A vasta campanha de mapeamento submarino da China ameaça apagar a vantagem dos submarinos dos EUA

12 min de leitura
A vasta campanha de mapeamento submarino da China ameaça apagar a vantagem dos submarinos dos EUA

O levantamento silencioso: mapear o espaço de batalha sob as ondas

A China lançou uma vasta campanha de reconhecimento submarino nos oceanos Pacífico, Índico e Ártico, destacando dezenas de navios de investigação para mapear o fundo do mar e monitorizar as condições da água junto de instalações militares dos Estados Unidos e de pontos de estrangulamento marítimos estratégicos. Esta operação representa um dos esforços de levantamento do leito marinho mais abrangentes da história naval recente, recolhendo dados detalhados sobre o relevo submarino, a temperatura, a salinidade e as correntes, que, segundo os especialistas navais, seriam cruciais em futuros cenários de guerra submarina.

Índice
  1. O levantamento silencioso: mapear o espaço de batalha sob as ondas
  2. Uma frota de vigilantes
  3. Porque é que o leito marinho importa
  4. A iniciativa Oceano Transparente
  5. Visar pontos de estrangulamento estratégicos
  6. Estender o alcance ao Oceano Índico
  7. A fusão civil-militar na prática
  8. Resistência regional e preocupações de soberania
  9. Capacidades submarinas de próxima geração
  10. Em suma

A escala deste empreendimento alarmou os analistas de defesa ocidentais, que assinalam que, durante décadas, a Marinha dos Estados Unidos manteve uma vantagem assimétrica na compreensão do espaço de batalha submarino. Ryan Martinson, professor associado especializado em estratégia marítima chinesa na Escola de Guerra Naval dos EUA, descreveu a magnitude da investigação científica marinha de Pequim como francamente espantosa. Os esforços da China ameaçam agora corroer essa vantagem de longa data, criando um ambiente mais contestado sob as ondas, onde os submarinos americanos operavam tradicionalmente com relativa impunidade.

Publicidade

Uma frota de vigilantes

No centro desta operação está o Dong Fang Hong 3, um navio de investigação operado pela Universidade Oceânica da China, que passou 2024 e 2025 a realizar levantamentos repetidos perto de Taiwan, do bastião americano de Guam e de trechos críticos do Oceano Índico. Dados de rastreamento de navios revistos pela Reuters mostram a embarcação a navegar para trás e para a frente em linhas apertadas, um padrão indicativo de mapeamento sistemático do leito marinho. Em outubro de 2024, inspecionou potentes sensores oceânicos capazes de identificar objetos submarinos perto do Japão, regressando ao mesmo local em maio de 2025. Em março de 2025, o navio cruzava as águas entre o Sri Lanka e a Indonésia, cobrindo as aproximações ao Estreito de Malaca, um dos pontos de estrangulamento mais críticos do mundo para o comércio marítimo.

O Dong Fang Hong 3 não opera isoladamente. A análise de mais de cinco anos de dados de movimentação da Starboard Maritime Intelligence revela que 42 navios de investigação chineses estiveram ativos nos três oceanos. Pelo menos oito realizaram operações de mapeamento do leito marinho confirmadas, enquanto outros dez transportam equipamento especializado capaz de o fazer. Estes navios pertencem a entidades estatais chinesas, como o Ministério dos Recursos Naturais, ou a instituições de investigação ligadas ao Estado. Embora os navios por vezes desativem os seus sistemas de rastreamento — o que significa que o alcance total provavelmente excede o que os analistas conseguem documentar —, a atividade visível, só por si, abrange águas militarmente sensíveis em torno das Filipinas, do Havai e das instalações norte-americanas no atol de Wake, no Pacífico Norte.

Publicidade

Porque é que o leito marinho importa

Compreender o valor estratégico deste mapeamento exige conhecer a forma como os submarinos navegam e combatem. Estas embarcações navegam e escondem-se a poucas centenas de metros da superfície, onde o relevo submarino, a temperatura da água, a salinidade e as correntes oceânicas determinam a sua visibilidade para os sistemas de deteção. As ondas sonoras usadas nos sistemas de sonar desviam-se e refletem-se de forma diferente consoante os contornos do leito marinho e a densidade da água. Estas propriedades acústicas criam sombras onde os submarinos se podem ocultar ou revelar as suas posições a adversários com conhecimento ambiental detalhado.

Tom Shugart, antigo comandante de submarino dos EUA, atualmente no Center for a New American Security, explicou que o movimento das ondas sonoras muda consoante a paisagem submarina. As camadas de temperatura e as variações de salinidade afetam a forma como o som viaja na água, o que significa que operações submarinas idênticas podem permanecer invisíveis num local e ficar expostas noutro. Os comandantes precisam de dados precisos para evitar colisões com montes submarinos e identificar posições ótimas de ocultação.

Os dados de levantamento dos navios seriam potencialmente inestimáveis na preparação do espaço de batalha. Qualquer submarinista militar que se preze dedicará um enorme esforço a compreender o ambiente em que opera.

