o National Bank estaria em condições de satisfazer os pedidos de levantamento dos clientes a partir de 15 de outubro. Trata-se de um compromisso com uma data, não de uma confirmação de que todas as dificuldades de levantamento já tinham terminado no momento do discurso.
As principais datas mostram como se relacionam a deterioração do crédito e a resposta proposta:
- Março de 2025: O crédito malparado representava 24,6 por cento do crédito total.
- Dezembro de 2025: O rácio de crédito malparado atingiu 31,2 por cento.
- Março de 2026: O rácio subiu para 32,7 por cento, com níveis de incumprimento particularmente elevados nas categorias de crédito de maior valor.
- Junho de 2026: O crédito malparado atingiu 6,06,555 crore de takas, ou 32,78 por cento do crédito concedido.
- 10 de outubro de 2026: Rahman apresentou o pedido de financiamento anual ao orçamento durante o evento universitário.
- 15 de outubro: Esperava-se que o National Bank pudesse satisfazer os pedidos de levantamento.
- Novembro: Estava previsto o início das transferências entre particulares através de QR.
Os compromissos relativos aos levantamentos visam garantir o acesso aos depósitos. Por si só, não demonstram que os bancos afetados tenham recuperado os créditos malparados ou reposto o seu capital.
Os grandes empréstimos concentram uma parte maior do risco
Os dados do Banco do Bangladesh relativos a março de 2026 mostram que 42,5 por cento dos empréstimos superiores a 50 crore de takas estavam em incumprimento, face a 35,2 por cento um ano antes. Trata-se de um aumento de 7,3 pontos percentuais num ano.
O montante em dívida nesta categoria também aumentou, de 5,20,400 crore de takas em março de 2025 para 5,75,600 crore de takas em março de 2026. O aumento foi de 55 200 crore de takas, ou cerca de 10,6 por cento. Assim, os bancos tinham mais dinheiro exposto a esta categoria enquanto aumentava a percentagem em incumprimento.
Em contrapartida, os empréstimos até 1 crore de takas apresentavam uma taxa de incumprimento de 15 por cento, num total de crédito concedido de 4,09,900 crore de takas. A taxa de incumprimento dos empréstimos superiores a 50 crore de takas era cerca de 2,8 vezes superior à dos empréstimos de menor valor. Os dados apontam para uma concentração dos problemas de reembolso entre os grandes mutuários, em vez de uma deterioração uniforme em todo o crédito concedido.
A taxa de incumprimento mais elevada registava-se, na realidade, na categoria dos empréstimos entre 10 e 20 crore de takas, com 45,1 por cento. As outras taxas eram de 26,6 por cento para empréstimos entre 1 e 10 crore de takas, 35,7 por cento entre 20 e 30 crore de takas, 38,9 por cento entre 30 e 40 crore de takas e 44,7 por cento entre 40 e 50 crore de takas.
O padrão não corresponde, portanto, a uma regra simples segundo a qual cada categoria de empréstimos de maior valor tem uma taxa de incumprimento superior. Mostra, porém, que várias categorias acima de 1 crore de takas tinham registos de reembolso muito piores do que a categoria de menor valor.
O apoio orçamental não substitui melhores decisões de crédito
Mustafa K Mujeri, antigo economista-chefe do Banco do Bangladesh, afirmou que os bancos são atraídos pelos grandes empréstimos, em parte porque estes são menos dispendiosos de gerir do que o crédito concedido a muitos pequenos clientes. Alertou que os mutuários influentes podem obter concessões e que são necessários padrões profissionais mais exigentes e uma supervisão mais forte do banco central.
Mujeri defendeu também que se dá demasiada atenção ao perdão de dívidas e ao reescalonamento dos reembolsos, em vez de se cobrarem as dívidas e responsabilizarem os verdadeiros incumpridores. O perdão de uma dívida altera a forma como um empréstimo é registado nas contas do banco; o reescalonamento altera o calendário de reembolso. Nenhuma destas medidas, por si só, repõe no banco o dinheiro em falta.
