Avaliação concluída; conclusões detalhadas aguardam publicação
O Conselho Executivo do Fundo Monetário Internacional concluiu a consulta de 2026 ao abrigo do Artigo IV com as Maldivas em 14 de setembro, após um ano em que o país reembolsou uma obrigação islâmica de 500 milhões de dólares, mas continuou a enfrentar escassez de dólares, pesadas obrigações de dívida e uma acentuada desaceleração do turismo. As autoridades maldivas precisam de mais tempo para ponderar a publicação do relatório técnico que serviu de base à discussão do Conselho.
Índice
- Avaliação concluída; conclusões detalhadas aguardam publicação
- O que a missão de junho apurou
- Quebra do turismo provoca forte desaceleração
- Reembolsar uma obrigação não resolve o problema da dívida
- Porque persistiu a escassez de dólares
- Ganhos orçamentais confrontados com custos crescentes dos subsídios
- Reforma dos subsídios deve proteger as famílias vulneráveis
- Bancos, endividamento público e política monetária
- Planos de crescimento e falta de informação publicada
- Pontos principais
O comunicado de conclusão confirma que a avaliação anual chegou ao Conselho. Não revela a avaliação detalhada de setembro, as previsões revistas nem quaisquer conclusões específicas a que os administradores tenham chegado. O relato público mais claro da avaliação do FMI continua a ser a declaração preliminar emitida após a missão de junho, que projetou um crescimento económico de cerca de 1% em 2026 e alertou para a permanência de elevados riscos de sobre-endividamento.
Esta distinção é importante. As conclusões de junho eram da responsabilidade dos técnicos do FMI e não representavam necessariamente a posição do Conselho Executivo. Não devem ser tomadas como um relato publicado da discussão de setembro.
A principal tensão económica já é visível: o pagamento de uma obrigação importante reduziu uma ameaça imediata de incumprimento, mas os dólares utilizados para liquidar essa obrigação também reduziram as reservas disponíveis para responder a outras necessidades externas. Uma cobrança de impostos mais eficaz e a contenção antecipada da despesa proporcionaram algum alívio, enquanto os custos energéticos mais elevados e a quebra do turismo ameaçam anular esses ganhos.
O que a missão de junho apurou
Uma equipa do FMI liderada por Piyaporn Sodsriwiboon visitou Malé de 4 a 14 de junho e reuniu-se com o ministro das Finanças, H. Zareer, o governador da Autoridade Monetária das Maldivas, A. Munawar, outros altos responsáveis, representantes do setor privado e parceiros de desenvolvimento. Na sua declaração sobre a missão de junho, o FMI reconheceu a maior capacidade de resistência das autoridades durante um período económico e financeiro difícil.
Os técnicos afirmaram que as medidas de receita e os controlos da despesa em 2025 ajudaram a conter as pressões de financiamento. A forte procura turística e o apoio de parceiros bilaterais também aliviaram as pressões externas e contribuíram para o aumento das reservas internacionais. As autoridades continuaram a cumprir as obrigações de dívida, incluindo pagamentos a credores oficiais e privados.
A sequência distingue a evolução económica das várias fases da avaliação do FMI:
- Abril de 2026: As Maldivas liquidaram o seu sukuk de 500 milhões de dólares, enquanto as reservas oficiais caíram acentuadamente durante o mês.
- De 4 a 14 de junho de 2026: Os técnicos do FMI visitaram Malé para discutir a economia e as prioridades de política económica.
- 16 de junho de 2026: O FMI publicou as conclusões preliminares da missão.
- 14 de setembro de 2026: O Conselho Executivo concluiu a análise da consulta ao abrigo do Artigo IV.
Uma consulta ao abrigo do Artigo IV é a avaliação regular que o FMI faz da economia e das políticas de um país membro. A sua conclusão não anuncia, por si só, um empréstimo ou acordo de financiamento. O comunicado de conclusão não indicou uma data para a publicação do relatório técnico sobre as Maldivas.
Quebra do turismo provoca forte desaceleração
A previsão do FMI de junho apontava para um crescimento do PIB real de cerca de 1% em 2026, com uma recuperação esperada em 2027 e um crescimento a regressar a cerca de 4% a médio prazo. O PIB real mede a produção económica depois de ajustada às variações de preços. A desaceleração projetada reflete a quebra da atividade turística e a subida dos preços mundiais da energia associada ao conflito no Médio Oriente.
