A inflação é prioritária após duas subidas das taxas
O governador do Banco da Coreia, Shin Hyun-song, sinalizou que continuam a ser possíveis novas subidas das taxas de juro, à medida que a Coreia do Sul se aproxima da reunião de política monetária de 22 de outubro de 2026. Alertou que a inflação permanecerá acima da meta de 2% do banco central durante um período considerável. A taxa de referência já está nos 3%, após subidas de 0,25 pontos percentuais em julho e agosto.
Índice
- A inflação é prioritária após duas subidas das taxas
- O que mostram realmente os indicadores da inflação
- O calendário da política monetária e os limites das indicações
- Porque defende Shin que agir mais cedo custa menos
- Poderá o crescimento dos semicondutores sustentar a economia em geral?
- A estimativa orçamental não é uma previsão revista
- Riscos na habitação e encargos para os mutuários mais vulneráveis
- Pedido de desculpas pelas advertências sobre ETF alavancados
- Pagamentos digitais, privacidade e falta de dados sobre a IA
- A comunicação continua a ser posta à prova
- Pontos principais
Durante uma audição parlamentar na sede do banco central, em Seul, a 12 de outubro, Shin colocou a inflação no centro da próxima decisão, apontando também para a subida dos preços da habitação na região da capital e para o aumento da dívida das famílias. A inflação dos preços no consumidor foi de 2,9% em setembro. O indicador que exclui os alimentos e a energia atingiu 2,8%, acima dos 2,5% registados em junho.
A audição também revelou uma estimativa detalhada do orçamento proposto pelo Governo para 2027: mais 0,5 pontos percentuais de crescimento económico e 0,06 pontos percentuais de inflação. Estes cálculos são distintos das previsões oficiais do banco, uma diferença importante para avaliar se a despesa pública e a contenção monetária estão a contrariar-se mutuamente.
Em resposta a perguntas sobre as perspetivas da política monetária, Shin explicou como o banco encararia novas subidas:
Planeamos decidir o momento e o ritmo de novas subidas acompanhando de perto a inflação, a evolução da economia e as condições de estabilidade financeira.
Não se comprometeu com uma subida em outubro ou novembro, nem com um aumento maior, de 0,50 pontos percentuais. A sua mensagem foi mais limitada: a orientação da política continua a apontar para a possibilidade de um novo aperto, mas a próxima decisão dependerá da informação económica analisada na reunião.
O que mostram realmente os indicadores da inflação
Os números da inflação de setembro descrevem diferentes aspetos da mesma evolução dos preços. A inflação dos preços no consumidor, de 2,9%, abrange o cabaz geral de compras das famílias. A inflação que exclui os alimentos e a energia foi de 2,8%, enquanto outro indicador subjacente, que exclui os produtos agrícolas e os produtos petrolíferos, subiu 2,7%. São índices diferentes, não estimativas contraditórias de um único indicador.
Em setembro, a inflação que exclui os alimentos e a energia ficou 0,8 pontos percentuais acima da meta do banco, face a 0,5 pontos percentuais em junho. Este aumento da diferença ajuda a explicar a atenção de Shin ao controlo da inflação subjacente antes que se propague ainda mais.
O banco prevê que a inflação dos preços no consumidor seja, em média, de 2,7% em 2026 e de 2,3% em 2027. Prevê também que a inflação se situe em torno dos 3% em outubro. Embora a inflação dos preços no consumidor em setembro e o índice que exclui os produtos agrícolas e petrolíferos tenham sido inferiores aos de agosto, o banco alertou que as comparações com os preços do ano passado podem ocultar pressões persistentes.
Estas comparações são conhecidas como efeitos de base. A taxa de inflação anual depende, em parte, do nível dos preços um ano antes, pelo que uma leitura anual mais baixa não significa necessariamente que as atuais pressões sobre os preços tenham abrandado na mesma medida.
Shin reconheceu que os preços do petróleo e a transferência dos custos mais elevados para os preços de venda tiveram um papel importante entre a primavera e o verão. O banco associou também a inflação subjacente recente a perturbações na oferta relacionadas com a prolongada crise no Médio Oriente. A sua preocupação é agora que a melhoria dos rendimentos e do consumo acrescente pressão da procura aos custos já existentes.
O calendário da política monetária e os limites das indicações
A sequência de decisões mostra por que razão a reunião de outubro é importante. Já houve duas subidas dos custos do crédito, enquanto as projeções condicionais do banco apontam para a possibilidade de novas subidas:
- Julho de 2026: a taxa de referência subiu de 2,50% para 2,75%.
- Agosto de 2026: uma segunda subida elevou a taxa para 3,00%.
