Um marco na restituição financeira
A Coreia do Sul alcançou um marco significativo na sua longa jornada para resolver as obrigações financeiras pendentes da crise financeira asiática de 1997-1998, com o governo a anunciar que recuperou 72,5% dos fundos públicos injetados para estabilizar o setor bancário nacional.
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De acordo com dados divulgados terça-feira pela Comissão de Serviços Financeiros, Seul recuperou 122,1 biliões de won (83,4 mil milhões de dólares) dos 168,7 biliões de won utilizados para resgatar instituições financeiras em dificuldades durante o período económico mais sombrio da história moderna da Coreia.
A taxa de recuperação representa um aumento de 0,5 pontos percentuais em relação ao ano anterior, sinalizando um progresso constante na redução da enorme intervenção estatal que evitou o colapso total há quase três décadas.
Esta conquista é um indicador mensurável de quão longe a quarta maior economia da Ásia chegou desde a beira da falência soberana em dezembro de 1997, quando as reservas cambiais esgotadas e as falências empresariais em cascata forçaram Seul a procurar o maior pacote de resgate da história do Fundo Monetário Internacional.
A recuperação constante destes fundos contrasta fortemente com a situação em 2014, quando o governo tinha recuperado apenas 65,2% do montante desembolsado.
Os 7,3 pontos percentuais adicionais recuperados na última década refletem esforços sustentados para liquidar ativos, privatizar bancos recapitalizados e cobrar créditos vencidos adquiridos durante a era da crise.
Os reguladores financeiros manifestaram satisfação com o progresso, observando que a recuperação demonstra a viabilidade a longo prazo das medidas de estabilização adotadas durante o período de emergência.
Os fundos de resgate inicialmente utilizados entre novembro de 1997 e o final de 1998 serviram como uma tábua de salvação para uma economia que enfrentava um colapso iminente.
Na altura, a Coreia do Sul enfrentava não apenas uma escassez de liquidez, mas uma crise de solvência que ameaçava toda a arquitetura financeira construída durante as três décadas anteriores de rápida industrialização.
As estatísticas de recuperação atuais validam as decisões difíceis tomadas pelos decisores políticos de usar o dinheiro dos contribuintes para sustentar o sistema, enquanto os esforços de cobrança em curso continuam a devolver valor ao tesouro nacional.
A crise de 1997 e a intervenção do FMI
Para compreender a importância dos números atuais de recuperação, é preciso recordar a gravidade da crise que exigiu uma intervenção governamental tão extraordinária.
No final de 1997, a economia da Coreia do Sul, há muito celebrada como o Milagre do Rio Han por transformar uma nação devastada pela guerra numa potência industrial, enfrentava um colapso catastrófico.
A crise teve origem na Tailândia com a desvalorização do baht em julho de 1997, mas espalhou-se rapidamente para a Coreia do Sul através de efeitos de contágio e expôs fraquezas fundamentais no modelo económico coreano.
Os investidores estrangeiros, ao testemunharem falências consecutivas entre os grandes chaebol (conglomerados industriais) e instabilidade financeira em toda a Ásia Oriental, perderam a confiança nas instituições coreanas.
Os bancos estrangeiros recusaram renovar linhas de crédito de curto prazo, e a fuga de capitais acelerou dramaticamente.
Em meados de dezembro de 1997, as reservas cambiais da Coreia do Sul tinham caído de aproximadamente 30 mil milhões de dólares para cerca de 4 mil milhões de dólares, enquanto a dívida externa atingia 153 mil milhões de dólares.
O won coreano, que tinha sido mantido dentro de uma banda estreita em relação ao dólar, perdeu metade do seu valor em poucas semanas, ultrapassando os 2.000 won por dólar na véspera de Natal.
Em 3 de dezembro de 1997, Seul assinou um Acordo Stand-By de três anos com o FMI, num total de 58 mil milhões de dólares, provenientes do próprio FMI (21 mil milhões de dólares), do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento (14 mil milhões de dólares) e de contribuições bilaterais dos Estados Unidos, Japão, Alemanha e Canadá (20 mil milhões de dólares).
Este pacote de resgate excedeu mesmo os 50 mil milhões de dólares concedidos ao México durante a Crise da Tequila de 1994, marcando-o como a maior intervenção do Fundo até essa data.
O resgate veio com condições rigorosas que iriam remodelar a sociedade coreana.
O FMI impôs medidas de austeridade, incluindo taxas de juro elevadas, redução das despesas governamentais, liberalização comercial e reformas estruturais abrangentes visando os setores financeiro e empresarial.
As reformas do mercado de trabalho facilitaram o despedimento por parte das empresas, destruindo as garantias de emprego vitalício que anteriormente definiam a cultura laboral coreana.
Da humilhação nacional à libertação antecipada
O rescaldo imediato do resgate trouxe o que os coreanos recordam como os dias do FMI, um período de profunda vergonha nacional e dificuldades económicas.
Em 1998, a economia contraiu 6,7%, o pior desempenho desde a Guerra da Coreia.
O desemprego disparou de 2,6% para 6,8%, com mais de um milhão de coreanos a perderem os seus empregos entre outubro de 1997 e julho de 1998.
