Porque ficou Taipé paralisada?
Numa quinta-feira recente, as movimentadas ruas de Taipé ficaram invulgarmente silenciosas. As sirenes de ataque aéreo soaram por toda a cidade, o trânsito parou e os residentes das zonas designadas apressaram-se a entrar em edifícios. Não se tratava de uma cena de um filme de catástrofes, mas da realidade do maior exercício de defesa civil de sempre em Taiwan: uma simulação impressionante de um cenário que, embora considerado improvável por muitos taiwaneses, é levado muito a sério pelo governo da ilha — uma potencial invasão pela China.
Índice
- Porque ficou Taipé paralisada?
- O que motivou um exercício desta dimensão?
- O exercício por dentro: o que aconteceu?
- Aprender com a Ucrânia: novas estratégias para uma nova era
- Como se estão a preparar os civis?
- Opinião pública: ceticismo e determinação
- Reação da China: desvalorização e pressão
- Implicações internacionais: um foco de tensão regional
- Lições mais amplas: dissuasão, resiliência e vontade de resistir
- Em resumo
O exercício, integrado nas manobras militares anuais Han Kuang, destinou-se a testar a preparação do governo e da população perante um possível ataque. Incluiu exercícios de evacuação em massa, simulações de incidentes com numerosas vítimas e a suspensão temporária da atividade de empresas e da circulação rodoviária. A dimensão e a visibilidade do exercício sublinharam o crescente sentido de urgência no planeamento da defesa de Taiwan, à medida que as tensões com a China continuam a agravar-se.
O que motivou um exercício desta dimensão?
A China reivindica há muito Taiwan como parte do seu território e não excluiu o recurso à força para alcançar a unificação. Nos últimos anos, Pequim intensificou a pressão militar, realizando frequentes patrulhas aéreas e navais nas proximidades da ilha e organizando exercícios de grande escala que simulam bloqueios e desembarques anfíbios. A eleição do Presidente William Lai, a quem a China classifica como separatista, agravou ainda mais as tensões.
Neste contexto, o governo de Taiwan procurou demonstrar tanto a sua preparação como a sua determinação. As manobras Han Kuang, que se realizam anualmente há décadas, têm vindo a ganhar dimensão e complexidade. Este ano, as autoridades combinaram os exercícios militares com um amplo exercício de defesa civil de resiliência urbana, realizado de terça-feira a sexta-feira em toda a ilha. O objetivo: garantir que tanto os militares como os civis estejam preparados para qualquer eventualidade.
O Presidente Lai, presente no evento ao lado de responsáveis governamentais e dignitários estrangeiros, salientou a importância da união e da resiliência. Afirmou:
Esperamos que, preparando-nos para a guerra, possamos evitá-la e alcançar a paz. A preparação dá-nos força.
A mensagem foi clara: dissuasão através da preparação, não da provocação.
O exercício por dentro: o que aconteceu?
Em cada dia do exercício de resiliência urbana, as sirenes de ataque aéreo soaram durante meia hora em várias cidades. Durante esse período, os residentes das zonas designadas tinham de abrigar-se em edifícios, sob pena de multa. As lojas e os restaurantes suspenderam a atividade e o trânsito parou, tendo os condutores recebido instruções para encostar e procurar abrigo.
Em Taipé, centenas de profissionais de emergência e voluntários participaram em exercícios de ataque aéreo e evacuações em praças movimentadas junto a templos, escolas, estações de metro e autoestradas. Uma simulação de um incidente com numerosas vítimas recriou ataques com mísseis ou bombas a edifícios, com equipas de emergência a resgatar sobreviventes, prestar assistência aos feridos e distribuir bens de emergência. Estes cenários destinavam-se a testar não só a preparação das equipas de primeira intervenção, mas também a sensibilização da população e a sua capacidade para seguir instruções durante uma crise.
Em paralelo, decorreram exercícios militares. As tropas treinaram a defesa de infraestruturas essenciais, a resposta a desembarques anfíbios e operações de combate urbano em centros de exposições e no metro. Num parque junto ao rio, nos arredores de Taipé, os militares treinaram o reabastecimento e o rearme de helicópteros Black Hawk e Apache com mísseis Hellfire e Stinger fornecidos pelos Estados Unidos. Na cidade de Taichung, as forças armadas simularam a expulsão de tropas inimigas, enquanto um liceu em Taoyuan foi transformado numa oficina de reparação de carros de combate.
