Resultado renhido coloca formação do governo no centro das atenções
O Partido Federalista do Bangsamoro conquistou 31 lugares e o Partido da Justiça Unida do Bangsamoro obteve 30 nas primeiras eleições parlamentares da região do sul das Filipinas, realizadas a 14 de setembro de 2026, deixando ambos aquém dos 41 lugares necessários para controlar o Parlamento, composto por 80 membros. A votação levou às urnas 2 018 478 eleitores, com uma participação de 84,34%, e transferiu a decisão seguinte dos eleitores para os seus representantes eleitos: quem irá liderar o governo autónomo.
Índice
- Resultado renhido coloca formação do governo no centro das atenções
- O que significam os lugares para a formação de uma coligação
- Uma divisão pela liderança com raízes no governo interino
- A autonomia inclui escolher o executivo
- Boletins de Maluso revelaram falhas na cadeia de custódia
- Elevada participação, mas queixas sobre a votação por resolver
- Mortes obrigam a qualificar descrições de uma eleição pacífica
- Representação e recuperação continuam por concluir
- As datas que marcam a transição
- Pontos principais
O novo Parlamento deverá tomar posse a 30 de outubro e eleger o primeiro-ministro, o presidente do Parlamento e os restantes titulares de cargos. Ao contrário de uma eleição em que os eleitores escolhem diretamente o líder do executivo, este processo parlamentar exige que um candidato a primeiro-ministro consiga obter apoio no seio do Parlamento. As negociações para formar uma coligação irão, por isso, determinar tanto a maioria governativa como a liderança do executivo regional.
A votação assinala uma etapa importante na implementação do Acordo Global sobre o Bangsamoro de 2014, ao abrigo do qual a Frente Moro Islâmica de Libertação abandonou a pretensão de criar um Estado separado em troca de uma autonomia mais alargada. Esperava-se que cerca de 40 000 combatentes abandonassem a luta armada e passassem à vida civil. Membros do movimento integraram posteriormente o governo interino, depois de os eleitores aprovarem a região autónoma em 2019.
A elevada participação e a realização das eleições não eliminam todas as preocupações. A votação foi marcada por violência mortal, alegações de interferência no voto e pela descoberta de boletins já preenchidos antes da abertura das urnas. O resultado deixa também dois campos políticos, ambos com raízes no mesmo antigo movimento rebelde, a negociar em posições quase iguais.
O que significam os lugares para a formação de uma coligação
O Partido Federalista, conhecido pela sigla BFP, precisa de mais 10 votos para alcançar a maioria. O Partido da Justiça Unida do Bangsamoro, ou UBJP, precisa de mais 11. Em conjunto, os 31 e 30 lugares que lhes são atribuídos dariam uma maioria de 61 lugares, mas as suas origens comuns não impediram uma amarga disputa pela liderança.
Os relatos divergem quanto à força dos restantes partidos. Uma contagem detalhada atribui oito lugares à Coligação Grand do BARMM, seis ao Partido Serbisyong Inklusibo-Alyansang Progresibo, um ao Pro Bangsamoro, um ao Raayat e um ao Itihad, além de dois representantes de comunidades indígenas não moro. Estes números perfazem os 19 lugares que não pertencem ao BFP nem ao UBJP.
Outro relato atribui 15 lugares à Coligação Grand. Este número mais elevado não pode ser considerado equivalente à contagem de oito lugares: um bloco de 15 permitiria a qualquer um dos dois partidos mais votados ultrapassar, por si só, os 41 lugares, enquanto um bloco de oito não o permitiria. A discrepância deixa por esclarecer a aritmética exata das coligações para além dos dois maiores partidos.
Importa também distinguir os lugares atribuídos aos partidos regionais da composição total do Parlamento. Dos 40 lugares reservados a partidos regionais, o BFP conquistou 16, o UBJP 15, a Coligação Grand oito e o Raayat um. Os restantes 40 lugares são ocupados por representantes de círculos eleitorais e por representantes setoriais. Assim, os números mais baixos dos partidos não contradizem os 31 lugares do BFP nem os 30 do UBJP no conjunto do Parlamento.
O BFP anunciou ter garantido apoio suficiente para formar uma maioria, enquanto prosseguem as negociações entre partidos. Esse anúncio não equivale a uma votação parlamentar para eleger o primeiro-ministro. Não está confirmada a realização de qualquer eleição para a liderança antes da tomada de posse, a 30 de outubro.
Uma divisão pela liderança com raízes no governo interino
Abdulraof Macacua, líder do BFP, primeiro-ministro interino e antigo comandante da Frente Moro Islâmica de Libertação, surgiu como principal rival do UBJP, que continua associado à Frente e ao seu presidente, Ahod Ebrahim, também conhecido como Al Haj Murad. Ambos os homens conquistaram lugares no novo Parlamento.
