Antigo primeiro-ministro sul-coreano Han Duck-soo condenado a 23 anos em histórico veredicto de insurreição por lei marcial

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Antigo primeiro-ministro sul-coreano Han Duck-soo condenado a 23 anos em histórico veredicto de insurreição por lei marcial

A democracia da Coreia do Sul posta à prova em decisão histórica

Um tribunal de Seul proferiu um veredicto surpreendente que ecoa por toda a política sul-coreana, condenando o antigo primeiro-ministro Han Duck-soo a 23 anos de prisão pelo seu papel naquilo que os juízes declararam formalmente como uma insurreição. A decisão marca a primeira vez que um tribunal caracteriza juridicamente a fracassada declaração de lei marcial do antigo presidente Yoon Suk Yeol como uma rebelião, estabelecendo um precedente judicial crítico que poderá moldar o destino de vários altos responsáveis acusados de crimes semelhantes.

Índice
  1. A democracia da Coreia do Sul posta à prova em decisão histórica
  2. A avaliação devastadora do tribunal sobre as ações de Han
  3. A chamada telefónica incriminatória
  4. A crise de 3 de dezembro e o seu rescaldo
  5. De tecnocrata a arguido: a notável carreira de Han Duck-soo
  6. O que o veredicto significa para Yoon Suk Yeol
  7. Reações internas e internacionais
  8. O caminho a seguir para a democracia sul-coreana
  9. Pontos principais

Han, 76 anos, recebeu a sua sentença na quarta-feira no Tribunal Distrital Central de Seul, onde o juiz presidente Lee Jin-kwan ordenou a sua detenção imediata. A pena de prisão excede significativamente os 15 anos solicitados pelo Ministério Público, refletindo a avaliação do tribunal sobre a grave ameaça que as ações do antigo primeiro-ministro representaram para a ordem constitucional da Coreia do Sul. Han torna-se o primeiro ministro do governo de Yoon a ser condenado em acusações criminais diretamente relacionadas com a tentativa de lei marcial, o que faz do seu caso um potencial indicador para os próximos julgamentos.

O acórdão centra-se nos acontecimentos de 3 de dezembro de 2024, quando o presidente Yoon Suk Yeol apareceu na televisão às 22h28 para anunciar a imposição da lei marcial. A declaração chocou a nação e desencadeou resistência imediata tanto de legisladores como de cidadãos, resultando, em última análise, na anulação da medida pela Assembleia Nacional em poucas horas. Aquilo que o Ministério Público e agora o tribunal descreveram como uma tentativa coordenada de minar as instituições democráticas conduziu a uma das crises políticas mais significativas da Coreia do Sul em décadas.

A caracterização destes acontecimentos pelo tribunal como uma insurreição tem implicações profundas, preparando potencialmente o terreno para consequências ainda mais severas para o próprio Yoon, que enfrenta uma decisão separada em 19 de fevereiro, na qual o Ministério Público exigiu a pena de morte. A condenação de Han por acusações de participação em ações-chave de insurreição, falso testemunho e falsificação de documentos oficiais representa uma pedra angular na resposta judicial à crise da lei marcial.

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A avaliação devastadora do tribunal sobre as ações de Han

O juiz Lee fez uma avaliação arrasadora da conduta de Han, sublinhando a responsabilidade única que o primeiro-ministro detinha como segundo responsável mais alto do governo da Coreia do Sul. O tribunal concluiu que Han possuía tanto o dever constitucional como a autoridade prática para impedir a declaração da lei marcial, mas, em vez disso, escolheu facilitar a sua implementação.

O arguido tinha o dever, enquanto primeiro-ministro a quem foi indiretamente conferida legitimidade democrática, e a responsabilidade correspondente de cumprir a Constituição e as leis e de envidar todos os esforços para realizar e defender a Constituição. Ainda assim, negligenciou este dever e responsabilidade até ao fim, pensando que a insurreição de 3 de dezembro poderia ter êxito, e escolheu participar como membro.

