Novas construções e sinais térmicos apontam para um complexo nuclear de maiores dimensões
As análises de imagens de satélite do complexo nuclear de Yongbyon, na Coreia do Norte, descrevem uma rede de produção em expansão, com um provável edifício de enriquecimento de urânio com cerca de 120 por 47 metros, armazenamento adicional de resíduos e atividade contínua no único local conhecido de produção de plutónio do país. No entanto, as análises divergem quanto a saber se o reactor experimental está a produzir material nuclear ou se ainda está a ser testado.
Índice
- Novas construções e sinais térmicos apontam para um complexo nuclear de maiores dimensões
- O que mostram realmente as imagens térmicas
- O reactor experimental é o principal ponto de divergência
- O reactor mais antigo continuou a funcionar durante extensas reparações
- Um provável edifício de enriquecimento recebe equipamento de arrefecimento
- A separação de plutónio parece ter decorrido ao longo de uma campanha
- Demolições e reparações após cheias remodelam o local
- As datas permitem separar as observações das conclusões
- A expansão é visível, os totais de produção não
- Pontos-chave
Uma análise datada de 19 de setembro de 2026 descreve temperaturas à superfície entre 18 e 30 °C no complexo, com uma média de 23 °C. Interpreta as descargas de água de arrefecimento para o rio Kuryong e as zonas mais quentes em torno das instalações de processamento como indícios de que os dois reactores, o enriquecimento de urânio e a separação de plutónio estão ativos.
Uma análise distinta, publicada em 21 de novembro de 2025, apresenta um quadro mais cauteloso. Conclui que o reactor mais antigo, de 5 MWe, estava em funcionamento desde outubro de 2024, mas interpreta as descargas intermitentes de água de arrefecimento do reactor experimental de água leve como sinais de testes antes do funcionamento com uma carga de combustível nuclear. Conclui ainda que uma provável campanha de reprocessamento de plutónio terá terminado em algum momento após junho de 2025.
Estas conclusões dizem respeito a períodos de observação diferentes, pelo que algumas divergências poderão refletir mudanças ao longo do tempo. Ainda assim, as afirmações mais fortes sobre funcionamento contínuo e produção de material nuclear exigem cautela. As imagens de satélite podem revelar construções, fluxos de água e calor à superfície, mas não permitem determinar diretamente quanto plutónio ou urânio altamente enriquecido é produzido numa instalação.
Yongbyon, a cerca de 100 quilómetros a norte de Pyongyang, apresenta assim dois desenvolvimentos em simultâneo: investimento visível em mais infraestruturas de produção e incerteza persistente quanto ao estado operacional de instalações específicas.
O que mostram realmente as imagens térmicas
A análise de setembro de 2026 utiliza imagens de infravermelhos térmicos do Landsat 9, um satélite de observação da Terra operado conjuntamente pela NASA e pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos. As medições de infravermelhos térmicos registam o calor emitido pelas superfícies. Não medem a temperatura no interior do núcleo de um reactor nem identificam o material nuclear existente num edifício.
A análise identifica o Laboratório Radioquímico e a central térmica nas proximidades como algumas das zonas mais quentes, com temperaturas entre 29 e 30 °C. A zona de enriquecimento de urânio existente regista entre 27 e 30 °C, em comparação com 21 a 26 °C em torno do provável novo edifício de enriquecimento. As zonas dos reactores apresentam valores entre 26 e 28 °C, embora o próprio edifício do reactor mais antigo pareça relativamente frio.
Face à média de 23 °C indicada para o complexo, os valores do laboratório e da central térmica são 6 a 7 °C superiores. Os valores da zona de enriquecimento existente são 4 a 7 °C superiores. Estas diferenças ajudam a identificar zonas que merecem ser examinadas, mas a média não é uma referência controlada que prove a ocorrência de um processo industrial específico.
A zona mais quente do laboratório é considerada compatível com a geração de vapor e o tratamento térmico associados ao reprocessamento. O calor em torno da central de enriquecimento existente é considerado compatível com o funcionamento de centrifugadoras. Trata-se de avaliações de atividade possível, não de medições diretas da separação de plutónio ou dos níveis de enriquecimento de urânio.
O novo edifício, mais frio, é particularmente importante. Mesmo a análise que descreve forte atividade noutros locais admite que esta instalação poderá estar numa fase diferente de preparação ou ainda não funcionar normalmente. Um exterior concluído não prova que o equipamento esteja instalado ou operacional no interior, nem que esteja a produzir material.
