BBC pede ao Vietname que devolva o passaporte e deixe jornalista sair durante visita de To Lam ao Reino Unido

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BBC pede ao Vietname que devolva o passaporte e deixe jornalista sair durante visita de To Lam ao Reino Unido

Porque é que este caso é importante para a liberdade de imprensa e as relações entre o Reino Unido e o Vietname

Uma jornalista vietnamita que trabalha para a BBC está impedida de sair do Vietname há vários meses, depois de as autoridades terem retido o passaporte recentemente renovado e o cartão de identificação. A BBC afirma que a jornalista, cidadã vietnamita que trabalha habitualmente para o serviço vietnamita da estação fora do país, regressou para visitar a família e tratar da renovação habitual do passaporte. Em vez disso, foi interrogada durante vários dias por funcionários e, desde então, tem sido impedida de viajar para fora do país. O caso suscitou grande preocupação no Reino Unido e no Vietname, por coincidir com a chegada a Londres de To Lam, secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, para conversações que deverão incluir um encontro com o primeiro-ministro, Sir Keir Starmer. O incidente coloca os direitos humanos e a liberdade dos meios de comunicação social lado a lado com o comércio e a cooperação estratégica, num momento delicado para ambos os governos.

Índice
  1. Porque é que este caso é importante para a liberdade de imprensa e as relações entre o Reino Unido e o Vietname
  2. Um caso delicado durante uma visita de alto nível a Londres
  3. O que diz a lei vietnamita sobre a liberdade de expressão e os meios de comunicação social
  4. O serviço vietnamita da BBC é há muito um alvo
  5. Como são usadas as apreensões de passaportes e as proibições de saída
  6. O que pode fazer o Reino Unido e quais são os limites
  7. O que acontecerá agora à jornalista
  8. Riscos mais amplos para os jornalistas em contextos de tensão
  9. Pontos principais

Amigos e colegas dizem que a jornalista, de 29 anos, regressou em agosto à casa da família, perto da cidade de Ho Chi Minh. Poucos dias depois, foi chamada para sessões de interrogatório que duraram muitas horas. Pessoas familiarizadas com a situação dizem que foi questionada sobre o seu trabalho para o serviço vietnamita da BBC e que se sentiu pressionada a reconhecer a responsabilidade por um conjunto de artigos. A vigilância em torno da sua casa foi descrita como intrusiva. Encontra-se agora num limbo inquietante: vive com a família, mas está impedida de viajar por não ter os documentos necessários para sair do país.

As autoridades vietnamitas restringem frequentemente a liberdade de circulação durante investigações relacionadas com a liberdade de expressão ou de associação. Na prática, os funcionários podem reter passaportes e invocar a existência de uma investigação em curso. Ao contrário de uma detenção formal, isto cria uma forma de imobilidade que deixa as pessoas sem poder sair e ansiosas, sem esclarecer o que acontecerá a seguir. Nos últimos anos, organizações de defesa dos direitos humanos documentaram proibições de viajar e apreensões de passaportes usadas contra ativistas, escritores e vozes independentes.

A BBC emitiu um comunicado público a pedir que seja permitido à jornalista sair do país e que lhe sejam devolvidos os documentos. No comunicado, a estação explicou que a jornalista estava numa visita privada para ver a família e tratar de documentação, e que o interrogatório prolongado se tornou motivo de séria preocupação.

A BBC afirmou: "Uma das nossas jornalistas está impedida de sair do Vietname há vários meses, uma vez que as autoridades retiveram o seu cartão de identificação e o passaporte renovado. Durante este período, a nossa jornalista foi interrogada pelas autoridades ao longo de vários dias. A jornalista da BBC estava no Vietname para renovar o passaporte, um procedimento habitual, e visitar a família. Estamos profundamente preocupados com o bem-estar da nossa jornalista e instamos as autoridades a permitir que saia imediatamente, entregando-lhe o passaporte renovado para que possa regressar ao trabalho."

Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido reiterou que o país manifesta junto do Vietname preocupação com a pressão exercida sobre a sociedade civil e os meios de comunicação independentes. O Reino Unido apresenta-se como defensor da liberdade dos meios de comunicação social e mantém programas de apoio à liberdade de expressão e à segurança dos jornalistas em todo o mundo.

Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou: "Continuamos preocupados com os relatos de assédio a ONG, jornalistas, ativistas dos direitos humanos e comunidades no Vietname, e continuamos a manifestar diretamente estas preocupações ao nosso homólogo vietnamita."

Um caso delicado durante uma visita de alto nível a Londres

To Lam, antigo responsável da segurança que é agora secretário-geral do partido, está de visita ao Reino Unido para reuniões que evidenciam o aprofundamento dos laços económicos e políticos. A agenda deverá abranger o comércio, a tecnologia, a educação, o investimento e a cooperação climática. A polémica em torno da jornalista da BBC ameaça ofuscar esse programa. Membros da comunidade dos meios de comunicação social britânicos, defensores dos direitos humanos e alguns deputados estão a instar o governo a pressionar o Vietname para pôr fim à restrição de viagem e devolver o passaporte sem demora.

Phil Robertson, defensor dos direitos humanos radicado em Banguecoque e que conhece a jornalista, instou os dirigentes britânicos a abordarem diretamente o assunto ao mais alto nível. Argumentou que o caso é simples e que a jornalista nunca deveria ter sido impedida de sair.

Phil Robertson afirmou: "O governo britânico tem de falar com To Lam de forma muito, muito, muito clara e franca, e dizer-lhe que ela não fez nada de errado. Estava simplesmente a fazer o seu trabalho. O passaporte deve ser-lhe devolvido e ela deve poder seguir imediatamente para o aeroporto e apanhar um voo para sair do país."

Alertou também que interrogatórios intensos sobre artigos específicos podem indicar que está a ser preparado um processo criminal, e que a altura de uma eventual escalada pode ser influenciada pelo calendário político. Em episódios anteriores, as autoridades suspenderam ou adiaram detenções durante visitas diplomáticas de alto nível, retomando a aplicação da lei mais tarde. Os defensores dos direitos humanos preocupam-se também com a possibilidade de uma única jornalista ser usada para intimidar outras pessoas na mesma redação, vendo nesta tática uma forma de desencorajar a informação independente.

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O que diz a lei vietnamita sobre a liberdade de expressão e os meios de comunicação social

O Vietname é um Estado de partido único, e o Partido Comunista mantém um controlo apertado dos meios de comunicação social. A Lei da Imprensa define o jornalismo como um instrumento ao serviço dos objetivos do Estado. Essa doutrina repercute-se no licenciamento, no controlo dos conteúdos e na prática editorial quotidiana. Espera-se que os editores e jornalistas no país evitem temas sensíveis, incluindo críticas aos principais dirigentes, alegações de corrupção que envolvam o aparelho de segurança, ativismo independente e protestos. Quem ultrapassa esses limites pode ser alvo de sanções, perder o emprego ou ser processado criminalmente ao abrigo das disposições relativas à segurança nacional.

A expressão digital é frequentemente encarada da mesma forma. A Lei da Cibersegurança de 2018 e os regulamentos relacionados conferem às autoridades amplos poderes para obrigar as plataformas a remover conteúdos, restringir contas e entregar dados. Utilizadores, incluindo escritores e jornalistas independentes, foram acusados por publicações que, segundo as autoridades, distorcem os factos ou ameaçam a ordem pública. Os tribunais vietnamitas proferiram longas penas de prisão por alegada propaganda contra o Estado e por abuso das liberdades democráticas. Estes conceitos abrangentes permitem aos procuradores visar muitos tipos de expressão.

Os escritores politicamente ativos têm pago um preço elevado. A detenção e o julgamento da autora pró-democracia Pham Doan Trang, acusada de distribuir material contra o Estado e posteriormente condenada a uma longa pena de prisão, evidenciaram os riscos que as vozes independentes enfrentam. O seu caso, como outros, suscitou fortes críticas internacionais e tornou-se um exemplo de como o Vietname reprime a dissidência.

Para além das detenções, as restrições à liberdade de circulação são comuns. A Human Rights Watch documentou um padrão de proibições de saída do país e apreensões de passaportes que afeta ativistas e críticos do governo. A organização informou que, durante a primeira parte deste ano, dezenas de pessoas foram detidas por críticas pacíficas ou por alegadas ligações a grupos independentes. O resultado é uma pressão constante sobre quem escreve ou fala sobre a vida pública no Vietname, tanto na Internet como fora dela.

