O mercado de escrita académica por encomenda em Taiwan expõe negócio de artigos, autoria e publicação

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Taiwan's Academic Ghostwriting Market Exposes a Trade in Papers, Authorship and Publication

Uma oferta de 470 000 NT$ por detrás da pressão para publicar

Uma professora reformada de uma universidade privada de Taiwan, identificada apenas como Professora A, contou ter-se deparado com uma fábrica internacional de artigos científicos que cobrava cerca de 470 000 NT$ e com esquemas em que editores de revistas alegadamente ajudavam a garantir a publicação. O seu relato, datado de 12 de outubro de 2026, descreveu também uma compra separada de escrita por encomenda, no valor de 30 000 NT$, que, segundo ela, acabou por conter texto gerado indiscriminadamente por inteligência artificial.

Índice
  1. Uma oferta de 470 000 NT$ por detrás da pressão para publicar
  2. Quando a edição se transforma em má conduta académica
  3. O que mostram realmente os registos de medidas disciplinares
  4. Um regulamento em evolução, com limites quanto ao que está confirmado
  5. Como os vendedores de escrita por encomenda fazem a má conduta parecer aceitável
  6. Três preços, três transações diferentes
  7. Quando os responsáveis pela publicação passam a fazer parte do esquema
  8. As retratações mostram os danos, não a dimensão total do mercado
  9. Os verificadores de IA não resolvem a questão da autoria
  10. Pontos-chave

Os dois preços ilustram diferentes segmentos de um mercado académico clandestino: escrita barata vendida na Internet e pacotes muito mais dispendiosos que recorrem aos mecanismos da publicação científica. São relatos individuais, não médias de mercado comprovadas. Não foram divulgadas as identidades dos vendedores, as revistas envolvidas nem eventuais investigações subsequentes.

A Professora A, que depois de se reformar passou a prestar informalmente aconselhamento académico na Internet, descreveu alguns clientes como professores desgastados pelas candidaturas a financiamento do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e pelas avaliações universitárias. No seu relato, as relações de poder desiguais e a insegurança profissional alimentavam a procura. Os compradores procuravam tranquilidade, além de textos ou gráficos de investigação.

As orientações oficiais de Taiwan em matéria de ética estabelecem uma distinção clara entre assistência e substituição. É legítimo pedir a um colega ou a um editor profissional que melhore um manuscrito. Não é legítimo pedir a alguém que não participou na investigação que escreva o artigo completo. A distinção é importante porque o comércio clandestino inclui várias transações diferentes, desde a escrita de teses à compra de autoria e à alegada interferência na revisão por pares das revistas.

O relato não permite determinar a dimensão destas práticas em Taiwan. Descreve, contudo, condutas que ligam as pressões académicas locais a um mercado internacional cujos produtos podem entrar no registo científico e concorrer ao financiamento público da investigação.

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Quando a edição se transforma em má conduta académica

A explicação sobre ética académica do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, numa página atualizada em 21 de julho de 2015, aborda explicitamente a fronteira entre a escrita por encomenda e a assistência editorial aceitável. Refere que é impróprio pedir a alguém de fora da investigação que escreva o trabalho completo, enquanto a revisão e o aperfeiçoamento por pares ou editores profissionais são práticas legítimas e comuns.

O documento reconhece também que os casos situados entre esses dois extremos podem ser difíceis de avaliar. O critério de avaliação indicado centra-se em saber se a conduta é enganadora e grave. O documento alerta para que um erro comum não seja tratado como uma violação ética capaz de destruir a reputação de um investigador.

Esta distinção é mais precisa do que perguntar simplesmente se houve pagamento. Pagar pela revisão linguística não constitui, por si só, prova de má conduta. Em contrapartida, um manuscrito pode ser problemático mesmo que passe num verificador de plágio, porque o autor identificado pode não ter realizado a investigação nem escrito o trabalho apresentado como seu.

As orientações abrangem as ideias de investigação, a sua execução e a apresentação dos resultados. Abordam a recolha de dados, a conservação dos registos de investigação, o reconhecimento das contribuições, a autoria, a confidencialidade na revisão por pares e a declaração de conflitos de interesses. Identificam também a fabricação, a falsificação, o plágio e as práticas de publicação impróprias como inaceitáveis.