A divisão aprofundou-se depois de o presidente Ferdinand Marcos Jr. ter substituído Ebrahim por Macacua como primeiro-ministro interino, em março de 2025. Macacua era secretário-geral do UBJP antes de sair para se candidatar como independente. Tornou-se presidente e líder do BFP cerca de um mês antes das eleições.
Outros dirigentes de topo também passaram do UBJP para o BFP, incluindo Akmad Brahim, Abunawas Maslamama e Tomanda Antok. O comité central da Frente retirou posteriormente Macacua e essas figuras dos cargos que ocupavam na sua ala armada, as Forças Armadas Islâmicas do Bangsamoro.
Ebrahim, presidente da MILF e candidato eleito pelo UBJP, mostrou-se disposto a negociar depois de votar:
«Se o partido não obtiver a maioria dos lugares, procuraremos partidos que possam ser nossos aliados, para formarmos uma coligação», afirmou Murad.
O teste institucional consiste em saber se esta divisão pode ser gerida através de negociações parlamentares. As eleições deram a ambos os campos uma representação substancial, em vez de permitirem que um deles determine sozinho a composição do governo.
A autonomia inclui escolher o executivo
Mel Senen Sarmiento, conselheiro para a Paz e também presidente do Painel de Implementação da Paz do Governo, afirmou a 7 de outubro que os representantes eleitos devem poder escolher livremente os seus líderes. A declaração surgiu após um manifesto de 10 organizações da sociedade civil do Bangsamoro que instava Marcos a deixar a escolha do primeiro-ministro nas mãos do Parlamento.
Sarmiento ligou diretamente essa escolha ao acordo de paz:
Os resultados do processo de paz têm agora de ser prosseguidos através do processo parlamentar», afirmou Sarmiento. «Os membros do Parlamento devem poder escolher livremente os seus líderes e decidir quem irá chefiar o poder executivo.
A sua declaração não apoiava qualquer partido ou candidato. Distinguiu o apoio nacional ao processo de paz da autoridade do Parlamento eleito para decidir quem chefiará o executivo regional. Esta distinção assume particular importância depois de a substituição do primeiro-ministro interino pelo presidente ter contribuído para dividir o antigo movimento rebelde.
O Instituto Republicano Internacional, uma organização sem fins lucrativos que observa eleições, também identificou a formação do governo como um dos primeiros testes nas suas conclusões preliminares sobre as eleições. Instou os partidos a negociarem de forma responsável e a resolverem os litígios através dos canais legais e institucionais estabelecidos.
Randy Scheunemann, vice-presidente do IRI e líder da sua delegação, descreveu a mudança que agora se exige aos partidos em disputa:
Pela primeira vez, os partidos políticos debateram publicamente entre si as questões que afetam o Bangsamoro. Têm agora de passar da campanha e mobilização para a governação, para demonstrarem que o novo sistema parlamentar pode dar resposta às necessidades dos cidadãos.
Boletins de Maluso revelaram falhas na cadeia de custódia
Em Maluso, na província de Basilan, a Comissão Eleitoral descobriu boletins já preenchidos em 36 secções de voto antes do início da votação. Ordenou a sua substituição e colocou o município sob o seu controlo, assumindo o comando direto dos funcionários da administração local e dos agentes policiais para efeitos eleitorais.
Os relatos divergem quanto ao número total de secções de voto do município. O primeiro indicava 68, enquanto atualizações posteriores apontavam para 86. Ambos identificaram 36 secções afetadas. As conclusões preliminares do IRI confirmam o número de 36 secções, mas não especificam o total no município.
Os boletins de substituição chegaram às 18h00 de 14 de setembro. George Erwin Garcia, presidente da Comissão Eleitoral, afirmou que seriam entregues diretamente aos membros das mesas eleitorais na manhã seguinte, em vez de serem guardados nas instalações municipais. A votação prosseguiu a 15 de setembro, entre as 7h00 e as 19h00; Garcia descreveu-a como uma continuação da votação, não como uma nova data eleitoral.
Em Al-Barka, também em Basilan, a Comissão Eleitoral prolongou a votação até às 21h00, depois de professores terem sido impedidos de transportar material eleitoral para os centros de voto que lhes tinham sido atribuídos. Estes incidentes mostram por que motivo os números regionais de abertura das urnas não refletiam todas as perturbações locais: embora tenha sido anunciado que 98,1% dos locais de votação estavam abertos no início do dia eleitoral, algumas comunidades enfrentaram atrasos consideráveis.
