Previsão mais forte num contexto de perspetivas regionais mais fracas
O Banco Mundial elevou a sua previsão de crescimento económico do Uzbequistão em 2026 para 7,9%, face aos 6,4% projetados em abril. A revisão de 1,5 pontos percentuais coloca o Uzbequistão em segundo lugar entre as economias em desenvolvimento da Europa e da Ásia Central, atrás do crescimento projetado de 9,6% para o Quirguistão.
Índice
- Previsão mais forte num contexto de perspetivas regionais mais fracas
- Consumo das famílias e investimento lideram a expansão
- Remessas recorde acarretam um risco concentrado
- As exportações não relacionadas com o ouro aumentam, mas os indicadores diferem
- Ásia Central lidera apesar do abrandamento do crescimento
- Inflação, dívida e ouro moldam as perspetivas financeiras
- O crescimento tem de criar empregos mais seguros
- A exposição à IA supera a adoção efetiva
- Falta de competências no Uzbequistão e próximos marcos
- Principais pontos
A atualização económica do banco, publicada a 6 de outubro, eleva também a previsão para o Uzbequistão em 2027 de 6,7% para 7,5%, sendo esperado um crescimento de 7,1% em 2028. São previsões, não resultados registados. A economia do Uzbequistão cresceu 7,7% em 2025, face a 6,7% em 2024.
As perspetivas mais favoráveis para o Uzbequistão contrastam com o abrandamento regional. A atualização económica de outubro do Banco Mundial, intitulada Europe and Central Asia Economic Update: Making AI Work: Jobs, Firms, and Productivity, prevê um crescimento de 2,2% em 2026 para as economias em desenvolvimento da região, abaixo dos 2,6% registados em 2025. Os preços mais elevados da energia, a incerteza geopolítica e o menor crescimento dos principais parceiros comerciais estão a pesar na atividade.
No Uzbequistão, a subida dos salários, do emprego, da despesa das famílias e do investimento está a dar maior impulso à economia interna. As remessas, que atingiram um valor recorde, estão a apoiar os rendimentos, enquanto a expansão do comércio com a China e os países vizinhos da Ásia Central está a favorecer as exportações não relacionadas com o ouro.
Esta distinção é importante: a previsão para o Uzbequistão está entre as mais elevadas da região, mas não é a mais alta em 2026. O crescimento projetado supera em 5,7 pontos percentuais a taxa regional e em 2,1 pontos a da Ásia Central. O banco espera que o Uzbequistão ocupe a posição de liderança regional em 2027, ano em que o crescimento deverá atingir 7,5%.
Consumo das famílias e investimento lideram a expansão
A página do Banco Mundial sobre o Uzbequistão identifica a procura interna como o principal motor da economia. O consumo privado aumentou 9,5% em termos reais em 2025, enquanto o investimento cresceu 10,5%. Os serviços, a agricultura e a indústria contribuíram para o aumento de 7,7% do produto interno bruto.
Crescimento real significa crescimento após descontar os aumentos de preços. Assim, o valor relativo ao consumo indica que as famílias compraram mais bens e serviços, em vez de se limitarem a pagar mais pelas mesmas compras. A subida dos salários e o dinheiro enviado do estrangeiro ajudaram a financiar esse aumento.
O investimento em infraestruturas, energia e habitação também está a sustentar a procura. Segundo a avaliação regional, mais de 70% do investimento total foi financiado por fontes estrangeiras, incluindo investimento direto e empréstimos. Este valor não deve ser interpretado como a percentagem financiada exclusivamente por investimento direto estrangeiro: inclui também empréstimos.
O banco espera que o consumo privado e o investimento continuem a ser os principais pilares do crescimento em 2026. As perspetivas para o país apontam para um contributo apenas modesto das exportações líquidas e das remessas, à medida que o crescimento abranda na Rússia e na China, os principais parceiros comerciais do Uzbequistão. As exportações líquidas correspondem às exportações menos as importações; por isso, o aumento das vendas ao exterior não contribui necessariamente de forma significativa para o PIB se as importações crescerem mais depressa.
Remessas recorde acarretam um risco concentrado
As remessas para o Uzbequistão atingiram 9,2 mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, um recorde para esse período e um aumento de 13% face ao ano anterior. Cerca de 70% tiveram origem na Rússia, o equivalente a aproximadamente 6,4 mil milhões de dólares, aplicando essa proporção ao total.
