A Crise da Manga no Sindh: Alterações Climáticas, Escassez de Água e a Batalha para Salvar o Rei das Frutas do Paquistão

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The curious case of mango production in Sindh - Pakistan - DAWN.COM

O Estado da Produção de Manga no Sindh: Uma Fruta Sob Ameaça

O Sindh, província meridional do Paquistão, há muito é celebrado pelas suas exuberantes plantações de mangueiras e pela icónica variedade Sindhri, frequentemente apelidada de «rainha das frutas». Contudo, por baixo do aroma adocicado das mangas a amadurecer, desenrola-se uma crise. Ao longo da última década, a indústria da manga da região foi atingida pelas alterações climáticas, pela escassez de água, por infestações de pragas e por desafios sistémicos, ameaçando não apenas os meios de subsistência de milhares de agricultores, mas também a posição do Paquistão no mercado mundial da manga.

Índice
  1. O Estado da Produção de Manga no Sindh: Uma Fruta Sob Ameaça
  2. Como as Alterações Climáticas Estão a Remodelar o Cultivo da Manga
  3. Escassez de Água: O Líquido Vital das Plantações de Mangueiras Seca
  4. Pragas e Doenças: Os Inimigos Invisíveis
  5. Colheita e Mão de Obra: A Tradição Encontra a Modernidade
  6. Impacto Económico: Exportações, Preços e o Setor de Valor Acrescentado
  7. Investigação, Inovação e a Busca por Soluções
  8. Lacunas Políticas e a Necessidade de Ação Governamental
  9. Implicações Mais Ampas: Uma Perspetiva Regional e Global
  10. Em Resumo

Outrora símbolo de abundância, as plantações de mangueiras do Sindh estão a diminuir. Segundo dados oficiais, a área dedicada ao cultivo da manga no Sindh caiu de 63.144 hectares, há uma década, para apenas 58.900 hectares em 2023-24. Embora os números de produção tenham oscilado — subindo ligeiramente de 329.300 toneladas em 2019-20 para 387.200 toneladas em 2023-24 —, a tendência geral é descendente, com a produtividade e a qualidade dos frutos a sofrer devido a uma confluência de pressões ambientais e económicas.

Como as Alterações Climáticas Estão a Remodelar o Cultivo da Manga

As alterações climáticas surgiram como a ameaça mais significativa para a produção de mangas no Sindh e em todo o Paquistão. A região tem vindo a experienciar padrões meteorológicos cada vez mais erráticos: ondas de calor fora de época, surtos frios repentinos, tempestades intensas e secas prolongadas. Estes extremos perturbam o delicado ciclo de vida das mangueiras, da florescência à frutificação, e têm conduzido a falhas generalizadas das colheitas nos últimos anos.

Por exemplo, o início precoce do verão e as temperaturas escaldantes — que por vezes sobem de 28°C para mais de 42°C em poucos dias — têm provocado o murchamento prematuro das flores de manga. Isto interrompe a polinização e a formação de frutos, resultando em mangas menos numerous e mais pequenas. Inversamente, invernos prolongados e verões atrasados tornaram as plantações mais vulneráveis a doenças fúngicas, reduzindo ainda mais as colheitas.

O Dr. Mir Amanullah Talpur, produtor e investigador em Umerkot, no Sindh, observa que «os invernos prolongados e os verões atrasados resultaram numa redução das colheitas. O clima ameno que persiste até início de maio impacta negativamente o crescimento da manga, com o frio prolongado a tornar as plantações mais vulneráveis a ataques fúngicos».

Estes choques climáticos não são exclusivos do Sindh. Em toda a Ásia do Sul, de Gujarat, na Índia, ao coração da região produtora de mangas do Paquistão, os agricultores lidam com perdas semelhantes. Em alguns anos, a colheita de mangas do Sindh caiu em até 50%, com colheitas inteiras perdidas devido a tempestades, secas ou oscilações bruscas de temperatura.

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Escassez de Água: O Líquido Vital das Plantações de Mangueiras Seca

A água é essencial para o cultivo da manga, especialmente durante os críticos estádios de florescência e frutificação, em fevereiro e março. Contudo, as plantações do Sindh estão cada vez mais ressequidas. A província depende da irrigação proveniente de rios e canais, mas as escassezes persistentes deixaram muitos produtores incapazes de fornecer às suas árvores a humidade necessária para um desenvolvimento saudável dos frutos.