- Setembro de 2026: a Reserva Federal dos EUA aumentou o intervalo da taxa diretora em 0,25 pontos percentuais, para 3,75%-4,00%.
- 12 de outubro de 2026: Shin disse aos deputados que a inflação seria o fator mais importante na próxima decisão.
- 22 de outubro de 2026: o Banco da Coreia realiza a próxima reunião para decidir a política monetária.
- 26 de novembro de 2026: está agendada uma nova reunião de decisão sobre a política monetária.
Após a reunião de agosto, o banco divulgou 21 projeções condicionais para a taxa de referência seis meses mais tarde. Dez apontavam para 3,25%, seis para 3,50% e cinco para 3,00%. A mediana era de 3,25%, e 16 das 21 projeções ficavam acima da taxa atual.
Estas projeções não são promessas nem votos para a reunião de outubro. Shin disse que, desde agosto, chegaram novas informações económicas, que serão explicadas com mais pormenor na próxima decisão.
Porque defende Shin que agir mais cedo custa menos
Shin defendeu as subidas de julho e agosto como forma de ganhar tempo antes de as condições financeiras se tornarem mais difíceis de gerir. Disse que agir antes da subida da Reserva Federal em setembro ajudou as autoridades a responder às flutuações do mercado e reduziu o risco de terem de subir as taxas defensivamente mais tarde.
Na audição parlamentar, o governador descreveu o momento da mudança de orientação do banco:
Orientámos a nossa política monetária no sentido de subir as taxas de juro um pouco antes de outros grandes países.
Acrescentou:
Creio que ganhámos algum tempo.
Shin atribuiu às subidas um papel na estabilização da taxa de câmbio. Um won mais forte pode reduzir o custo interno dos bens importados, incluindo a energia, e aliviar a pressão sobre o poder de compra das famílias. Disse também que as taxas de rendibilidade das obrigações do Estado coreano se mantiveram relativamente estáveis nas duas a três semanas anteriores, tendo a redução da emissão prevista de obrigações do Estado contribuído para acalmar o mercado.
Os relatos divergem quanto ao caráter invulgar das subidas consecutivas. Um deles cita Shin a descrevê-las como inéditas, enquanto outro indica que foram as primeiras subidas consecutivas desde janeiro de 2023. As datas e a dimensão das medidas de julho e agosto são consistentes nos vários relatos, mas a descrição histórica mais ampla não é.
O argumento do governador não elimina o custo imediato para quem tem empréstimos. Trata-se de uma comparação entre o custo de agir agora e o de esperar até que uma inflação mais forte ou a pressão dos mercados exijam medidas mais enérgicas.
Poderá o crescimento dos semicondutores sustentar a economia em geral?
O Banco da Coreia prevê um crescimento económico de 3,3% em 2026 e de 2,9% em 2027. No seu relatório à Assembleia Nacional, afirmou que as fortes exportações de semicondutores estavam a melhorar os rendimentos e que se esperava que os benefícios se estendessem à procura interna, incluindo ao consumo.
Esta expectativa é central no debate sobre as taxas. Os deputados questionaram se o aumento das taxas em resposta a um crescimento concentrado nos semicondutores poderia enfraquecer outros setores. Shin respondeu que a política monetária tem de ter em conta a economia no seu conjunto e defendeu que a melhoria dos rendimentos poderia estender-se para além do setor dos semicondutores.
O banco indicou um crescimento do rendimento interno bruto de 13,2% no primeiro trimestre e de 15,7% no segundo, face a 3,5% no quarto trimestre de 2025. O rendimento interno bruto mede os rendimentos gerados pela atividade económica e pode ajudar a mostrar como as alterações nas condições comerciais afetam o poder de compra.
Shin citou também outro valor: o PIB nominal aumentou 26,4% em termos homólogos no segundo trimestre. O PIB nominal inclui as variações de preços, pelo que este valor não deve ser interpretado como um aumento de 26,4% no volume da produção, nem comparado diretamente com a previsão anual de crescimento do banco.
O banco está a recalcular o hiato do produto, ou seja, a diferença entre a produção efetiva e a capacidade de produção sustentável estimada da economia. Shin disse que este se aproximava do limiar entre valores negativos e positivos. Um hiato positivo pode indicar maior pressão da procura sobre os preços, mas o governador não apresentou um valor revisto nem uma data para essa transição.
A estimativa orçamental não é uma previsão revista
O orçamento do Governo proposto para 2027 ascende a 820,9 biliões de won, mais 93 biliões de won, ou 12,8%. Os deputados do Partido do Poder Popular Lee Jong-wook e Park Soo-young questionaram se o aumento da despesa pública, enquanto o banco central sobe as taxas, poderia reduzir a eficácia da política e agravar as dificuldades económicas.