Grandes conglomerados, incluindo a Kia e a Daewoo, colapsaram ou exigiram reestruturação maciça, enquanto o Grupo Halla, o 12.º maior chaebol, naufragou sob 5,3 mil milhões de dólares em dívidas.
No entanto, a crise também desencadeou manifestações notáveis de solidariedade cívica.
A campanha nacional de recolha de ouro no início de 1998 viu 3,51 milhões de cidadãos doarem ou venderem 227 toneladas métricas de joias de ouro, incluindo alianças de casamento e heranças de família, para reforçar as reservas nacionais.
Este sacrifício coletivo gerou aproximadamente 2 mil milhões de dólares e simbolizou o compromisso da população com a recuperação nacional.
Um diretor de orfanato lamentou as circunstâncias alteradas na altura, observando que as doações de caridade tinham secado.
Nem uma única instituição se ofereceu para presentear as crianças.
Contra as expectativas, a Coreia do Sul pagou os empréstimos do FMI antes do prazo.
O governo liquidou o mecanismo de alívio especial de 13,5 mil milhões de dólares em setembro de 1999, seguido pelo restante empréstimo stand-by de 6 mil milhões de dólares em 23 de agosto de 2001.
Este pagamento antecipado, possível graças a reformas estruturais rápidas e à recuperação liderada pelas exportações, permitiu à Coreia do Sul sair do programa do FMI três anos antes do cronograma original.
Na cerimónia que assinalou o pagamento final, o governador do Banco da Coreia, Chon Chol-hwan, expressou gratidão aos cidadãos, reconhecendo que a nação continuava desafiada por fraquezas estruturais enraizadas.
A mecânica da recuperação de fundos
Os 168,7 biliões de won em fundos públicos originalmente utilizados serviram múltiplos propósitos durante a resolução da crise.
O governo injetou capital em bancos insolventes, adquiriu créditos vencidos e forneceu liquidez para evitar o colapso total do mercado.
A recuperação destes fundos ocorreu através de vários canais, incluindo vendas de instituições financeiras reestruturadas a investidores privados, reembolsos por bancos recapitalizados que voltaram à rentabilidade e liquidação de ativos apreendidos de mutuários incumpridores.
A progressão para a atual taxa de recuperação de 72,5% tem sido gradual mas constante.
Dados de 2014 indicavam uma taxa de recuperação de 65,2% naquela altura, o que significa que o governo recuperou 7,3 pontos percentuais adicionais na década seguinte.
A Comissão de Serviços Financeiros relatou que o governo recuperou 2,4 biliões de won apenas no quarto trimestre do período de referência mais recente, demonstrando um impulso contínuo na resolução de ativos.
Analistas financeiros observam que a recuperação total dos restantes 27,5% apresenta desafios significativos, pois alguns ativos ficaram presos em mercados ilíquidos ou perderam valor ao longo do prolongado período de resolução.
Garantias imobiliárias detidas por bancos mercantis falidos e obrigações corporativas emitidas por chaebols que posteriormente faliram continuam difíceis de monetizar totalmente.
No entanto, a trajetória atual sugere que a Coreia do Sul pode eventualmente alcançar uma recuperação quase completa dos fundos dos contribuintes comprometidos com a estabilização financeira, marcando um sucesso raro entre as nações que realizaram resgates maciços do setor financeiro.
Transformação estrutural e abertura económica
A crise e o subsequente programa do FMI forçaram uma reestruturação fundamental da arquitetura económica da Coreia do Sul.
O governo fechou 56 empresas financeiras insolventes na esteira da Tailândia e implementou medidas semelhantes a nível interno, encerrando bancos mercantis inviáveis que se envolveram em empréstimos externos de curto prazo de alto risco.
As reformas do setor financeiro eliminaram os tetos das taxas de juro, desregulamentaram as taxas de câmbio e reforçaram a supervisão prudencial.
A reestruturação empresarial visou o sistema chaebol que impulsionou a industrialização coreana, mas acumulou níveis perigosos de dívida.
Um vice-presidente de uma empresa de um conglomerado que cambaleava sob uma dívida de mil milhões de dólares explicou a corrupção subjacente que assolava o sistema.
Todos conheciam o problema. Mas os banqueiros eram muito fracos, emprestando a empresários por recomendação de funcionários do governo. Os empresários, por sua vez, cuidavam dos funcionários.
O programa do FMI exigia transparência na contabilidade, eliminação de garantias cruzadas de dívida entre afiliadas e redução dos rácios de alavancagem.
Estas reformas abriram setores anteriormente fechados ao investimento estrangeiro, permitindo que bancos internacionais estabelecessem operações e investidores estrangeiros adquirissem participações em empresas coreanas.
Os resultados destas mudanças foram transformadores.
A Coreia do Sul evoluiu de uma economia assolada pela crise com 20,4 mil milhões de dólares em reservas cambiais para a 14.ª maior economia do mundo, detendo 384,46 mil milhões de dólares em reservas, ocupando o nono lugar a nível global.
