Buscas após descoberta de assinaturas de uma empresa chinesa
Os procuradores taiwaneses ordenaram buscas em 10 locais a 12 de outubro de 2026, no âmbito de uma investigação a software de gestão de activos de informação instalado em várias missões diplomáticas no estrangeiro. O caso diz respeito a contratos públicos no valor de mais de 20 milhões de dólares taiwaneses (NT$), adjudicados entre 2023 e 2025, e a suspeitas de que software com código-fonte chinês foi reempacotado em Taiwan antes de ser fornecido ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Índice
- Buscas após descoberta de assinaturas de uma empresa chinesa
- Como terão três empresas fornecido o software
- O que o ministério encontrou durante a inspecção
- Dos contratos às buscas de outubro
- O que a análise das ligações permite, e não permite, concluir
- Deputados pedem uma análise mais abrangente
- Uma fuga de documentos distinta aumenta a pressão
- O que falta apurar
- Pontos principais
Quatro pessoas foram chamadas para interrogatório na qualidade de suspeitos: o responsável da Anhe Technology, de apelido Lu; o responsável da Kunyou Technology, de apelido Chiang; um representante comercial da Kunyou, de apelido Chan; e o responsável da Yiwei Technology, de apelido Wu. Os investigadores convocaram também várias testemunhas. As buscas abrangeram escritórios das empresas e residências associadas aos suspeitos.
O relato do ministério identifica uma descoberta técnica concreta que esteve na origem da investigação. Durante uma inspecção de segurança realizada em dezembro de 2025, verificou-se que alguns ficheiros do software continham assinaturas da empresa chinesa Guangzhou Yixin Technology Co. Posteriormente, o ministério encaminhou o caso para investigação e forneceu os programas em causa para análise.
O ministério afirma que o software foi instalado em computadores com ligação à Internet nas missões no estrangeiro, para gestão de activos, e que não envolvia informação sensível. Afirma também que uma análise dos registos de ligação relativos ao ano anterior não encontrou actividade de ligação anómala no ministério nem nos seus serviços no estrangeiro.
Estas declarações distinguem as suspeitas de irregularidades na contratação de uma violação de segurança confirmada. Os investigadores estão a apurar como o software foi desenvolvido, apresentado e fornecido. Os relatos públicos não demonstram que este software tenha roubado informação diplomática, e a descoberta de assinaturas de uma empresa chinesa não prova, por si só, a existência de actividade maliciosa.
Como terão três empresas fornecido o software
A investigação centra-se no IP-guard, descrito como um sistema de segurança de terminais e encriptação de ficheiros. Um terminal é um computador ou outro dispositivo individual ligado à rede de uma organização. Software deste tipo pode ajudar a gerir a actividade informática e a proteger ficheiros, pelo que a sua origem e capacidades efectivas são relevantes para uma análise de segurança.
Os investigadores suspeitam que Lu, responsável da Anhe Technology, trabalhou anteriormente com a Guangzhou Yixin Technology no desenvolvimento do IP-guard e que o código-fonte teve origem na China. O código-fonte é o conjunto de instruções utilizado para criar um programa. A sua origem é uma questão distinta da localização da empresa que vende ou mantém o produto final.
A Anhe terá reempacotado o software em Taiwan, enquanto a Kunyou apresentou propostas em nome próprio e obteve os contratos do ministério para a gestão de activos de informação entre 2023 e 2025. A Yiwei terá ajudado a modificar a interface do utilizador e prestado serviços de manutenção. Estas são suspeitas sob investigação, não conclusões de culpabilidade.
A alegada divisão de tarefas coloca sob escrutínio três actividades distintas: a origem do software, a forma como foi apresentado num concurso público e as modificações e o apoio prestados após a contratação. Uma interface alterada afecta aquilo que os utilizadores vêem, mas não permite, por si só, determinar onde foi desenvolvido o programa subjacente.
A Anhe é descrita como prestadora de serviços de segurança de terminais e encriptação de documentos, com mais de 10 anos de experiência na implementação de projectos. Esta descrição ajuda a explicar o seu papel na cadeia de fornecimento, mas não demonstra se as aquisições do ministério cumpriram os requisitos da contratação pública.
O que o ministério encontrou durante a inspecção
O ministério afirma que a descoberta ocorreu quando uma equipa interministerial de inspecção de cibersegurança visitou missões no estrangeiro, em dezembro de 2025. Durante essa inspecção, o ministério identificou ficheiros invulgares no software de gestão de activos, e a análise encontrou assinaturas associadas à Guangzhou Yixin Technology.
Uma assinatura de software pode ajudar a identificar a empresa associada a um ficheiro. Não equivale a uma análise integral do código-fonte do programa nem de todas as funções que desempenha. Esta distinção é importante neste caso: os relatos sobre a investigação referem suspeitas de código-fonte chinês, ao passo que a descoberta comunicada pelo ministério é a presença de assinaturas de uma empresa chinesa em alguns ficheiros.