Esta avaliação contradisse diretamente a estratégia de defesa de Han, centrada na alegação de que se tinha oposto em privado à declaração da lei marcial e de que se encontrava em estado de choque psicológico quando Yoon a anunciou. Ao longo do julgamento, Han manteve que nunca apoiou nem tentou ajudar a implementação da lei marcial, dizendo ao tribunal em novembro: "Nunca a apoiei nem tentei ajudá-la." Os juízes rejeitaram totalmente estas afirmações, concluindo, em vez disso, que Han tinha sido um participante ativo na insurreição e não um espetador passivo.

O tribunal identificou ações específicas que demonstraram a cumplicidade de Han, incluindo o seu papel na organização daquilo que os juízes descreveram como a "aparência externa" de uma reunião legítima do Conselho de Ministros para aprovar automaticamente um decreto inconstitucional. As provas apresentadas durante o julgamento mostraram que apenas seis ministros foram convocados antecipadamente para o gabinete presidencial, tendo Han ajudado a garantir que a reunião alcançasse o quórum mínimo exigido para a legalidade, ao mesmo tempo que impedia ativamente uma deliberação significativa sobre o decreto da lei marcial.

As imagens de videovigilância revelaram-se particularmente prejudiciais para a defesa de Han, mostrando-o a assentir enquanto Yoon explicava o plano da lei marcial e a receber documentos, incluindo a proclamação oficial. O tribunal estabeleceu que Han tinha conhecimento do plano da lei marcial horas antes do anúncio televisivo de Yoon, minando as alegações de que foi apanhado de surpresa ou despreparado para responder. Em vez de usar este aviso prévio para mobilizar a oposição ou alertar colegas, as provas sugeriram que Han usou o tempo para facilitar os requisitos processuais da declaração.

O juiz Lee caracterizou a declaração da lei marcial de Yoon como um "autogolpe" da liderança eleita, distinguindo-a dos golpes militares históricos e argumentando que representava perigos únicos para a democracia precisamente por ter origem dentro das estruturas constitucionais e não fora delas. Este raciocínio fundamentou a decisão do tribunal de rejeitar precedentes de condenação de golpes militares passados, impondo antes uma pena mais severa que refletia aquilo que considerou uma traição à legitimidade democrática.

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A chamada telefónica incriminatória

Entre as provas mais convincentes contra Han estava uma chamada telefónica gravada de 8 de dezembro, na qual instruiu um assessor presidencial a destruir um documento da lei marcial com data retroativa. As palavras do antigo primeiro-ministro nessa chamada revelaram-se devastadoras para a sua credibilidade.

Vamos fazer como se a minha assinatura nunca tivesse existido.

Esta sugestão, captada em gravações áudio apresentadas ao tribunal, contradisse diretamente as alegações de Han de oposição à declaração da lei marcial e sugeriu consciência de culpa em vez de resistência baseada em princípios. O tribunal não encontrou remorso genuíno no comportamento de Han ao longo do julgamento, observando que ele continuou a ocultar provas e a prestar falso testemunho mesmo à medida que o processo avançava. A chamada de 8 de dezembro demonstrou esforços ativos para encobrir o seu papel, e não mera cumplicidade passiva, uma distinção que influenciou tanto a condenação como a severidade da pena.

Os problemas judiciais de Han ultrapassaram a própria acusação de insurreição. O tribunal condenou-o em múltiplas acusações relacionadas, incluindo falso testemunho durante o processo de impeachment de Yoon, criação de documentos falsos e destruição de registos presidenciais. Cada acusação adicional refletia aquilo que os juízes consideraram um padrão de obstrução e desonestidade que se estendia muito para além da declaração inicial da lei marcial. Estas condenações suplementares sublinharam a conclusão do tribunal de que Han não se limitou a participar em ações inconstitucionais, mas envolveu-se subsequentemente num encobrimento sistemático.

