Uma vaga nacionalista impulsiona o triunfo conservador
O primeiro-ministro Anutin Charnvirakul reivindicou uma vitória decisiva nas eleições gerais da Tailândia no domingo, com o seu conservador Partido Bhumjaithai a garantir quase o dobro dos assentos do seu rival mais próximo, num resultado que contrariou meses de sondagens e remodelou o panorama político do país. Com aproximadamente 94 por cento dos votos contados, os resultados preliminares mostraram que o Bhumjaithai conquistou entre 192 e 194 dos 500 assentos na Câmara dos Representantes, o que coloca Anutin em posição de se tornar o primeiro líder tailandês em duas décadas a ser reconduzido ao cargo através das urnas.
Índice
- Uma vaga nacionalista impulsiona o triunfo conservador
- Contrariar as sondagens e as previsões
- Conflito fronteiriço e a vaga de nacionalismo
- O movimento progressista enfrenta reveses
- O colapso dramático do Pheu Thai
- Os eleitores priorizam a estabilidade em vez da reforma
- Os resultados do referendo criam um novo campo de batalha
- Política externa e relações regionais
- Formar o próximo governo
- Em resumo
Dirigindo-se aos apoiantes na sede do seu partido em Banguecoque, no final de domingo, Anutin adotou um tom magnânimo ao reivindicar a vitória.
A vitória do Bhumjaithai hoje é uma vitória para todos os tailandeses, independentemente de terem votado ou não no Partido Bhumjaithai. Temos de fazer o máximo para servir o povo tailandês com todas as nossas capacidades.
O progressista Partido Popular, que liderava a maioria das sondagens pré-eleitorais e esperava capitalizar a vitória do seu antecessor em 2023, ficou atrás com cerca de 116 a 118 assentos. O outrora dominante Partido Pheu Thai, veículo político da bilionária família Shinawatra, sofreu o seu pior desempenho eleitoral em duas décadas, conquistando apenas cerca de 74 a 86 assentos e caindo para o terceiro lugar.
Contrariar as sondagens e as previsões
Ao longo de toda a campanha eleitoral, as sondagens colocaram consistentemente o Partido Popular à frente, com a sua mensagem de reforma estrutural e modernização económica a ressoar especialmente entre os jovens eleitores dos centros urbanos. O partido, formado como sucessor do Partido Move Forward depois de essa organização ter sido dissolvida pelo Tribunal Constitucional pela sua posição sobre a reforma das rigorosas leis tailandesas de difamação da monarquia, esperava cavalgar uma onda laranja de apoio progressista até à vitória.
Em vez disso, o eleitorado proporcionou o que os analistas consideram a primeira vitória conservadora nas urnas desde 1996, sinalizando uma mudança dramática nas prioridades dos eleitores. Os cientistas políticos atribuem esta inversão a uma combinação de nacionalismo em ascensão após os confrontos fronteiriços com o Camboja, ansiedade económica generalizada e a consolidação estratégica por Anutin das redes de poder provinciais. O contraste entre expectativas e resultados foi acentuado. Em Banguecoque, o Partido Popular manteve o seu domínio, conquistando todos os 33 círculos eleitorais da capital. No entanto, não conseguiu traduzir este apoio urbano em vitórias rurais, onde as alianças do Bhumjaithai com clãs políticos locais, conhecidos como baan yaai ou grandes casas, garantiram assentos cruciais nos círculos eleitorais ao abrigo do sistema maioritário tailandês para 400 dos 500 assentos parlamentares.
Conflito fronteiriço e a vaga de nacionalismo
A decisão de Anutin de dissolver o parlamento em meados de dezembro, menos de 100 dias depois de ter tomado posse, pareceu inicialmente arriscada. Tornara-se primeiro-ministro em setembro, após a destituição de Paetongtarn Shinawatra, filha do antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, pelo Tribunal Constitucional, devido à sua gestão de uma disputa fronteiriça com o Camboja. Em vez de enfrentar uma potencial moção de censura num governo minoritário, Anutin apostou que o fervor nacionalista latente de duas rondas de combates mortais com o Camboja impulsionaria o seu partido à vitória.