O ministério afirma que, após a descoberta, notificou as autoridades de tutela e as entidades responsáveis pela cibersegurança. Forneceu também os programas em causa ao Gabinete de Nova Taipé da Direcção de Investigação do Ministério da Justiça e a outros órgãos de investigação.
Segundo o ministério, a aquisição foi feita ao abrigo de um contrato público de fornecimento comum. Este tipo de acordo permite às entidades comprar através de um quadro de contratação já estabelecido. A sua utilização identifica o procedimento de aquisição, mas não determina se o fornecedor descreveu com exactidão o software fornecido.
Dos contratos às buscas de outubro
A sequência abrange vários anos, começando com os contratos e prosseguindo com a inspecção de segurança e a investigação criminal. A data da inspecção, em dezembro, refere-se a 2025, o ano anterior às buscas de outubro de 2026.
- 2023 a 2025: As empresas terão obtido contratos de software do ministério com um valor combinado superior a 20 milhões de dólares taiwaneses (NT$).
- Dezembro de 2025: Uma inspecção de segurança em missões no estrangeiro identificou ficheiros de software com assinaturas da Guangzhou Yixin Technology.
- Após a descoberta: O ministério notificou as autoridades competentes, analisou os registos de ligação e encaminhou os programas para investigação.
- 12 de outubro de 2026: Os procuradores ordenaram buscas em 10 locais e o interrogatório de quatro suspeitos; foram também convocadas várias testemunhas.
- Nessa noite: Os suspeitos estavam a ser conduzidos aos procuradores para novos interrogatórios.
A Procuradoria Distrital de Taipé dirige a investigação, cabendo ao Gabinete de Nova Taipé da Direcção de Investigação conduzir as diligências. O ministério comunicou inicialmente as irregularidades a esse gabinete, que pediu orientação aos procuradores.
As infracções suspeitas incluem violações da Lei da Contratação Pública, fraude e falsificação de documentos ao abrigo do Código Penal. Estes fundamentos da investigação vão além da questão técnica da origem do software. Dizem respeito a saber se o processo de concurso e contratação envolveu declarações ou documentos ilícitos.
O interrogatório comunicado não demonstra que alguém tenha sido acusado ou condenado. Os relatos das buscas não identificam qualquer decisão posterior dos procuradores, decisão sobre prisão preventiva ou conclusão de um tribunal. Também não indicam uma data para uma audiência ou para a divulgação de uma análise técnica concluída.
O que a análise das ligações permite, e não permite, concluir
A principal garantia dada publicamente pelo ministério é que analisou os registos de ligação de um ano e não encontrou comportamentos anómalos. Afirma também que o software de gestão de activos não envolvia informação sensível e foi instalado em computadores com acesso à Internet nas missões no estrangeiro.
Estas declarações delimitam a exposição comunicada, mas não respondem a todas as questões sobre o software. Uma análise dos registos de ligação incide sobre a actividade de rede registada. Não constitui necessariamente uma avaliação completa das permissões do programa, do acesso local a ficheiros, da configuração ou do seu comportamento durante todo o período contratual.
As datas também são relevantes. O período de contratação decorreu de 2023 a 2025, enquanto o ministério refere ter analisado registos de ligação relativos a cerca de um ano. O relato público não especifica as datas exactas abrangidas por essa análise nem demonstra que esta tenha incluído todas as instalações ao longo dos três anos.
Estes relatos não divulgam o número exacto de missões ou computadores afectados. Também não há qualquer conclusão declarada de que o software contivesse uma porta traseira, transmitisse informação para a China ou tivesse sido utilizado para obter segredos diplomáticos. Estas possibilidades não devem ser apresentadas como factos comprovados.
Deputados pedem uma análise mais abrangente
Huang Chien-pin, deputado do Kuomintang, pediu que fossem examinados os procedimentos de selecção de fornecedores do ministério e as inspecções internas de segurança. Questionou como é que software suspeito de conter código chinês pôde entrar nos sistemas do ministério e permanecer instalado durante o período dos contratos antes de o problema ser detectado.
Huang pediu que se apurasse se o software dispunha de funções de monitorização remota, acesso ou transmissão de dados, e se alguma informação sensível tinha sido roubada ou divulgada. Pediu também ao ministério que publicasse as conclusões, a dimensão de qualquer exposição e as medidas correctivas adoptadas.
Estes pedidos dizem respeito tanto às capacidades como ao comportamento observado. Um programa pode ter funções que não foram utilizadas, que estavam desactivadas ou que foram limitadas pela sua configuração. Determinar o que poderia fazer é uma tarefa distinta de apurar o que efectivamente fez nos computadores afectados.