Shin reconheceu que a expansão orçamental poderia aumentar a procura e a pressão sobre os preços a curto prazo. A sua estimativa, porém, apontou para um efeito adicional de 0,06 pontos percentuais na inflação, a par de um contributo de 0,5 pontos percentuais para o crescimento do PIB.
O departamento de estudos do banco produziu estas estimativas com o modelo macroeconómico BOK20. O cálculo pressupôs uma combinação de consumo público, investimento e transferências, com base na experiência passada. As alterações ao orçamento durante a apreciação parlamentar poderão, por isso, mudar o resultado.
Se os efeitos estimados fossem somados mecanicamente às perspetivas divulgadas pelo banco em agosto, o crescimento em 2027 seria de 3,4%, em vez de 2,9%, e a inflação de 2,36%, em vez de 2,3%. Estes totais são meras ilustrações aritméticas, não novas previsões oficiais. Os efeitos do orçamento não foram incorporados diretamente nas perspetivas publicadas.
Questionado sobre se a expansão orçamental e o aperto monetário estavam a avançar em sentidos opostos, Shin disse que o banco estava a testar essa hipótese:
Estamos a verificar com modelos se existe realmente um desfasamento.
Distinguindo ainda a despesa que aumenta imediatamente a procura do investimento que, ao longo do tempo, eleva a capacidade produtiva da economia, disse que as transferências têm um multiplicador orçamental relativamente baixo. O multiplicador indica quanto aumenta o PIB em resultado de um acréscimo da despesa pública; depende do tipo de despesa e da forma como os beneficiários utilizam o dinheiro.
Riscos na habitação e encargos para os mutuários mais vulneráveis
A inflação não é a única preocupação do banco. Shin identificou a subida dos preços da habitação na região metropolitana de Seul e o aumento da dívida das famílias como fontes persistentes de desequilíbrio financeiro. Disse que as decisões monetárias têm de ter em conta estes riscos, a par dos preços e da atividade económica.
O banco descreveu o sistema financeiro como globalmente estável, apoiado pela resiliência das instituições financeiras e pela capacidade do país para cumprir as suas obrigações de pagamento externas. Essa avaliação não excluiu a possibilidade de dificuldades entre os mutuários mais vulneráveis e outras partes mais frágeis da economia.
O deputado do Partido Democrático Ahn Do-geol questionou Shin sobre o custo das taxas mais elevadas para as famílias, as empresas e a procura interna. Shin reconheceu que os mutuários mais vulneráveis estavam a sentir os efeitos do aperto monetário, mas argumentou também que os baixos rendimentos sofrem muito com a subida dos preços.
A resposta apontou para uma assistência pública direcionada, em vez de tratar a inflação ou o custo da dívida como a única preocupação. Shin disse que o banco e o Governo deveriam trabalhar em conjunto noutras medidas de apoio às pessoas afetadas.
O banco também tem tratado o crédito de apoio de forma diferente da taxa de referência. Quando subiu a taxa diretora em agosto, manteve em 1,25% a taxa do seu programa de apoio ao crédito e concedeu assistência especial a pequenas e médias empresas em zonas afetadas por inundações. Prevê alterações para melhorar o apoio às empresas regionais com acesso limitado ao financiamento e tornar o programa mais sensível às condições económicas.
Pedido de desculpas pelas advertências sobre ETF alavancados
A auditoria revelou uma falha distinta na comunicação do banco sobre os riscos dos investimentos. Em resposta ao deputado do Partido Democrático Jung Sung-ho, Shin pediu desculpa pela insuficiência das advertências relacionadas com a introdução de fundos cotados alavancados associados a ações individuais.
Ao explicar o papel do banco na sensibilização do público, Shin afirmou:
Peço desculpa ao público por não termos emitido advertências suficientes relativamente aos ETF alavancados sobre ações individuais.
Estes fundos procuram replicar o dobro da rendibilidade de uma determinada ação, como as da Samsung Electronics ou da SK Hynix. A exposição a uma única empresa torna especialmente importantes as variações do seu preço, e a alavancagem amplia tanto as perdas como os ganhos. Uma descida da ação subjacente pode, por isso, resultar numa perda próxima do dobro dessa variação durante o período de replicação do fundo.
Shin disse que, na altura de uma conferência de imprensa no final de maio, o banco não tinha compreendido plenamente a volatilidade do mercado acionista interno e do setor dos semicondutores de memória. Falou em termos gerais sobre contrair empréstimos para investir em ações, mas reconheceu que as advertências foram insuficientes.