Estas categorias ajudam a explicar por que razão uma transação com uma fábrica de artigos científicos pode envolver mais do que escrita por encomenda. Resultados inventados constituem fabricação; imagens ou dados alterados podem configurar falsificação; a compra de posições de autor põe em causa a atribuição verdadeira das contribuições. Um único artigo pode apresentar vários problemas éticos distintos.

O que mostram realmente os registos de medidas disciplinares

Os dados históricos do conselho registam 98 casos de ética académica recebidos entre 1999 e 2012. Sete envolviam fabricação. A maioria dos restantes casos dizia respeito a plágio ou citações inadequadas.

Sete em 98 correspondem a cerca de 7,1%. Esse cálculo descreve a composição dos casos recebidos durante esse período, não a prevalência da fabricação entre os investigadores de Taiwan. Os dados também não isolam a escrita por encomenda nem apresentam o número de transações com fábricas de artigos científicos.

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Segundo a mesma explicação oficial, as sanções iam de advertências escritas à suspensão da elegibilidade para financiamento por períodos de um a dez anos, tendo um caso resultado em suspensão vitalícia. São dados históricos sobre medidas disciplinares, não uma indicação de que todas as formas de escrita por encomenda sejam automaticamente punidas de determinada forma.

Um relato separado sobre alterações propostas durante o mandato do então ministro da Ciência e Tecnologia, Chen Liang-gee, descreveu planos para classificar expressamente a escrita por encomenda como má conduta científica. Chen afirmou que, se as regras propostas fossem aprovadas, os investigadores com artigos escritos por encomenda poderiam ter de devolver o financiamento público.

Esse relato referiu também que 11 investigadores foram punidos entre janeiro e junho: oito ficaram impedidos de se candidatar a financiamento durante um a cinco anos e três receberam advertências. Um investigador teve de devolver 600 000 NT$. O reembolso foi uma consequência adicional, não um décimo segundo caso. O ano desse período não é especificado, pelo que não é responsável apresentar estes dados como um total anual atual.

Um regulamento em evolução, com limites quanto ao que está confirmado

O portal de ética académica do conselho enumera orientações para investigadores, uma declaração de ética académica revista em 28 de julho de 2022 e orientações específicas para projetos de investigação que envolvam teses e dissertações de estudantes. Enumera também regras para o tratamento e a investigação de casos de má conduta, assinaladas como revistas em 6 de fevereiro de 2026.

Essa listagem comprova a existência dos documentos e as respetivas datas de revisão. Por si só, não permite confirmar a redação exata das regras de 2026, se todas as propostas anteriores foram adotadas ou que disposições seriam aplicáveis às alegações da Professora A.

O relato anterior sobre as alterações propostas referia que as investigações abrangiam, em geral, os dez anos anteriores, com exceções relativas a financiamento ainda em curso ou a ameaças ao interesse público ou à segurança. Descrevia ainda uma investigação institucional, seguida de uma análise ministerial por um grupo de trabalho com pelo menos três especialistas na área. Os casos graves seriam posteriormente examinados por uma comissão de ética. Estes pormenores devem ser entendidos no contexto histórico em que foram relatados, e não presumidos como reproduzindo as regras mais recentes.

A sequência documentada distingue os dados mais antigos sobre medidas disciplinares dos desenvolvimentos posteriores em matéria de políticas:

  • 1999 a 2012: O conselho recebeu 98 casos de ética académica, incluindo sete relacionados com fabricação.
  • 21 de julho de 2015: Foi atualizada a explicação oficial que distingue a escrita integral por encomenda da edição legítima.
  • 28 de julho de 2022: Foram revistos vários documentos de ética listados no portal do conselho.
  • 2 de janeiro de 2024: Foi publicado na Higher Education um estudo de 102 sites de escrita por encomenda.
  • 6 de fevereiro de 2026: O portal indica que as regras de tratamento de casos de má conduta foram revistas.
  • 12 de outubro de 2026: Foi datado o relato sobre as experiências da Professora A.
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Como os vendedores de escrita por encomenda fazem a má conduta parecer aceitável

Um estudo de Kenneth Han Chen e John Chung-En Liu, publicado na Higher Education em 2 de janeiro de 2024, analisou a linguagem promocional de 102 sites de escrita académica por encomenda em inglês e chinês. O estudo sobre a promoção da escrita por encomenda investigou a forma como estas empresas justificam serviços associados a um estigma ético.