Mir Shah Mohammad Talpur, que gere uma plantação de 450 acres perto de Hyderabad, lamenta: «Olhe para o tamanho da manga — tem 970 gramas, mas poderia ter mais de 1.000 gramas ou mesmo chegar perto dos 1.100 gramas se tivéssemos fornecido água à plantação antes da colheita».

Sem água suficiente, as mangas permanecem de tamanho reduzido e menos doces, reduzindo o seu valor de mercado. A escassez de água torna também as árvores mais suscetíveis a pragas e doenças, agravando os desafios enfrentados pelos produtores.

Pragas e Doenças: Os Inimigos Invisíveis

Mesmo enquanto os agricultores combatem os elementos, têm também de lidar com uma crescente variedade de pragas e doenças. O cicadídeo-da-manga, um pequeno insecto sugador de seivas, tornou-se uma preocupação nacional, infligindo danos durante os estádios de florescência e início da formação de frutos. As infestações de cicadídeos podem reduzir as colheitas em até 40%, e as suas secreções pegajosas promovem o crescimento de bolor fuliginoso, prejudicando ainda mais o fruto.

A doença da malformação, que provoca crescimento anormal de flores e rebentos, também se tornou mais frequente, frequentemente associada a padrões meteorológicos em alteração. Outras ameaças incluem a antracnose e o oídio, doenças fúngicas que prosperam nas condições húmidas e instáveis agora comuns no Sindh.

Mahmood Nawaz Shah, presidente do Sindh Abadgar Board, explica: «Nos últimos anos, os ataques de cicadídeo tornaram-se bastante comuns. Não recebemos do departamento da agricultura aconselhamento orientado para a investigação e baseado em evidências sobre como lidar com isso».

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Os esforços para controlar estas ameaças são prejudicados pela falta de apoio coordenado do governo. Muitos agricultores dependem de aconselhamento do setor privado, que nem sempre pode estar no seu melhor interesse, e os produtores mais pequenos frequentemente carecem dos recursos ou do conhecimento para implementar estratégias eficazes de gestão de pragas.

Colheita e Mão de Obra: A Tradição Encontra a Modernidade

A colheita anual de mangas no Sindh é um trabalho intensivo em mão de obra, combinando métodos tradicionais com inovações modernas. Os trabalhadores, muitos deles do sul de Punjab, migram para o Sindh a cada temporada, trazendo experiência na apanha, triagem e embalagem de mangas. O método convencional «pattaee» — escalar as árvores e apanhar as mangas em sacos para evitar contusões — continua a ser muito usado, embora alguns produtores progressistas utilizem agora ferramentas especializadas para minimizar os danos nos frutos e melhorar a eficiência.

Após a colheita, as mangas são classificadas e embaladas, sendo os melhores frutos destinados aos mercados de exportação. O tratamento em água quente, um processo introduzido para cumprir as normas fitossanitárias internacionais, é agora obrigatório para as mangas exportadas para a União Europeia e outros mercados de alto valor. Este tratamento ajuda a eliminar pragas e a prolongar a vida útil, mas acrescenta custos e complexidade ao processo de exportação.

Impacto Económico: Exportações, Preços e o Setor de Valor Acrescentado

O Paquistão é o quarto ou quinto maior produtor mundial de mangas, com uma produção anual de cerca de 1,8 milhões de toneladas. Punjab representa 70% da produção, o Sindh 29% e Khyber Pakhtunkhwa 1%. As mangas são uma exportação vital, gerando até 100 milhões de dólares em divisas anualmente, com principais compradores no Irão, no Golfo, na Ásia Central, no Reino Unido e para além destes.

No entanto, a queda das colheitas e da qualidade obrigou os exportadores a reduzir as suas metas. Em 2023, a meta de exportação foi reduzida de 125.000 para 100.000 toneladas, e os embarques reais ficaram abaixo do esperado. O setor de valor acrescentado — que abrange processamento, embalagem e armazenagem — também sofreu, espremido pelo aumento dos custos de eletricidade, combustível e insumos.

Waheed Ahmed, presidente de honra da Associação de Exportadores de Frutas e Legumes de Todo o Paquistão, alerta: «Os efeitos das alterações climáticas surgiram como a maior ameaça à produção de mangas, o que bem se pode avaliar pelo facto de a produção de mangas ter diminuído pelo terceiro ano consecutivo».

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Com a oferta a apertar, os preços domésticos das mangas dispararam, tornando a fruta menos acessível aos consumidores comuns. Os agricultores, entretanto, enfrentam o golpe duplo de colheitas inferiores e custos de produção mais elevados, sendo muitos obrigados a vender a preços reduzidos ou a abandonar as suas plantações.