Niu Hsu-ting, também deputado do Kuomintang, pediu igualmente responsabilização, indemnização nos termos da lei e alterações às futuras avaliações de propostas. Disse que o ministério gastou mais de 100 milhões de dólares taiwaneses (NT$) na criação de uma rede interna internacional para proteger documentos confidenciais importantes, mas continua a enfrentar polémicas relacionadas com a segurança.
Os dois montantes dizem respeito a finalidades diferentes. Os mais de 20 milhões de dólares taiwaneses (NT$) em causa nesta investigação correspondem a contratos de software de gestão de activos. O valor superior a 100 milhões referido por Niu diz respeito a uma rede interna mais abrangente. Não podem ser tratados como o orçamento de um único projecto nem usados para calcular a parcela dessa despesa que cabe ao software contestado.
Uma fuga de documentos distinta aumenta a pressão
A investigação ao software decorre em simultâneo com outra polémica, relativa a documentos diplomáticos colocados à venda na dark web. Um relatório de investigação do Yuan de Controlo é descrito como identificando 13 documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros que foram divulgados. Niu referiu esse incidente para defender que o ministério precisava de resolver problemas de segurança recorrentes.
A fuga de documentos e a investigação ao software devem ser tratadas como casos distintos. Os relatos deste caso não estabelecem qualquer ligação entre os 13 documentos divulgados e o IP-guard. A afirmação do ministério de que a instalação do software de gestão de activos não envolvia informação sensível também diz respeito a um tema diferente daquele que está em causa na fuga de documentos.
Em conjunto, estas polémicas ajudam a explicar a pressão para uma prestação de contas pública mais completa, mas não demonstram uma causa comum. Para determinar se algum dos incidentes resultou do comportamento do software, dos controlos de acesso, de decisões de contratação ou de outra falha, são necessárias provas específicas de cada caso.
O ministério afirma que cooperará com a investigação e responsabilizará os fornecedores ao abrigo dos contratos se for confirmada uma conduta ilícita. Essa posição condiciona medidas contratuais às conclusões da investigação, em vez de anunciar que já foi comprovada uma violação do contrato.
O que falta apurar
As principais questões por resolver são o que os fornecedores declararam durante o processo de contratação, que software foi efectivamente fornecido e se a sua origem ou as suas funções violaram os requisitos aplicáveis. Os relatos públicos identificam as infracções suspeitas, mas não reproduzem as condições do concurso, as declarações dos fornecedores nem os documentos concretos alegadamente falsos.
Os relatos apresentam também uma divergência na designação da empresa. As descrições da investigação identificam a empresa concorrente como Kunyou Technology, usando o nome chinês 坤侑科技, enquanto o relato do ministério sobre a contratação indica 坤佑科技. Ambas as formas surgem nas descrições do fornecedor, mas a diferença deve ser verificada à luz do contrato original, em vez de ser tratada como prova da existência de duas empresas distintas.
O valor combinado indicado para os contratos é superior a 20 milhões de dólares taiwaneses (NT$), não sendo publicado um total exacto. Os relatos não apresentam os montantes de cada adjudicação, as datas de instalação em cada missão nem a lista dos serviços no estrangeiro envolvidos. Também não especificam se o software foi entretanto removido, substituído ou sujeito a restrições.
As próximas conclusões decisivas serão a avaliação técnica dos programas e as decisões dos procuradores sobre as suspeitas de infracções na contratação pública. Não foi indicada qualquer data-limite para a publicação das conclusões nem uma data para a próxima audiência. Até que haja conclusões, o caso deve ser entendido como uma investigação criminal sobre contratação pública, desencadeada por uma preocupação confirmada quanto à origem do software, sem que tenha sido publicamente demonstrada uma violação de dados atribuível ao programa.
Pontos principais
- Os procuradores ordenaram buscas em 10 locais e o interrogatório de quatro suspeitos a 12 de outubro de 2026.
- A investigação diz respeito a contratos de software no valor de mais de 20 milhões de dólares taiwaneses (NT$), adjudicados entre 2023 e 2025.
- O ministério confirmou que alguns ficheiros do software continham assinaturas da Guangzhou Yixin Technology.
- Os investigadores suspeitam que código-fonte chinês foi reempacotado através de um acordo de fornecimento que envolveu três empresas taiwanesas.
- O ministério afirma que a análise dos registos de ligação de um ano não encontrou actividade anómala e que a instalação não envolvia informação sensível.
- Estão sob investigação infracções à contratação pública, fraude e falsificação de documentos; não foi comprovada culpabilidade nem uma violação de dados relacionada com o software.
- Uma conclusão distinta relativa a 13 documentos diplomáticos divulgados não foi associada a este caso de software.






