Um impulso tecnológico acompanhado de um alerta contra bolhas de investimento
O Comité Central do Partido Comunista da China e o Conselho de Estado publicaram, a 9 de outubro de 2026, orientações com 19 medidas em cinco áreas de inovação para desenvolver aquilo a que Pequim chama novas forças produtivas de qualidade. O pacote combina apoio à inteligência artificial, à investigação industrial e às energias limpas com alertas explícitos contra o investimento especulativo, a negligência das indústrias existentes e a tendência dos governos locais para replicarem os mesmos planos de desenvolvimento.
Índice
- Um impulso tecnológico acompanhado de um alerta contra bolhas de investimento
- Por que razão Pequim está a corrigir a abordagem
- As empresas assumem um papel maior na investigação
- Os ensaios de IA aproximam-se da produção fabril
- Apelo às regiões para que não se imitem
- Os parques com emissões líquidas nulas expõem um problema de medição
- A energia limpa precisa de mercados, além de equipamento
- Reforma, talento e abertura completam o pacote
- Datas e decisões a acompanhar
- Principais pontos
As orientações surgem no primeiro ano do 15.º Plano Quinquenal, que abrange o período de 2026 a 2030. O plano identifica 28 grandes projetos relacionados com novas forças produtivas de qualidade, num total de 109, ou 25,7%. O novo documento estabelece um quadro comum para concretizar essa agenda, incluindo uma maior participação das empresas na investigação, bases nacionais de ensaio para aplicações industriais de IA e a construção de fábricas e parques industriais concebidos para alcançar emissões líquidas nulas de carbono.
O principal critério é um aumento substancial da produtividade total dos fatores, e não simplesmente mais fábricas, investimento ou projetos tecnológicos. A produtividade total dos fatores descreve a eficiência com que o trabalho, o capital e outros recursos são combinados para produzir resultados. Uma tecnologia e uma organização melhores podem aumentar a produção sem um aumento equivalente desses recursos.
O documento transmite também uma mensagem de responsabilização. Os responsáveis não devem fazer uso indevido das políticas sob o pretexto de desenvolver novas forças produtivas de qualidade. Os responsáveis por perdas avultadas causadas por investimentos indiscriminados ou pela corrida a indústrias na moda serão chamados a prestar contas. A política pede, assim, às autoridades locais que promovam a inovação, evitando simultaneamente lacunas industriais, o esvaziamento da produção e bolhas de investimento.
Por que razão Pequim está a corrigir a abordagem
Um responsável não identificado da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, ou NDRC, apontou três razões para a publicação das orientações: pôr em prática as ideias do presidente Xi Jinping, orientar o desenvolvimento durante o atual período de planeamento e corrigir problemas já detetados na implementação.
Entre esses problemas está a tendência para tratar as novas forças produtivas de qualidade como sinónimo de indústrias emergentes ou do futuro, ignorando a modernização da produção tradicional. Outra preocupação é a escolha, por diferentes regiões, de setores industriais semelhantes, sem ter em conta os respetivos recursos, capacidades ou condições de mercado.
O documento estabelece quatro princípios: a inovação deve liderar; a reforma deve apoiar o desenvolvimento; as políticas devem adaptar-se às condições locais; e as novas fontes de crescimento devem ser estabelecidas antes de as antigas serem abandonadas. Lin Xiaofeng, diretor-adjunto do Centro de Desenvolvimento Impulsionado pela Inovação da NDRC, explicou que estes princípios definem, respetivamente, a força motriz, o apoio institucional, a abordagem prática e o ritmo da mudança.
Esta distinção é importante para a implementação. Um fabricante tradicional que aumente a produtividade através de sistemas digitais, processos mais limpos ou equipamento inteligente pode contribuir para os objetivos da política. Um investimento classificado como pertencendo a uma indústria do futuro não se torna automaticamente inovação produtiva. As orientações centram-se na qualidade da produção, não apenas no nome do setor a que esta é associada.
As empresas assumem um papel maior na investigação
A agenda científica abrange a investigação original e disruptiva, avanços em tecnologias fundamentais, a coordenação das capacidades nacionais de investigação, um papel reforçado para as empresas e a conversão mais rápida dos resultados da investigação em produção efetiva. Os grandes projetos científicos e tecnológicos deverão centrar-se em produtos estratégicos, emblemáticos e de vanguarda, ao serviço do desenvolvimento económico, das necessidades nacionais e da saúde pública.