A aposta compensou. Os confrontos fronteiriços de julho e dezembro de 2025 mataram dezenas de pessoas de ambos os lados e deslocaram aproximadamente um milhão de pessoas, criando uma atmosfera de insegurança que o Bhumjaithai explorou com mestria. Anutin fez campanha intensa em torno da segurança nacional, prometendo construir um muro ao longo da fronteira cambojana e autorizando os militares a agir de forma autónoma nas regiões fronteiriças sem supervisão civil. Num comício na província fronteiriça de Sisaket na semana passada, Anutin declarou o seu compromisso com a integridade territorial. O primeiro-ministro salientou os seus feitos na recuperação de terras disputadas.
Assim que me tornei primeiro-ministro, tudo o que antes havíamos perdido voltou a ser nosso.
A imagem azul do partido, a coincidir com a bandeira nacional tailandesa, reforçou a sua mensagem patriótica. Anutin conseguiu projetar-se como o candidato capaz de proteger a soberania tailandesa, ao mesmo tempo que pintava os rivais progressistas como insuficientemente patrióticos devido aos seus apelos à reforma dos militares.
O movimento progressista enfrenta reveses
A derrota do Partido Popular representa um golpe significativo para o movimento reformista tailandês, que tinha captado a imaginação dos eleitores mais jovens com promessas de limitar a influência militar, desmantelar os monopólios empresariais e modernizar o sistema educativo. O líder do partido, Natthaphong Ruengpanyawut, de 38 anos, admitiu a derrota no final de domingo, reconhecendo que o seu partido servirá na oposição em vez de se juntar a qualquer coligação liderada por Anutin. Dirigindo-se aos apoiantes em lágrimas na noite de domingo, o líder do partido exortou os seus seguidores a manterem o compromisso com a reforma democrática apesar do revés.
Não percam a esperança. Chegámos tão longe.
Os analistas políticos identificam vários fatores por trás do declínio progressista. A decisão do partido de apoiar a candidatura de Anutin ao cargo de primeiro-ministro em setembro passado, em troca de promessas de reforma constitucional e eleições antecipadas, concedeu ao líder conservador as vantagens de estar no poder, ao mesmo tempo que minou a distinção ideológica do Partido Popular. Mathis Lohatepanont, analista político independente, descreveu isto como um erro de cálculo grave que permitiu a Anutin consolidar o voto conservador, prejudicando simultaneamente as credenciais reformistas dos progressistas.
Além disso, o partido foi forçado a suavizar a sua posição sobre a reforma militar e a abandonar completamente a posição do seu antecessor sobre a reforma do Artigo 112, a draconiana lei de lesa-majestade que criminaliza a crítica à monarquia. O Tribunal Constitucional tinha dissolvido o Partido Move Forward precisamente por defender tais alterações, forçando o seu sucessor a contornar totalmente a questão. Esta diluição da sua agenda radical deixou o partido sem temas incisivos e emocionalmente ressonantes que tinham energizado a sua base em 2023, ao mesmo tempo que não conseguiu convencer os eleitores moderados de que poderia gerir a segurança nacional.
O colapso dramático do Pheu Thai
A eleição marcou um possível ponto final para a dinastia política que dominou as eleições tailandesas durante duas décadas. O Partido Pheu Thai, fundado pelo antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra e subsequentemente liderado pela sua irmã Yingluck e pela sua filha Paetongtarn, viu o seu número de assentos cair de 141 em 2023 para aproximadamente 74 a 86. Pela primeira vez que há memória, o partido não conseguiu conquistar qualquer assento de círculo eleitoral em Chiang Mai, o bastião da família Shinawatra.
Este colapso segue-se a um ano tumultuoso para o clã. Thaksin regressou à Tailândia em 2023, após 15 anos de exílio autoimposto, para cumprir uma pena de prisão por corrupção, embora muitos observadores esperem uma libertação antecipada como parte de negociações políticas. A sua filha Paetongtarn tornou-se primeira-ministra após as eleições de 2023, mas durou apenas alguns meses antes de o Tribunal Constitucional a destituir devido a uma chamada telefónica divulgada com o antigo líder cambojano Hun Sen, na qual se referia a ele como tio e parecia criticar os comandantes militares tailandeses.