Estas transferências ajudam as famílias a pagar as despesas do dia a dia e podem apoiar a construção, a educação e as pequenas empresas. A sua dimensão explica por que motivo a despesa no Uzbequistão pode manter-se forte mesmo quando a economia regional em geral perde dinamismo.
Os mesmos valores revelam uma vulnerabilidade. Como cerca de sete em cada dez dólares provêm da Rússia, um enfraquecimento da economia russa pode afetar o emprego e os rendimentos de quem envia dinheiro para casa. O banco prevê um crescimento russo de apenas 0,8% em 2026 e identifica a redução das remessas como um risco para as perspetivas do Uzbequistão.
As exportações não relacionadas com o ouro aumentam, mas os indicadores diferem
As exportações do Uzbequistão excluindo o ouro aumentaram quase 30%, apoiadas pela expansão das vendas à China e às economias vizinhas da Ásia Central. A avaliação regional refere também uma descida das exportações totais, devido à redução dos envios de ouro. O relatório publicado não especifica o período de referência nem a base de preços destes valores, o que limita a comparação direta com os dados anuais do comércio.
A página do Banco Mundial sobre o país apresenta um indicador distinto: as exportações totais aumentaram 2,5% em termos reais em 2025, enquanto as importações cresceram 7,7%. A atividade exportadora incluiu ouro, cobre, zinco, urânio, produtos alimentares, fertilizantes e serviços. As compras de energia, maquinaria e bens intermédios impulsionaram o aumento das importações.
Estes valores dizem respeito a categorias e períodos diferentes. O aumento de quase 30% exclui o ouro; o valor de 2,5% abrange o total das exportações em 2025, após ajustamento dos preços. Não devem ser tratados como estimativas concorrentes da mesma variação.
O défice da conta corrente diminuiu de 4,7% do PIB em 2024 para 3,9% em 2025, uma melhoria de 0,8 pontos percentuais. A conta corrente regista o comércio de bens e serviços, bem como os rendimentos e as transferências, incluindo as remessas. O banco espera que o défice aumente em 2026, à medida que o encarecimento da energia elevar a fatura das importações do Uzbequistão.
Ásia Central lidera apesar do abrandamento do crescimento
A Ásia Central continua a ser a sub-região com crescimento mais rápido na Europa e na Ásia Central em desenvolvimento, embora se preveja que a expansão abrande de 7,1% em 2025 para 5,8% em 2026. O Banco Mundial prevê um abrandamento adicional para 5,4% em 2027 e 5,1% em 2028.
Para 2026, as previsões para cada país apontam para 9,6% no Quirguistão, 7,9% no Uzbequistão, 7,5% no Tajiquistão e 4,6% no Cazaquistão. A forte procura interna e o investimento público nos transportes e na energia continuam a apoiar a sub-região. Entre os grandes projetos identificados na avaliação estão a linha ferroviária que liga a China, o Quirguistão e o Uzbequistão, o corredor de transportes transcaspiano e a central hidroelétrica de Rogun.
A Rússia representa cerca de 40% da produção de toda a região mais alargada da Europa e da Ásia Central em desenvolvimento, pelo que o seu fraco crescimento tem um peso considerável na média regional. Excluindo a Rússia, prevê-se que o crescimento caia de 3,7% em 2025 para 3% em 2026. Mesmo neste cenário, a previsão para o Uzbequistão é superior em 4,9 pontos percentuais.
Noutros pontos da região, prevê-se que os Balcãs Ocidentais cresçam 3,1%, acima dos 2,6% de 2025. A expansão projetada da Polónia é de 3,6%, enquanto a da Ucrânia é de 1,2%, num contexto de danos em infraestruturas críticas e perturbações nas exportações. O apoio temporário dos governos atenuou o impacto da subida dos preços da energia em alguns países, mas também aumentou a pressão sobre as finanças públicas.
Inflação, dívida e ouro moldam as perspetivas financeiras
O Banco Mundial prevê uma inflação de 7% no Uzbequistão em 2026, com uma aproximação gradual à meta de 5% até 2028. Espera-se que a dívida pública se mantenha em torno de 28% do PIB em 2026 e 2027. A avaliação regional situa o défice orçamental de 2026 em 2,2% do PIB; prevê-se que o aumento da despesa social e de investimento seja compensado pelo crescimento das receitas e pela redução dos subsídios à energia e do crédito dirigido às empresas públicas.
As reservas internacionais atingiram 66,3 mil milhões de dólares em janeiro de 2026, mais 25,1 mil milhões do que um ano antes. Isto implica reservas de 41,2 mil milhões de dólares em janeiro de 2025. O ouro representava 86% do total mais recente, ou cerca de 57 mil milhões de dólares.