A natureza abrangente do veredicto abordou quase todos os aspetos da conduta de Han em torno da crise da lei marcial, desde a sua participação na reunião do Conselho de Ministros até aos seus esforços subsequentes para se distanciar dos acontecimentos. Esta abordagem minuciosa explica por que a pena final excedeu significativamente os 15 anos recomendados pelo Ministério Público. O juiz Lee determinou que os fatores agravantes, incluindo a elevada posição constitucional de Han, a sua facilitação ativa do decreto e as suas tentativas posteriores de ocultar provas, justificavam uma punição mais severa do que até a acusação considerara adequada.

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A crise de 3 de dezembro e o seu rescaldo

Compreender a gravidade da pena de Han exige examinar o contexto da declaração da lei marcial e o caos imediato que desencadeou em toda a sociedade e governo sul-coreanos. Quando Yoon Suk Yeol apareceu na televisão naquela noite de dezembro, anunciou medidas de emergência extraordinárias que suspenderam as proteções constitucionais normais e autorizaram as autoridades militares a assumir o controlo de funções essenciais do governo. A declaração visava especificamente aquilo que Yoon descreveu como forças antiestatais dentro do país, caracterizando a Assembleia Nacional controlada pela oposição como "um covil de criminosos" e prometendo eliminar "seguidores sem vergonha da Coreia do Norte e forças antiestatais".

Estes termos inflamatórios remetiam para a linguagem usada durante a era autoritária da Coreia do Sul, evocando memórias dolorosas da ditadura que muitos acreditavam que o país tinha deixado definitivamente para trás na década de 1980. A implementação prática da lei marcial envolveu o envio de tropas e agentes de polícia para a Assembleia Nacional e para os serviços eleitorais, ações que o tribunal caracterizou como "um motim" ou "um autogolpe" destinado a minar a ordem constitucional. Este uso da força contra instituições democráticas representou, na perspetiva do tribunal, uma tentativa ilegal de reprimir a oposição e consolidar o poder.

A resistência à declaração foi imediata e generalizada. Milhares de manifestantes reuniram-se em frente à Assembleia Nacional, enquanto os legisladores correram para o edifício para convocar uma sessão de emergência. Apesar da presença física de forças militares e policiais, conseguiram entrar na câmara da assembleia deputados suficientes para rejeitar o decreto de Yoon, demonstrando a resiliência das instituições democráticas da Coreia do Sul. Não ocorreu violência grave durante estes confrontos, em grande parte porque muitas das tropas e agentes de polícia mobilizados se recusaram a controlar agressivamente os manifestantes ou a bloquear os legisladores, refletindo a resistência institucional à ordem de lei marcial.

As consequências políticas revelaram-se devastadoras para Yoon e o seu governo. A Assembleia Nacional agiu rapidamente para destituir o presidente, e Han Duck-soo assumiu o cargo de presidente interino em 14 de dezembro de 2024, após a confirmação da resolução de impeachment. No entanto, o mandato de Han como presidente interino revelou-se curto e contencioso. Em 27 de dezembro, a Assembleia Nacional aprovou por unanimidade uma moção de impeachment contra ele, suspendendo-o de funções em meio a alegações ligadas ao seu papel na facilitação do processo da lei marcial.

A controvérsia específica em torno do impeachment de Han centrou-se na sua recusa em preencher os lugares vagos no Tribunal Constitucional, que deliberava sobre se deveria destituir formalmente Yoon do cargo. Os legisladores da oposição argumentaram que restaurar a composição plena do tribunal aumentaria as probabilidades de afastamento de Yoon, e viram a inação de Han como uma tentativa de proteger o seu antigo patrono. O Tribunal Constitucional reintegrou posteriormente Han como presidente interino, mas os danos à sua reputação já estavam feitos. Depois de o tribunal ter destituído formalmente Yoon como presidente no início de abril, Han demitiu-se para concorrer à presidência nas eleições antecipadas de junho, acabando por retirar-se da corrida após não conseguir garantir a nomeação do partido conservador.