As repressões intensificam-se frequentemente em períodos de atenção internacional. Durante visitas anteriores de dirigentes estrangeiros, grupos de defesa dos direitos humanos registaram vagas de detenções, vigilância reforçada e interferências nas plataformas digitais. Em 2016, durante a visita do presidente dos Estados Unidos, a Amnistia Internacional denunciou detenções de ativistas pacíficos e restrições aos meios de comunicação independentes, incluindo medidas que afetaram jornalistas da BBC e bloqueios de grandes plataformas sociais. Este padrão mostra como o Estado controla tanto a rua como o espaço da informação em momentos delicados.

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O serviço vietnamita da BBC é há muito um alvo

O serviço vietnamita da BBC foi criado na década de 1950 e tem procurado oferecer informação rigorosa e independente a públicos dentro e fora do Vietname. Para muitas pessoas no país, o acesso ao sítio da BBC é irregular, devido ao bloqueio das redes utilizado por organismos estatais. O serviço vietnamita tem sede fora do país, nomeadamente em Banguecoque, para reduzir a interferência direta das forças de segurança pública. Ainda assim, os trabalhadores continuam vulneráveis quando regressam ao país, por exemplo, para renovar passaportes ou visitar familiares.

Na última década, o serviço experimentou novos formatos para chegar aos espectadores no Vietname, respeitando ao mesmo tempo as normas de imparcialidade. Um programa de debate no YouTube lançado em 2014 criou um espaço raro onde funcionários, académicos, dissidentes e cidadãos discutiam políticas e questões sociais. O aumento da pressão após 2016 e o reforço dos controlos da Internet tornaram arriscada a participação de pessoas no Vietname. O assédio digital aos moderadores aumentou e foram menos os convidados no país dispostos a participar. O programa acabou por terminar em 2022. O encerramento e os bloqueios reduziram a diversidade de vozes acessíveis ao público vietnamita e limitaram ainda mais o espaço para um debate aberto.

As autoridades também tentaram moldar o ambiente informativo nas redes sociais, onde páginas nacionalistas e contas pró-governo podem abafar as críticas. Escritores e influenciadores que contestam as narrativas oficiais dizem ser alvo de pedidos de moderação seletiva, campanhas de assédio por contas coordenadas e ameaças legais. Este contexto mais amplo ajuda a explicar por que razão uma jornalista vietnamita que trabalha para um órgão de comunicação social estrangeiro pode atrair a atenção dos serviços de segurança. Pessoas próximas do caso atual dizem que os interrogatórios prolongados e a exigência de reconhecer determinados artigos são sinais inquietantes, que podem anteceder medidas mais graves.

Como são usadas as apreensões de passaportes e as proibições de saída

A lei vietnamita permite que os funcionários restrinjam a possibilidade de um cidadão sair do país enquanto decorre uma investigação. Na prática, isso pode significar que uma autoridade retém o passaporte e informa a pessoa de que deve permanecer disponível para interrogatórios. Pode não haver acusação formal, prazo ou audiência em tribunal. Para quem trabalha no jornalismo, isto cria uma situação precária: não está detido numa cela, mas não pode sair e não sabe quando terminará a restrição. As proibições de saída podem durar semanas ou meses e, por vezes, são renovadas sem explicação clara.

Amigos da jornalista da BBC dizem que lhe foi exigido que reconhecesse um conjunto de artigos que escreveu. Em casos semelhantes, esses documentos podem ser citados mais tarde para construir um processo por violação das leis de segurança nacional. Este método serve dois objetivos ao mesmo tempo. Reúne material para um eventual processo e transmite aos colegas a mensagem de que a cobertura de temas sensíveis acarreta riscos pessoais. As redações sediadas fora do Vietname dependem do conhecimento e dos contactos locais, e até a possibilidade de um processo pode levar as fontes a hesitar em falar.