Uma previsão separada do Banco Mundial apontava para um crescimento de 0,7% em 2026, face a uma estimativa de 6,3% em 2025. Isso representaria uma descida de 5,6 pontos percentuais. O Banco reviu em baixa a previsão para 2026 em 3,2 pontos percentuais face à estimativa de outubro, invocando cancelamentos de voos, perturbações no turismo, preços mais elevados dos combustíveis e condições de financiamento mais restritivas.
As estimativas do FMI e do Banco Mundial diferem em 0,3 pontos percentuais, mas ambas apontam para um forte abrandamento da atividade. Nenhuma corresponde a um resultado confirmado para o ano, e não se pode presumir que o relatório técnico de setembro, ainda não publicado, mantenha inalterada a previsão do FMI de junho.
Nas Maldivas, estas pressões estão interligadas. O turismo gera divisas e receitas públicas, enquanto a importação de combustíveis cria procura de dólares e aumenta os custos dos subsídios. A desaceleração da atividade turística, a par da subida dos preços da energia, pressiona assim simultaneamente o crescimento, o orçamento e as contas externas do país.
Reembolsar uma obrigação não resolve o problema da dívida
O reembolso do sukuk de 500 milhões de dólares, um instrumento de financiamento islâmico, eliminou uma importante obrigação imediata. Posteriormente, a Fitch elevou a notação de crédito do país para CCC-. Esta notação continua a indicar um risco de crédito substancial e uma possibilidade real de incumprimento; não significa um regresso a uma sólida posição creditícia.
A Fitch estimou o serviço da dívida externa soberana e garantida em cerca de 535 milhões de dólares no segundo semestre de 2026, abaixo dos 1,1 mil milhões de dólares no primeiro semestre. A redução é de aproximadamente 565 milhões de dólares, ou 51%. Isto alivia o calendário de reembolsos, mas não elimina a necessidade de obter um financiamento adicional substancial em dólares.
Ahmed Mohamed, antigo ministro da Economia, saudou a redução do perigo imediato numa declaração de 5 de junho, distinguindo, no entanto, o êxito do reembolso de uma recuperação duradoura das finanças públicas:
O verdadeiro teste não é saber se o país evitou o incumprimento este ano. O verdadeiro teste é saber se este espaço de manobra será aproveitado para colocar as finanças públicas numa trajetória sustentável
Os apoiantes do Governo apontaram outro indicador de progresso. Ahmed Azaan, deputado do partido no poder, referiu 1,29 mil milhões de dólares em reembolsos de dívida externa ao longo de dois anos e meio, com a dívida externa a cair de 51,3% do PIB em dezembro de 2023 para 44,5% em maio de 2026.
Estes valores não representam a totalidade da dívida pública. Os dados do Ministério das Finanças indicavam uma dívida total do Estado de 155 mil milhões de rufiyaa das Maldivas (MVR), equivalente a 130% do PIB, no final de 2025, face a 126 mil milhões de MVR quando a atual administração tomou posse. Mais tarde, o ministério indicou que a dívida pública e publicamente garantida correspondia a 121,2% do PIB no final de abril. As diferenças de datas e de cobertura da dívida significam que estes indicadores não são diretamente comparáveis.
Porque persistiu a escassez de dólares
As reservas oficiais terão subido para 1,3 mil milhões de dólares em março, antes de caírem para 718 milhões de dólares em abril, após a liquidação do sukuk. Trata-se de uma descida de cerca de 582 milhões de dólares, ou 45%. O nível das reservas em abril cobria cerca de 1,4 meses de importações.
As reservas brutas não correspondem a fundos imediatamente disponíveis para utilização. A Fitch avaliou as reservas utilizáveis, depois de contabilizadas as obrigações que condicionam a sua disponibilidade, em 244 milhões de dólares. Estimou também que o Fundo de Desenvolvimento Soberano tinha caído para cerca de 21 milhões de dólares no final de abril, após o reembolso da obrigação.
A pressão era visível no mercado cambial. A taxa informal do dólar terá atingido 20,50 MVR, face à taxa oficial fixa de 15,42 MVR por dólar. Comprar dólares à taxa informal custava aproximadamente mais 33% do que à taxa oficial. Esta diferença ilustra a dificuldade em obter moeda estrangeira à taxa fixa, não uma alteração anunciada da taxa de câmbio oficial.