Peter Scott, antigo chefe da força submarina da Austrália, sublinhou este ponto à Reuters, observando que a recolha de dados serve funções essenciais tanto para o destacamento ofensivo de submarinos como para operações de guerra antissubmarina.

Publicidade

A iniciativa Oceano Transparente

Por volta de 2014, Wu Lixin, um cientista da Universidade Oceânica, propôs um projeto ambicioso para criar aquilo a que os investigadores chineses chamam um oceano transparente. Este conceito envolve a instalação de extensas redes de sensores, boias e conjuntos submarinos que monitorizam em tempo real as condições da água e os movimentos submarinos. A proposta recebeu rapidamente pelo menos 85 milhões de dólares de apoio do governo provincial de Shandong, segundo comentários oficiais de responsáveis de Shandong.

O projeto começou no Mar da China Meridional, onde a Universidade Oceânica afirma agora ter construído um sistema de observação que cobre a bacia de mar profundo. Registos de agências governamentais chinesas mostram que a rede se expandiu desde então para os oceanos Pacífico e Índico, com centenas de sensores instalados a leste do Japão, a leste das Filipinas e em torno de Guam. No Oceano Índico, documentos descrevem um conjunto de sensores que circunda a Índia e o Sri Lanka, incluindo instalações ao longo da Dorsal Ninety East, uma das cadeias montanhosas submarinas mais longas do mundo.

O contra-almirante Mike Brookes, comandante do Office of Naval Intelligence dos EUA, testemunhou perante uma comissão do Congresso que a China está a construir redes de vigilância submarina que recolhem dados hidrográficos para otimizar o desempenho do sonar e permitir uma vigilância persistente dos submarinos que transitam por vias navegáveis críticas como o Mar da China Meridional. Embora alguns especialistas navais manifestem cautela quanto às alegações de transmissão de dados submarinos em tempo real, dadas as dificuldades técnicas, mesmo dados atrasados proporcionam informações valiosas sobre as operações de submarinos adversários.

Publicidade

Visar pontos de estrangulamento estratégicos

A China concentrou o seu levantamento oceânico mais abrangente a leste das Filipinas, uma região situada ao longo da Primeira Cadeia de Ilhas. Esta cadeia de territórios, em grande parte controlados por aliados americanos, vai das ilhas japonesas, a norte, até Taiwan e daí até Bornéu, a sul, formando uma barreira natural entre os mares costeiros da China e o Pacífico aberto. Peter Leavy, antigo adido naval da Austrália nos EUA e atualmente presidente do Australian Naval Institute, observou que a China parece paranóica com o facto de estar encurralada por esta cadeia. O mapeamento extensivo indica o desejo de compreender o domínio marítimo o suficiente para romper para águas azuis.

Os dados de rastreamento revelam que os navios chineses também mapearam as águas em torno de Guam, onde estão estacionados submarinos nucleares americanos, e em torno do Havai, outro importante centro regional. Os navios examinaram uma dorsal submarina a norte de uma base naval na Papua-Nova Guiné, à qual os EUA obtiveram recentemente acesso, e exploraram os arredores da Ilha Christmas, um território australiano nas rotas entre o Mar da China Meridional e uma base submarina australiana vital. Este padrão sugere que Pequim se está a preparar para operações muito além da sua costa imediata, desenvolvendo a capacidade de contestar o domínio submarino americano em todo o Indo-Pacífico.

Publicidade

Estender o alcance ao Oceano Índico

As ambições oceanográficas da China vão muito além do Pacífico. Navios chineses mapearam grandes extensões do Oceano Índico, uma rota crítica para as importações chinesas de petróleo e outros recursos do Médio Oriente e de África. Jennifer Parker, professora adjunta de defesa e segurança na Universidade da Austrália Ocidental e antiga oficial australiana de guerra antissubmarina, notou que a China tem vulnerabilidades-chave no que respeita às dependências do comércio marítimo. O levantamento extensivo indica que Pequim irá provavelmente realizar mais operações submarinas no Oceano Índico para proteger essas linhas de abastecimento, ao mesmo tempo que monitoriza as atividades navais de potências regionais, incluindo a Índia.

O conjunto de sensores ao longo da Dorsal Ninety East situa-se a cavalo da aproximação ao Estreito de Malaca, por onde passa grande parte do abastecimento de petróleo da China. Este posicionamento permite à China monitorizar tanto as vulnerabilidades da sua própria rota de abastecimento como potenciais movimentos de submarinos adversários através deste ponto de estrangulamento essencial. Navios chineses também mapearam o leito marinho a oeste e a norte do Alasca, uma rota marítima essencial para o Ártico, onde Pequim declarou a sua ambição de se tornar uma grande potência polar na década de 2030.

Publicidade

A fusão civil-militar na prática

A integração da investigação científica civil com o desenvolvimento de tecnologia militar tornou-se um foco central do governo chinês sob o presidente Xi Jinping. Pequim refere-se a esta abordagem como fusão civil-militar, e ela assume um lugar de destaque nas operações de instituições como a Universidade Oceânica da China. O reitor da universidade celebrou publicamente em 2021 os estreitos laços da instituição com a marinha chinesa e o seu compromisso com a construção de uma potência marítima e da defesa nacional.