Os autores identificaram cinco técnicas: negação da responsabilidade, negação do dano, negação da vítima, condenação dos que condenam e apelo a lealdades superiores. Em termos simples, são formas de transferir a culpa, apresentar a transação como inofensiva, contestar que alguém seja prejudicado, atacar os críticos ou alegar que outra obrigação justifica a conduta.

O estudo encontrou diferenças de ênfase entre os dois mercados linguísticos. Os sites em chinês realçavam a autoridade dos autores contratados, enquanto os sites em inglês davam maior importância à empatia com os utilizadores. A conclusão diz respeito a estratégias de promoção, não prova que todos os clientes de qualquer um dos mercados reajam da mesma forma.

Esta distinção ajuda a interpretar os relatos de Taiwan. O deputado Hung Tzu-yung descreveu anteriormente serviços de escrita de teses por encomenda que custavam cerca de 120 000 NT$ e afirmou que os estudantes podiam pedir que o autor fosse um professor ou uma pessoa com mestrado. Vender as credenciais do autor transforma o próprio estatuto académico numa parte do produto.

A descrição da Professora A sobre académicos ansiosos à procura de tranquilidade ajusta-se a outro aspeto do mercado: os serviços podem ser apresentados como uma forma de aliviar a pressão institucional. O relato dela e o estudo dos sites não demonstram que essa pressão cause todas as compras. Em conjunto, porém, mostram como os vendedores podem apelar tanto à confiança num suposto especialista como à vulnerabilidade sentida pelo cliente.

Três preços, três transações diferentes

Os relatos de Taiwan referem 30 000 NT$ por uma compra de escrita na Internet, cerca de 120 000 NT$ por escrita de teses por encomenda, num caso citado em debate parlamentar, e cerca de 470 000 NT$ pela oferta de uma fábrica internacional de artigos científicos com que a Professora A se deparou. O valor mais elevado é cerca de 15,7 vezes superior ao mais baixo, mas os serviços e os períodos a que os relatos dizem respeito são diferentes. Não é válido usar estes valores como medida da inflação dos preços.

Relatos internacionais referem serviços de autoria a preços entre cerca de 180 e 5 000 euros, com equivalentes indicados entre 197 e 5 472 dólares norte-americanos. Estes serviços podem colocar o nome do cliente num artigo sem que este tenha realizado a investigação. Algumas empresas vendem posições de autor antes da aceitação; outras anunciam-nas quando um artigo está pronto para publicação.

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A distinção entre comprar texto e comprar autoria é importante. Um autor de teses contratado pode produzir um trabalho entregue para obtenção de um grau académico. Uma fábrica de artigos científicos pode vender uma posição de autor num artigo de revista, juntamente com uma promessa de publicação. A segunda transação pode falsear tanto a contribuição do autor identificado como a fiabilidade do processo de publicação.

Estes preços não permitem calcular de forma fiável a dimensão do mercado em Taiwan. Não foi divulgado o número de clientes ou de transações, e os relatos não especificam o que estava incluído em cada pacote. Os valores ilustram uma variedade de esquemas comerciais relatados, não um serviço normalizado único.

Quando os responsáveis pela publicação passam a fazer parte do esquema

Relatos internacionais descrevem fábricas de artigos científicos que recorrem a textos copiados, dados falsos ou roubados, imagens manipuladas, reescrita por inteligência artificial e revisões por pares fabricadas. Algumas oferecem também publicação garantida. Uma promessa de aceitação antes de uma verdadeira avaliação editorial é um sinal de alerta, pois uma decisão legítima depende da análise do manuscrito, geralmente com a participação de revisores independentes.

A revisão por pares é o processo pelo qual especialistas avaliam os métodos, as provas e o raciocínio de um artigo antes da publicação. As revisões falsas imitam essa salvaguarda sem proporcionar uma análise independente. Quando um editor colabora com um vendedor, o problema deixa de se limitar ao manuscrito e passa a afetar o processo de decisão da revista.

Uma investigação divulgada em 2024 identificou mais de 30 editores de revistas envolvidos em atividades de fábricas de artigos científicos e descreveu ofertas a editores de até 20 000 dólares norte-americanos. Estes dados internacionais contextualizam a alegação da Professora A de que havia coordenação com editores de revistas. Não comprovam, de forma independente, o esquema específico que ela descreveu.

Outros sinais de alerta referidos incluem autores com especialidades sem relação entre si, revistas visadas que não são identificadas e clientes que desconhecem os seus supostos coautores. Uma colaboração invulgar, por si só, não prova fraude. A sua relevância depende de os autores indicados terem contribuído efetivamente e de os registos da investigação e da publicação sustentarem o trabalho alegado.