O Banco das Maldivas também limitou os gastos com cartões no estrangeiro e restringiu os clientes a 30 transações mensais de comércio eletrónico no estrangeiro. Estas restrições mostram como as pressões de financiamento externo podem afetar famílias e empresas, mesmo depois de o Governo ter cumprido um pagamento importante da dívida.
Os técnicos do FMI afirmaram que a Lei da Moeda Estrangeira ajudou a aliviar as pressões de liquidez cambial e a reforçar as reservas. Ainda assim, defenderam a necessidade de ajustamentos económicos mais amplos para preservar a taxa de câmbio fixa. Obter mais divisas através da regulamentação não basta, por si só, para eliminar a diferença entre as receitas e as despesas em dólares.
Ganhos orçamentais confrontados com custos crescentes dos subsídios
O FMI reconheceu o esforço do Governo em 2025 para aumentar as receitas e controlar a despesa. O Banco Mundial situou o défice orçamental desse ano em 4,3% do PIB. No entanto, alertou também que a contenção incluíra o adiamento de despesas de capital e compromissos por pagar que se acumulavam em atrasos nos ministérios e nas empresas públicas.
Os dados orçamentais preliminares de junho revelaram um regresso das pressões. O relatório semanal do Ministério das Finanças registou um défice de 110,6 milhões de MVR em 4 de junho, face a um excedente de pouco mais de mil milhões de MVR na mesma altura de 2025. A cobrança acumulada de impostos aumentou para 19,1 mil milhões de MVR, contra 17,3 mil milhões, uma subida de cerca de 10%, impulsionada pelos impostos sobre as empresas e pelo imposto sobre bens e serviços turísticos.
As receitas mais elevadas não foram suficientes para compensar o aumento da despesa. Os subsídios atingiram 2,3 mil milhões de MVR no início de junho, quase 69% acima do valor registado no mesmo período do ano anterior e já cerca de 80% da dotação anual. A massa salarial do setor público aumentou 477,4 milhões de MVR, para 5,3 mil milhões.
As previsões divergem quanto à dimensão do défice orçamental resultante. O Banco Mundial projetou um défice orçamental de 10,9% do PIB em 2026, enquanto a Fitch apontou para 14,6%. Ambos ficam acima da meta de 7,1% do Governo. A estimativa do Banco Mundial supera essa meta em 3,8 pontos percentuais; a da Fitch, em 7,5 pontos.
As instituições também divergiram quanto ao défice da conta corrente, que mede o saldo do comércio, dos rendimentos e das transferências do país com o resto do mundo. O Banco Mundial projetou 20,6% do PIB, acima dos 7,5% em 2025, enquanto a Fitch apontou para 17,5%. São previsões distintas, não uma estimativa única consensual.
Reforma dos subsídios deve proteger as famílias vulneráveis
As recomendações do FMI em junho apelavam a uma reforma orçamental credível, que contivesse a despesa e reforçasse as receitas. Os técnicos instaram as autoridades a dar continuidade aos esforços para racionalizar a despesa de capital em 2025, rever os regimes de subsídios e melhorar o controlo das empresas públicas.
A recomendação relativa aos subsídios era mais específica do que um corte generalizado na despesa. Os técnicos propuseram direcionar a ajuda para os grupos vulneráveis através de testes indiretos de condição de recursos, apoiados por uma maior capacidade administrativa e melhores sistemas de prestação. Este método utiliza características observáveis dos agregados familiares para estimar as suas necessidades quando é difícil obter registos fiáveis dos rendimentos.
Com a subida dos preços mundiais do petróleo, o objetivo é reduzir os custos públicos e, ao mesmo tempo, direcionar a ajuda para as famílias com menor capacidade para suportar preços mais elevados. A declaração não especificou novos critérios de elegibilidade, montantes de prestações nem um calendário para alterar os regimes existentes.
Os técnicos do FMI também identificaram a eficiência energética e a transição para as energias renováveis como formas de reduzir os custos futuros dos subsídios. O reforço da supervisão das empresas públicas era outra prioridade, uma vez que as suas dificuldades financeiras e fragilidades de governação podem criar encargos adicionais para o orçamento. Uma melhor gestão das finanças públicas ajudaria a tornar mais transparentes os compromissos de despesa e os respetivos custos.