Espera-se que os laboratórios nacionais organizem grandes projetos de investigação e criem plataformas de inovação. Deverão também ser melhorados os papéis e a distribuição das instituições de investigação, universidades e empresas tecnológicas líderes. A par destas instituições públicas, as empresas privadas com capacidade deverão receber apoio para liderar grandes iniciativas de inovação tecnológica.
Para as empresas, o pacote prevê um sistema de fundos de reserva para investigação e desenvolvimento e o aumento da taxa de dedução fiscal adicional das despesas de investigação. Esta dedução permite que as despesas de investigação elegíveis reduzam o rendimento tributável em montante superior ao efetivamente gasto. As informações divulgadas não especificam a nova taxa, os critérios de elegibilidade nem uma data de implementação.
Wang Shengxiao, investigador na Escola do Partido do Comité Central do Partido Comunista da China, descreveu a importância estratégica de reforçar a capacidade de inovação:
«A nova vaga de revolução científica e tecnológica e de transformação industrial abriu amplas perspetivas para o desenvolvimento de novas forças produtivas de qualidade. Aproveitar esta oportunidade histórica exige acelerar a conquista de uma maior autonomia e força na ciência e tecnologia, bem como elevar a capacidade de inovação em todas as áreas, para manter a iniciativa estratégica»,
Os ensaios de IA aproximam-se da produção fabril
As orientações apelam à plena implementação da iniciativa «IA+», que recorre à inteligência artificial para transformar as indústrias tradicionais e alargar as suas aplicações a toda a economia. As bases nacionais de experimentação e ensaio deverão fazer a ponte entre as tecnologias de laboratório e as condições industriais reais.
Liu Zhenzhong, investigador da NDRC especializado em economia industrial e tecnológica, explicou que estas bases podem ajudar a resolver os custos e as dificuldades da implementação da IA na produção. Ensaiar a tecnologia em ambientes industriais permite detetar problemas práticos antes de as empresas avançarem para uma adoção mais alargada, reduzindo os custos e os riscos da experimentação.
A política não apresenta a IA como motivo para abandonar as indústrias existentes. Liu defendeu que as tecnologias inteligentes devem modernizá-las e reforçar a economia real. As orientações apelam também à transformação digital da indústria transformadora, a um melhor planeamento e funcionamento das infraestruturas nacionais de dados e à criação de polos industriais digitais competitivos a nível internacional.
A expansão é acompanhada por requisitos de segurança. O documento prevê sistemas de monitorização tecnológica, alerta precoce de riscos e resposta a emergências, para garantir que a IA permanece segura, fiável e controlável. O quadro político mais amplo aborda também a ética tecnológica, a segurança dos dados e os riscos industriais, através de leis, regras de análise ética e regulamentação.
Apelo às regiões para que não se imitem
A modernização industrial deverá abranger a produção tradicional, os setores emergentes e as indústrias ainda numa fase inicial de desenvolvimento. As orientações incentivam a adoção de tecnologias digitais, inteligentes e ecológicas nas indústrias existentes, bem como o desenvolvimento de serviços especializados de apoio à produção e a melhoria da qualidade, variedade e conveniência dos serviços ao consumidor.
Para as indústrias emergentes, o documento apela à coordenação entre setores e regiões, incluindo medidas contra a concorrência destrutiva. A preocupação é que o investimento repetido em atividades semelhantes leve empresas e governos locais a disputas que consomem recursos sem gerar capacidades mais robustas.
As regiões orientais são incentivadas a ajudar as regiões centrais, ocidentais e nordestinas a desenvolver indústrias emergentes adequadas às suas condições. No caso das indústrias do futuro, as políticas orçamentais existentes deverão apoiar o desenvolvimento, enquanto o investimento privado e de outras fontes aumenta gradualmente. Estas orientações acompanham o alerta contra a precipitação em projetos apenas porque outras regiões escolheram o mesmo setor.
O critério prático vai, por isso, além da criação de um novo polo industrial. As autoridades locais devem associar o investimento às capacidades regionais e assegurar a continuidade entre a produção estabelecida e a nova atividade. As orientações rejeitam explicitamente tanto o esvaziamento industrial como a perturbação causada pelo desmantelamento de capacidades existentes antes de estarem prontas as alternativas.