As retratações mostram os danos, não a dimensão total do mercado

Os dados divulgados sobre retratações associadas a fábricas de artigos científicos subiram de dez em 2019 para 2 099 em 2023, cerca de 210 vezes mais do que o valor inicial. A Hindawi e a Wiley terão retratado aproximadamente 1 200 artigos deste tipo em 2023. Esse número, relativo a uma editora, insere-se no problema mais amplo e não deve ser simplesmente somado ao total de 2 099.

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Em maio de 2024, a Retraction Watch tinha registado 7 275 retratações associadas a fábricas de artigos científicos, num total de aproximadamente 44 000 retratações na sua base de dados. Isso corresponde a cerca de 16,5% das retratações registadas, não a 16,5% de todos os artigos científicos. As estimativas de que até 400 000 artigos de fábricas deste tipo possam ter entrado na literatura científica ao longo de duas décadas são muito menos seguras do que os números documentados de artigos retirados.

Uma retratação significa que uma revista retirou um artigo do registo de publicações científicas fiáveis. O aumento do número de retratações pode refletir uma maior deteção e retiradas em massa, bem como a produção fraudulenta. Por si só, não permite concluir que a produção tenha aumentado ao mesmo ritmo.

As estimativas financeiras também exigem cautela. É atribuída ao Gabinete de Integridade da Investigação do Reino Unido uma estimativa de ganhos globais do setor na ordem dos 10 milhões de dólares norte-americanos. Um cálculo separado sugeriu que uma fábrica russa poderia ter arrecadado 6,5 milhões de dólares norte-americanos se tivesse vendido todas as posições de autor nos artigos que produziu entre 2019 e 2021. Este último valor é uma estimativa condicional, não receita confirmada, e os dois números não são diretamente comparáveis.

Os verificadores de IA não resolvem a questão da autoria

A compra relatada de 30 000 NT$, que afinal continha texto gerado indiscriminadamente por inteligência artificial, ilustra uma fragilidade prática da aquisição de trabalhos académicos: os clientes podem receber material que não sustenta as afirmações feitas em seu nome. O relato diz que o problema foi detetado após uma verificação de plágio, mas não identifica a ferramenta utilizada nem explica como foi determinada a utilização de IA.

Um verificador de plágio compara um texto com outros materiais para identificar semelhanças. Não comprova que uma experiência tenha sido realizada, que os dados sejam autênticos ou que um autor indicado tenha dado o contributo alegado. Um texto pode apresentar poucas semelhanças detetáveis e, ainda assim, ser fabricado ou ter sido inteiramente escrito por alguém de fora.

Por isso, as orientações do conselho sobre a conservação dos registos de investigação, o reconhecimento das contribuições e a manutenção de dados fiáveis abordam questões a que uma percentagem de semelhança textual não consegue responder. A questão central é saber se o trabalho e a respetiva autoria são apresentados com honestidade, não apenas se a redação parece original.

O relato da Professora A não identifica nenhuma instituição, revista ou vendedor pelo nome, nem revela a realização de uma audiência, um prazo para a investigação ou uma decisão formal. As provas justificam uma análise atenta das práticas relatadas, mas não permitem esclarecer a sua dimensão em Taiwan nem o desfecho das alegações específicas.

Pontos-chave

  • Uma professora reformada de Taiwan descreveu uma oferta de uma fábrica internacional de artigos científicos por 470 000 NT$ e alegou coordenação com editores de revistas.
  • Uma compra separada de escrita, por 30 000 NT$, terá incluído texto gerado indiscriminadamente por inteligência artificial.
  • As orientações oficiais de Taiwan distinguem a edição legítima de manuscritos da escrita integral por encomenda feita por alguém de fora da investigação.
  • O conselho recebeu 98 casos de ética entre 1999 e 2012; sete envolviam fabricação.
  • Um estudo de 102 sites concluiu que a promoção da escrita por encomenda em chinês realçava a autoridade do autor, enquanto a promoção em inglês enfatizava a empatia.
  • As retratações associadas a fábricas de artigos científicos passaram de dez em 2019 para 2 099 em 2023, mas o número de retiradas não mede a dimensão total do mercado.
  • O portal do conselho indica que as regras de tratamento de casos de má conduta foram revistas em fevereiro de 2026; não foi divulgado nenhum desfecho formal das alegações específicas.
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