O reactor experimental é o principal ponto de divergência
As duas análises divergem sobretudo quanto ao reactor experimental de água leve de 25 MWe. A análise de setembro de 2026 considera as descargas repetidas de água para o rio Kuryong indícios de funcionamento contínuo do reactor. A análise de novembro de 2025 interpreta uma sequência mais prolongada de descargas e interrupções como indício de testes antes do arranque com combustível nuclear.
A análise anterior regista descargas em junho e julho de 2025, ausência de descargas visíveis em imagens de setembro e outubro e novas descargas em 13 de novembro. Descreve também interrupções em setembro e outubro de 2024 e entre novembro de 2024 e abril de 2025. É este padrão intermitente que sustenta a avaliação de que estavam a decorrer testes.
As observações posteriores poderão indicar uma mudança subsequente de estado, mas não permitem determinar com precisão quando terminaram os testes ou se começou o funcionamento contínuo com combustível. A descarga de água de arrefecimento mostra que um sistema de arrefecimento está a movimentar água. Interpretá-la como prova de funcionamento nuclear exige elementos de apoio e uma sequência de observações suficientemente detalhada.
A análise de setembro de 2026 estima que o reactor experimental poderá produzir mais de cinco vezes o plutónio produzido pelo reactor de 5 MWe. Esta estimativa não deve ser confundida com um total de produção confirmado. As designações 25 MWe e 5 MWe referem-se à capacidade de produção de eletricidade, não à quantidade de plutónio efetivamente medida.
O rendimento de plutónio depende de fatores que as imagens de satélite não podem determinar plenamente, incluindo a composição do combustível, os níveis de potência e o tempo que o combustível permanece no reactor. A água de arrefecimento, por si só, também não permite concluir que o plutónio produzido tenha a composição pretendida para armas. O potencial do reactor é relevante, mas o seu contributo efetivo continua por esclarecer.
O reactor mais antigo continuou a funcionar durante extensas reparações
As análises são mais concordantes quanto ao reactor de 5 MWe. A análise de novembro de 2025 situa o início do seu período de funcionamento em outubro de 2024 e descreve atividade contínua enquanto os trabalhadores renovavam o telhado, as paredes exteriores e os edifícios associados.
Os relatos divergem quanto ao calendário das reparações. Um situa os trabalhos mais extensos em junho e julho de 2025; o outro descreve a vedação ou substituição do telhado e a pintura exterior entre abril e agosto. O período mais curto poderá corresponder aos trabalhos mais visíveis, mas as datas não devem ser apresentadas como idênticas.
A análise de setembro de 2026 sugere que as reparações reforçaram uma estrutura envelhecida e poderão também ter reduzido o calor visível para os satélites estrangeiros. A análise de novembro de 2025 documenta a renovação, mas não estabelece que o objetivo fosse ocultar o calor. Um sinal térmico relativamente fraco não prova, portanto, uma tentativa deliberada de evitar a vigilância.
No final de 2025, surgiram novas construções nas proximidades do reactor. Imagens de 22 de outubro mostraram uma escavação com cerca de 20 por 20 metros, do outro lado de uma estrada, enquanto imagens de novembro revelaram a construção de cais de acostagem perto de uma zona de carga e descarga. As suas funções não foram determinadas.
A combinação de descargas de água, manutenção e obras nas proximidades sustenta a ideia de uma instalação ativa que continua a receber investimento. Não comprova um funcionamento ininterrupto diário nem permite calcular de forma fiável a produção de material nuclear.
Um provável edifício de enriquecimento recebe equipamento de arrefecimento
As provas mais detalhadas sobre as obras dizem respeito a uma provável instalação de enriquecimento de urânio situada cerca de 500 metros a nordeste do Laboratório Radioquímico. A análise de novembro de 2025 descreve um edifício com pelo menos dois pisos, um pavilhão central e uma área de implantação aproximada de 120 por 47 metros.
Estas dimensões correspondem a uma área de implantação de cerca de 5 640 metros quadrados. Não revelam a área útil interior nem o número de centrifugadoras que poderia acolher. A análise identifica semelhanças de implantação, construção e disposições de segurança com a suspeita instalação de enriquecimento de Kangson, o que sustenta a função proposta, mas não a confirma.
O edifício principal estava fechado e coberto por um telhado em junho de 2025. Em 22 de outubro, os exteriores de dois edifícios auxiliares estavam concluídos, uma passagem fechada ligava um deles à estrutura principal e os trabalhos de pavimentação e modelação do terreno tinham avançado.
A partir de setembro de 2025, surgiram seis possíveis permutadores de calor junto ao lado sudeste do edifício principal. Este tipo de equipamento pode remover calor e ajudar a manter temperaturas controladas para as centrifugadoras, que separam isótopos de urânio através da rotação de gás a alta velocidade. A presença de equipamento no exterior sugeria que os trabalhos no interior ainda decorriam.