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De tecnocrata a arguido: a notável carreira de Han Duck-soo

A queda dramática em desgraça representada pela sentença de quarta-feira contrasta fortemente com a distinta carreira de Han Duck-soo como um dos tecnocratas mais experientes e respeitados da Coreia do Sul. Diplomata e burocrata de carreira, Han ocupou cargos de alto nível sob cinco presidentes diferentes, tanto em administrações conservadoras como progressistas, demonstrando uma capacidade invulgar de navegar no cenário político frequentemente volátil da Coreia do Sul. O seu primeiro mandato como primeiro-ministro ocorreu sob o presidente liberal Roh Moo-hyun, entre 2007 e 2008, enquanto o seu segundo mandato começou sob o presidente conservador Yoon Suk Yeol, em maio de 2022.

A nomeação de Han por Yoon pareceu inicialmente calculada para trazer estabilidade e experiência ao governo. Han tornou-se, em última análise, o primeiro-ministro com o mandato mais longo sob um único presidente na história democrática da Coreia do Sul, um testemunho da sua adaptabilidade política e competência administrativa. Ao longo de quatro décadas de serviço público, Han afirmou-se como uma figura constante na governação coreana, alguém que transcendia divisões partidárias e se concentrava na competência técnica em vez do combate ideológico. Este percurso torna a sua condenação por participar numa tentativa de minar a democracia particularmente chocante, representando aquilo que muitos observadores consideram uma traição à confiança pública acumulada ao longo de décadas de serviço.

Ao longo do julgamento, a equipa jurídica de Han sublinhou o seu longo historial de serviço público e argumentou que o seu comportamento durante a crise da lei marcial refletia os desafios de servir sob um presidente determinado a seguir um rumo controverso. Descreveram Han como alguém que tentou moderar os impulsos de Yoon, mantendo-se limitado por estruturas governamentais hierárquicas e pelas limitações práticas do seu cargo. O tribunal rejeitou totalmente esta caracterização, concluindo, em vez disso, que Han possuía tanto a autoridade como a obrigação de resistir a ordens inconstitucionais e escolheu não exercer nenhuma delas.

A amplitude da experiência de Han em várias administrações explicava potencialmente por que permaneceu em liberdade durante grande parte do processo judicial. Em agosto, um juiz tinha rejeitado o seu mandado de detenção, citando "margem para litígio jurídico" quanto à sua culpabilidade. Esta decisão refletia aquilo que muitos especialistas jurídicos consideraram a complexidade de estabelecer a sua intenção criminosa específica, dado o seu percurso tecnocrático e as circunstâncias invulgares da declaração da lei marcial. No entanto, a natureza abrangente do veredicto de quarta-feira, com a sua conclusão de participação ativa e esforços subsequentes de encobrimento, parece ter resolvido essas ambiguidades a favor da acusação.

A resposta de Han à sentença foi bastante contida. Após a decisão, vestindo um fato e uma gravata verde, disse aos jornalistas: "Seguirei humildemente a decisão do juiz." O seu advogado indicou planos para recorrer do veredicto para o Supremo Tribunal, sugerindo que os desafios jurídicos continuarão. A expectativa do tribunal de que o caso será levado até à mais alta instância reflete a importância constitucional das questões em causa e o seu potencial impacto na governação futura.

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O que o veredicto significa para Yoon Suk Yeol

Talvez a consequência mais significativa da sentença de Han resida naquilo que sugere para o antigo presidente Yoon Suk Yeol, que enfrenta o seu próprio julgamento por insurreição, com veredicto agendado para 19 de fevereiro. O Ministério Público exigiu a pena de morte no caso de Yoon, caracterizando-o como o mentor por trás da declaração da lei marcial. Embora a Coreia do Sul não execute ninguém desde 1997, a severidade da pena solicitada reflete a visão do Ministério Público sobre a ameaça extraordinária que as ações de Yoon representaram para a ordem constitucional.