Investigação, Inovação e a Busca por Soluções

No meio destes desafios, há vislumbres de esperança. Institutos de investigação em Punjab e no Sindh estão a trabalhar no desenvolvimento de novas variedades de manga resilientes ao clima e na melhoria das técnicas de gestão de pragas. O conceito de «jardins genómicos» — plantações onde diversas variedades de manga são testadas quanto à adaptabilidade e resistência — ganhou adeptos, embora tais projetos exijam investimento significativo.

O Dr. Abid Sulehri, diretor do Sustainable Development Policy Institute, explica: «Ao plantar várias variedades, podemos determinar quais se adaptam bem ao solo e ao clima do Paquistão. Se uma variedade em particular se revelar favorável, podemos usá-la como base para desenvolver novas variedades. Este é o motivo subjacente à introdução do conceito de um jardim genómico».

Produtores progressistas estão também a adotar práticas sustentáveis, como a agricultura biológica e a agricultura regenerativa, para reduzir a dependência de químicos e construir resiliência面对 choques climáticos. No entanto, estas inovações continuam inacessíveis para muitos pequenos produtores, que carecem dos recursos ou do apoio técnico necessários para efetuar a transição.

Lacunas Políticas e a Necessidade de Ação Governamental

Apesar da dimensão da crise, muitos agricultores e especialistas do setor criticam a ausência de uma intervenção governamental eficaz. Existe um consenso de que os serviços de investigação e extensão agrícola são inadequados, deixando os produtores por sua conta ou dependentes de aconselhamento privado que pode nem sempre ser imparcial.

Os apelos à ação incluem:

  • Maior investimento em investigação e desenvolvimento agrícola, particularmente em variedades de manga resilientes ao clima.
  • Formação e apoio aos agricultores em gestão de pragas, irrigação e práticas sustentáveis.
  • Melhoria da gestão da água e das infraestruturas para garantir fornecimentos de irrigação fiáveis.
  • Expansão do tratamento em água quente e de outras instalações orientadas para a exportação para manter o acesso ao mercado.
  • Reformas políticas para apoiar o setor de valor acrescentado e reduzir os custos de insumos.
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Sem uma atenção urgente a estas questões, o futuro da indústria da manga do Sindh — e os meios de subsistência que sustenta — permanece em risco.

Implicações Mais Ampas: Uma Perspetiva Regional e Global

A crise da manga no Sindh não é um fenómeno isolado. Em toda a Ásia do Sul, os produtores de mangas enfrentam desafios semelhantes à medida que as alterações climáticas se aceleram. Nas regiões de Gujarat e Gujarat, na Índia, tempestades e secas fora de época reduziram as colheitas de mangas em até 35%. A crise tem efeitos em cascata em todo o comércio mundial de mangas, com volumes de exportação reduzidos e preços mais elevados a afetar consumidores em todo o mundo.

Simultaneamente, a história das mangas do Sindh é um microcosmo da luta mais ampla que enfrenta a agricultura na era das alterações climáticas. Destaca a necessidade urgente de adaptação, inovação e ação coordenada para salvaguardar a segurança alimentar e os meios de subsistência rurais em regiões vulneráveis.

Em Resumo

  • As plantações de mangueiras do Sindh estão a diminuir, com a produção e a qualidade a declinar devido às alterações climáticas, à escassez de água e a infestações de pragas.
  • Padrões meteorológicos erráticos — ondas de calor, surtos frios, tempestades — estão a perturbar o ciclo de vida da manga e a causar falhas das colheitas.
  • A escassez de água durante estádios críticos de crescimento conduz a frutos de tamanho reduzido e menos comerciáveis e aumenta a vulnerabilidade a pragas e doenças.
  • Surtos de pragas, especialmente o cicadídeo-da-manga, e doenças como a malformação e o oídio são ameaças graves, agravadas pelas alterações climáticas.
  • As metas de exportação foram reduzidas e o setor de valor acrescentado luta com custos crescentes e produção inferior.
  • A investigação e a inovação, como jardins genómicos e agricultura sustentável, oferecem esperança, mas exigem maior investimento e apoio.
  • Agricultores e especialistas apelam a uma ação governamental urgente para fornecer investigação, formação e infraestruturas que sustentem a indústria.
  • A crise da manga no Sindh reflete desafios regionais e globais mais amplos na agricultura sob as alterações climáticas, sublinhando a necessidade de adaptação e resiliência.
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