Subida da notação após pagamentos de mil milhões de dólares
A Moody’s elevou a notação de crédito soberano das Maldivas de Caa2 para Caa1, com perspectiva estável, depois de o Governo ter liquidado um sukuk de 500 milhões de dólares, um swap cambial de 400 milhões de dólares com o Reserve Bank of India e 100 milhões de dólares em Bilhetes do Tesouro. A decisão, anunciada a 8 de outubro de 2026, reflecte uma redução do risco de o Governo não cumprir os pagamentos da dívida num futuro próximo.
Índice
- Subida da notação após pagamentos de mil milhões de dólares
- O que significam Caa1 e uma perspectiva estável
- Os pagamentos que estiveram na origem da decisão
- Como mudou o calendário de pagamentos
- O próximo teste da dívida já tem data marcada
- A dívida diminui em relação ao PIB, mas continua elevada
- Regras cambiais reforçam as reservas, mas têm limites
- O novo financiamento dá apoio, mas não cancela dívida
- Notações históricas e riscos energéticos moderam a recuperação
- Pontos principais
A subida da notação é acompanhada de avisos substanciais. A Moody’s prevê que o défice orçamental atinja 8% a 8,5% do produto interno bruto este ano e que a dívida pública permaneça acima de 100% do PIB nos próximos anos. A agência identifica ainda os custos energéticos mais elevados, as receitas turísticas mais fracas e as reservas de divisas utilizáveis limitadas como pressões persistentes.
O Ministério das Finanças apresenta a decisão como reconhecimento dos pagamentos da dívida, do reforço das almofadas financeiras e das políticas governamentais introduzidas a partir de 2024. Os seus dados mostram que a dívida pública caiu de 129,2% do PIB no final de 2025 para 122,6% no final de julho de 2026.
Estes desenvolvimentos traduzem um alívio da pressão imediata sobre os pagamentos, e não o fim das dificuldades de dívida do país. Em 2026, estavam previstos quase 1,9 mil milhões de dólares em serviço da dívida externa, dos quais 411 milhões continuavam agendados para o último trimestre. Esse montante inclui um swap cambial indiano separado, denominado em rupias e com vencimento em outubro.
O que significam Caa1 e uma perspectiva estável
Uma notação de crédito soberano avalia o risco de um Governo não reembolsar os empréstimos nos termos acordados. Passar de Caa2 para Caa1 representa uma subida de um nível, mas Caa1 continua a ser uma notação baixa dentro da categoria especulativa. A avaliação da Moody’s continua a reflectir um risco de crédito substancial.
A perspectiva estável é distinta da própria notação. Indica que a Moody’s não prevê actualmente uma mudança na orientação da notação; não promete estabilidade das condições económicas nem garante o reembolso. As previsões da agência para o défice, a dívida e as reservas explicam como uma notação melhor pode coexistir com uma situação financeira difícil.
A decisão reverte a descida de notação que a Moody’s aplicou em setembro de 2024. Também repõe as Maldivas no nível Caa1 registado durante a pandemia, em 2021. Estas comparações mostram uma recuperação para uma avaliação anterior, e não um regresso às notações iniciais mais fortes do país.
Os pagamentos que estiveram na origem da decisão
A maior obrigação individual liquidada foi o sukuk de 500 milhões de dólares, em abril de 2026. Um sukuk é um instrumento de financiamento islâmico que cumpre uma função de financiamento semelhante à de uma obrigação convencional, mas utiliza uma estrutura concebida para respeitar os princípios das finanças islâmicas.
O Governo reembolsou também um swap cambial de 400 milhões de dólares com o Reserve Bank of India. Um swap cambial dá acesso a outra moeda ao abrigo de um acordo que inclui obrigações de reembolso. A sua liquidação retira esse pagamento específico do calendário, mas não demonstra que todos os acordos de financiamento com a Índia tenham sido reembolsados.