Bancos, endividamento público e política monetária
O FMI descreveu o sistema financeiro como estável durante a missão de junho, mas alertou para a elevada interligação entre os bancos e o Estado. Esta interligação ocorre quando os bancos detêm montantes substanciais de dívida pública, ficando a sua situação financeira mais exposta às dificuldades do Governo em cumprir os reembolsos.
As obrigações e os bilhetes do Tesouro terão representado quase 90% do novo financiamento do Governo em 2025, uma vez que o custo elevado do endividamento externo levou as autoridades a recorrer a credores nacionais. Grande parte dessa dívida interna estava também denominada em dólares. Por isso, o recurso ao endividamento interno não elimina necessariamente o risco de reembolso em moeda estrangeira.
Uma forte exposição dos bancos à dívida pública pode também limitar os fundos disponíveis para o investimento produtivo privado. O FMI alertou que esta interligação, conjugada com outras condições económicas e de política económica, poderia criar riscos para a estabilidade financeira e restringir o crescimento.
A Autoridade Monetária das Maldivas retomou as operações de mercado aberto, uma medida saudada pelos técnicos do FMI. Estas operações permitem a um banco central influenciar a liquidez disponível no sistema bancário através de transações de mercado. Os técnicos recomendaram que prosseguissem para restringir as condições monetárias, juntamente com uma supervisão bancária mais forte e mecanismos de gestão de crises mais robustos.
As alterações legislativas recomendadas abrangiam as leis e os regulamentos relativos ao banco central e ao setor financeiro. A declaração de junho não apresentou um calendário legislativo, e o comunicado de conclusão de setembro não anunciou se estas recomendações foram adotadas.
Planos de crescimento e falta de informação publicada
Para além das pressões de financiamento imediatas, os técnicos do FMI apelaram a medidas para eliminar obstáculos ao crescimento, desenvolver o capital humano e reforçar a resiliência aos riscos climáticos. Assinalaram que os acordos comerciais e financeiros com importantes parceiros bilaterais tinham avançado, podendo alargar as fontes de procura externa.
A missão recomendou também o reforço das instituições jurídicas e da governação para apoiar as empresas privadas. Integrar considerações climáticas nos orçamentos públicos e nas decisões de investimento poderia ajudar a direcionar a despesa para o reforço da resiliência e melhorar o acesso a financiamento climático concessional, que, em geral, oferece condições mais favoráveis do que o financiamento comercial.
Estas eram recomendações, não anúncios de financiamento aprovado ou de projetos concluídos. A declaração de junho não indicou montantes para o possível financiamento climático nem datas para a implementação das reformas mais amplas.
O próximo marco informativo será a publicação do relatório técnico, caso as autoridades concordem com a sua divulgação. Não foi anunciada qualquer data-limite para a publicação. Até lá, os dados disponíveis mostram uma avaliação do Conselho concluída e um alerta preliminar detalhado: o reembolso atempado da dívida e um sistema financeiro estável reduziram as pressões imediatas, mas o crescimento fraco, a escassez de dólares e as grandes necessidades de financiamento continuam a exigir medidas de política económica.
Pontos principais
- O Conselho Executivo do FMI concluiu a consulta de 2026 às Maldivas ao abrigo do Artigo IV em 14 de setembro; o relatório técnico ainda não foi publicado.
- As projeções dos técnicos do FMI em junho apontavam para um crescimento de cerca de 1% em 2026, com uma recuperação esperada em 2027.
- O reembolso do sukuk de 500 milhões de dólares aliviou as pressões imediatas de incumprimento, mas coincidiu com uma forte redução das reservas.
- A Fitch estimou o serviço da dívida externa em 535 milhões de dólares no segundo semestre de 2026.
- As previsões do Banco Mundial e da Fitch apontam para défices orçamentais superiores à meta de 7,1% do PIB fixada pelo Governo.
- As prioridades do FMI incluíam subsídios direcionados, maior controlo das empresas públicas, a continuação do aperto monetário e uma supervisão bancária mais rigorosa.
- Não foi anunciada uma data para a publicação do relatório técnico detalhado.






