A influência da China na liberdade académica no Reino Unido: vigilância, financiamento e a luta pelo debate aberto

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Chinese students in UK universities 'told to spy'

A crescente influência da China nas universidades do Reino Unido: uma ameaça à liberdade académica?

Nos últimos anos, as universidades de renome mundial do Reino Unido têm estado no centro de um aceso debate sobre liberdade académica, influência estrangeira e integridade do ensino superior. No cerne da controvérsia está o papel crescente da China na academia britânica, tanto através dos seus estudantes como de avultados investimentos financeiros. Relatórios de grupos de transparência, comissões parlamentares e jornalistas de investigação traçam um quadro complexo de como os interesses de Pequim poderão estar a moldar as agendas de investigação, os debates nas salas de aula e até a segurança pessoal de académicos e estudantes.

Índice
  1. A crescente influência da China nas universidades do Reino Unido: uma ameaça à liberdade académica?
  2. Como são pressionados os estudantes e académicos chineses no Reino Unido?
  3. Impacto no debate nas salas de aula e na investigação
  4. Dependência financeira: como o dinheiro chinês molda a academia britânica
  5. Transparência e diligência prévia
  6. Institutos Confúcio e associações de estudantes chineses: intercâmbio cultural ou influência política?
  7. Influência recíproca: campus britânicos na China
  8. Respostas oficiais: negações, reformas e apelos à vigilância
  9. Debate no meio académico
  10. Implicações mais amplas: liberdade académica, segurança nacional e o futuro das relações entre o Reino Unido e a China
  11. Em síntese

Com o Governo britânico a aprovar novas leis para proteger a liberdade de expressão nos campus, permanece a questão: até que ponto se estende a influência da China e quais são as implicações mais amplas para a independência académica e a segurança nacional?

Como são pressionados os estudantes e académicos chineses no Reino Unido?

Uma das conclusões mais alarmantes de investigações recentes é a pressão exercida sobre estudantes e académicos chineses no Reino Unido para vigiarem e denunciarem os seus pares. Segundo um inquérito do grupo de reflexão UK-China Transparency (UKCT), alguns estudantes chineses terão sido instados por responsáveis do seu país de origem a espiar os colegas, sobretudo no que diz respeito a debates sobre temas sensíveis para o Partido Comunista Chinês (PCC). Entre estes estão o tratamento dos uigures em Xinjiang, o estatuto de Taiwan, os protestos em Hong Kong e a origem da Covid-19.

Os académicos entrevistados para o relatório da UKCT descreveram um clima de medo e autocensura. Alguns estudantes de nacionalidade chinesa confidenciaram aos seus docentes que tinham sido abordados por responsáveis do PCC, que lhes pediram para vigiar os debates nas salas de aula. Outros, independentemente da nacionalidade, disseram sentir-se pouco à vontade para falar livremente sobre temas relacionados com a China, receando que as suas palavras fossem transmitidas às autoridades ou tivessem consequências para si ou para as suas famílias na China.

Um académico contou que um investigador visitante da China lhe disse: «Estamos a vigiar-te», enquanto outros relataram assédio em linha e avisos de responsáveis chineses. O relatório concluiu ainda que familiares de académicos sediados no Reino Unido tinham sido ameaçados ou assediados na China por causa das suas investigações ou declarações públicas.

Estas revelações não são casos isolados. Vários órgãos de comunicação social, incluindo a BBC e a Anadolu Agency, noticiaram padrões semelhantes de vigilância e intimidação, apontando as Associações de Estudantes e Académicos Chineses (CSSA) e os Institutos Confúcio como canais importantes para vigiar e silenciar a dissidência.

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Impacto no debate nas salas de aula e na investigação

O efeito inibidor destas pressões é profundo. Tanto estudantes como académicos são desencorajados de desenvolver investigação ou debater abertamente temas considerados sensíveis por Pequim. Alguns viram ser-lhes negados financiamento ou vistos para investigações que poderiam desagradar ao PCC, enquanto outros foram diretamente advertidos por responsáveis universitários, por vezes devido a preocupações com as finanças das instituições e as relações com parceiros chineses.

Consequentemente, áreas inteiras de estudo, dos direitos humanos em Xinjiang à história da Praça Tiananmen, correm o risco de ser marginalizadas ou excluídas do debate académico. Isto não só compromete o princípio da liberdade académica, como também distorce a base de conhecimento disponível aos decisores políticos, aos meios de comunicação social e ao público.