Os parques com emissões líquidas nulas expõem um problema de medição
A agenda de desenvolvimento ecológico prevê a criação de um conjunto de fábricas e parques industriais com emissões líquidas nulas de carbono, o reforço da indústria transformadora e dos serviços ecológicos e a expansão do setor das energias verdes. Exige também melhores estatísticas e normas de medição das emissões de carbono, rótulos de carbono dos produtos e mecanismos de gestão da pegada de carbono dos produtos. A pegada de carbono de um produto mede as emissões que lhe estão associadas segundo um método contabilístico definido.
Wang Minna, presidente da Chaoteng Energy, disse que o Ministério da Indústria e das Tecnologias da Informação propôs a meta de 1.000 fábricas nacionais com emissões líquidas nulas até 2030. Indicou também que existem 52 parques nacionais com emissões líquidas nulas já concluídos e centenas de parques provinciais em construção. Estes números dizem respeito a categorias diferentes e não devem ser entendidos como uma comparação direta com os progressos rumo à meta para as fábricas.
A NDRC está a recolher opiniões sobre as orientações para uma segunda série de parques nacionais com emissões líquidas nulas. Wang Wentang, diretor-adjunto da comissão de especialistas da Associação de Promoção do Desenvolvimento da Indústria Verde de Pequim, identificou duas questões práticas: se os administradores dos parques conseguem obter dados fiáveis sobre as emissões e se dispõem de autoridade suficiente para garantir que as empresas aí instaladas tomam medidas.
Wang afirmou que, em geral, os parques nacionais têm maior influência administrativa do que muitos parques provinciais e de menor dimensão. Recomendou uma definição mais clara das responsabilidades pela recolha de dados e pela implementação, um sistema básico de estatísticas sobre as emissões de carbono e a atribuição de incentivos e sanções para promover a participação.
Identificou também uma discrepância na contabilização da eletricidade. Segundo a descrição que fez dos indicadores existentes, a eletricidade verde adquirida e os certificados podem contar para a proporção do consumo de energia não fóssil, mas a eletricidade comprada através da rede principal não conta para uma medida separada do consumo de eletricidade não fóssil reconhecida fisicamente. Esta medida reconhece fontes como a eletricidade produzida e consumida no local, as ligações diretas dedicadas e as microrredes dos parques.
Wang recomendou a alteração das regras de reconhecimento para incluir a eletricidade verde elegível adquirida através da rede principal. Trata-se de uma proposta, não de uma alteração anunciada. O exemplo mostra por que razão os incentivos ao investimento podem não ser suficientes: as empresas precisam também de regras claras para determinar se as suas aquisições cumprem os requisitos de certificação.
A energia limpa precisa de mercados, além de equipamento
As propostas para o setor energético incluem o desenvolvimento ordenado de tecnologias avançadas de fissão nuclear, um sistema elétrico com uma elevada proporção de energias renováveis e melhores políticas de integração das renováveis e regulação da rede. A explicação da NDRC aponta três razões para esta prioridade: a energia é um importante campo de transformação industrial, contribui para atingir o pico das emissões de carbono e alcançar a neutralidade carbónica e fornece energia fiável a novas atividades produtivas.
Yue Hao, especialista sénior da State Grid Jibei Electric Power, identificou oportunidades nas ligações diretas de eletricidade verde e nos sistemas coordenados que combinam produção, redes, procura e armazenamento. Os centros de computação, a indústria transformadora avançada e a produção de hidrogénio verde, amoníaco e metanol necessitam de eletricidade estável e a preços acessíveis, com uma origem renovável rastreável.
Yue apontou também as centrais elétricas virtuais e a interação entre veículos elétricos e a rede. Uma central elétrica virtual coordena recursos distribuídos, como baterias e procura de eletricidade ajustável, para que possam responder em conjunto às necessidades do sistema elétrico. A interação entre veículos e rede permite adaptar o carregamento às condições de oferta e, quando a tecnologia o permite, devolver eletricidade ao sistema.
Zhong Ming, especialista sénior do Instituto de Investigação em Energia Elétrica da China, afirmou que os mecanismos de mercado continuam incompletos. A produção térmica flexível e o armazenamento ajudam a equilibrar a produção renovável, mas os mecanismos para repercutir os respetivos custos no mercado ainda são insuficientes. Também é necessário melhorar a coordenação entre os mercados de serviços de apoio à rede, capacidade, eletricidade verde e certificados.