Masrur Riaz, presidente e diretor executivo da Policy Exchange Bangladesh, afirmou que os futuros grandes empréstimos devem ser avaliados em função dos fluxos de caixa do mutuário, das perspetivas do projeto e dos seus riscos. A sua observação diz respeito ao processo anterior à saída do dinheiro do banco, em vez de depender exclusivamente de medidas de recuperação após o incumprimento de um empréstimo.
Syed Mahbubur Rahman, diretor-geral do Mutual Trust Bank e antigo presidente da Association of Bankers, Bangladesh, afirmou que a maioria dos bancos estava agora a tornar-se mais rigorosa na concessão de grandes empréstimos e a demonstrar maior interesse no crédito de menor valor. Disse também que os pequenos e médios empresários dão muitas vezes maior prioridade ao reembolso, porque os seus negócios dependem de continuarem a ter acesso a financiamento.
Em conjunto, estas avaliações identificam uma tarefa distinta do financiamento do resgate: impedir que novos empréstimos criem outro volume de dívidas incobráveis. As transferências orçamentais propostas destinam-se a reparar os danos existentes, enquanto a avaliação dos mutuários, a cobrança e a responsabilização determinarão se estes continuam a agravar-se.
O Bangla QR está a crescer, mas continua muito aquém do objetivo do governador
Rahman afirmou que as transações diárias através do Bangla QR atingiram 180 crore de takas no final de setembro, quatro vezes o nível de junho. Esta comparação implica um valor diário em junho de aproximadamente 45 crore de takas.
Disse que transações diárias de 3 000 crore de takas representariam uma escala significativa. Os 180 crore de takas registados em setembro correspondiam a apenas 6 por cento desse objetivo de referência. Para o atingir, o valor diário das transações teria de aumentar cerca de 16,7 vezes, apesar do crescimento rápido registado recentemente.
Os pagamentos por QR permitem ao cliente digitalizar um código para efetuar um pagamento digital, em vez de entregar dinheiro. Na United International University, o ONE Bank lançou este serviço para pagamentos no campus, incluindo propinas. Mais de 400 estudantes participaram no evento, assim como o vice-reitor Md Abul Kashem Mia, o diretor-geral do ONE Bank, Muhit Rahman, e altos responsáveis.
As transferências entre particulares através de QR estavam previstas para novembro. Isso alargaria a utilização do QR para além dos pagamentos a organizações ou comerciantes, embora não tenham sido anunciadas nas declarações condições de funcionamento detalhadas nem uma data de lançamento confirmada.
A poupança com o numerário e os ganhos fiscais são projeções, não receitas contabilizadas
Rahman afirmou que a impressão de notas e o transporte de numerário custam aproximadamente 20 000 crore de takas por ano. Estimou que uma utilização mais ampla do Bangla QR poderia reduzir inicialmente essa despesa em pelo menos 50 por cento, o que implicaria uma poupança de pelo menos 10 000 crore de takas caso a estimativa se concretize.
Essa poupança implícita equivale a um sexto da contribuição anual de 60 000 crore de takas proposta para a banca. É uma comparação útil da dimensão dos valores, mas o governador não anunciou qualquer mecanismo para canalizar essas poupanças para o resgate bancário. A estimativa dos custos e a redução prevista continuam a ser projeções que apresentou.
A sua afirmação mais ambiciosa diz respeito à cobrança de impostos. Os pagamentos digitais criam registos das transações, dificultando que as empresas omitam vendas na contabilidade e evitem o pagamento de impostos ou do imposto sobre o valor acrescentado, conhecido como IVA. Rahman afirmou que a utilização do Bangla QR em todo o país poderia contribuir para gerar até 2 lakh crore de takas em receitas públicas adicionais.
Disse também que a meta de cobrança de receitas para o ano fiscal de 2026-2027 tinha sido aumentada em cerca de 2 lakh crore de takas face à meta anterior. Contudo, uma meta mais elevada não equivale a dinheiro cobrado, e nenhum dos valores permite determinar quanta receita adicional seria gerada apenas pelos pagamentos através de QR.