Aprender com a Ucrânia: novas estratégias para uma nova era
Este ano, as manobras Han Kuang foram claramente influenciadas pelas lições da resistência ucraniana à invasão russa. Os responsáveis militares de Taiwan reconheceram abertamente a necessidade de adaptação à guerra moderna, que inclui cada vez mais ciberataques, campanhas de desinformação e as chamadas táticas de «zona cinzenta» — ações que não chegam a constituir um conflito aberto, mas que ainda assim comprometem a segurança.
Entre as principais lições retiradas da Ucrânia contam-se:
- Comando descentralizado: Os exercícios testaram a capacidade das forças armadas para operar mesmo que as comunicações centrais fossem interrompidas, à semelhança da forma como a Ucrânia manteve a coordenação durante os ciberataques e as vagas de mísseis russos.
- Preparação civil: Taiwan reforçou os abrigos antiaéreos, publicou novas orientações de defesa civil e realizou exercícios públicos de defesa aérea, com o objetivo de proteger os civis de ataques em grande escala.
- Combate à guerra híbrida: Os exercícios incluíram cenários de resposta à intimidação por parte da Guarda Costeira chinesa e de milícias marítimas, refletindo a agressão ambígua observada na Ucrânia.
- Comunicação pública e desinformação: As autoridades alertaram os cidadãos para possíveis perturbações e apelaram à vigilância contra a desinformação, um desafio que a Ucrânia continua a enfrentar.
Durante os exercícios foram utilizados novos sistemas de armamento, como os carros de combate Abrams e os sistemas de foguetes HIMARS fornecidos pelos Estados Unidos, ambos utilizados eficazmente pela Ucrânia. As manobras incluíram ainda simulações em tempo real de uma invasão em grande escala, operações ininterruptas, exercícios de resposta a desembarques e a mobilização de 22 000 reservistas, o número mais elevado até à data.
Como se estão a preparar os civis?
Embora os esforços do governo sejam muito visíveis, está também em curso um movimento mais discreto entre os cidadãos comuns de Taiwan. Grupos de defesa civil, como a Kuma Academy e o grupo Hemlock Civil Defence, têm surgido por toda a ilha, oferecendo formação em primeiros socorros, resposta a catástrofes e até combate à desinformação em linha. Estas iniciativas de base refletem a crescente consciência de que, em caso de conflito, a resiliência dos civis poderá ser tão importante como o poderio militar.
Alguns participantes, motivados pelos acontecimentos em Hong Kong e pela guerra na Ucrânia, começaram a armazenar bens essenciais e a treinar regularmente primeiros socorros e preparação física. Outros, como o realizador norte-americano Bryan Hopkins, sublinham a importância da resiliência comunitária, retirando ensinamentos da experiência ucraniana. Contudo, nem todos os taiwaneses apoiam estas iniciativas; alguns receiam que possam provocar a China ou duvidam da sua eficácia.
A questão está muito politizada, com partidos a debaterem qual a melhor abordagem à defesa nacional. Apesar dos esforços do governo para melhorar a defesa civil — incluindo a publicação de um manual e o aumento da despesa militar —, muitos consideram que é preciso fazer mais. Pessoas como Jack Yao e Tobie Openshaw tomaram medidas individuais de preparação, criando depósitos de bens essenciais e planos de emergência. Enquanto alguns estão preparados para partir caso deflagre um conflito, outros estão determinados a ficar e a ajudar, convictos de que o povo taiwanês resistirá a qualquer invasão.
Opinião pública: ceticismo e determinação
Apesar da dimensão dos exercícios e dos avisos do governo, a maioria dos taiwaneses continua cética quanto à iminência de uma invasão. Uma sondagem apoiada pelo governo e realizada em outubro passado pelo Instituto de Investigação em Defesa e Segurança Nacional concluiu que mais de 60% dos taiwaneses não acreditam que a China vá invadir a ilha nos próximos cinco anos. Como disse à BBC um residente de Taipé:
As hipóteses de a China invadir são reduzidas. Se quisessem mesmo invadir-nos, já o teriam feito há muito tempo. Mas acredito que precisamos destes exercícios; todos os países precisam deles e é preciso treinar a defesa… Acredito que a ameaça da China continua a existir.