O Relatório de Estabilidade Financeira de junho do banco concluíra que os produtos poderiam ajudar a manter no país o dinheiro destinado a investimento e atrair investimento estrangeiro. Shin disse que essa avaliação não era adequada às circunstâncias da altura. O pedido de desculpa distingue os possíveis benefícios para os fluxos de investimento dos riscos para os investidores, que a avaliação anterior não comunicou devidamente.
Pagamentos digitais, privacidade e falta de dados sobre a IA
Os deputados analisaram também o Projeto Hangang, o programa-piloto de moeda digital do banco. O deputado do Novo Partido Reformista Lee Jun-seok questionou se o projeto equivalia à introdução de uma moeda digital de banco central para particulares e se a gestão das transações poderia ameaçar a privacidade pessoal.
Shin disse que, desde 2023, o banco não estava a estudar uma moeda digital de banco central de retalho. Descreveu o Projeto Hangang, em vez disso, como a conversão da estrutura monetária existente para um formato digital, centrado numa moeda digital institucional. Os bancos comerciais continuariam a lidar com os clientes, enquanto o banco central trataria da liquidação entre bancos.
Nesta estrutura, cada banco gere os dados dos seus clientes. Shin argumentou que o sistema não permite ao banco central vigiar dados pessoais e disse que o projeto inclui várias medidas de segurança contra ataques informáticos, incluindo ameaças que envolvam inteligência artificial. Estas foram garantias dadas pelo governador, não conclusões de uma avaliação de segurança independente.
O banco está a avançar para uma segunda fase de transações efetivas no âmbito do Projeto Hangang e para um programa-piloto de execução de pagamentos da tesouraria do Estado. Separadamente, o mercado cambial funciona 24 horas por dia desde julho. Uma rede internacional de pagamentos em won iniciou operações-piloto em setembro e tem início de funcionamento pleno previsto para janeiro de 2027.
A audição identificou também uma lacuna nas estatísticas económicas. A Coreia do Sul registou um défice de 6,4 mil milhões de dólares nos serviços de propriedade intelectual no primeiro semestre do ano, incluindo 8,9 mil milhões de dólares em pagamentos de direitos de autor de software. As subscrições de serviços de IA no estrangeiro estão incluídas nos pagamentos de software, mas o banco não consegue isolá-las atualmente. Por conseguinte, os 8,9 mil milhões de dólares não podem ser considerados apenas despesas com subscrições de serviços de IA.
A comunicação continua a ser posta à prova
Outra controvérsia envolveu a retirada de uma classificação internacional das reservas cambiais do comunicado do banco sobre as reservas, no final de agosto de 2026, publicado a 3 de setembro. Shin disse que os jornalistas tinham sido previamente informados, mas o relato do comunicado indica que não foi dado qualquer aviso prévio separado sobre a alteração ou a sua justificação.
Shin reconheceu que a comunicação tinha sido insuficiente quanto à utilidade dessa classificação para avaliar a solidez financeira externa e disse que o banco iria corrigir o problema. A par do pedido de desculpa relativo aos ETF, a controvérsia mostra que a audição analisou não só as avaliações do banco, mas também a forma como este as explica.
O próximo teste concreto será a 22 de outubro. Shin disse que o banco explicaria então as novas informações recebidas desde agosto. Na audição, não foi anunciada qualquer decisão sobre uma nova subida das taxas, a sua dimensão ou uma revisão do hiato do produto. As alterações parlamentares ao orçamento proposto também poderão modificar os efeitos estimados no crescimento e na inflação.
Pontos principais
- A taxa de referência é de 3%, após subidas de 0,25 pontos percentuais em julho e agosto.
- A inflação dos preços no consumidor foi de 2,9% em setembro; a inflação que exclui os alimentos e a energia foi de 2,8%, acima da meta de 2%.
- As próximas reuniões de política monetária estão marcadas para 22 de outubro e 26 de novembro de 2026.
- O banco prevê um crescimento de 3,3% em 2026 e de 2,9% em 2027.
- O orçamento proposto para 2027 poderá acrescentar 0,5 pontos percentuais ao crescimento e 0,06 pontos percentuais à inflação, mas estas estimativas não são previsões oficiais revistas.
- Shin apontou os preços da habitação na região de Seul e a dívida das famílias como riscos para a estabilidade financeira.
- Pediu desculpa pela insuficiência das advertências sobre ETF alavancados associados a ações individuais.
- A rede internacional de pagamentos em won deverá entrar plenamente em funcionamento em janeiro de 2027.