O IRI reconheceu que a Comissão Eleitoral substituiu os boletins comprometidos em Maluso e permitiu que os eleitores afetados votassem. Apelou também a uma investigação transparente sobre a forma como os boletins foram acedidos. A substituição resolveu o problema imediato da votação, mas as conclusões não identificam os responsáveis nem estabelecem se alguém foi responsabilizado.
Elevada participação, mas queixas sobre a votação por resolver
A participação registada, de 84,34%, superou em 4,34 pontos percentuais a previsão inicial de 80% dos responsáveis eleitorais. A votação decorreu em 5 212 secções de voto de 105 municípios e cidades, com quase 2,4 milhões de eleitores inscritos.
Às 22h14 da noite eleitoral, tinham sido processados 93,38% dos resultados numa contagem parcial e não oficial. O BFP tinha 614 672 votos para os partidos regionais, correspondentes a 34,8%, e o UBJP 571 703, equivalentes a 32,6%. Quatro partidos tinham ultrapassado o limiar de 2,5% para obter representação regional. Estes números correspondiam a uma contagem inicial, não à distribuição final de todos os lugares parlamentares.
Os observadores eleitorais manifestaram preocupação com a possibilidade de a elevada participação ter coexistido com interferências nas escolhas individuais dos eleitores. A Rede Jurídica para Eleições Transparentes relatou alegadas irregularidades no voto assistido, incluindo o preenchimento e a introdução de boletins nas urnas. O Conselho Pastoral Paroquial para o Voto Responsável transmitiu a denúncia de um observador eleitoral de que pessoas ligadas à mulher de um presidente de câmara local levaram uma lista de eleitores em Maguindanao del Sur para votarem usando os nomes de pessoas que ainda não tinham votado.
O IRI também identificou alegações de manipulação de boletins, transporte de eleitores e assistência indevida. Apelou a uma proteção mais eficaz do segredo de voto, da identificação dos eleitores e do tratamento dos boletins. Estas alegações carecem de investigação e não devem ser apresentadas como condutas comprovadas em toda a região.
As pressões administrativas foram consideráveis. Mais de 800 professores retiraram-se das funções eleitorais ou não puderam desempenhá-las, o que obrigou à substituição de membros das mesas eleitorais em alguns locais. Ainda assim, o IRI concluiu que, de um modo geral, a contagem e a transmissão automatizadas funcionaram conforme previsto.
Mortes obrigam a qualificar descrições de uma eleição pacífica
Mais de 20 000 militares e agentes policiais foram destacados para as eleições. Os responsáveis descreveram a votação como globalmente pacífica, e o IRI afirmou que decorreu sem grandes perturbações de segurança em grande parte da região. Esta avaliação não exclui episódios graves de violência em locais específicos.
Os números de vítimas variam consoante os relatos e o período abrangido. O relato inicial registou três mortos e 15 feridos num tiroteio em Cotabato City ao fim da noite de 13 de setembro, seguidos de uma morte após um incidente numa secção de voto a 14 de setembro. Outro relato apontou para pelo menos três mortos em vários tiroteios no dia das eleições. Na sua avaliação mais abrangente, o IRI registou pelo menos cinco mortos e mais de 20 feridos em tiroteios e explosões em torno das eleições em Cotabato City. Estes números não devem ser somados, uma vez que podem incluir incidentes coincidentes.
Também foram relatados tiros perto do complexo da administração municipal de Shariff Saydona Mustapha, em Maguindanao del Sur, onde entrou na zona um veículo blindado da Força de Ação Especial da polícia. Nesse relato, as autoridades não tinham identificado o grupo armado responsável. Os confrontos localizados que se seguiram na Área Geográfica Especial da região levaram ao destacamento de mecanismos de segurança conjuntos do Governo e da MILF.
Jemuel Siason, brigadeiro-general e subdiretor da polícia na região do Bangsamoro, afirmou que as forças de segurança permaneceriam no terreno depois de os vencedores serem proclamados:
«Manteremos as forças destacadas no terreno mesmo depois da proclamação dos vencedores. Estamos a tentar garantir que a situação de segurança se mantenha estável», afirmou Siason.
O IRI recomendou investigações imparciais e uma revisão dos preparativos de segurança eleitoral. A sua própria observação direta no dia das eleições limitou-se a quatro equipas em Cotabato City, devido às condições de segurança. Embora 108 observadores internacionais de várias organizações tenham acompanhado as eleições, o IRI alertou que as suas observações não devem ser consideradas representativas de toda a região.