Yoon já foi condenado a cinco anos de prisão por obstruir a sua própria detenção após a declaração da lei marcial, um caso separado das acusações de insurreição. Esta condenação anterior envolvia alegações de que desafiou tentativas de o deter, fabricou a proclamação da lei marcial e negou a alguns membros do Conselho de Ministros o direito de deliberar sobre o seu decreto de lei marcial. Yoon recorreu deste veredicto, mantendo a sua inocência em todas as acusações e denunciando as investigações como "frenéticas", argumentando que envolvem "manipulação" e "distorção".

O antigo presidente negou consistentemente ter procurado impor uma regra militar de longo prazo, argumentando, em vez disso, que o decreto da lei marcial se destinava a alertar o público sobre aquilo que descreveu como obstrução por parte de um parlamento controlado pelos liberais. No entanto, os investigadores concluíram que a medida visava, na realidade, consolidar e prolongar a sua permanência no poder. A caracterização das ações de Han pelo tribunal como participação num "autogolpe" sugere que os juízes aplicarão provavelmente um raciocínio semelhante a Yoon, o que poderá resultar numa pena ainda mais severa, dado o seu papel como presumível arquiteto do plano da lei marcial.

Yoon enfrenta atualmente oito julgamentos criminais separados, refletindo a amplitude do risco jurídico decorrente da declaração da lei marcial e das ações relacionadas. Além das acusações de insurreição, o Ministério Público também o acusou de abuso de poder e de outros crimes. O desfecho destes casos determinará se Yoon passará o resto da vida na prisão, uma queda dramática para um presidente conservador que assumiu o cargo com promessas de estabilidade e reforma.

A crise da lei marcial já teve consequências profundas para a política e a governação da Coreia do Sul. Além de Han e Yoon, numerosos outros altos responsáveis enfrentam acusação, incluindo os ministros da Defesa, da Segurança e da Justiça de Yoon, juntamente com o chefe dos serviços secretos, o chefe da polícia e vários comandantes militares de topo. A amplitude destes procedimentos judiciais reflete aquilo que os investigadores consideram uma tentativa sistemática de subverter processos constitucionais, e não ações isoladas de alguns indivíduos.

A turbulência política e o vazio de poder criados pela crise mancharam a imagem internacional da Coreia do Sul e abalaram a sua diplomacia e os mercados financeiros, embora o país tenha desde então avançado para a estabilidade. Lee Jae Myung, antigo líder do principal partido liberal da oposição, o Partido Democrático, venceu as eleições antecipadas que se seguiram à destituição de Yoon, restaurando a governação constitucional normal. No entanto, os processos judiciais contra a antiga administração continuam, servindo simultaneamente como mecanismo de responsabilização e como lembrete constante de quão perto a democracia sul-coreana esteve de uma crise grave.

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Reações internas e internacionais

A sentença suscitou reações variadas em toda a sociedade sul-coreana, refletindo as profundas divisões políticas que a crise da lei marcial expôs. Numa estação de comboios em Seul, Kim Su-hyeon, uma passageira de 23 anos, assistiu à cobertura noticiosa e ofereceu uma perspetiva partilhada por muitos dos que se opunham ao governo de Yoon.

Esta decisão é algo que os cidadãos que se opõem à lei marcial podem aceitar plenamente.

Este sentimento reflete o alívio entre aqueles que viam a declaração da lei marcial como uma ameaça existencial à democracia e que acreditam que a responsabilização é essencial para evitar ações semelhantes no futuro. Para as gerações mais jovens, que cresceram inteiramente na Coreia do Sul democrática, a declaração da lei marcial representou um vislumbre chocante de um passado que acreditavam estar permanentemente confinado aos livros de história. A dura pena imposta a Han Duck-soo serve de garantia de que as instituições democráticas continuam capazes de se defender contra tentações autoritárias.

Nem todas as reações foram uniformemente positivas, no entanto. Kim In-sik, um passageiro de 79 anos, ofereceu uma perspetiva mais matizada sobre o legado de Han e as circunstâncias da sua queda.

Não sei se este homem idoso pretendia dedicar-se ao povo da Coreia do Sul à sua maneira, mas o resultado não foi bom.