Esta sequência de construção estabelece uma distinção importante: a estrutura exterior ficou concluída antes de a instalação estar necessariamente pronta. Os relatos que dão a nova instalação como concluída parecem referir-se ao exterior, enquanto os valores mais baixos registados na análise de setembro de 2026 deixam por esclarecer o seu estado operacional.
A zona de enriquecimento existente apresentou poucas alterações visíveis nos seis meses anteriores, depois de obras de renovação e expansão realizadas nos anos anteriores. No entanto, imagens de 22 de outubro mostraram aberturas adicionais no telhado de um possível edifício de manuseamento de fluoreto de hidrogénio, com cerca de 150 metros de comprimento. Não era claro se esses trabalhos correspondiam a uma renovação ou a um desmantelamento.
A separação de plutónio parece ter decorrido ao longo de uma campanha
O Laboratório Radioquímico separa o plutónio do combustível usado dos reactores. O funcionamento de um reactor e o reprocessamento são etapas distintas: um reactor pode produzir plutónio no seu combustível, mas a recuperação desse material exige um processamento químico posterior.
Na primavera de 2025, o fumo da central térmica que fornece vapor ao laboratório foi interpretado como indício de uma provável campanha de reprocessamento. Também foram observados veículos com regularidade no edifício de receção de combustível irradiado. A análise de novembro concluiu que o fumo tinha cessado em algum momento após junho e que o edifício de receção já não apresentava atividade comparável.
A data exata do fim era incerta, devido à cobertura irregular das imagens. A conclusão foi que a campanha tinha terminado por enquanto, não que o laboratório tivesse encerrado definitivamente.
Mais tarde, a análise térmica de setembro de 2026 identificou valores entre 29 e 30 °C em torno do laboratório e interpretou-os como indícios de retoma ou continuidade do reprocessamento. Uma campanha posterior seria compatível com a pausa anterior, mas nenhum dos relatos estabelece um calendário operacional completo ou a quantidade de plutónio separado.
As obras de armazenamento de resíduos nas proximidades acrescentam outro elemento ao quadro. Imagens de 11 de junho de 2025 mostraram, junto ao Antigo Depósito de Resíduos, uma estrutura de betão com cerca de 20 por 12 metros e nove escotilhas superiores. Em outubro, as laterais estavam cobertas de terra, deixando o topo exposto. Uma escavação imediatamente a oeste sugeria a possível construção de outro depósito subterrâneo.
A área de implantação da estrutura, de cerca de 240 metros quadrados, descreve o seu tamanho, não a capacidade de armazenamento nem o conteúdo. O seu aspeto é compatível com capacidade adicional para armazenar resíduos, mas não permite, por si só, determinar quanto material nuclear foi processado.
Demolições e reparações após cheias remodelam o local
A expansão decorre em simultâneo com a remoção do reactor de 50 MWe, cuja construção ficou inacabada. Os trabalhos foram interrompidos ao abrigo do Quadro Acordado de 1994 entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, e o reactor nunca foi concluído. A sua demolição não deve, por isso, ser confundida com o desmantelamento de uma fonte de plutónio em funcionamento.
A análise de novembro de 2025 descreve um desmantelamento gradual ao longo de vários anos, com alguns materiais reutilizados noutros locais de Yongbyon. Uma demolição mais extensa começou em junho. No outono, o pavilhão principal do reactor era a estrutura remanescente mais importante, e uma grua móvel foi observada ao seu lado em 22 de outubro e 13 de novembro.
As infraestruturas de água também precisaram de reparações. Chuvas intensas e cheias em julho e agosto de 2025 danificaram a barragem de descarga do rio Kuryong, perto dos reactores. A barragem ajuda a manter profundidade suficiente para a captação de água de arrefecimento, permitindo ao mesmo tempo a passagem do excesso de água quando o nível do rio sobe.
Em setembro, foi prolongado pelo rio um dique temporário de terra. Em 13 de novembro, as imagens mostravam trabalhos para construir uma barragem de descarga mais robusta. A análise não encontrou sinais de que as cheias tivessem interrompido a atividade dos reactores, embora as observações por satélite não permitam determinar todos os pormenores operacionais.
Estas mudanças mostram por que motivo a avaliação de Yongbyon exige mais do que contar os edifícios dos reactores. O controlo da água de arrefecimento, o armazenamento de resíduos, as instalações de processamento e o equipamento auxiliar influenciam a capacidade do local para manter a produção. A remoção de um reactor inacabado, a par do reforço destes sistemas, não prova, por si só, uma redução da capacidade de produção.
