15 mortos, incluindo seis crianças, em operação no Sri Lanka que terminou com tiros e explosões

11 min de leitura
15 Killed, Including Six Children, as Sri Lanka Raid Ends in Gunfire and Explosions

Operação mortífera agrava crise dos atentados da Páscoa no Sri Lanka

Quinze pessoas, incluindo seis crianças, morreram quando uma operação contra um alegado esconderijo de militantes no leste do Sri Lanka terminou com tiros e três explosões na sexta-feira, 26 de abril de 2019. O confronto em Sainthamaruthu, na zona de Kalmunai, ocorreu enquanto as forças de segurança procuravam pessoas ligadas aos atentados do Domingo de Páscoa, que mataram mais de 250 pessoas em igrejas e hotéis.

Índice
  1. Operação mortífera agrava crise dos atentados da Páscoa no Sri Lanka
  2. O que aconteceu na casa
  3. A reivindicação do Estado Islâmico e as provas encontradas
  4. Número de detenções e buscas ainda em curso
  5. Os atentados da Páscoa e o alegado cabecilha
  6. Medidas de emergência e uma semana de buscas intensificadas
  7. Moradores fogem e igrejas suspendem celebrações
  8. Alertas ignorados pressionam os líderes
  9. Pontos-chave

A polícia afirmou que três homens que estavam dentro da casa detonaram explosivos depois de os ocupantes terem aberto fogo contra as tropas que se aproximavam. Um porta-voz militar descreveu um tiroteio que durou mais de uma hora. Uma busca na manhã de sábado encontrou corpos dentro e fora do imóvel danificado, enquanto uma mulher e uma criança feridas foram levadas para o hospital.

As mortes expuseram os perigos imediatos da operação de busca em curso: os suspeitos de terem cometido os atentados continuavam a monte, havia crianças num imóvel com explosivos e os moradores das redondezas fugiram de casa. Cerca de 600 muçulmanos refugiaram-se numa escola enquanto decorria o confronto, segundo os residentes.

O presidente Maithripala Sirisena prometeu revistar todas as casas do país. As autoridades recorriam a poderes de emergência para perseguir suspeitos, mas a dimensão da investigação continuava incerta. Os números de detenções variavam entre 70 num relato inicial e mais de 100 em notícias posteriores, enquanto também divergiam as estimativas do número de pessoas suspeitas de terem ligações ao Estado Islâmico.

O que aconteceu na casa

A operação foi desencadeada por uma denúncia sobre um imóvel em Sainthamaruthu, uma cidade costeira maioritariamente muçulmana, situada a cerca de 360 a 370 quilómetros de Colombo. Alguns relatos também identificam o local como Saindamarudu, na zona de Kalmunai. Segundo informações, os suspeitos tinham chegado um ou dois dias após os atentados da Páscoa e transferido caixas de uma minivan cinzenta-clara para uma casa baixa, situada atrás de um muro alto e de um portão metálico preto.

A polícia afirmou que homens armados abriram fogo quando as tropas se aproximaram, na sexta-feira à noite. Durante o confronto que se seguiu, três explosões destruíram parte da casa, danificando o telhado e uma parede. A polícia não reportou vítimas entre as forças de segurança.

Publicidade

O relato da busca de sábado referia que foram encontrados mortos no interior três homens, três mulheres e seis crianças, e que, no exterior, estavam outros três homens que tinham sido baleados. A polícia descreveu os homens que estavam no exterior como alegados bombistas suicidas. Outro relato afirmou que pelo menos um civil morreu no fogo cruzado. Não ficou claro como se enquadrava esse civil na contagem divulgada de 15 mortos.

O porta-voz da polícia Ruwan Gunasekara afirmou que se acreditava que a maioria das vítimas eram militantes. Essa avaliação não estabeleceu a identidade ou o papel de todos os adultos mortos, e as seis crianças não devem ser confundidas com os alegados combatentes. A mulher e a criança feridas foram resgatadas com vida, mas as suas identidades não tinham sido confirmadas de forma conclusiva.

A reivindicação do Estado Islâmico e as provas encontradas

O Estado Islâmico, também conhecido como IS ou ISIL, reivindicou no sábado que três dos seus membros tinham combatido a polícia durante várias horas antes de detonarem coletes explosivos. O seu órgão de comunicação Amaq não apresentou provas da alegação. Os relatos da polícia confirmaram a ocorrência de tiros e de três explosões, mas a declaração do grupo não demonstrou, por si só, quem eram os homens nem como a operação tinha sido dirigida.

Buscas distintas na zona envolvente permitiram encontrar material que os investigadores associaram aos autores dos atentados da Páscoa. Um porta-voz militar afirmou que uma operação nas proximidades permitiu apreender bandeiras do Estado Islâmico, 150 cartuchos de gelignite, milhares de projécteis de aço e uma câmara de drone. A gelignite é um explosivo, enquanto os projécteis de aço podem tornar-se fragmentos letais quando são colocados à volta de uma bomba.