Rahman situou as receitas fiscais do Bangladesh abaixo de 7 por cento do produto interno bruto e afirmou que a implementação integral do Bangla QR poderia elevá-las acima de 10 por cento. Referiu também um aumento esperado de pelo menos dois pontos percentuais. Estes valores representam diferentes níveis de ambição: passar de menos de 7 por cento para mais de 10 por cento exigiria um aumento superior a três pontos percentuais.
Referiu o rácio de receitas fiscais do Paquistão, de 10,3 por cento no ano fiscal de 2025, no contexto de reformas mais amplas na digitalização e fiscalização. Essa comparação não isola o efeito dos pagamentos por QR. Mostra que os registos digitais e uma fiscalização fiscal eficaz teriam de funcionar em conjunto.
As reformas nos pagamentos também visam reduzir encargos e transferências informais
Rahman afirmou que, em última análise, os consumidores suportam os custos e os impostos pagos pelas empresas. As comissões de cerca de 2,5 por cento cobradas por outros meios de pagamento sem numerário podem, assim, ser repercutidas nos compradores através dos preços, enquanto os pagamentos por QR visam reduzir esse encargo.
As declarações não estabeleceram que todos os pagamentos por QR seriam gratuitos, nem especificaram uma comissão universal. A comparação relevante para os consumidores dependerá dos encargos efetivamente aplicados aos pagamentos e de os comerciantes repercutirem ou não as eventuais poupanças nos preços.
O governador afirmou também que os regulamentos tinham sido alterados para permitir a operação de empresas como a Google Pay, a Stripe e a PayPal, embora estas ainda não tivessem estabelecido plenamente os seus escritórios. A autorização regulamentar não deve ser confundida com a confirmação de que todos os serviços já estão disponíveis para todos os clientes no Bangladesh.
O Banco do Bangladesh estava também a facilitar o envio legal de dinheiro para o estrangeiro e tinha autorizado prestadores locais a fazê-lo, afirmou. O objetivo declarado era reduzir a procura de transferências informais fora dos canais regulamentados. Nestas declarações, não foram anunciados uma lista detalhada de prestadores, limites de transação ou datas de lançamento dos serviços.
As decisões imediatas são mais concretas: saber se o Governo aprova o pedido de financiamento anual para os bancos, se o National Bank cumpre o compromisso relativo aos levantamentos a 15 de outubro e se as transferências por QR entre particulares começam em novembro. Para além dessas datas, o custo final do resgate dependerá do montante recuperado e de uma eventual melhoria das práticas de concessão de crédito.
Principais pontos
- O Banco do Bangladesh apresentou um pedido preliminar de 60 000 crore de takas anuais durante cinco a oito anos; não se trata de uma verba orçamental aprovada.
- O total seria de 3 lakh crore de takas ao longo de cinco anos ou de 4,8 lakh crore de takas ao longo de oito anos.
- Em junho de 2026, o crédito malparado atingiu 6,06,555 crore de takas, ou 32,78 por cento do crédito concedido.
- O apoio existente inclui 20 000 crore de takas em capital do Governo para o Sammilito Islami Bank e cerca de 85 000 crore de takas em apoio à liquidez do banco central a 12 bancos.
- Em março de 2026, os empréstimos superiores a 50 crore de takas tinham uma taxa de incumprimento de 42,5 por cento, face a 15 por cento nos empréstimos até 1 crore de takas.
- As transações diárias através do Bangla QR atingiram 180 crore de takas em setembro, ainda apenas 6 por cento do objetivo de referência de 3 000 crore de takas indicado pelo governador.
- As poupanças projetadas com o numerário e os ganhos fiscais ainda não se traduziram em poupanças efetivas ou receitas cobradas.
- Esperava-se que os levantamentos no National Bank melhorassem a partir de 15 de outubro, estando previstas para novembro as transferências por QR entre particulares.