As datas permitem separar as observações das conclusões
Uma breve cronologia ajuda a distinguir a sequência de obras observada das afirmações posteriores sobre o funcionamento:
- 1994: A construção do reactor de 50 MWe foi interrompida ao abrigo do Quadro Acordado. Nunca foi concluído.
- 2009: A Coreia do Norte expulsou os inspectores da AIEA, pondo fim ao acesso da agência para realizar inspecções no país.
- Outubro de 2024: A análise de novembro de 2025 situa neste mês o início do período de funcionamento do reactor de 5 MWe.
- Abril a agosto de 2025: Foram observadas obras de renovação do telhado e do exterior do reactor de 5 MWe; outro relato destaca junho e julho.
- Junho de 2025: O provável edifício de enriquecimento estava fechado e coberto por um telhado. O fumo da central de vapor do laboratório cessou em algum momento após este mês.
- Setembro a novembro de 2025: Foram observados possíveis permutadores de calor, novas obras auxiliares, trabalhos de armazenamento de resíduos e obras de proteção do rio.
- 19 de setembro de 2026: A análise térmica posterior identifica zonas mais quentes em torno do laboratório e da instalação de enriquecimento existente, bem como uma provável nova instalação mais fria.
A cronologia dos relatórios oficiais é distinta. A lista de relatórios sobre as salvaguardas na RPDC da Agência Internacional da Energia Atómica identifica o GC(69)/13, datado de 18 de agosto de 2025, como o relatório mais recente que consta da lista. O seu título é «Aplicação das salvaguardas na República Popular Democrática da Coreia».
Essa listagem confirma a identidade e a data do relatório. Não valida, por si só, as leituras de temperatura de setembro de 2026 nem demonstra que a AIEA tenha subscrito todas as interpretações da análise posterior. Os relatos que citam a agência referem indícios de funcionamento do reactor mais antigo, breves pausas para manutenção e expansão do enriquecimento, mas essas descrições não devem ser tratadas como citações diretas do relatório indicado.
A expansão é visível, os totais de produção não
A conclusão conjunta mais sólida é que Yongbyon está a receber investimento continuado em várias partes da sua rede de produção de material nuclear. A provável construção de uma instalação de enriquecimento, o armazenamento adicional de resíduos, a renovação do reactor mais antigo e as reparações das infraestruturas de água são desenvolvimentos visíveis. O estado do reactor experimental e o calendário do reprocessamento estão menos bem estabelecidos.
Estas atividades são compatíveis com o objetivo declarado pelo líder norte-coreano Kim Jong Un de aumentar a produção de material nuclear. Relatos das suas visitas a instituições nucleares em janeiro de 2025 citam-no a descrever o ano como um período crucial para reforçar as forças nucleares.
Kim, líder da Coreia do Norte, usou a seguinte expressão para descrever esse objetivo:
reforçar as forças nucleares
O historial das construções é compatível com esse objetivo, mas não demonstra que uma meta de produção tenha sido atingida. O urânio altamente enriquecido e o plutónio separado são vias distintas para obter material destinado a armas nucleares; as imagens não quantificam nenhum dos arsenais nem permitem converter a atividade observada num número confirmado de ogivas.
Desde 2009, a AIEA tem recorrido sobretudo a imagens de satélite e a informação pública, em vez de inspecções no interior da Coreia do Norte. Isso limita a sua capacidade de verificar as taxas de funcionamento, a composição do combustível, os níveis de enriquecimento e os inventários de material. Não fica aqui estabelecida nenhuma data confirmada para a entrada em funcionamento da provável nova instalação de enriquecimento, para o arranque verificado do reactor experimental ou para uma futura inspecção.
Pontos-chave
- Yongbyon apresenta obras, renovações e uma provável expansão contínuas das infraestruturas de produção de material nuclear.
- O provável edifício de enriquecimento mede cerca de 120 por 47 metros; em 2025 foram instalados nas proximidades seis possíveis permutadores de calor.
- As análises concordam quanto à atividade do reactor de 5 MWe, mas divergem sobre se o reactor experimental estava em funcionamento ou a ser testado.
- Uma provável campanha de reprocessamento em 2025 parece ter sido interrompida; uma análise de setembro de 2026 interpreta sinais térmicos posteriores como indícios de retoma da atividade.
- As leituras térmicas e as descargas de água de arrefecimento não permitem determinar as quantidades de material nuclear nem a produção de ogivas.
- A AIEA não tem acesso para inspecções no interior da Coreia do Norte desde 2009.