Representação e recuperação continuam por concluir
Dez mulheres conquistaram lugares em eleições partidárias, distritais e setoriais, correspondendo a 12,5% dos lugares no novo Parlamento. Segundo o IRI, essa proporção não se alterou face ao parlamento de transição, apesar da participação ativa das mulheres nas eleições. O instituto instou os partidos a analisarem o recrutamento, as nomeações e a colocação de candidatas em posições com possibilidades reais de vitória.
A representação setorial deu às comunidades outras vias de acesso ao Parlamento, incluindo os dois representantes dos povos indígenas não moro. O IRI concluiu que alguns eleitores deixaram em branco as opções setoriais, o que sugere que partes do novo sistema não foram plenamente compreendidas. Recomendou mais ações de informação eleitoral, em particular junto de comunidades isoladas e de eleitores que enfrentam barreiras linguísticas ou de acessibilidade.
O alcance político das eleições também diferiu do da anterior configuração autónoma. Sulu já não faz parte do eleitorado do Bangsamoro. O Mahardika e o Partido do Bangsamoro, associados a fações da Frente Moro de Libertação Nacional, não conquistaram lugares, embora figuras ligadas a esse movimento tenham entrado no Parlamento através de outros partidos e de representantes individuais.
Para os residentes que continuam a reconstruir as suas vidas após o conflito, a representação parlamentar será avaliada em função das necessidades concretas. O cerco de Marawi, em 2017, durou cinco meses, matou mais de 1 100 pessoas, na maioria militantes, e destruiu zonas comerciais e residenciais. Algumas famílias regressaram a casas reconstruídas, enquanto centenas continuam em abrigos temporários.
Analyn Pangandaman, residente em Marawi, afirmou que a sua família esperava havia quase nove anos por uma indemnização do Governo e não tinha meios para reconstruir a casa sem esse apoio. A MILF também suspendeu o desarmamento dos antigos combatentes, alegando que o Governo não prestou a ajuda prometida. O cumprimento desses compromissos continua a ser uma tarefa distinta da realização de eleições.
As datas que marcam a transição
A passagem para um governo eleito tem decorrido entre a votação, a proclamação dos resultados e os preparativos para o novo Parlamento. As principais datas são:
- 14 de setembro de 2026: o Bangsamoro realizou as suas primeiras eleições parlamentares regulares.
- 15 de setembro: a votação prosseguiu em Maluso após a substituição dos boletins comprometidos.
- Pouco depois da meia-noite de 16 de setembro: foi proclamado o Parlamento, composto por 80 membros.
- 5 de outubro: os responsáveis assinalaram o início da construção de um novo edifício para o Parlamento em Cotabato City.
- 7 de outubro: o conselheiro para a Paz, Sarmiento, apelou a que os membros eleitos escolhessem livremente os seus líderes.
- 30 de outubro: o novo Parlamento deverá tomar posse e eleger a sua liderança.
- 30 de junho de 2031: está previsto que termine o mandato especial de transição, seguindo-se eleições parlamentares de três em três anos.
O projeto do edifício é outra vertente da transição institucional, mas não estará concluído quando os membros eleitos tomarem posse. Mohammad Yacob, presidente do Parlamento de transição, presidiu ao lançamento da primeira pedra do edifício de 10 pisos no Centro Governamental do Bangsamoro, no local onde se encontra o atual edifício do Parlamento.
Khalid Ma-amor Hadji Abdullah, presidente da Comissão de Contas, afirmou que a primeira fase da construção tem uma dotação de 800 milhões de pesos filipinos e deverá ficar concluída no prazo de três anos. O projeto pretende resolver a falta de espaço de trabalho, que levou alguns membros a arrendar escritórios fora do centro governamental.
As decisões imediatas ainda por tomar dizem respeito à coligação governativa e à liderança parlamentar. As investigações sobre a violência e a interferência nos boletins também continuam por concluir nos relatos das eleições. O IRI prevê publicar uma avaliação final abrangente, mas ainda não indicou uma data.
Pontos principais
- O BFP conquistou 31 lugares e o UBJP 30, ficando ambos abaixo do limiar de 41 lugares necessário para obter a maioria.
- Um total de 2 018 478 eleitores votou, numa participação de 84,34%.
- Os relatos divergem quanto à dimensão total da Coligação Grand, atribuindo-lhe oito ou 15 lugares.
- A votação em Maluso prosseguiu a 15 de setembro, depois de terem sido descobertos boletins preenchidos em 36 secções de voto.
- O IRI registou pelo menos cinco mortos e mais de 20 feridos na violência em torno das eleições em Cotabato City.
- As mulheres ocuparão 10 dos 80 lugares do novo Parlamento.
- O novo Parlamento deverá tomar posse a 30 de outubro e escolher o primeiro-ministro e os restantes dirigentes.