Zhou Chun, um investigador da Universidade Oceânica que supervisiona as redes de sensores dos oceanos Índico e Pacífico, articulou esta ligação explicitamente num comunicado de imprensa de 2025. Afirmou que o seu trabalho lhe tinha mostrado o rápido desenvolvimento das capacidades de defesa marítima e militares do seu país, e prometeu transformar os avanços científicos e tecnológicos mais avançados em novos tipos de capacidades de combate para os militares no mar. O fundador do programa de mapeamento, Wu, supervisiona agora a rede através do Laboratório Nacional de Qingdao para a Ciência e Tecnologia Marinhas, cujos parceiros incluem a Academia de Submarinos da Marinha chinesa.

Resistência regional e preocupações de soberania

Esta vasta atividade de recolha de dados desencadeou reações significativas em todo o Indo-Pacífico, à medida que as potências regionais se debatem com questões de soberania e segurança marítimas. A Índia, que há muito procura posicionar-se como fornecedora regional de serviços hidrográficos, mantém preocupações particulares quanto às atividades de investigação chinesas no Oceano Índico, especialmente perto do Golfo de Bengala, onde está baseada a frota de submarinos nucleares indiana.

O Sri Lanka implementou uma moratória de 12 meses às visitas de navios de investigação estrangeiros depois de a presença de navios de investigação chineses, mais recentemente o Shi Yan 6, em outubro de 2023, ter provocado veementes protestos de Nova Deli. O governo do Sri Lanka avançou para cancelar um acordo entre um instituto chinês e uma universidade local que tinha proporcionado à China um fácil acesso às águas e aos dados hidrográficos do Sri Lanka. O governo criou também uma nova agência sob o Ministério da Defesa para supervisionar a investigação hidrográfica, procurando estabelecer controlo soberano sobre a informação relativa ao seu próprio domínio marítimo.

Publicidade

Capacidades submarinas de próxima geração

Recentes avanços técnicos sugerem que a China está a ir além da mera recolha de dados e a avançar para a preparação ativa do leito marinho como espaço de batalha. Cientistas chineses testaram com êxito a ignição de um motor de foguete sólido a 200 metros de profundidade, muito mais fundo do que os mísseis lançados por submarinos convencionais, que normalmente disparam de cerca de 30 metros. Engenheiros do Instituto de Engenharia Mecano-Elétrica e do Laboratório-Chave de Equipamento Inteligente Submarino publicaram conclusões na revista chinesa com revisão por pares Tactical Missile Technology, descrevendo uma plataforma experimental de simulação de ambiente em águas profundas. Se forem desenvolvidas em sistemas operacionais, tais tecnologias poderão permitir instalações de lançamento de mísseis fixas no fundo do oceano, ampliando as opções estratégicas de Pequim.

Os analistas alertam também que um conhecimento detalhado do leito marinho permite capacidades para perturbar infraestruturas submarinas. Taiwan depende quase inteiramente de cabos submarinos para a conectividade à internet, o que torna a ilha particularmente vulnerável a uma quarentena digital através do corte direcionado de cabos. Jason Hsu, um investigador citado em análises de defesa, sugere que o Exército de Libertação Popular poderá cortar agrupamentos de cabos essenciais para reduzir a largura de banda em até 99%, isolando Taiwan e perturbando a coordenação dos aliados. O Tansuo Yi Hao, outro navio de investigação chinês, circum-navegou a Austrália e fez uma pausa sobre a Fossa de Diamantina, onde poderia eventualmente fazer a manutenção de sensores acústicos no leito marinho ou recolher informações sobre cabos submarinos. O primeiro-ministro Anthony Albanese declarou publicamente que preferia que tais navios não estivessem presentes em águas australianas.

Em suma

  • A China destacou 42 navios de investigação pelos oceanos Pacífico, Índico e Ártico para realizar mapeamento sistemático do leito marinho e monitorização ambiental em águas estrategicamente sensíveis.
  • O projeto Oceano Transparente, financiado com pelo menos 85 milhões de dólares pela província de Shandong, instalou centenas de sensores que fornecem dados que otimizam as capacidades de deteção e ocultação de submarinos.
  • O levantamento centra-se em áreas militarmente críticas, incluindo a Primeira Cadeia de Ilhas, águas perto de Guam e do Havai, as aproximações ao Estreito de Malaca e rotas próximas de instalações submarinas australianas.
  • A fusão civil-militar permite que navios de investigação civis recolham dados de dupla utilização que apoiam operações navais, o posicionamento de armas no leito marinho e potenciais capacidades de perturbação de infraestruturas.
  • Potências regionais, incluindo a Índia, o Sri Lanka e a Austrália, estão a implementar restrições ou a reforçar a monitorização em resposta a preocupações de soberania e ameaças à segurança.
  • Os testes avançados de ignição de foguetes em alto mar e de redes de sensores indicam que a China está a preparar o leito marinho como um domínio ativo para futuras operações militares.
Partilhar este artigo

Também pode gostar