O que pode fazer o Reino Unido e quais são os limites

O Reino Unido acolhe uma das estações públicas de radiodifusão mais reconhecidas do mundo, e o governo defende a liberdade dos meios de comunicação social em fóruns internacionais. Este caso é complexo porque a jornalista é cidadã vietnamita, pelo que não se trata de uma questão consular. Ainda assim, o Reino Unido pode recorrer a instrumentos diplomáticos. As opções vão desde démarches privadas em Hanói e Londres até à apresentação do caso ao mais alto nível. O Reino Unido pode envolver parceiros e associar progressos a outras áreas de cooperação. O objetivo seria conseguir a devolução do passaporte sem recorrer a uma retórica que pudesse ser contraproducente.

Há razões para acreditar que a diplomacia discreta poderá ser eficaz. O Vietname preocupa-se com a sua reputação de parceiro fiável para o comércio e o investimento. Está a estreitar laços com várias potências mundiais e apresenta-se como um país estável, aberto aos negócios e não alinhado. Um impasse prolongado em torno de uma única jornalista desviaria a atenção dessa mensagem. Ao mesmo tempo, os responsáveis pelo aparelho de segurança poderão resistir a qualquer coisa que pareça uma cedência a um órgão de comunicação social estrangeiro. Essa tensão pode atrasar decisões e gerar sinais contraditórios.

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O que acontecerá agora à jornalista

Há vários cenários possíveis. No melhor dos casos, o passaporte e o cartão de identificação são devolvidos e a jornalista pode regressar à sua base. Por vezes, os casos delicados resolvem-se discretamente, quando os governos querem evitar notícias negativas. Um segundo cenário é a manutenção das restrições de saída sem acusações, deixando a jornalista num limbo. Um terceiro cenário, mais grave, consiste numa detenção formal e na abertura de um processo criminal relacionado com o seu trabalho jornalístico. Pessoas familiarizadas com os padrões de atuação das autoridades vietnamitas dizem que os primeiros dias após uma visita de grande visibilidade podem ser decisivos.

Seja qual for o desfecho, o caso já enviou um sinal a jornalistas e editores que cobrem o Vietname a partir do estrangeiro. Muitos trabalham agora fora do país, na Tailândia, em Singapura ou na Europa, para proteger a sua independência. Tornou-se mais difícil planear viagens de regresso a casa por motivos familiares ou para tratar de documentação administrativa. As fontes no Vietname que falam com meios de comunicação social estrangeiros arriscam-se a ser interrogadas ou a sofrer consequências piores. O espaço para uma conversa aberta na vida pública vietnamita tem vindo a diminuir, e incidentes como este tornam essa tendência visível.

Riscos mais amplos para os jornalistas em contextos de tensão

Os jornalistas enfrentam perigos em muitos lugares onde as tensões políticas são elevadas. Por vezes, equipas de reportagem são detidas por breves períodos, o seu equipamento é revistado ou os jornalistas são expulsos. O que estes casos têm em comum é a tentativa das autoridades de controlar as narrativas em momentos delicados. As ações do Vietname inserem-se nesse padrão, embora as leis e os sistemas políticos de cada país sejam diferentes. Quanto mais tempo este caso permanecer por resolver, maior será o custo para a liberdade dos meios de comunicação social no Vietname e para a credibilidade dos compromissos em prol do livre intercâmbio de ideias.

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Pontos principais

  • A BBC afirma que uma jornalista vietnamita do seu serviço vietnamita está impedida de sair do Vietname desde agosto, depois de as autoridades terem retido o passaporte renovado e um cartão de identificação.
  • A jornalista foi interrogada durante vários dias e, segundo pessoas próximas do caso, pressionada a reconhecer um conjunto de artigos publicados.
  • O caso coincide com a visita ao Reino Unido de To Lam, secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, aumentando a atenção política sobre a liberdade dos meios de comunicação social.
  • A BBC instou o Vietname a devolver imediatamente o passaporte, e o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico afirmou que manifesta às autoridades vietnamitas preocupação com o assédio a jornalistas.
  • Grupos de defesa dos direitos humanos documentam proibições de saída do país, pressão nas redes sociais e detenções de críticos, ilustrando o agravamento das restrições à liberdade de expressão no Vietname.
  • O serviço vietnamita da BBC opera fora do Vietname, e os seus conteúdos são frequentemente bloqueados no país, refletindo um conflito de longa data com os controlos estatais.
  • Os possíveis desfechos vão desde a rápida devolução dos documentos e a saída do país até a restrições de viagem prolongadas ou à abertura de um processo criminal.
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