O grande acordo entre o Pheu Thai e o establishment conservador, que permitiu o regresso de Thaksin e o cargo de primeira-ministra da sua filha, alienou os tradicionais apoiantes camisas vermelhas do partido, ao mesmo tempo que não conseguiu obter proteção duradoura contra a intervenção judicial. A gestão do conflito com o Camboja pelo partido atraiu críticas generalizadas, e a sua posição foi ainda mais prejudicada por acusações de má gestão económica, à medida que a dívida das famílias atingia níveis recorde e o crescimento estagnava em apenas 1,5 por cento no ano passado.
Os eleitores priorizam a estabilidade em vez da reforma
A economia morosa da Tailândia serviu de pano de fundo à avaliação das escolhas dos eleitores. Outrora apelidado de doente da Ásia, o país tem lutado contra um crescimento lento, com o vital setor do turismo ainda por recuperar para os níveis pré-pandémicos e a indústria transformadora a enfrentar a concorrência do Vietname e de outros vizinhos. A dívida das famílias subiu para máximos históricos, enquanto a moeda baht se valoriza face aos parceiros comerciais, prejudicando as exportações.
Anutin apresentou-se como um gestor pragmático capaz de proporcionar alívio económico imediato através de medidas populistas, incluindo programas de subsídios ao consumo e distribuição de dinheiro. Rodou-se de tecnocratas conhecidos, criando uma imagem de gestão competente que contrastava com o idealismo não testado do Partido Popular e os recentes fracassos do Pheu Thai. O ministro das Finanças, Ekniti Nitithanprapas, já se comprometeu a continuar os planos de estímulo, incluindo a segunda fase dos esquemas de subsídios para reduzir o custo de vida.
Para muitos eleitores, a promessa de estabilidade superou os apelos à mudança radical. O funcionário público Phananya Bunthong disse à BBC que as preocupações económicas determinaram a sua decisão de voto, captando a ansiedade prevalecente entre a classe média em relação à deslocalização de fábricas para países vizinhos. A ambiciosa agenda do Partido Popular de desmantelar conglomerados e reestruturar a burocracia pareceu a muitos como experiências arriscadas em tempos incertos, enquanto a mensagem mais simples de Anutin, de assistência financeira e segurança nacional, oferecia uma garantia imediata.
Os resultados do referendo criam um novo campo de batalha
A par da votação parlamentar, os tailandeses participaram num referendo sobre se deveriam substituir a constituição de 2017, redigida sob regime militar após o golpe de 2014. As contagens preliminares mostraram que aproximadamente 65 por cento dos eleitores apoiavam a elaboração de uma nova carta, um mandato claro para a mudança, apesar da vitória conservadora no pleito legislativo.
Este resultado cria uma dinâmica complexa para o próximo governo. A Tailândia teve 20 constituições desde o fim da monarquia absoluta em 1932, com a maioria das alterações a seguir-se a intervenções militares. A atual carta concede poder significativo a instituições não eleitas, incluindo um Senado selecionado através de um processo indireto que anteriormente impediu o Partido Move Forward de formar governo apesar da sua pluralidade em 2023.
No entanto, com o Bhumjaithai a controlar o maior bloco no parlamento e os aliados conservadores a dominar o Senado, Anutin orientará o processo de reforma constitucional. São necessários dois referendos adicionais para concluir o processo de alteração, o que significa que quaisquer mudanças levarão pelo menos dois anos e continuarão sujeitas a veto conservador. Os progressistas esperam limitar o poder do Senado e reduzir a intervenção judicial na política, mas Anutin indicou resistência a mudanças radicais que minariam as instituições tradicionais. Anutin prometeu não atrasar os trabalhos sobre uma nova constituição, afirmando que o governo agirá de acordo com a vontade do povo.
Política externa e relações regionais
A vitória de Anutin tem implicações significativas para a postura internacional da Tailândia. O primeiro-ministro salientou uma abordagem equilibrada entre os Estados Unidos, o aliado mais antigo da Tailândia na Ásia, e a China, de onde são originários os antepassados de Anutin e com quem mantém laços estreitos. Tendo passado oito anos a estudar e trabalhar em Nova Iorque, Anutin expressa afinidade pessoal pela América, embora se recuse a tomar partido na competição entre grandes potências.