Foram ainda reembolsados 100 milhões de dólares em Bilhetes do Tesouro devidos ao State Bank of India, entre maio e setembro. Os Bilhetes do Tesouro são títulos públicos geralmente utilizados para obter empréstimos por períodos mais curtos. No conjunto, os reembolsos do sukuk, do swap em dólares e dos Bilhetes do Tesouro totalizam mil milhões de dólares.
A descrição da operação com o State Bank of India varia consoante as fontes. O Ministério das Finanças utilizou a expressão «investimentos em títulos» para os 100 milhões de dólares, enquanto o relato da decisão da Moody’s identifica reembolsos de Bilhetes do Tesouro devidos ao banco. Uma das versões descreve o Governo como tendo recebido investimento. Essas descrições não devem ser interpretadas como prova de uma entrada de capital adicional de 100 milhões de dólares, para além dos reembolsos.
Como mudou o calendário de pagamentos
Os desenvolvimentos abrangem alterações de política, reembolsos e o adiamento de uma obrigação futura. As principais datas são:
- 2024: Foram introduzidas medidas relativas a divisas, cuja aplicação foi alargada em 2026.
- Setembro de 2024: A Moody’s baixou a notação das Maldivas para Caa2.
- Abril de 2026: Foram reembolsados o sukuk de 500 milhões de dólares e o swap de 400 milhões de dólares com o Reserve Bank of India.
- Maio e setembro de 2026: Os reembolsos de Bilhetes do Tesouro ao State Bank of India totalizaram 100 milhões de dólares.
- Final de julho de 2026: O Ministério das Finanças registou a dívida pública em 122,6% do PIB.
- 8 de outubro de 2026: Foi anunciada a subida da Moody’s para Caa1, com perspectiva estável.
- Outubro de 2026: Vence um swap cambial indiano de 30 mil milhões de INR.
- 2031: Aplica-se o prazo de reembolso revisto da obrigação de 100 milhões de dólares que o ministério descreve como uma Eurobond.
O adiamento para 2031 reduz a pressão sobre o calendário de reembolsos imediatos, mas não equivale a liquidar a dívida. Transfere a obrigação para um período posterior, deixando a sua resolução a cargo de um futuro Governo.
Há também uma divergência quanto à identificação dessa obrigação. O ministério descreve o adiamento do vencimento de uma Eurobond de 100 milhões de dólares, enquanto outra fonte identifica a operação como uma extensão de um empréstimo do Abu Dhabi Fund. Ambas referem o adiamento do reembolso, mas a natureza do instrumento é contestada. Não são especificadas as condições de juro revistas nem os pormenores do reembolso.
O próximo teste da dívida já tem data marcada
Dos quase 1,9 mil milhões de dólares em serviço da dívida externa previstos para 2026, restam 411 milhões para o último trimestre. Com base nestes valores, cerca de 22% dos pagamentos externos previstos para o ano continuavam por efectuar quando a subida da notação foi anunciada. O serviço da dívida externa inclui capital e juros agendados, pelo que não deve ser comparado directamente com uma lista composta apenas por reembolsos de capital.
O calendário restante inclui um swap cambial de 30 mil milhões de INR com a Índia, com vencimento em outubro. Este é distinto do swap de 400 milhões de dólares com o Reserve Bank of India, já reembolsado em abril. As diferentes moedas e datas de pagamento são importantes: a liquidação da linha de crédito em dólares não significa que a obrigação em rupias também tenha sido saldada.
A decisão sobre a notação surge, portanto, entre pagamentos importantes já concluídos e outra obrigação substancial que se aproxima. Não é indicada uma data confirmada de liquidação em outubro, nem um plano de financiamento detalhado para os 411 milhões de dólares restantes. A capacidade do Governo para cumprir esse calendário é um teste mais imediato do que o pagamento adiado para 2031.