Uma operação em Sammanthurai, a cerca de 14 quilómetros do local do tiroteio, terá permitido encontrar uma bandeira do Estado Islâmico e uniformes semelhantes aos usados pelos alegados bombistas da Páscoa num vídeo em que prometiam fidelidade ao líder do grupo. Estas descobertas sustentavam a investigação sobre a actividade de militantes locais, mas não demonstravam, por si só, a extensão da direcção exercida pelo Estado Islâmico no estrangeiro.

Imagens da casa danificada em Sainthamaruthu mostraram também explosivos, baterias, um gerador e um drone. Não foi indicada qualquer finalidade confirmada para o drone. A sua presença não deve ser considerada prova de que os militantes planeavam um ataque aéreo.

Publicidade

Número de detenções e buscas ainda em curso

O número de pessoas detidas aumentou à medida que prosseguiam as buscas, mas os relatos apresentaram totais diferentes. O relato inicial indicava 70 detenções. Uma notícia posterior afirmou que as 10 detenções de sexta-feira elevaram para 80 o total desde o Domingo de Páscoa. Outros relatos indicaram que pelo menos 94 pessoas estavam sob custódia, enquanto uma notícia posterior citou a polícia, que afirmou terem sido detidos mais de 100 suspeitos.

Estes números não podem ser combinados num único total confirmado. Poderão reflectir actualizações em diferentes fases da operação, mas não foi apresentada uma reconciliação dos valores. A detenção também não prova a culpa nem demonstra que todos os detidos pertenciam ao grupo responsável pelos atentados.

As estimativas da ameaça ainda existente eram igualmente incertas. Sirisena afirmou que os serviços de informações acreditavam que havia cerca de 130 pessoas ligadas ao Estado Islâmico no Sri Lanka e que a polícia procurava 70 que continuavam a monte. Outro relato situou a sua estimativa em cerca de 140 pessoas com alegadas ligações ao grupo.

O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe também afirmou que continuavam a ser procuradas cerca de 70 pessoas, que descreveu como apoiantes e simpatizantes da célula responsável pelos atentados da Páscoa. Alertou que algumas poderiam cometer atentados suicidas.

A distinção entre suspeitos, detidos e pessoas ainda procuradas é importante. Estas categorias não são equivalentes, e os números não permitem calcular com fiabilidade quantos membros da rede responsável pelos atentados foram capturados.

Os atentados da Páscoa e o alegado cabecilha

As buscas sucederam a atentados coordenados no domingo, 21 de abril, que tiveram como alvo igrejas cheias de fiéis para as celebrações da Páscoa e hotéis frequentados por turistas. Os relatos divulgados nesta fase apontavam para pelo menos 250 ou pelo menos 253 mortos, além de mais de 500 feridos. O número exacto de mortos divulgado variava, embora todos os relatos descrevessem uma tragédia com numerosas vítimas.

As autoridades responsabilizaram o grupo extremista local National Thowheeth Jama'ath, cujo nome também surgiu com outras grafias em inglês. O Estado Islâmico reivindicou um papel nos atentados. Os investigadores suspeitavam que nove pessoas tinham levado a cabo os ataques.

Sirisena afirmou que o alegado cabecilha, Zahran Hashim, morreu no atentado ao hotel Shangri-La, em Colombo. As autoridades estavam a realizar testes de ADN para confirmar a sua identidade de forma conclusiva. A polícia também acreditava que a mulher e a criança resgatadas em Sainthamaruthu poderiam ser a mulher e a filha de Hashim, mas essa identificação continuava por confirmar.

Publicidade

Segundo relatos, dois alegados bombistas eram filhos do comerciante de especiarias Mohammad Yusuf Ibrahim, que foi detido e interrogado. Um dos filhos, identificado como Ilham Ibrahim, terá atacado o Shangri-La juntamente com Hashim. O outro terá tido como alvo o restaurante do hotel Cinnamon Grand.

Rohan Karr, gerente do Cinnamon Grand, descreveu como o alegado bombista se registou no hotel na noite anterior e entrou no restaurante na manhã seguinte com uma mochila às costas. Karr afirmou que o homem comeu e esperou que os clientes se juntassem perto do bufete antes de atacar.

Sentou-se, comeu e esperou que as pessoas se juntassem junto ao bufete. Quando viu uma multidão maior, decidiu que era o momento de causar o máximo de danos.

Medidas de emergência e uma semana de buscas intensificadas

Sirisena proibiu o National Thowheeth Jama'ath e outro grupo radical suspeito, identificado num dos relatos como Jamathei Millathu, ao abrigo das medidas de emergência. Foram mobilizadas tropas para apoiar as buscas da polícia. A proibição foi anunciada enquanto as autoridades procuravam tanto os alegados autores dos atentados como pessoas que se acreditava terem-nos apoiado.