Esta visão ambivalente reflete a complexidade da posição de Han e a tragédia de uma carreira que termina em desgraça, em vez da reforma honrosa que se poderia esperar para um tecnocrata que serviu em cinco administrações. Para alguns coreanos mais velhos, com memórias de transições políticas passadas e de sobrevivência burocrática, o comportamento de Han pode representar os compromissos e falhas morais que os responsáveis públicos por vezes cometem quando se veem entre obrigações constitucionais e pressões políticas.

Internacionalmente, o caso atraiu atenção como um teste à resiliência democrática numa região onde as influências autoritárias continuam fortes. A capacidade da Coreia do Sul de responsabilizar os seus mais altos responsáveis por meios legais, e não extralegais, demonstra a força das suas instituições democráticas, mesmo quando a própria tentativa de lei marcial expôs potenciais vulnerabilidades. A resposta jurídica abrangente à crise poderá, em última análise, fortalecer a democracia sul-coreana ao estabelecer limites claros em torno do poder constitucional que os futuros líderes hesitarão em ultrapassar.

Especialistas jurídicos sublinharam a natureza precursora do veredicto, com muitos a sugerir que influenciará não só os casos restantes relacionados com a declaração da lei marcial, mas também futuras interpretações da autoridade executiva na Coreia do Sul. A disposição do tribunal para exceder as recomendações de pena do Ministério Público indica um poder judicial independente preparado para afirmar a sua autoridade mesmo em casos que envolvem os mais altos níveis do governo. Esta independência judicial representa uma das principais salvaguardas institucionais que impediram o êxito da declaração da lei marcial de Yoon e continua a proteger a ordem constitucional através do processo de responsabilização.

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O caminho a seguir para a democracia sul-coreana

Enquanto Han Duck-soo se prepara para o processo de recurso e a nação aguarda o veredicto de 19 de fevereiro sobre Yoon Suk Yeol, a Coreia do Sul reflete sobre quão perto esteve de uma crise democrática e que lições devem ser retiradas da experiência. A declaração da lei marcial expôs vulnerabilidades institucionais que a sociedade civil e os líderes políticos provavelmente procurarão corrigir nos próximos anos. Estas poderão incluir protocolos mais claros para a resistência do Conselho de Ministros a ordens presidenciais inconstitucionais, proteções reforçadas para denunciantes dentro do governo e mecanismos melhorados de resposta legislativa e judicial rápida a abusos de poder executivo.

A natureza abrangente da resposta judicial, com vários altos responsáveis a enfrentar acusações em diversos tribunais, demonstra a complexidade de desvendar uma tentativa coordenada de minar as instituições democráticas. Cada veredicto contribui para uma narrativa mais ampla sobre responsabilização e os limites do poder executivo, criando potencialmente efeitos dissuasores contra futuras tentativas de deriva autoritária. O facto de a declaração da lei marcial ter falhado tão rapidamente, com o poder legislativo e o poder judicial a mobilizarem-se eficazmente para a contrariar, atesta a resiliência da arquitetura democrática da Coreia do Sul.

Ao mesmo tempo, o caso levanta questões incómodas sobre como um tecnocrata respeitado como Han Duck-soo pôde tornar-se cúmplice de ações tão claramente contrárias às tradições constitucionais da Coreia do Sul. A sua condenação sugere que as salvaguardas institucionais, por si só, são insuficientes sem coragem moral pessoal e um compromisso com princípios democráticos que transcenda a lealdade política ou a progressão na carreira. A formação e preparação dos altos responsáveis governamentais poderá ter de incluir uma ênfase mais explícita na ética constitucional e na obrigação de resistir a ordens ilegais, independentemente da sua origem.