A dívida diminui em relação ao PIB, mas continua elevada
A descida comunicada pelo Ministério das Finanças, de 129,2% para 122,6% do PIB, corresponde a 6,6 pontos percentuais. Em relação ao valor inicial, representa uma redução de cerca de 5,1%. É uma melhoria mensurável, embora a dívida pública continue a exceder o valor da produção económica de um ano.
O rácio da dívida compara o montante em dívida com a dimensão da economia. Pode diminuir porque a dívida baixa, o PIB sobe ou ambos. Sem os valores correspondentes da dívida total e do PIB, o rácio, por si só, não revela quanto foi abatido à dívida em dólares. O ministério atribui a melhoria aos reembolsos e às suas políticas orçamentais.
A Moody’s prevê que a dívida pública se mantenha acima de 100% do PIB nos próximos anos. A sua previsão de um défice orçamental de 8% a 8,5% do PIB em 2026 aponta também para necessidades de financiamento continuadas. Um défice orçamental significa que, durante o ano, a despesa do Governo excede as receitas, criando um desequilíbrio que tem de ser coberto através de empréstimos ou de outras formas de financiamento.
Esta distinção ajuda a explicar a decisão sobre a notação. O reembolso de obrigações pode reduzir o risco imediato de incumprimento, mesmo quando os défices criam necessidades de novos empréstimos. A descida do rácio da dívida e a persistência do défice são indicadores diferentes da saúde financeira, e nenhum anula o outro.
Regras cambiais reforçam as reservas, mas têm limites
A Moody’s valorizou as regras cambiais que obrigam a converter as receitas do turismo através de bancos locais. O Ministério das Finanças afirma que as medidas introduzidas em 2024 e alargadas em 2026 aumentaram a entrada de divisas no sistema bancário nacional, apoiando as reservas oficiais e os depósitos no Fundo de Desenvolvimento Soberano.
Para um Governo com obrigações em moeda estrangeira, o acesso a dólares e a outras divisas externas é distinto da capacidade de arrecadar receitas internas. Um maior volume de dinheiro a passar pelos bancos locais pode facilitar o acesso às moedas necessárias para pagar a dívida. O ministério aponta também para o aumento dos depósitos no Fundo de Desenvolvimento Soberano como parte do reforço das reservas financeiras do país.
A Moody’s descreve, contudo, as reservas utilizáveis como fracas em comparação com as de países com notações semelhantes. O aumento das reservas declaradas não significa necessariamente que existam fundos suficientes e prontamente disponíveis para cobrir todos os pagamentos futuros. A avaliação não apresenta um valor total das reservas nem especifica quanto pode ser utilizado de imediato para o serviço da dívida.
Por isso, reservas mais fortes e reservas utilizáveis fracas não são necessariamente afirmações contraditórias. A primeira refere-se à evolução ao longo do tempo; a segunda, à suficiência das reservas que ainda existem. Esta distinção é essencial para compreender por que motivo a subida da notação se fica por Caa1.
O novo financiamento dá apoio, mas não cancela dívida
O Governo assegurou 130 milhões de dólares junto de três instituições de desenvolvimento: 40 milhões de dólares do Banco Mundial, 50 milhões de dólares do Banco Asiático de Desenvolvimento e 40 milhões de dólares do Fundo da OPEP para o Desenvolvimento Internacional. O Ministério das Finanças cita este apoio como prova de que o país continua a ter acesso a financiamento externo.
Na descrição do ministério, o financiamento é apresentado como assistência; no relato do programa de dívida do Governo, é descrito como empréstimo. Não se deve presumir que se trata de subvenções. O financiamento por empréstimo pode ajudar a cobrir necessidades imediatas, mas também cria obrigações de reembolso futuras. Não são detalhadas as taxas de juro, os prazos de reembolso nem as condições destas linhas de financiamento.