Dependência financeira: como o dinheiro chinês molda a academia britânica

Além da vigilância e da intimidação, os laços financeiros entre as universidades do Reino Unido e entidades chinesas tornaram-se uma importante fonte de preocupação. Nos últimos quatro anos, as principais universidades britânicas, em especial as que integram o prestigiado Russell Group, receberam quase 50 milhões de libras de fontes chinesas, segundo investigações do The Independent e do Sri Lanka Guardian. Só Oxford e Cambridge receberam mais de metade deste montante, proveniente de universidades chinesas, empresas tecnológicas como a Huawei e outras organizações ligadas ao Estado ou às Forças Armadas da China.

Este apoio financeiro não se limita a bolsas de investigação. Donativos, bolsas de estudo e projetos conjuntos, incluindo a criação de Institutos Confúcio, tornaram-se comuns. Em alguns casos, cátedras e centros académicos receberam o nome de doadores chineses, suscitando dúvidas sobre a possibilidade de influenciarem as agendas de investigação e as prioridades das instituições.

Sir Iain Duncan Smith, antigo líder do Partido Conservador, alertou que esta dependência corre o risco de levar a «vergar-se perante a China e as suas posições», sufocando o debate aberto sobre violações dos direitos humanos e outras questões controversas. Especialistas partilham esta preocupação e observam que a dependência das universidades das propinas de estudantes internacionais — sendo os estudantes chineses atualmente o maior grupo de estudantes estrangeiros no Reino Unido — cria fortes incentivos para evitar desagradar a Pequim.

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Transparência e diligência prévia

As universidades defenderam as suas parcerias, assegurando que todos os donativos e colaborações são sujeitos a processos de aprovação rigorosos e que a independência académica é preservada. Oxford, por exemplo, declarou que os financiadores não influenciam a investigação nem o ensino. Cambridge sublinhou que menos de 1% do financiamento anual das suas atividades de investigação provém da China e que todas as bolsas são avaliadas quanto a riscos para a segurança nacional.

No entanto, multiplicam-se os apelos a uma maior transparência. Académicos e organizações de vigilância instaram as instituições a divulgar a origem e as condições do financiamento estrangeiro, sobretudo quando envolve entidades ligadas ao Governo chinês ou às Forças Armadas. O caso do instituto de estudos sobre a China do King’s College London, financiado por um único doador de Hong Kong, suscitou um debate sobre a necessidade de transparência nas relações financeiras que possam afetar a integridade académica (Nikkei Asia).

Institutos Confúcio e associações de estudantes chineses: intercâmbio cultural ou influência política?

Oficialmente, os Institutos Confúcio, criados em dezenas de universidades do Reino Unido, são apresentados como centros de promoção da língua e da cultura chinesas. No entanto, os críticos argumentam que são instrumentos de poder brando do Governo chinês, com potencial para influenciar os conteúdos letivos e suprimir o debate sobre temas sensíveis.

Relatórios da Comissão dos Negócios Estrangeiros do Parlamento britânico e de grupos de reflexão independentes destacaram casos em que responsáveis dos Institutos Confúcio terão confiscado trabalhos académicos que mencionavam Taiwan ou pressionado universidades a cancelar eventos relacionados com o Tibete e Hong Kong. As Associações de Estudantes e Académicos Chineses (CSSA), presentes na maioria das universidades do Reino Unido, também foram identificadas como canais de vigilância e ingerência política, por vezes em coordenação com responsáveis da embaixada chinesa.

Embora alguns representantes universitários tenham minimizado a dimensão do problema, descrevendo os casos como isolados e não sistemáticos, o conjunto das provas aponta para um padrão de influência que vai além do intercâmbio cultural. O regulador do ensino superior do Reino Unido, o Office for Students (OfS), anunciou planos para analisar os Institutos Confúcio ao abrigo das novas leis sobre liberdade de expressão, que lhe dão poderes para multar universidades em milhões de libras caso não protejam a liberdade académica.

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Influência recíproca: campus britânicos na China

A influência não se exerce apenas num sentido. As universidades britânicas que operam campus na China são obrigadas a acolher núcleos do PCC, cujos membros ocupam frequentemente cargos administrativos importantes. Segundo um relatório do China Strategic Risks Institute, todas as universidades britânicas com um campus na China têm um núcleo do PCC integrado na sua estrutura de governação. Isto levanta novas questões sobre a capacidade das instituições britânicas para manterem a independência académica e defenderem a liberdade de expressão em contextos onde a autoridade do PCC é suprema (The Times).

Respostas oficiais: negações, reformas e apelos à vigilância

A embaixada chinesa em Londres tem rejeitado sistematicamente as acusações de ingerência, classificando-as como «infundadas e absurdas», e insistindo que a China respeita a liberdade de expressão e a liberdade académica no Reino Unido. Os porta-vozes da embaixada reiteraram que a China segue uma política de não ingerência nos assuntos internos de outros países e espera que os seus cidadãos no estrangeiro respeitem as leis locais.