A composição é importante, além da dimensão. As reservas protegem contra choques financeiros externos, mas uma proporção tão elevada de ouro também torna o seu valor declarado sensível às variações do preço do metal. A subida dos preços do ouro e dos minerais críticos figura entre os potenciais ganhos identificados pelo banco para o Uzbequistão, a par de um maior investimento direto estrangeiro.
Também existem riscos no sentido inverso. Sendo um importador líquido de energia, o Uzbequistão está exposto a aumentos de preços associados ao conflito no Médio Oriente. O banco espera que esse conflito contribua modestamente para a inflação e agrave o défice da conta corrente. Uma escalada das tensões geopolíticas, condições de financiamento mais restritivas e a volatilidade dos preços das matérias-primas podem enfraquecer as perspetivas.
Um fenómeno El Niño mais intenso também poderá fazer subir os preços mundiais dos alimentos e agravar as limitações no acesso à água em 2027, afetando a agricultura e a inflação. A gestão da água já é uma prioridade regional: o acordo regional sobre limites à utilização da água, aprovado em Avaza a 7 de outubro, abrangeu a época de 2026 a 2027 fora do período principal de cultivo. As quotas atribuídas a cada país não foram divulgadas, pelo que o acordo, por si só, não permite determinar se a oferta futura satisfará a procura.
O crescimento tem de criar empregos mais seguros
A taxa nacional de pobreza no Uzbequistão caiu de 17% em 2021 para 5,8% em 2025, uma redução de 11,2 pontos percentuais. O Banco Mundial afirma que 3,7 milhões de pessoas saíram da pobreza, enquanto a classe média passou de 37% para mais de 72% da população.
Os aumentos dos rendimentos foram mais expressivos entre as famílias mais pobres. O rendimento médio real dos agregados familiares no quinto mais pobre da população cresceu 26% em 2024 e 2025, face a 13% no quinto mais rico. Ainda assim, o banco estima que 22% da população continua em risco de voltar à pobreza.
A qualidade do emprego é um desafio distinto da taxa de crescimento global. Mais de 60% dos empregos no setor privado no Uzbequistão, no Quirguistão e no Tajiquistão continuam a ser informais, sem grandes alterações nos últimos cinco anos. Em geral, o trabalho informal não está abrangido por relações laborais formais, o que pode limitar o acesso dos trabalhadores a proteções e benefícios fiáveis.
A população do Uzbequistão atingiu 38,5 milhões de pessoas em 1 de julho de 2026, a maior da Ásia Central. Ao contrário do que acontece em grande parte da região mais alargada, onde se espera que a população em idade ativa diminua, o Uzbequistão precisa de criar oportunidades para uma força de trabalho em crescimento. Entre as metas do Governo para 2026 estão garantir emprego estável a um milhão de pessoas, tirar 181 000 famílias da pobreza e reduzir tanto o desemprego como a pobreza para 4,5%.
A agenda de reformas inclui reduzir o domínio do Estado, abrir setores-chave e melhorar as condições para as empresas e o investimento. O Banco Mundial afirma que a adesão à Organização Mundial do Comércio poderá consolidar essas reformas e aumentar o PIB até 17%. Trata-se de um possível efeito da adesão, não de uma previsão de crescimento anual nem de um ganho atribuído a um ano específico.
A exposição à IA supera a adoção efetiva
A atualização económica analisa também a inteligência artificial como possível resposta ao fraco crescimento da produtividade. Cerca de um em cada cinco trabalhadores da Europa e da Ásia Central ocupa um emprego significativamente exposto à IA, em particular os trabalhadores mais jovens, as pessoas com níveis de escolaridade mais elevados e as mulheres. Exposição significa que a IA pode afetar as suas tarefas; não demonstra que os seus empregos vão desaparecer.
Menos de uma em cada dez empresas da região utiliza IA nas suas operações, aproximadamente metade da proporção registada na União Europeia. A maioria das utilizações continua limitada a tarefas de rotina, como responder a pedidos de clientes, preparar documentos e gerir informação interna, sem efeitos mensuráveis na produtividade.
O Banco Mundial identifica limitações nos recursos de computação, nas competências de gestão e nos dados utilizáveis como obstáculos. A capacidade regional dos centros de dados ronda os 2,1 megawatts por milhão de pessoas, contra 31,6 nos países de rendimento elevado fora da região. Segundo este indicador, o valor de comparação é cerca de 15 vezes superior. Neste contexto, os megawatts indicam a capacidade elétrica que sustenta as operações dos centros de dados, não sendo uma medida direta do desempenho da IA.