O rácio da dívida externa de curto prazo caiu de 286,1% em 1997 para 30,8% em 2017.
As classificações de crédito soberano melhoraram de níveis B+ ou B- durante a crise para classificações AA elevadas ou Aa2 hoje.
O custo social e a divisão geracional
Apesar da história de sucesso macroeconómico, a crise de 1997 criou fissuras sociais duradouras que continuam a moldar a sociedade coreana.
As reformas do mercado de trabalho implementadas sob condicionalidade do FMI introduziram o emprego não regular generalizado, criando um sistema de dois níveis que divide trabalhadores permanentes seguros e bem remunerados de empregados com contratos temporários que recebem salários mais baixos e menos benefícios.
Esta transformação deu origem ao que os media coreanos chamam a geração dos sete abandonos, referindo-se a jovens que abandonaram aspirações de amor, casamento, procriação, propriedade de casa própria, sonhos pessoais, relações humanas estáveis e esperança.
O desemprego jovem situa-se em aproximadamente 9,9%, mais do triplo da taxa geral, com 410 mil coreanos na casa dos vinte anos atualmente sem emprego.
O período médio de serviço no primeiro emprego diminuiu para pouco mais de um ano, enquanto 58% da população com idades entre 15 e 29 anos não tem emprego remunerado.
A desigualdade de rendimentos aumentou significativamente desde a crise.
De acordo com pesquisa do Instituto de Desenvolvimento da Coreia, os 10% mais pobres dos agregados familiares sofreram quedas de rendimento superiores a 20% durante o período da crise, enquanto os 10% mais ricos registaram aumentos de rendimento de 10%.
O presidente Moon Jae-in, durante a sua primeira proposta orçamental, recordou os dias sombrios que transtornaram a vida dos coreanos e prometeu abordar a desigualdade estrutural resultante da crise cambial.
A crise transtornou a vida de todos os coreanos, e a estrutura socioeconómica que foi transformada pela crise cambial danificou o tecido da vida quotidiana das pessoas.
Muitos coreanos ainda veem o período como o pior trauma económico da memória recente.
Inquéritos indicam que mais de 60% da população acredita que a crise afetou negativamente as suas vidas, com mais de 80% a identificar questões de emprego como necessitando de remédio contínuo.
A dicotomia entre trabalhadores regulares e irregulares continua a ser uma questão política central, com administrações sucessivas a tentar abordar o emprego precário sem prejudicar a competitividade empresarial.
Lições para a gestão de crises
A experiência da Coreia do Sul oferece lições significativas para a gestão internacional de crises financeiras.
A reestruturação coordenada da dívida organizada no final de 1997, combinada com taxas de juro iniciais elevadas seguidas de redução estratégica, conseguiu estabilizar a taxa de câmbio e restaurar a confiança do mercado.
A rápida implementação de reformas estruturais, embora dolorosa, permitiu uma recuperação mais rápida do que a experimentada por outras nações afetadas pela crise.
No entanto, críticos, incluindo economistas coreanos, questionaram se a política de taxas de juro elevadas inicialmente aprofundou em vez de resolver a crise, ao acelerar falências empresariais.
A estratégia de reestruturação focada nos bancos negligenciou inicialmente as sociedades de investimento, permitindo que chaebols fracos como a Daewoo emitissem obrigações corporativas através destes canais menos supervisionados, levando, em última análise, a mais restrições de crédito quando estes instrumentos amadureceram.
O caso coreano demonstra que uma resolução rápida de crises requer não apenas estabilização macroeconómica, mas também reestruturação corporativa e financeira fundamental.
A subsequente acumulação de substanciais reservas cambiais pelo país e os acordos de swap cambial com os principais parceiros comerciais, incluindo renovações recentes com a China e o Canadá, refletem uma aprendizagem institucional da vulnerabilidade de 1997.
Pontos-chave
- A Coreia do Sul recuperou 72,5% (122,1 biliões de won ou 83,4 mil milhões de dólares) dos 168,7 biliões de won em fundos públicos usados para resgatar empresas financeiras durante a crise financeira asiática de 1997-1998.
- A taxa de recuperação aumentou 0,5 pontos percentuais em relação ao ano anterior, de acordo com dados da Comissão de Serviços Financeiros divulgados em fevereiro de 2026.
- A crise de 1997 forçou a Coreia do Sul a aceitar um pacote de resgate do FMI de 58 mil milhões de dólares, o maior da história do Fundo naquela época, após o colapso do won e o esgotamento das reservas cambiais.
- A Coreia do Sul pagou todos os empréstimos do FMI até agosto de 2001, três anos antes do previsto, marcando uma das recuperações de crise mais rápidas entre as economias emergentes.
- Embora os indicadores macroeconómicos tenham melhorado dramaticamente, com as reservas cambiais a crescerem de 20,4 mil milhões de dólares para 384,46 mil milhões de dólares, a crise criou desigualdades sociais duradouras e um mercado de trabalho dual que divide trabalhadores regulares e irregulares.
- O fenómeno da geração dos sete abandonos reflete o desemprego jovem contínuo e as condições de emprego precárias decorrentes das reformas laborais da era da crise.