As autoridades britânicas, porém, estão a levar a questão a sério. O Governo introduziu nova legislação que obriga as universidades a promover e proteger ativamente a liberdade académica, atribuindo ao OfS poderes para investigar e penalizar as instituições que não o façam. A secretária de Estado para a Ciência e a Tecnologia, Michelle Donelan, sublinhou a necessidade de salvaguardas robustas para proteger a investigação de ameaças estrangeiras, enquanto a ministra das Competências, Jacqui Smith, declarou que a liberdade académica é «inegociável» nas instituições britânicas de referência mundial.

Os serviços de segurança, incluindo o MI5 e o National Cyber Security Centre, informaram os responsáveis universitários sobre os riscos de ingerência estrangeira, sobretudo em áreas de investigação sensíveis com potenciais aplicações económicas ou militares. O Governo está a ponderar medidas como exigir credenciação de segurança a funcionários universitários com funções importantes, aumentar a transparência quanto às fontes de financiamento e reforçar a segurança dos projetos de investigação (Fortune).

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Debate no meio académico

Nem todas as vozes da comunidade académica concordam quanto à dimensão ou à gravidade da influência chinesa. Algumas associações universitárias, como a Million Plus, afirmaram não ter encontrado provas sistemáticas de uma campanha concertada da China para comprometer a liberdade académica. Outras reconhecem que houve casos, mas consideram que não constituem uma iniciativa generalizada ou coordenada.

Ainda assim, a Comissão dos Negócios Estrangeiros do Parlamento britânico e especialistas independentes argumentam que até os casos isolados podem ter um efeito inibidor no debate académico, sobretudo quando se juntam à dependência financeira e à ameaça de represálias contra académicos ou as suas famílias.

Implicações mais amplas: liberdade académica, segurança nacional e o futuro das relações entre o Reino Unido e a China

O debate sobre a influência da China na academia britânica não se limita a casos individuais de censura ou intimidação. Levanta questões fundamentais sobre o papel das universidades num mundo globalizado, o equilíbrio entre a colaboração internacional e a segurança nacional e a proteção da investigação livre perante pressões autoritárias.

A liberdade académica é um pilar das sociedades democráticas, pois permite a investigação independente, o pensamento crítico e a procura da verdade. Quando as universidades se tornam financeiramente dependentes de governos estrangeiros ou permitem que agentes externos moldem as suas agendas de investigação, fica em risco não só a integridade do trabalho académico, mas também o interesse público em sentido mais amplo. A investigação sensível com potenciais aplicações militares, por exemplo, pode ser alvo de Estados estrangeiros que procurem reforçar as suas próprias capacidades.

O Reino Unido não é o único a enfrentar estes desafios. Há debates semelhantes em curso na Austrália, na Nova Zelândia, nos Estados Unidos e no Canadá, onde as universidades também têm lidado com as implicações do financiamento chinês, da vigilância de estudantes e da ingerência política. Alguns países avançaram com a proibição ou restrição dos Institutos Confúcio e reforçaram o escrutínio dos donativos estrangeiros ao ensino superior.

Enquanto o Governo britânico consulta sobre novas medidas para proteger a liberdade académica e a segurança da investigação, as universidades enfrentam uma pressão crescente para equilibrar os benefícios da colaboração internacional com a necessidade de salvaguardar a sua independência e defender os valores democráticos.

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Em síntese

  • Estudantes e académicos chineses no Reino Unido relataram pressões para vigiar e denunciar os seus pares, gerando autocensura e medo nas salas de aula.
  • Os laços financeiros entre universidades britânicas e entidades chinesas cresceram significativamente, suscitando preocupações quanto à dependência institucional e à influência sobre as agendas de investigação.
  • Os Institutos Confúcio e as Associações de Estudantes e Académicos Chineses são apontados como canais importantes de vigilância e ingerência política nos campus britânicos.
  • As universidades britânicas que operam na China são obrigadas a acolher núcleos do PCC, o que torna ainda mais complexa a questão da independência académica.
  • O Governo britânico introduziu novas leis para proteger a liberdade académica e está a ponderar medidas adicionais para salvaguardar a investigação e reforçar a transparência.
  • O debate sobre a dimensão e o impacto da influência chinesa continua no meio académico, mas os especialistas alertam que até os casos isolados podem comprometer a investigação livre e os valores democráticos.
  • As implicações mais amplas abrangem a segurança nacional, a integridade do ensino superior e o futuro das relações entre o Reino Unido e a China num mundo cada vez mais interligado.
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