Outros são mais pessimistas quanto à capacidade de Taiwan para resistir a um ataque em grande escala, apontando a enorme disparidade de poderio militar entre a China e Taiwan. Segundo a mesma sondagem, apenas cerca de metade da população confia na capacidade das forças armadas para defender a ilha. Esta ambivalência levou o governo a reforçar as forças armadas, alargar as manobras Han Kuang e prolongar o serviço militar obrigatório de quatro meses para um ano.
Reação da China: desvalorização e pressão
A China desvalorizou os exercícios, classificando-os como um «bluff», e acusou o Presidente Lai e o Partido Democrático Progressista, no poder, de promoverem uma agenda pró-independência. Os responsáveis chineses reiteraram a sua oposição aos laços militares entre os Estados Unidos e Taiwan e responderam aos exercícios com demonstrações de força próprias, incluindo o aumento das patrulhas aéreas e navais e medidas económicas dirigidas a empresas taiwanesas.
O Gabinete para os Assuntos de Taiwan de Pequim não respondeu de imediato aos pedidos de comentários, mas os meios de comunicação estatais descreveram os exercícios como inúteis perante a esmagadora superioridade militar da China. Ainda assim, os responsáveis taiwaneses insistem que as manobras são necessárias para demonstrar a determinação da ilha em defender-se e dissuadir uma eventual agressão.
Implicações internacionais: um foco de tensão regional
O Estreito de Taiwan continua a ser um dos pontos de tensão mais perigosos do mundo. Qualquer conflito na região poderia rapidamente envolver os Estados Unidos, o Japão e outras potências regionais, com consequências potencialmente catastróficas para a segurança global e a economia mundial. O papel de Taiwan como um dos principais produtores de semicondutores — componentes essenciais em tudo, desde telemóveis a aviões de combate — acrescenta outra dimensão à sua importância estratégica.
Observadores internacionais, incluindo adidos militares e analistas, acompanham de perto os exercícios de Taiwan para avaliar os progressos em matéria de resiliência e a resposta da China. Os Estados Unidos, embora não reconheçam formalmente Taiwan como Estado soberano, mantêm relações oficiosas estreitas com a ilha e fornecem grande parte do armamento utilizado nas manobras Han Kuang. Outros países, como o Canadá, manifestaram apoio enviando navios de guerra através do Estreito de Taiwan, que Pequim reivindica como seu, mas que muitos consideram águas internacionais.
Lições mais amplas: dissuasão, resiliência e vontade de resistir
A abordagem de Taiwan à defesa é cada vez mais moldada pela consciência de que a guerra moderna não se resume a carros de combate e mísseis: envolve também a informação, o moral e a capacidade da sociedade para funcionar sob pressão. A integração da defesa civil nos exercícios militares reflete uma estratégia abrangente: em caso de conflito, toda a sociedade — e não apenas as forças armadas — será chamada a resistir.
Ao tornar os exercícios mais exigentes e públicos, Taiwan pretende enviar uma mensagem clara a Pequim: qualquer tentativa de invasão será enfrentada com resistência determinada e o desfecho estará longe de ser previsível. Como demonstrou a Ucrânia, a vontade de lutar e a capacidade de adaptação podem surpreender até os adversários mais poderosos.
Em resumo
- Taipé realizou o maior exercício de defesa civil de sempre, simulando uma invasão chinesa com sirenes de ataque aéreo, evacuações e exercícios de resposta a incidentes com numerosas vítimas.
- O exercício foi integrado nas manobras militares anuais Han Kuang, refletindo a crescente preocupação com a pressão e as ameaças militares da China.
- As lições da resistência da Ucrânia à Rússia influenciaram a abordagem de Taiwan, com ênfase no comando descentralizado, na preparação civil e no combate à guerra híbrida.
- Grupos de defesa civil de base estão a formar civis em primeiros socorros, resposta a catástrofes e resiliência, embora a opinião pública continue dividida quanto à probabilidade de uma invasão e à eficácia destas medidas.
- A China desvalorizou os exercícios, classificando-os como um bluff, enquanto Taiwan insiste que são necessários para a dissuasão e a preparação.
- Os exercícios são simultaneamente um teste prático da preparação e um sinal estratégico dirigido a Pequim e à comunidade internacional de que Taiwan está determinada a defender-se.