O Governo está a discutir novos empréstimos ou financiamento em condições concessionais com parceiros de desenvolvimento. O financiamento concessional oferece, em geral, condições mais favoráveis do que os empréstimos normais de mercado, como juros mais baixos ou prazos de reembolso mais longos. Não foi anunciado qualquer montante adicional ou data para um acordo.
É importante distinguir entre o acesso a financiamento e a redução da dívida. O primeiro pode ajudar a evitar uma falha de pagamento mesmo quando a segunda não ocorreu. A subida da Moody’s reflecte uma maior confiança na capacidade de cumprir as obrigações, enquanto a notação baixa reconhece que a dependência de financiamento continuado continua a ser uma vulnerabilidade.
Notações históricas e riscos energéticos moderam a recuperação
A página de notações de crédito do Ministério das Finanças, datada de 20 de dezembro de 2022, regista a notação da Moody’s como Caa1, com perspectiva estável, revista a 17 de agosto de 2021. Regista também a primeira notação do país pela Moody’s, B2, em setembro de 2016, e a primeira notação da Fitch, B+, em maio de 2017. Trata-se de um registo histórico, não de uma confirmação da decisão de outubro de 2026.
A mesma página indica que a Fitch atribuía ao país a notação B-, com perspectiva negativa, numa revisão de 13 de outubro de 2022. Os relatos sobre a posição mais recente da Fitch divergem: um refere uma descida de notação motivada por preocupações com o reembolso do sukuk, enquanto outro aponta para uma subida de CC para CCC- em junho de 2026. Sem um comunicado oficial recente da Fitch, não é possível estabelecer a sequência exacta das notações com base nesses relatos.
Os custos energéticos são outro factor limitativo. A Moody’s identifica a subida dos preços da energia e a quebra das receitas do turismo como riscos para a balança de pagamentos, que regista os fluxos financeiros entre as Maldivas e o resto do mundo. Custos externos mais elevados, combinados com receitas externas mais fracas, podem dificultar a acumulação das reservas cambiais necessárias para pagar a dívida.
O Ministério das Finanças associou a subida dos preços da energia ao conflito no Médio Oriente. No seu comunicado, o ministério enunciou as prioridades de despesa que pretende manter apesar dessa pressão:
«As prioridades do Governo são proteger as necessidades essenciais da população, apoiar a actividade económica e manter a despesa pública dentro do orçamento, sem deixar de estar atento aos potenciais desafios decorrentes da instabilidade no Médio Oriente e da subida dos preços da energia», afirmou o ministério.
O Governo aponta ainda como prioridades o reforço das finanças externas, a estabilidade macroeconómica, a aceleração da adopção das energias renováveis e a melhoria das infra-estruturas empresariais. Não foram anunciados novos prazos de execução nem poupanças quantificadas. Por agora, a mudança mais clara é a redução do risco imediato de incumprimento, enquanto a dívida substancial, as limitações das reservas e outro prazo de pagamento continuam em vigor.
Pontos principais
- A Moody’s elevou a notação das Maldivas de Caa2 para Caa1, com perspectiva estável, revertendo a descida de setembro de 2024.
- O Governo reembolsou um sukuk de 500 milhões de dólares, um swap indiano de 400 milhões de dólares e 100 milhões de dólares em Bilhetes do Tesouro.
- A dívida pública caiu de 129,2% para 122,6% do PIB, uma redução de 6,6 pontos percentuais.
- A Moody’s prevê um défice orçamental de 8% a 8,5% do PIB em 2026 e uma dívida superior a 100% do PIB nos próximos anos.
- Restam 411 milhões de dólares em serviço da dívida externa para o último trimestre, incluindo um swap de 30 mil milhões de INR com vencimento em outubro.
- O reembolso de uma obrigação de 100 milhões de dólares foi adiado para 2031, embora as fontes divirjam quanto ao instrumento em causa.
- As reservas utilizáveis fracas, os custos energéticos mais elevados e a quebra das receitas turísticas continuam a representar riscos, apesar da subida da notação.