Numa entrevista à revista TIME durante a campanha, Anutin delineou a sua visão para a política externa da Tailândia.
Defendemos consistentemente a ordem internacional baseada em regras e as normas acordadas pela comunidade global. Num mundo polarizado, os países que permanecem pragmáticos e fiáveis tornam-se mais valiosos, não menos.
Comprometeu-se também a trabalhar com o primeiro-ministro do Camboja, Hun Manet, que descreveu como muito inteligente e capaz, para resolver as disputas fronteiriças através da harmonização de mapas, mantendo simultaneamente a posição militar da Tailândia nas zonas disputadas. Relativamente a Mianmar, onde uma junta militar realizou recentemente eleições condenadas como fraudulentas, Anutin defende o envolvimento sem endosso, apoiando soluções lideradas pela ASEAN e dando prioridade ao acesso humanitário. A nível interno, prometeu combater redes de ciberfraude multimilionárias que operam a partir de países vizinhos, uma preocupação crescente para a segurança regional.
Formar o próximo governo
Apesar do seu forte desempenho, o Bhumjaithai ficou aquém dos 251 assentos necessários para uma maioria absoluta, tornando necessárias negociações de coligação. Anutin recusou especificar potenciais parceiros, aguardando os resultados finais certificados da Comissão Eleitoral, que tem 60 dias para concluir o processo. O parlamento deve reunir-se no prazo de 15 dias após a certificação para eleger um presidente e um primeiro-ministro.
Vários partidos mais pequenos conquistaram 117 assentos no total, com o Partido Kla Tham projetado para captar aproximadamente 57 assentos, potencialmente proporcionando a Anutin apoio suficiente para formar governo sem o Pheu Thai. No entanto, o Pheu Thai continua a ser um provável parceiro de coligação, dada a sua anterior aliança com o Bhumjaithai e a aritmética da política parlamentar. O Partido Popular excluiu explicitamente a participação em qualquer administração liderada por Anutin, comprometendo-se antes com uma oposição robusta.
Os analistas esperam que Anutin avance rapidamente para consolidar o poder, mantendo potencialmente os atuais ministros das Finanças, dos Negócios Estrangeiros e do Comércio para assegurar a continuidade. A dimensão da vitória deverá proporcionar a estabilidade que os investidores ansiavam, com as ações tailandesas a dispararem mais de 3 por cento após os resultados, atingindo os seus níveis mais elevados em mais de um ano. Napon Jatusripitak, cientista político do think tank tailandês Thailand Future, sediado em Banguecoque, observou que a dimensão da vitória deverá resolver a instabilidade crónica que tem assolado os governos tailandeses.
Pela primeira vez em muito tempo, teremos provavelmente um governo com poder efetivo suficiente para governar.
Em resumo
- O Partido Bhumjaithai, de Anutin Charnvirakul, conquistou aproximadamente 192-194 assentos na Câmara dos Representantes tailandesa, de 500 membros, quase o triplo do seu resultado de 2023
- O progressista Partido Popular terminou em segundo lugar, com cerca de 116-118 assentos, aceitando a derrota e comprometendo-se com o estatuto de oposição em vez de se juntar a uma coligação
- O Pheu Thai, o partido da família Shinawatra, colapsou para o terceiro lugar, com aproximadamente 74-86 assentos, o seu pior resultado em duas décadas
- Os eleitores aprovaram simultaneamente um referendo constitucional, com cerca de 65 por cento de apoio à substituição da carta de 2017 redigida pelos militares
- Anutin convocou eleições antecipadas após menos de 100 dias no cargo, para capitalizar o sentimento nacionalista na sequência dos conflitos fronteiriços com o Camboja
- A vitória conservadora marca a primeira vez desde 1996 que um partido alinhado com os monárquicos conquista uma pluralidade em eleições nacionais
- A estagnação económica e a dívida das famílias foram as principais preocupações dos eleitores, com a estabilidade a superar as exigências de reforma radical
- Anutin precisa de parceiros de coligação para alcançar o limiar de maioria de 251 assentos, prevendo-se que as negociações terminem dentro de semanas