Para os cidadãos sul-coreanos, os julgamentos em curso servem como uma educação cívica contínua sobre a natureza e a fragilidade da democracia. As provas detalhadas apresentadas em tribunal proporcionaram uma visão sem precedentes sobre como as tentativas autoritárias podem desenvolver-se dentro de sistemas democráticos e as várias formas que a resistência pode assumir. Esta componente de educação pública poderá revelar-se tão valiosa como as punições específicas aplicadas, criando uma cidadania mais informada e vigilante, melhor preparada para defender as instituições democráticas no futuro.

A comunidade internacional continua a acompanhar estes processos com interesse, uma vez que a resposta da Coreia do Sul à sua crise democrática influenciará provavelmente a forma como outros países equilibram responsabilização e estabilidade após turbulência política. O processo judicial minucioso, com o seu respeito pelo devido processo legal e pela independência judicial, oferece um potencial modelo para sociedades democráticas que enfrentam desafios semelhantes noutros lugares. A experiência da Coreia do Sul demonstra que mesmo tentativas graves de subverter a democracia podem ser tratadas através de mecanismos constitucionais, em vez de se degenerarem em caos ou retaliação.

À medida que os processos judiciais avançam para as suas conclusões, a Coreia do Sul parece preparada para emergir desta crise com as suas instituições democráticas fortalecidas, e não permanentemente danificadas. A dura pena imposta a Han Duck-soo, combinada com as consequências potencialmente ainda mais severas que aguardam Yoon Suk Yeol, envia uma mensagem inequívoca de que as tentativas de minar a ordem constitucional enfrentarão consequências graves. Esta mensagem poderá, em última análise, servir como o mais importante dissuasor contra futuras tentações autoritárias, garantindo que 3 de dezembro de 2024 permaneça um episódio isolado e não o início de um capítulo mais sombrio na história da Coreia do Sul.

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Pontos principais

  • O antigo primeiro-ministro sul-coreano Han Duck-soo, 76 anos, foi condenado a 23 anos de prisão pelo seu papel na insurreição da lei marcial de 3 de dezembro de 2024.
  • O tribunal decidiu que a declaração da lei marcial constituiu uma insurreição, marcando a primeira determinação judicial do género.
  • O juiz Lee Jin-kwan descreveu os acontecimentos como um "autogolpe" do poder eleito que representava perigos únicos para a democracia.
  • A pena de 23 anos excedeu os 15 anos pedidos pelo Ministério Público, refletindo a avaliação do tribunal sobre os fatores agravantes.
  • Han foi condenado por participar em ações-chave de insurreição, falso testemunho e falsificação de documentos oficiais.
  • Provas incriminatórias incluíram uma chamada telefónica em que Han disse a um assessor para destruir um documento com data retroativa: "Vamos fazer como se a minha assinatura nunca tivesse existido."
  • Han tornou-se o primeiro membro do governo de Yoon condenado em acusações relacionadas com a lei marcial.
  • O antigo presidente Yoon Suk Yeol enfrenta uma decisão em 19 de fevereiro sobre acusações de insurreição, nas quais o Ministério Público pediu a pena de morte.
  • Yoon já tinha sido condenado a cinco anos de prisão por obstruir a sua própria detenção após a declaração da lei marcial.
  • A declaração da lei marcial foi anulada pela Assembleia Nacional poucas horas após o anúncio televisivo de Yoon.
  • Han foi primeiro-ministro sob cinco presidentes diferentes e foi o primeiro-ministro com o mandato mais longo sob um único presidente na história democrática coreana.
  • Imagens de videovigilância mostraram Han a assentir enquanto Yoon explicava o plano da lei marcial e a receber documentos relacionados horas antes do anúncio.
  • O tribunal concluiu que Han ajudou a garantir que a reunião do Conselho de Ministros tivesse o quórum mínimo, ao mesmo tempo que impedia uma deliberação significativa sobre o decreto.
  • Han foi brevemente presidente interino após o impeachment de Yoon, mas foi ele próprio alvo de impeachment antes de ser reintegrado e de se demitir posteriormente.
  • Numerosos outros altos responsáveis, incluindo os ministros da Defesa, da Justiça e do Interior, enfrentam acusações relacionadas.
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