A procura de trabalhadores com competências em IA quase quadruplicou na região. Os primeiros sinais do mercado de trabalho apontam mais para uma redução das contratações do que para o despedimento de trabalhadores atuais, com a IA a ajudar também alguns trabalhadores a executar as tarefas que já desempenham. O banco considera que a adoção insuficiente e desigual representa um risco maior para a próxima década do que a adoção excessiva.
Na sua avaliação regional, o Banco Mundial descreve formas de os governos poderem incentivar o investimento em infraestruturas de computação:
Os governos podem ajudar a atrair esse capital alargando o acesso a capacidade de computação a baixo custo,
O banco aponta também a possibilidade de exportar serviços de infraestruturas de computação quando existe procura suficiente. Essa oportunidade depende das infraestruturas e da procura comercial, não decorrendo automaticamente de uma utilização mais generalizada da IA.
Falta de competências no Uzbequistão e próximos marcos
No Uzbequistão, os trabalhadores administrativos são o grupo profissional mais exposto à IA, mas a utilização declarada da tecnologia é inferior à dos profissionais e gestores. No inquérito Listening to Uzbekistan de março de 2026, 48% dos profissionais e 43% dos gestores afirmaram utilizar IA no trabalho, face a 27% dos trabalhadores de escritório.
Mesmo entre os trabalhadores de profissões avaliadas como tendo um potencial de automatização quase nulo, 16% declararam utilizar IA. Isto ajuda a distinguir a utilização de uma ferramenta de IA por uma pessoa da proporção do seu trabalho que poderia ser automatizada. Nenhum dos indicadores, por si só, permite prever a perda de um emprego.
Uma ronda posterior do inquérito concluiu que quase 39% dos inquiridos empregados não conseguiam copiar ou transferir um ficheiro num telemóvel ou computador sem ajuda. Estes são resultados de um inquérito a trabalhadores, não taxas de adoção nas empresas, pelo que não devem ser comparados diretamente com o indicador regional de menos de uma em cada dez empresas que utiliza IA.
O Uzbequistão está entre os países que promovem programas de competências organizados em função das necessidades da indústria. O Banco Mundial recomenda o reforço das competências básicas, digitais e de gestão, o acesso a computação a preços acessíveis, uma melhor organização dos dados e programas de apoio aos trabalhadores durante as mudanças no emprego. Em 5 de outubro de 2026, o programa do Banco Mundial para o Uzbequistão incluía 24 projetos e compromissos líquidos de 5,4 mil milhões de dólares, sendo mais de 60% financiados por créditos concessionais da Associação Internacional de Desenvolvimento.
As principais datas e marcos das previsões são:
- Abril de 2026: As previsões anteriores de crescimento eram de 6,4% para 2026 e 6,7% para 2027.
- 6 de outubro de 2026: A atualização regional elevou essas previsões para 7,9% e 7,5%.
- 2027: Prevê-se que o Uzbequistão lidere o crescimento entre as economias em desenvolvimento da região.
- 2028: O crescimento está previsto em 7,1%, enquanto se espera que a inflação se aproxime dos 5%.
- 2030: A estratégia nacional de desenvolvimento tem como metas alcançar o estatuto de país de rendimento médio-alto e eliminar a pobreza absoluta.
As previsões não garantem esses resultados. O ritmo do investimento interno, a situação na Rússia e na China, os preços da energia, a disponibilidade de água e os progressos na criação de empregos formais produtivos determinarão em que medida a expansão projetada se traduzirá em benefícios para as famílias.
Principais pontos
- A previsão de crescimento do Uzbequistão para 2026 subiu para 7,9%, um aumento de 1,5 pontos percentuais face a abril.
- O país ocupa o segundo lugar na previsão regional para 2026, atrás do Quirguistão, com 9,6%.
- O consumo privado e o investimento cresceram 9,5% e 10,5%, respetivamente, em termos reais, em 2025.
- As remessas atingiram 9,2 mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, cerca de 70% provenientes da Rússia.
- A inflação está projetada em 7% em 2026 e a dívida pública deverá rondar 28% do PIB em 2026 e 2027.
- O emprego informal e as fracas competências digitais básicas continuam a ser desafios, apesar do forte crescimento.
- Para o Banco Mundial, a adoção desigual da IA, mais do que a exposição por si só, constitui um risco importante para a produtividade.