A sequência dos acontecimentos mostra a rapidez com que a resposta passou da investigação dos atentados da Páscoa para o confronto com um grupo armado num imóvel residencial:

  • 21 de abril: Atentados coordenados atingiram igrejas e hotéis no Domingo de Páscoa.
  • 22 ou 23 de abril: Segundo relatos, os alegados ocupantes mudaram-se para a casa de Sainthamaruthu.
  • 23 de abril: Segundo um relato, Sirisena declarou um estado de emergência condicionado.
  • 26 de abril: As forças de segurança fizeram uma operação na casa, que deu origem a tiros e três explosões.
  • 27 de abril: As buscas documentaram as mortes, o Estado Islâmico reivindicou envolvimento no confronto e Sirisena anunciou a proibição de dois grupos.

Não foi indicada uma data concreta para a conclusão das buscas a nível nacional. Sirisena afirmou que os suspeitos seriam detidos nos dias seguintes, mas tratava-se de uma garantia, não de um calendário confirmado.

Moradores fogem e igrejas suspendem celebrações

A operação perturbou um bairro maioritariamente muçulmano, cujos moradores temiam novos episódios de violência. Cerca de 600 pessoas refugiaram-se numa escola e os vizinhos abandonaram a rua junto à casa danificada. A segurança foi reforçada nas mesquitas para as orações de sexta-feira, enquanto alguns muçulmanos se mantiveram afastados por recearem ataques de vingança.

A Igreja Católica suspendeu as missas públicas de domingo até nova indicação. O cardeal Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo, afirmou ter visto um documento confidencial sobre segurança, divulgado sem autorização, que alertava para novos ataques, e pediu aos fiéis que permanecessem em casa e rezassem.

Publicidade

Estava prevista a transmissão pela televisão nacional de uma pequena celebração na residência do cardeal. Foi também anunciada outra celebração numa tenda junto à igreja de São Sebastião, em Negombo, onde mais de 100 pessoas tinham morrido durante a missa da Páscoa. Estas iniciativas foram descritas separadamente da suspensão mais abrangente das celebrações nas igrejas.

As restrições significavam que os efeitos dos atentados se estendiam para além dos edifícios bombardeados. Os moradores muçulmanos deslocados, os católicos impedidos de participar nas celebrações habituais e as pessoas que evitavam as orações de sexta-feira enfrentavam mudanças imediatas no quotidiano devido à ameaça persistente.

Alertas ignorados pressionam os líderes

O Governo enfrentava uma crescente indignação por não ter agido perante um alerta dos serviços de informações estrangeiros de que o grupo extremista local planeava atentados suicidas contra igrejas. Foi noticiado que o chefe da polícia, Pujith Jayasundara, e o alto responsável do Ministério da Defesa Hemasiri Fernando se demitiram na sequência das falhas.

O cardeal Ranjith afirmou que os líderes da Igreja não tinham sido informados dos alertas. Descrevendo a sua reacção enquanto responsável pela comunidade católica de Colombo, disse:

Senti-me um pouco traído. Fiquei triste. Foi uma falha muito grave por parte dos serviços de segurança não nos terem informado.

Na sexta-feira, Wickremesinghe pediu desculpa em nome do Governo:

Assumimos colectivamente a responsabilidade e pedimos desculpa aos nossos concidadãos por não termos conseguido proteger as vítimas destes acontecimentos trágicos.

O primeiro-ministro afirmou também que os alertas não lhe tinham chegado e rejeitou a sugestão de que deveria demitir-se por não ter agido com base em informações que não recebeu. A falha de comunicação voltou a chamar a atenção para a relação tensa com Sirisena. O presidente tinha-o demitido em outubro de 2018, antes de decisões judiciais levarem à sua recondução em dezembro.

As questões imediatas ainda por esclarecer eram concretas: a identidade das pessoas mortas na operação, a confirmação da morte de Hashim através de testes de ADN, o número e as capacidades dos suspeitos ainda a monte e a responsabilidade pelos alertas ignorados. Não foram indicadas datas de audiências nem prazos para esclarecer estas questões.

Pontos-chave

  • Quinze pessoas, incluindo seis crianças, morreram durante a operação de 26 de abril em Sainthamaruthu.
  • A polícia descreveu um tiroteio e três explosões. Uma mulher e uma criança feridas sobreviveram.
  • O Estado Islâmico reivindicou envolvimento no confronto, mas não apresentou provas.
  • Os números divulgados de detenções variavam entre 70 inicialmente e mais de 100 posteriormente. Ter-se-á dito que cerca de 70 pessoas continuavam a monte.
  • Buscas nas proximidades permitiram encontrar explosivos, projécteis de aço, bandeiras do Estado Islâmico e outro equipamento.
  • Cerca de 600 moradores muçulmanos procuraram abrigo numa escola, enquanto as celebrações católicas públicas foram suspensas.
  • Alertas dos serviços de informações ignorados levaram a demissões e a um pedido de desculpa do Governo.
Partilhar este artigo

Também pode gostar