Estas preocupações ligam os objetivos energéticos e industriais do documento. O aumento da produção renovável tem de ser acompanhado pela capacidade de a utilizar onde e quando está disponível e por mecanismos de remuneração que apoiem os recursos de equilíbrio do sistema. Zhong identificou a indústria como uma área difícil, devido às longas cadeias de produção, à grande diversidade de tecnologias e à persistência de processos estabelecidos.
Reforma, talento e abertura completam o pacote
As orientações propõem um mercado nacional integrado de dados, aberto, partilhado e seguro, uma melhor regulação do mercado e uma maior oferta de produtos financeiros inovadores. Pretendem também aproximar a ciência e a economia, em vez de tratar as políticas de investigação e as políticas industriais como atividades separadas.
Liu Zhenzhong, investigador do Instituto de Economia Industrial e Tecnológica da NDRC, explicou por que razão a mudança institucional faz parte da agenda:
«As novas forças produtivas de qualidade são impulsionadas sobretudo por avanços tecnológicos transformadores, que provocam mudanças profundas na organização da inovação, na evolução das indústrias e na afetação de recursos»,
Acrescentou:
Estas mudanças exigem reformas mais profundas para reconfigurar os quadros institucionais e eliminar os obstáculos ao desenvolvimento.
As medidas relativas ao talento centram-se na formação das pessoas de que as novas atividades produtivas necessitam com urgência e na melhoria das políticas que regulam o seu emprego e mobilidade. O responsável da NDRC destacou a formação interna, os incentivos e a avaliação, bem como uma mobilidade adequada. A questão não é apenas formar mais trabalhadores qualificados, mas também garantir que as instituições conseguem recrutá-los, recompensá-los e tirar partido das suas competências.
O documento combina uma maior autonomia tecnológica com a cooperação internacional. Apela à criação de uma rede mundial de cooperação em inovação e incentiva instituições estrangeiras de capital de risco e organizações internacionais de normalização a desenvolver atividade na China. Num seminário realizado em Pequim, em setembro, o embaixador da Nigéria na China, Abdulrahman Bello Dambazau, afirmou que a atenção dada ao talento, à investigação e à modernização industrial poderia servir de referência útil para os países em desenvolvimento.
Datas e decisões a acompanhar
A política insere-se numa sequência que vai da discussão sobre cooperação internacional à implementação durante o atual período de planeamento. As principais datas e etapas são:
- Setembro de 2026: Um seminário em Pequim debateu as novas forças produtivas de qualidade e as potenciais oportunidades para países em diferentes fases de desenvolvimento.
- 9 de outubro de 2026: O Comité Central e o Conselho de Estado publicaram as orientações, e um responsável da NDRC explicou os seus objetivos e princípios de implementação.
- 2026 a 2030: O 15.º Plano Quinquenal inclui 28 grandes projetos relacionados com estas forças, entre um total de 109 projetos.
- 2030: A meta nacional de fábricas com emissões líquidas nulas citada por Wang Minna é de 1.000 unidades.
As informações divulgadas não especificam várias decisões operacionais, incluindo o montante e o calendário do aumento da dedução fiscal para investigação, os detalhes das bases de ensaio de IA industrial e eventuais alterações às regras de certificação da eletricidade verde. Também não é indicada uma data-limite para a consulta sobre as orientações para a segunda série de parques com emissões líquidas nulas.
A instrução imediata é que as regiões e os departamentos desenvolvam percursos práticos, coordenem o seu trabalho e tenham em conta as condições locais. O sucesso dependerá da capacidade de traduzir a investigação, o investimento e a reforma numa produção mais eficiente, sem a duplicação de esforços e a expansão especulativa contra as quais as orientações alertam.
Principais pontos
- A China publicou 19 medidas em cinco áreas de inovação a 9 de outubro de 2026.
- O quadro dá prioridade à produtividade, à investigação empresarial, à IA industrial e ao desenvolvimento ecológico.
- As indústrias tradicionais devem ser modernizadas, não abandonadas em favor de setores na moda.
- Está previsto apoio fiscal à investigação, mas a nova taxa de dedução e a data de implementação não foram especificadas.
- O desenvolvimento de fábricas e parques com emissões líquidas nulas enfrenta questões por resolver sobre dados, administração e reconhecimento da eletricidade.
- A reforma do mercado energético é necessária a par da produção renovável, do armazenamento e da tecnologia de rede.
- Os responsáveis poderão ser chamados a prestar contas por perdas avultadas causadas por investimentos indiscriminados ou pelo uso indevido das políticas.






